Cientista em destaque: Edson Roberto Leite.


Prof Edson Roberto Leite
Prof Edson Roberto Leite

Lembranças muito agradáveis marcam a história de Edson Roberto Leite com a ciência: o livro sobre foguetes na infância no interior de São Paulo, a oportunidade de utilizar um microscópio excepcional durante o período sabático nos Estados Unidos, a descoberta de um mecanismo de crescimento de nanocristais no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron…

Também fazem parte dessas belas memórias, vários momentos que ele viveu junto a seu tutor e pai científico, o professor José Arana Varela, proeminente cientista brasileiro da área de materiais falecido em 2016. Arana Varela foi homenageado pela SBPMat com a criação, em 2019, de um prêmio que leva seu nome, e que distingue anualmente um pesquisador de destaque do Brasil, o qual profere uma palestra plenária no evento anual da Sociedade. Na sua primeira edição, a distinção foi concedida, justamente, a Edson Roberto Leite, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e diretor científico do Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano-CNPEM). Leite também é editor para América Latina do Journal of Nanoparticle Research (Springer).

Edson Roberto Leite formou-se em Engenharia de Materiais pela UFSCar em 1988. Na dúvida entre seguir uma carreira na indústria ou na academia, tentou, inicialmente, conciliar ambas.  Depois de formado, trabalhou na área de pesquisa e desenvolvimento da 3M, enquanto fazia o mestrado e iniciava o doutorado, ambos em Ciência e Engenharia de Materiais na UFSCar. Em 1992, saiu da empresa para poder se dedicar melhor ao doutorado, numa decisão que, segundo ele conta, não agradou o sogro, preocupado com o sustento da família que já contava com dois filhos. Entretanto, ao longo dos anos, os resultados dessa decisão foram muito positivos. Em 1994, pouco depois de defender o doutorado, Leite tornou-se professor do Departamento de Química da UFSCar e iniciou uma carreira de pesquisador em materiais que resultaria não apenas frutífera, como também prazerosa.

Coautor de mais de 400 artigos científicos publicados com mais de 19 mil citações, hoje Leite possui um índice h de 72 (Google Scholar). O cientista também é editor de três livros relacionados a materiais para energia e coautor de um livro sobre o processo de nucleação e crescimento em nanocristais. Leite recebeu vários prêmios, incluindo o Scopus Prize da Elsevier/ CAPES (2006), pela excelência do conjunto da sua produção científica, e a John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellowship (2009), outorgada a cientistas com excepcional capacidade em pesquisa. Em 2012, Edson Leite foi eleito membro da World Academy of Ceramics e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. Em 2014, foi um dos coordenadores do Spring Meeting da Materials Research Society, realizado em San Frascisco (EUA). Em 2019 foi eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Leia nossa entrevista e saiba mais sobre este cientista, suas principais contribuições e suas lembranças sobre o professor Arana Varela.

Boletim da SBPMat: Na escola, você tinha mais afinidade com disciplinas de ciências, certo? Você se lembra como nasceu esse gosto pela ciência? 

Edson Roberto Leite: A história de uma pessoa tem sempre a versão pessoal e a versão das pessoas que conviveram com ela. Vou passar a minha visão de como ocorreu.

Na escola sempre tive muita afinidade por Ciências e História. Algo marcante para mim foi quando estava no terceiro ano do ensino primário (atualmente ensino fundamental) e meu pai me levou na Biblioteca Municipal de Araras para tirar o cartão de associado e assim poder ter acessos aos livros. O primeiro livro que retirei foi sobre foguetes. Sempre adorei a conquista do espaço e a ciência por trás dos momentos históricos fundamentais. É importante salientar que o homem tinha chegado à lua apenas alguns anos antes, a energia nuclear era vista como a solução energética mundial e os semicondutores estavam apenas iniciando.

Além desta lembrança gostosa, tinha outros incentivos, inclusive um desenho animado muito legal que era Jonny Quest. Este desenho animado, além de aventuras, tinha muito de ficção científica, e o pai do Jonny (Dr. Benton Quest) era um cientista renomado e com um excelente laboratório de pesquisa na própria casa.

