Processo seletivo para mestrado e doutorado em Engenharia da Nanotecnologia na COPPE/UFRJ.


Estão abertas as inscrições para o Processo Seletivo 2020/1 ao Mestrado Acadêmico e ao Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Nanotecnologia – PENt da COPPE/UFRJ.

O PENt é um Programa pioneiro no Brasil na área de Engenharia da Nanotecnologia, que deu início às suas atividades no ano de 2014.

Nesta oportunidade estão sendo oferecidas 20 vagas para o Mestrado Acadêmico (para entrada no período 2020/1) e um total de 20 vagas para o Doutorado (para entradas nos períodos 2020/1, 2020/2 e 2020/3).

O período de inscrição para ingresso no Mestrado Acadêmico no período 2020/1 é de 23/09/2019 a 22/11/2019.
O período de inscrição para ingresso no Doutorado no período 2020/1 é de 23/09/2019 a 13/12/2019.

Mais informações e documentos estão disponíveis na página do PENt na internet: http://www.pent.coppe.ufrj.br/index.php/processoseletivo.html

Da ideia ao mercado: Nanotecnologia para o bem-estar.


Nanomed-_logo

Uma combinação de espírito empreendedor, nascido na infância, e formação científica, desenvolvida na etapa universitária, levou Amanda Luizetto dos Santos a criar a Nanomed dois anos depois de concluir seu doutorado. “A fundação da Nanomed foi algo natural, sempre quis empreender, apenas precisei de um tempo para amadurecer o conceito como imaginava”, comenta.

Quando era uma criança, Amanda costumava montar uma banca na rua para vender seus desenhos. “Desde pequena o empreendedorismo roubou meu coração”, diz ela. O tempo passou e as brincadeiras foram se tornando um objetivo de vida. No final da graduação em Farmácia, cursada na PUC-Campinas, ela participou de uma iniciativa do Sebrae para formar jovens empreendedores, na qual abriu, manteve e encerrou (com saldo positivo, esclarece) uma empresa de velas de decoração. “Essa experiência foi muito enriquecedora e, de fato, reavivou meu interesse pelo mundo do empreendedorismo”, relembra.

Da graduação, Amanda pulou direto para o doutorado em Química Analítica, realizado no Instituto de Química de São Carlos (USP), no qual lidou com pesquisa em óleos essenciais. O doutorado incluiu um estágio científico nos Estados Unidos, na Cleveland State University. Depois, trabalhando junto à indústria de cosméticos, Amanda notou a demanda desse mercado por inovação e conseguiu conceber uma primeira versão da empresa. “Encontrei o que buscava desde pequena”, ela diz.

Localizada em São Carlos (SP), a Nanomed se dedica a desenvolver e comercializar nanossistemas sempre inovadores, pensados para resolver desafios específicos de segmentos da indústria como o cosmético e o de saúde e bem-estar. Um exemplo de tecnologia da Nanomed é o das nanocápsulas que protegem substâncias de interesse (moléculas hidratantes para a pele, aromatizantes usados em remédios, repelentes de insetos), as transportam em doses mínimas e as entregam no local desejado. As nanocápsulas e demais nanopartículas da Nanomed, reforça Amanda, passam por avaliações científicas para conferir se apresentam toxicidade com relação a tecidos vivos e ao meio ambiente.

Além de desenvolver nanossistemas para outras empresas, a startup está construindo seu portfólio de produtos. Os primeiros produtos próprios, duas linhas de cosméticos baseados em nanotecnologia, entrarão no mercado (via e-commerce) em breve. E, entre final deste ano e início do próximo, será a vez do lançamento de produtos dos segmentos de alimentos e saneantes.

A Nanomed foi formalmente criada em 2012 após a aprovação de um projeto no programa PIPE da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O PIPE apoia a pesquisa científica e tecnológica em pequenas empresas do estado de São Paulo. Pouco depois da criação, a Nanomed incubou-se no Parque Tecnológico de São Carlos (ParqTec), onde permaneceu até sua graduação, em 2017.