A minha infância então foi sempre marcada por uma forte influência das disciplinas de ciência. Acho que isso me levou facilmente me definir por Engenharia. No início minha idéia era de me tornar um engenheiro mecânico, porém durante meu cursinho preparatório para o vestibular conheci a Engenharia de Materiais, na UFSCar. Prestei no meio do ano de 1983 e passei. A partir daí já sabia o que eu queria e o que eu gostava.

Porém, uma dúvida ainda existia, ir para a área acadêmica ou ir para a indústria (meu pai era funcionário da Nestlé em Araras e o setor industrial sempre me chamou a atenção). Durante a graduação, fui morar na república do Celso V. Santilli (hoje um importante pesquisador na área de Materiais, Professor do IQ-UNESP-Araraquara) e ele me levou a fazer a iniciação científica com os professores Elson Longo e José Arana Varela. Foi aí que aprendi o que era ciência e meu gosto pela área acadêmica cresceu. Já em 1984 tive a primeira bolsa de IC da FAPESP com orientação do Prof. Varela (que era professor convidado do departamento de Engenharia de Materiais (DEMa) da UFSCar). Em 1988 me formei, entrei para o mestrado do DEMa-UFSCar e fui trabalhar como engenheiro de desenvolvimento na 3M do Brasil, em Sumaré, SP. Meu diretor na 3M era o engenheiro Aloysio Pizarro e ele me liberou para o mestrado (que defendi em 1990 com orientação do Prof. Elson) e para o doutorado (iniciado em 1990). No ano de 1992, vi que seria impossível conciliar a área de pesquisa e minhas atividades na 3M, então saí da 3M para me dedicar inteiramente a pesquisa acadêmica, voltando para São Carlos. Terminei o doutorado em 1993 com orientação do Prof. José A. Varela. Em janeiro de 1994, ingressei como professor adjunto no departamento de Química da UFSCar e ingressei ao LIEC (Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica), fundado pelo Elson, Varela e Bulhões (Prof. Luís Otávio S. Bulhões). Voltei para a casa que me introduziu para a ciência.

Essas foram as minhas influências…

Boletim da SBPMat: Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais? 

Edson Roberto Leite: Desde a IC venho trabalhando principalmente com materiais inorgânicos, mais especificamente materiais cerâmicos. Assim, vou relatar as contribuições que acho mais importantes, segundo meu ponto de vista (na verdade pode ser que sejam as contribuições que eu mais gostei de trabalhar).

Desde 1994 venho trabalhando basicamente com química e físico-química de materiais e atuei em várias áreas, entre elas: síntese química de óxidos cerâmicos, síntese de nanopartículas com tamanho e morfologia controlada, crescimento de nanocristais, propriedades elétricas de óxidos cerâmicos, materiais para aplicação em dispositivos de energia alternativa e microscopia eletrônica de transmissão (TEM). Durante esse período, sempre desenvolvendo os trabalhos em colaboração com os professores Elson Longo e José A. Varela, no LIEC do DQ-UFSCar. Dentre estas diferentes áreas vou destacar minhas contribuições em crescimento de nanocristais e os trabalhos em energia alternativa.

No ano de 1998, ou seja, 4 anos após minha contratação, fui fazer um período sabático nos EUA, no grupo do Prof. Martin P. Harmer, em Lehigh University (Betlehem, PA). Nesse meu sabático, trabalhei na conversão de cerâmicas policristalinas em cerâmicas monocristalinas, usando o crescimento controlado de grãos. Foi um ano maravilhoso e minhas recordações daquele período são vivas na minha memória. Ainda lembro do cheiro do laboratório e das amizades vivenciadas. Do ponto de vista profissional, o trabalho me chamou a atenção para o processo de crescimento de cristais orientados no estado sólido. Minha contribuição ao projeto foi caracterizar o processo de crescimento usando técnicas avançadas de microscopia eletrônica de transmissão.  Nessa época tive a oportunidade de operar o microscópio eletrônico de transmissão analítico VG-603. Foram produzidos poucos microscópios iguais a esse, e me lembro até hoje as palavras do coordenador do laboratório de microscopia de Lehigh, Dr. Dave Ackland dizendo que: “poucos pesquisadores no mundo tiveram a honra de operar este equipamento”. Voltando ao Brasil em 1999, me dediquei muito à microscopia e, com a ajuda do recém-criado Laboratório de Microscopia Eletrônica do LNLS (idealizado em 1997 pelo Dr. Daniel Ugarte), comecei a estudar o processo de crescimento de nanocristais em solução coloidal. Rapidamente identifiquei, para nanocristais de SnO2, um mecanismo de crescimento recém descrito na literatura, conhecido como “Oriented Attachment” (OA). O primeiro artigo que publicamos sobre esse mecanismo de crescimento de nanocristais foi em 2003. Nesse período consegui criar um grupo de estudantes de mestrado e doutorado de alto nível (hoje esses estudantes são pesquisadores e professores), o que possibilitou explorar muito esse mecanismo de crescimento. Na realidade, nós publicamos, quase que simultaneamente com grupos americanos, o primeiro modelo cinético para descrever esse processo de crescimento, e logo depois publicamos dois artigos importantes, sendo um relacionado com o crescimento de nanocristais anisotrópicos e outro correlacionando o processo OA com um processo de polimerização. Ambos artigos considerados pioneiros na área. O reconhecimento internacional na área veio com o convite para publicar dois artigos de revisão (um na Nanoscale e outro na CrysEngComm), sendo um deles inclusive em colaboração com os maiores especialistas internacionais na área de cinética de crescimento de nanocristais por OA.

Em energia alternativa, comecei a trabalhar já em 2004, quando ajudei a organizar um simpósio sobre o tema no MRS Spring Meeting de San Francisco. Após isso, investimos nessa área e, com um novo grupo de estudantes brilhantes, conseguimos resultados fantásticos, entre 2007 e 2016, relativos ao desenvolvimento de fotoanodos de hematita para promover a foto-eletrólise da água, visando a produção de hidrogênio. Desenvolvemos um processo de fabricação de eletrodos baseado na deposição coloidal de nanocristais. Isso possibilitou as publicações de mais alto impacto da minha carreira, em jornais como o JACS e Energy Environ. Sci. Nesse mesmo período desenvolvemos um método de síntese de MoS2 (material 2D), combinando método sol-gel não hidrolítico e reação em microondas. Isso resultou novamente em materiais excelentes para eletrocatálise e para supercapacitores. Essa pesquisa também possibilitou publicações em jornais de alto impacto, tais como Chem. Comm e Advanced Energy Materials. Sem dúvida, este time de alunos nos colocou no estado da arte de desenvolvimento de materiais para energia alternativa.

Gostaria de destacar somente mais uma contribuição importante, que foi no estudo do processo de combustão em fornos de fusão de vidro, realizado com financiamento da White Martins/Praxair. Neste trabalho, realizado com o Prof. Carlos Paskocimas (atualmente na UFRN) e os Prof. Elson e Varela, caracterizamos a taxa de corrosão dos fornos e propusemos soluções tecnológicas para inibir esta corrosão. Este trabalho foi um sucesso na época e fomos convidados a apresentar os resultados na Corning Glass e na Praxair nos Estados Unidos.

Boletim da SBPMat: Você foi distinguido na primeira edição do prêmio José Arana Varela da SBPMat, que homenageia esse proeminente cientista brasileiro (falecido em 2016), ex-presidente da SBPMat.  O professor Varela foi seu orientador de doutorado e seu coautor em muitos artigos publicados. Você poderia compartilhar conosco alguma lembrança sobre o professor Varela e comentar a parceria científica que se desenvolveu entre vocês ao longo do tempo?  Fique à vontade para deixar também algum comentário mais pessoal.