Desde o início, a startup tem se dedicado à pesquisa e desenvolvimento (P&D) de suas tecnologias e produtos e, simultaneamente, tem aproveitado a sua capacidade de realizar análises e ensaios para prestar serviços, principalmente a empresas dos ramos cosmético e farmacêutico. Graças à prestação de serviços, a Nanomed hoje é autossustentável, conta Amanda, que atua como CEO da empresa. “Contudo, o lucro ainda vem sendo reinvestido”, diz ela.

Para suas atividades de P&D e prestação de serviços, a Nanomed conta com equipamentos na sede da empresa, alguns deles adquiridos em projetos apoiados pela Fapesp e pelas agências federais Finep e CNPq. Além disso, a startup contrata ensaios específicos em laboratórios de universidades e outros parceiros.

Atualmente, atuam na Nanomed quinze pessoas – sócios, colaboradores, bolsistas e consultores. A maior parte da equipe é composta por mestres e doutores, formados em Farmácia, Química, Engenharia e Física, que trabalham no desenvolvimento de produtos e na prestação de serviços. A startup também conta com profissionais que atuam nas áreas jurídica e administrativa.

Sócia fundadora da Nanomed: Amanda Luizetto dos Santos.
Sócia fundadora da Nanomed: Amanda Luizetto dos Santos.

Veja nossa entrevista com Amanda Luizetto dos Santos, sócia-fundadora e CEO da Nanomed.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os fatores mais importantes no sentido de viabilizar a criação e desenvolvimento da startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – Os fatores fundamentais para a viabilização da Nanomed foram o apoio da Fapesp e do ParqTec. A Fapesp desde o começo da Nanomed é um pilar fundamental nos desenvolvimentos de tecnologia e produtos, através do financiamento de projetos inovadores e de alto risco. O ParqTec, que é a incubadora mais antiga da América Latina e está situada em São Carlos (SP), foi muito importante pois possibilitou a imersão no ambiente do empreendedorismo inovador, além de dar suporte na construção do negócio.

Boletim da SBPMat: – Quais foram, para você, os momentos mais importantes na história da startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – O momento mais importante foi participar de uma reunião no parlatório da Anvisa para defender um produto cosmético grau 2 desenvolvido pela Nanomed e, que será lançado e comercializado ainda este ano.

[Nota da reportagem: produtos grau 2 são aqueles produtos de higiene pessoal ou cosmética cujas características exigem comprovação de segurança e/ou eficácia, bem como informações sobre modo e restrições de uso]

Boletim da SBPMat: – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até momento pela startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – A principal dificuldade, ainda encontrada, é a morosidade e a burocracia regulatória que está atrelada ao fato de trabalharmos na área de saúde.

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua visão, a principal contribuição da startup para a sociedade?

Amanda Luizetto dos Santos: – A principal contribuição é oferecer produtos seguros e inovadores para sociedade e contribuir para a qualidade de vida da população.

Boletim da SBPMat: – Qual é sua meta/ seu sonho para a startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – A meta da Nanomed é deixar as pessoas felizes e satisfeitas, oferecendo ao mercado nacional e internacional uma linha de produtos inovadores e de alta performance.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores do boletim e seguidores das redes sociais que avaliam a possibilidade de criar uma startup.

Amanda Luizetto dos Santos: – Acredito que precisamos ser realistas quando pensamos no futuro, em especial quando fala-se de abrir um negócio próprio. Aquela máxima de que empreender é não ter patrão não existe, na verdade, você tem milhares de patrões, como cliente, colaborador, governo, entre muitos outros. Então, empreender é sinônimo de trabalhar muito e, em todos setores do negócio (todos mesmo!). Criar uma startup e mantê-la viva exige muito trabalho (mas muito), dedicação, resiliência e cabeça fria.

O universo do empreendedorismo é uma adrenalina constante, particularmente acho viciante, ao mesmo tempo que traz satisfação imensa ao ver as coisas se concretizando, o frio na barriga é inevitável. Eu, ainda não sei se feliz ou infelizmente, não vivo sem.

Royal Society of Chemistry reúne artigos de autores do Brasil em coleção comemorativa do B-MRS Meeting.


RSC_collectionA Royal Society of Chemistry (RSC) preparou uma coleção online de artigos de autores brasileiros em comemoração ao XVIII B-MRS Meeting (Balneário Camboriú, 22 a 26 de setembro de 2019). A RSC é apoiadora desta edição do evento anual da SBPMat.

Intitulada Materials and Nano Research in Brazil, a coleção reúne 55 artigos publicados em periódicos da editora RSC entre 2017 e 2019. Todos os artigos selecionados podem ser acessados sem custo (open access) até 15 de outubro de 2019.

A coleção está disponível em www.rsc.li/brazil-mrs-2019

Da ideia à inovação: nanotecnologia para uma agricultura sustentável e produtiva.


krilltechUsar nanotecnologia para resolver problemas importantes da humanidade é, há muitos anos, uma meta pessoal de Marcelo Oliveira Rodrigues, professor da Universidade de Brasília (UnB) e sócio da Krilltech.

Um desses problemas é, sem dúvida, o da produção de alimentos. Dados da ONU e da FAO mostram que a demanda por alimentos crescerá mais de 50% até 2050, enquanto a expansão das áreas disponíveis para agricultura não acompanhará esse crescimento.

Lançada ao mercado neste ano como culminação de sete anos de pesquisa, desenvolvimento e testes, a Krilltech poderá fazer a sua contribuição, pela via da nanotecnologia, para uma agricultura mais produtiva e ecologicamente correta, que gere alimentos com melhor qualidade nutricional.  “Nossa tecnologia é uma revolução nos modos de produção e na forma como se faz agricultura sustentável”, diz Rodrigues.

Além de ter alguns projetos em desenvolvimento, a startup já conta com um portfólio de produtos, que inclui uma linha adaptável às necessidades do cliente. Os produtos podem ser aplicados no solo ou nas folhas das plantas, ou até mesmo na água, no caso de cultivos hidropônicos.

Os produtos da Krilltech aumentam as taxas de fotossíntese das plantas cultivadas, tornam mais eficiente seu consumo de água e aceleram seu metabolismo (bioestimulantes). Ao mesmo tempo, atuam como fertilizantes ao fornecer os micro e macro nutrientes necessários para o crescimento dos vegetais (nitrogênio, carbono, fósforo, potássio, entre outros). “Nossos nanoprodutos possuem multifunção”, diz Rodrigues. A startup também possui uma linha de produtos para incorporar sais minerais como zinco e ferro em grãos e vegetais. “Produzir batata, milho, lentilha e grão-de-bico enriquecidos com ferro e zinco irá contribuir para dirimir problemas de saúde pública associados à deficiência de sais minerais essenciais”, exemplifica o professor – pesquisador – empreendedor.

Por ser baseados em nanotecnologia, esses bioestimulantes – fertilizantes superam limitações das tecnologias convencionais e conseguem entregar muito mais nutrientes aos cultivos. “Estabilizar em meio aquosos todos os macro e micronutrientes em uma solução requer um material com elevada área superficial e extremamente hidrofílico. Sem recorrer à nanotecnologia é uma tarefa extremamente difícil”, explica Rodrigues.

De acordo com ele, os produtos da Krilltech não afetam a biota (conjunto de seres vivos) de solos e corpos de água, não se acumulam nos tecidos das plantas (são metabolizados), e não são tóxicos para fungos, bactérias e animais. Para garantir a não-toxicidade de seus produtos, a Krilltech conta com resultados de testes realizados com larvas, vermes, fungos, bactérias, peixes, diversas linhagens de células sadias e tumorais e cobaias.