Edson Roberto Leite: Como comentei acima, fui apresentado aos professores Varela e Elson durante a minha graduação e o Prof. Varela foi meu orientador de IC e de doutorado. Na verdade, fui o primeiro aluno de doutorado formado pelo Varela, isso em 1993. Ser o primeiro a ganhar este prêmio é uma honra, que me deixou muito feliz. Além de ter sido meu orientador, Prof. Varela foi um tutor e quase um pai, me ensinando e me introduzindo na comunidade científica nacional e internacional. Foi com ele que fiz minha primeira viagem ao exterior, em 1993, onde ele me apresentou os grandes nomes da Cerâmica internacional no congresso americano da American Ceramic Society. Foi nesta oportunidade que conheci o Prof. Gary Messing e Prof. Harmer. Me lembro dele me apresentar o famoso Prof. W.D. Kingery, o pai da Cerâmica moderna. Foi o Varela que me incentivou a ser membro da World Academy of Ceramics. Foram várias viagens, abrindo novas frentes de trabalho e novas áreas de pesquisa. Como tutor e orientador ele sabia me chamar a atenção e indicar meus erros. Me lembro, já mais recentemente, em um MRS Fall meeting em Boston (USA), uma longa discussão que tivemos onde ele sem titubear me “puxou a orelha” e me orientou nos problemas futuros que teria como líder de grupo na área de Química de Materiais. Sei que fui um aluno rebelde na visão dele, mas tenho certeza que ele se orgulhou da formação que me deu. A morte prematura dele me pegou de surpresa e sinto muito sua falta. Sinto falta das nossas discussões, das nossas conversas e principalmente de seus conselhos e orientações.

Boletim da SBPMat: Por favor, deixe uma mensagem para nossos leitores mais jovens que estão iniciando uma carreira de cientistas ou estão avaliando essa possibilidade.

Edson Roberto Leite: Não sou bom com as palavras, meus alunos e ex-alunos sabem que sou muito direto. Nunca me preocupei em planejar minha carreira, tudo foi acontecendo seguindo meus instintos. O que sou hoje se deve muito a meus estudantes e ao apoio de dois pais científicos, os professores Elson e Varela. O meu trabalho não é um trabalho, é um hobby. Assim minha mensagem é: Para atingir o sucesso em uma carreira científica é preciso gostar muito do que você faz.  

Concurso para professor de Química Teórica Computacional na UFSCar.


Abertura de duas vagas para professor efetivo na área de Química Teórica Computacional no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (campus São Carlos).
As inscrições devem ser feitas exclusivamente pela internet (https://www.concursos.ufscar.br/) até o dia 20/12/2019.

Bolsas FAPESP para doutorado direto.


Unidade / Instituição: Grupo de Materiais Ferroicos (http://www.gmf.ufscar.br/) / Departamento de Física / Universidade Federal de São Carlos / SP-Brasil

O projeto, financiado pela FAPESP – MATERIAIS MULTIFERRÓICOS E FERROELÉTRICOS PARA CONVERSÃO DE ENERGIA: Síntese, Propriedades, Fenomenologia e Aplicações (Processo FAPESP: 2017 / 13769-1), tem bolsas de Doutorado Direto para investigação em:

1) Síntese e Caracterização de Cerâmicas Ferroicas (Ferroelétricas e Multiferroicas) Nanoestruturadas Sinterizadas Via “Spark Plasma Sintering – SPS.

2) Efeito de Diferentes Fases Magnéticas nas Propriedades de Acoplamento Magnetoelétrico em Nanoestruturas de (K0.5Na0.5)NbO3/(CoFe2O4, NiFe2o4 ou BaFe12O19) obtidas por Deposição Física.

Da Bolsa: http://www.fapesp.br/bolsas/dd

As bolsas de Doutorado Direto destinam-se a alunos regularmente matriculados em programas de pós-graduação stricto sensu de instituições públicas de ensino superior ou privadas do Estado de São Paulo, graduados ou inscritos em programa de Mestrado, para o desenvolvimento do projeto de pesquisa que resulte em tese.

A FAPESP, na análise das solicitações de bolsa de doutorado, prioriza candidatos que tenham recém-concluído a graduação ou, excepcionalmente, iniciando o mestrado, dentro do prazo normal de sua duração do curso, com excelente histórico escolar e, preferencialmente, com experiência comprovada de estágio de iniciação científica.

Data limite para inscrições: 22/02/2019

Aplicação:

O pedido deve ser encaminhado para o Grupo de Materiais Ferroicos / Departamento de Física / Universidade Federal de São Carlos / SP-Brasil, referência “Candidato a Bolsa de Pós-Doutorado – SPS Nano ou Heteroestruturas Magnetoelétricas”, para o seguinte endereço: gmf@ufscar.br.

Os candidatos interessados devem enviar os seguintes documentos (como um único arquivo PDF):

  1. a) Histórico Escolar completo de graduação (incluindo reprovações, quando for o caso);
    b) Currículo Vitae (com link para o Currículo Lattes do CNPq, atualizado);
    c) Nome e e-mail de 3 (três) docentes que possam fornecer referências sobre o(a) candidato(a).

Observações: 

1) A(o) candidata(o) deverá estar inscrito ou no processo seletivo do Programa de Pós-Graduação em Física do DF/UFSCar ou no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais do DEMa/UFSCar.
2) Para passar à condição de bolsista o(a) candidato(a) deverá ter sido aceito pelo Programa de Pós Graduação e sua indicação aceita pela FAPESP. O tempo necessário para a avaliação da proposta pela FAPESP é de cerca de 3 meses.

Artigo em destaque: Inteligência artificial para desenvolver novos vidros.


O artigo científico com participação de membros da comunidade brasileira de pesquisa em Materiais em destaque neste mês é: Predicting glass transition temperatures using neural networks. Daniel R.Cassar, André C.P.L.F. de Carvalho, Edgar D. Zanotto. Acta Materialia. Volume 159, 15 October 2018, Pages 249-256. https://doi.org/10.1016/j.actamat.2018.08.022

Inteligência artificial para desenvolver novos vidros

Os vidros, materiais que estão presentes em uma vasta diversidade de produtos, desde uma garrafa de vinho até um implante dentário, poderão fazer novas contribuições à qualidade de vida dos seres humanos e animais, e à preservação do planeta. De fato, até o momento, cerca de 400 mil (4 x 105) fórmulas de vidros foram produzidas e publicadas, enquanto 1052 novos vidros poderão ainda ser desenvolvidos utilizando combinações possíveis entre 80 elementos amigáveis da tabela periódica.

Para lidar com essa infinidade de possibilidades, é imprescindível contar com a ajuda de ferramentas computacionais sofisticadas que indiquem quais são as fórmulas químicas mais promissoras em função de suas propriedades físico-químicas. Ferramentas recentes utilizam inteligência artificial, principalmente algoritmos do chamado “aprendizado de máquina” (machine learning). Após um adequado treinamento com dados conhecidos, essas ferramentas podem realizar a triagem inicial que permite decidir em quais fórmulas vale a pena investir recursos (tempo, dinheiro, esforços) para desenvolvê-las no laboratório.

box vidrosEssa foi a direção escolhida por uma equipe brasileira que reuniu pesquisadores das áreas de Materiais e de Computação, e criou uma ferramenta computacional de aprendizado de máquina (uma rede neural artificial), que se mostrou capaz de predizer com eficácia a temperatura de transição vítrea (Tg), uma importante propriedade dos vidros que depende de sua composição [Veja box ao lado].

O trabalho foi reportado em artigo científico recentemente publicado no periódico Acta Materialia (fator de impacto 6,036, taxa de aceite de 22%).

“A principal contribuição do artigo foi demonstrar a possibilidade de prever uma propriedade importante de vidros óxidos (neste caso a Tg) usando uma rede neural artificial”, diz Edgar Dutra Zanotto, professor da UFSCar e um dos três autores do paper. “A única informação necessária para realizar tal previsão é a composição química do material”, completa.

Redes neurais artificiais são amplamente usadas, por exemplo, para reconhecer rostos em enormes bancos de imagens, mas a sua aplicação na pesquisa em Materiais ainda é escassa e incipiente. Na área de materiais vítreos, por exemplo, o artigo de Zanotto e seus coautores é o terceiro que reporta o uso dessa ferramenta computacional.

As redes neurais artificiais são sistemas computacionais distribuídos formados por unidades de processamento de dados simples (equivalentes a neurônios simplificados) interconectados por meio de conexões equivalentes a sinapses. Elas aprendem por meio de algoritmos de aprendizado. Trabalhando em conjunto, os “neurônios” conseguem processar grandes volumes de dados e fazer previsões, mas, para isso, a rede precisa ser treinada a partir de exemplos concretos.