Quanto aos processos produtivos da Krilltech, eles envolvem custos relativamente baixos, em parte devido ao sistema lean adotado pela startup, baseado na nivelação da produção de acordo com a demanda e no foco em aumentar a eficiência e evitar desperdício nos processos de produção. “Nós trabalhamos com produtos sofisticados, porém os processos de produção são eficientes e não necessitamos de equipamentos importados para produzir”, comenta Rodrigues. “Um investimento inicial de 70 mil reais é mais do que suficiente para produzirmos cerca de 150 kg/hora dos nossos produtos”, revela. Além disso, a Krilltech não utiliza reagentes tóxicos em seus processos e não gera resíduos, diz Rodrigues.

Com essas características da sua tecnologia, processos produtivos e produtos, a Krilltech quer conquistar um lugar no crescente mercado de bioestimulantes, atualmente dominado por empresas multinacionais sediadas principalmente na Europa, além da América do Norte e Índia. Segundo estimativas informadas pela Krilltech, a demanda por bioestimulantes aumentará principalmente na Ásia e América do Sul. Calcula-se que esse mercado movimentará cerca de US$ 3,5 bilhões em 2022.

Surgimento da startup: parceria UnB – Embrapa

Sócios da Krilltech. Acima: Ataílson Oliveira (diretor de tecnologia), Rogério Faria (diretor industrial) e Carime Vitória (diretora de P&D), todos doutorandos em Química na UnB. Em baixo: Marcelo Rodrigues e Marcelo Henrique (professores da UnB).
Sócios da Krilltech. Acima: Ataílson Oliveira (diretor de tecnologia), Rogério Faria (diretor industrial) e Carime Vitória (diretora de P&D), todos doutorandos em Química na UnB. Em baixo: Marcelo Rodrigues e Marcelo Henrique (professores da UnB).

“Transformar pesquisa científica em tecnologias absorvidas pelo mercado consumidor sempre foi um desejo pessoal”, diz o professor Rodrigues. Assim, em 2012, pouco depois de ingressar na UnB como professor adjunto, ele identificou projetos de seu grupo de pesquisa que tinham potencial de virar inovações. Em 2016, o grupo tinha desenvolvido uma nanoformulação à base de um fármaco de alto custo, usado no SUS (sistema único de saúde) para tratar infecções fúngicas. “Conseguimos reduzir a toxicidade e o custo do fármaco em cerca de 40 vezes, porém fomos frustrados com a falta de recurso para avançar nos estudos pré-clínicos de acordo com as normas Anvisa”, conta Rodrigues.

Ainda em 2016, o grupo começou a dialogar com uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa, a Embrapa Hortaliças, localizada em Brasília. Inicialmente, buscava-se o desenvolvimento de plásticos com propriedades ópticas especiais para uso em cultivo protegido (estufa e similares). “As conversas com o Dr. Juscimar Silva (Embrapa) evoluíram para o desenvolvimento dos nossos nanobioestimulantes”, diz Rodrigues.

O desenvolvimento laboratorial da tecnologia foi realizado na UnB, com participação de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, e suporte das agências governamentais FAP-DF, CNPq e Capes por meio de bolsas e recursos para material de consumo. “O financiamento público foi essencial para os primeiros estágios de desenvolvimento”, frisa Rodrigues.

Com apoio da Embrapa, a tecnologia foi testada na cultura de tomate, pimentão e alface. “Hoje estamos avaliando nossos produtos nas grandes monoculturas do país em parceria com empresas nacionais e multinacionais”, conta o sócio da Krilltech.

Em 2018, startup entrou no programa de pré-incubação do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da UnB, que visa auxiliar no desenvolvimento do modelo e plano de negócios e na formalização da futura empresa.

Atualmente, a Krilltech, junto à UnB e Embrapa, está em fase final de depósito da patente relativa à tecnologia usada nos produtos. “A Krilltech tem direito a exclusividade para explorar as tecnologias”, afirma Rodrigues.