A aproximação de Zanotto às redes neurais artificiais começou há cerca de dois anos, quando ele pensou em buscar ferramentas de inteligência artificial para facilitar a busca de novas fórmulas de vidros. A ideia despertou grande interesse de Daniel Roberto Cassar, bolsista de pós-doutorado do Laboratório de Materiais Vítreos (LaMaV) do Departamento de Engenharia de Materiais (DEMa) da UFSCar, coordenado por Zanotto. Cassar participou, então, de cursos e palestras sobre redes neurais e começou a incursionar no desenvolvimento de redes neurais aplicadas ao estudo de vidros.

Há cerca de um ano, a dupla de cientistas de materiais sentiu necessidade de contar com um especialista em inteligência artificial e iniciou uma colaboração com o professor André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP São Carlos. Dessa maneira, a pesquisa acabou envolvendo uma série de bolsistas de ambos os grupos, todos localizados na cidade de São Carlos.

Foto da esuqerda: Professor Edgar Zanotto e bolsista de pós-doutorado Daniel Cassar no LaMaV - DEMa – UFSCar. Foto da direita: O professor André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho (segundo a partir da esquerda) em laboratório do ICMC - USP São Carlos, rodeado por bolsistas que estão realizando pesquisas sobre ferramentas de inteligência artificial para prever propriedades de vidros. A partir da esquerda: Bruno de Almeida Pimentel (pós-doutorado), Edesio Alcobaça Neto (doutorado) e Saulo Martiello Mastelini (doutorado).
Foto da esquerda: Professor Edgar Zanotto e bolsista de pós-doutorado Daniel Cassar no LaMaV – DEMa – UFSCar. Foto da direita: O professor André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho (segundo a partir da esquerda) em laboratório do ICMC – USP São Carlos, rodeado por bolsistas que estão realizando pesquisas sobre ferramentas de inteligência artificial para prever propriedades de vidros. A partir da esquerda: Bruno de Almeida Pimentel (pós-doutorado), Edesio Alcobaça Neto (doutorado) e Saulo Martiello Mastelini (doutorado).

A equipe projetou e implementou uma rede neural artificial, que foi treinada para que conseguisse correlacionar Tg e composição química. O treinamento foi realizado com os dados da Tg e da composição de cerca de 45.000 vidros baseados na combinação de 45 elementos químicos. Cada uma das fórmulas usadas no treinamento continha, no mínimo, 3 elementos e, no máximo, 21. Todos os dados foram extraídos de um banco de materiais vítreos que reúne dados experimentais extraídos da literatura científica.

Temperatura de transição vítrea (Tg) predita pela rede neural versus o valor experimental reportado na literatura. Gráfico construído considerando 5.515 pontos experimentais que não foram utilizados para o treino da rede neural. A linha reta mostra a identidade onde a previsão da rede é igual ao valor reportado. A inserção mostra a distribuição do erro relativo da previsão (em porcentagem).
Temperatura de transição vítrea (Tg) predita pela rede neural versus o valor experimental reportado na literatura. Gráfico construído considerando 5.515 pontos experimentais que não foram utilizados para o treino da rede neural. A linha reta mostra a identidade onde a previsão da rede é igual ao valor reportado. A inserção mostra a distribuição do erro relativo da previsão (em porcentagem).

Depois de treinar a rede, os cientistas testaram a sua capacidade de prever a Tg. Para isso, informaram à rede a composição química de outros 5.515 vidros, também presentes no banco de dados, mas que não tinham sido usados no treinamento. Ao comparar os valores preditos pela rede neural com os valores obtidos por meio de métodos experimentais, presentes no banco de dados, o time científico se surpreendeu positivamente. A rede neural artificial teve um desempenho muito bom nas respostas, errando, no máximo, 6% para cima ou para baixo nos valores da temperatura em 90% dos testes – um nível de incerteza muito similar ao exibido pelos estudos experimentais. Além disso, o grau de precisão dos resultados demonstrou ser independente da quantidade de elementos químicos presentes na composição do vidro, o que é importante quando se pensa em sondar materiais com extensas fórmulas químicas.

A rede neural são-carlense está pronta para ajudar cientistas e engenheiros de materiais do mundo a estimarem rapidamente a Tg de vidros de qualquer composição, tornando o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de novos vidros muito mais rápido, fácil e econômico. Além disso, o estudo conduzido por Cassar, Carvalho e Zanotto mostra um caminho que pode ser seguido para desenvolver novas redes neurais aplicadas à Ciência e Engenharia de Materiais. “Este resultado abre uma larga avenida para estudos similares visando a previsão de quase todas as propriedades físico-químicas dos vidros com base na sua composição! ”, afirma Zanotto.

De fato, nos grupos dos professores Zanotto e Carvalho, pouco mais de um ano após o início da colaboração, uma série de trabalhos sobre o assunto está em curso. Essas pesquisas devem gerar novos algoritmos para aperfeiçoar ainda mais as redes neurais, novas redes treinadas para predizer outras propriedades (índice de refração, módulo de elasticidade, temperatura liquidus, etc.), mais conhecimento sobre o desempenho de algoritmos de aprendizado de máquina, novos artigos científicos e ferramentas de software para uso da comunidade.

O trabalho que originou o artigo publicado na Acta Materialia foi financiado pela FAPESP, por meio de dois Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão: o CERTEV (Center for Research, Technology and Education in Vitreous Materials) e o CeMEAI (Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria). A pesquisa também recebeu financiamento do programa Nippon Sheet Glass Overseas Grant(Japão).

Trabalhos de sócio da SBPMat premiados em congresso de refratários.


Prof. Victor Carlos Pandolfelli (UFSCar).
Prof. Victor Carlos Pandolfelli (UFSCar).

O professor Victor Carlos Pandolfelli (DEMa – UFSCar), sócio da SBPMat, é coautor de dois trabalhos premiados no quadragésimo primeiro congresso da Asociación Latinoamericana de Fabricantes de Refractarios (“41 Congreso ALAFAR 2018“), que foi realizado na cidade de Medellín (Colômbia), entre os dias 30 de setembro e 3 de outubro de 2018.

Esses trabalhos receberam o primeiro e o segundo prêmio aos melhores trabalhos do congresso. De acordo com o professor Pandolfelli, “abordam o assunto de conservação de energia em processos usando altas temperaturas, que é a forma mais direta e prática de ajudar o meio ambiente”.

Sócio fundador da SBPMat é escolhido “Cientista do Ano” pelo Instituto Nanocell.


Edgar Dutra Zanotto.
Edgar Dutra Zanotto.

O professor Edgar Dutra Zanotto (UFSCar), sócio da SBPMat e um de seus fundadores, foi eleito “Cientista do Ano” na área “Química Fina de Materiais: Rotas sustentáveis e novos (nano)materiais” no “II Prêmio Cientistas e Empreendedor do Ano Instituto Nanocell”. No total, oito professores, seis estudantes e uma empresa foram premiados nas diversas categorias. O prêmio foi entregue no dia 20 de outubro em cerimônia realizada no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).

Os vencedores foram escolhidos por meio de um processo que envolveu a indicação de candidatos por parte dos usuários do portal do Instituto Nanocell, a votação online dessa comunidade e a votação de uma banca composta por pesquisadores (membros de comitês de assessoramento, fundações, associações e sociedades científicas).
O “Prêmio Cientistas e Empreendedor do Ano” é promovido pelo Instituto Nanocell, organização não governamental cuja missão é “promover as ciências e a educação, desenvolvendo a tecnologia e a inovação para o bem estar social” e a Sociedade Brasileira de Sinalização Celular (SBSC). A premiação visa reconhecer e divulgar trabalhos inovadores nas áreas de ciências, educação e saúde pública.
Mais informações sobre o prêmio: http://www.institutonanocell.org.br/premio/

Bolsa de pós-doutorado CAPES no PPGCEM/UFSCar.


A Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (PPGCEM/UFSCar) torna pública a abertura de inscrições no Processo Seletivo de candidatos a (01) uma bolsa do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD-CAPES) para atuar junto a este Programa de Pós-Graduação.

Mais informações e integra do edital podem ser encontradas no site:

http://www.ppgcem.ufscar.br/processo-seletivo-1/pnpd-capes-2-2017/pnpd-capes-edital-10-2017

*** Inscrições até 14/06/17