Confiante na alta performance de seus produtos e na agilidade no desenvolvimento de inovações, a Krilltech já tem novos parceiros e novos projetos. A startup tem uma parceria para viabilizar a cultura de lúpulo na região Centro-Oeste e está testando sua tecnologia em condições de microgravidade visando contribuir a projetos de cultivo fora do planeta Terra (space farming). Além disso, adianta Rodrigues, em breve uma segunda startup será criada para explorar nanobiopesticidas de baixíssima toxicidade desenvolvidos no grupo.

Veja nossa breve entrevista com Rodrigues, que se formou em Química pela Universidade Federal de Sergipe na graduação e mestrado e obteve seu diploma de doutor em Química em 2010 pela Universidade Federal de Pernambuco.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os fatores mais importantes no sentido de viabilizar a criação e desenvolvimento da startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Sem dúvida, o suporte oferecido pela UnB, MCTI e pela EMBRAPA em termos das proteções das tecnologias, consultorias e treinamentos foram fundamentais para criação da Krilltech. Porém, gostaria de frisar que a crise induzida à qual a ciência brasileira vem sendo submetida e as dificuldades de se celebrar acordos de cooperação entre a Universidade e o setor privado foram dois fatores que contribuíram bastante para iniciarmos esse movimento de empreender.

Boletim da SBPMat: – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até momento pela startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Sair da zona de conforto implica em dificuldades que precisam ser superadas. Aprender a empreender requereu uma mudança cultural na forma como planejamos e desenvolvemos nossos projetos; creio que essa foi a grande dificuldade que superamos.

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua visão, a principal contribuição da startup para a sociedade?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Nossa tecnologia contribui para redução do impacto ambiental causado pela aplicação de fertilizantes convencionais. Por exemplo, quando fósforo e nitrogênio de fertilizantes são indevidamente lixiviados para rios, lagos e oceanos, eles podem induzir a formação de zonas mortas, já que o processo de eutrofização pode induzir o crescimento excessivo de algas que destroem o oxigênio da água.

Ao contrário dos nanomateriais convencionais (nanopartículas metálicas e de óxidos metálicos, micelas poliméricas etc), a nossa tecnologia viabiliza o emprego da nanotecnologia na agricultura. A Krilltech vem contribuir para uma reformulação da indústria de fertilizantes e fitoestimulantes, pois nossa tecnologia representa:

  • O desenvolvimento de uma agricultura sustentável baseada em agroquímicos ecológicos;
  • Contribuição para eliminar e reduzir o uso de insumos e práticas de agroquímicos perigosos (insumos químicos menos perigosos);
  • Mitigação dos riscos ambientais e de saúde humana devido à não- toxicidade dos nossos produtos (design de produtos químicos mais seguros);
  • Eliminação do impacto adverso da transferência trófica de nanopartículas convencionais na cadeia alimentar;
  • Um paradigma disruptivo necessário para a inovação na produção de alimentos com base em nanomateriais verdes.

Boletim da SBPMat: – Qual é sua meta/ seu sonho para a startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Teremos unidades da Krilltech espalhadas pelo mundo inteiro, veremos nossa tecnologia contribuir para o desenvolvimento sustentável e contribuiremos para reduzir o impacto da erosão nutricional e desnutrição.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores do boletim e seguidores das redes sociais que avaliam a possibilidade de criar uma startup.

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Dominar bem a tecnologia, conhecer o mercado e não desistir com as dificuldades. O ambiente de inovação no Brasil é insalubre e se sobressair nessas condições aumenta as chances de sucesso.

Cientista em destaque: entrevista com Daniel Mario Ugarte.


O prof. Daniel Ugarte em uma de suas duas atividades favoritas: a culinária. A outra é a pesquisa experimental.
O prof. Daniel Ugarte em uma de suas duas atividades favoritas: a culinária. A outra é a pesquisa experimental.

Daniel Mario Ugarte nasceu em 23 de março de 1963 em Cosquín, uma pequena cidade nas serras da província de Córdoba (Argentina). Cresceu num ambiente familiar de muito estímulo à curiosidade, o aprendizado e a experimentação. Depois de cursar o ensino fundamental e médio nessa cidade, fez a graduação em Física na capital da província, na Universidad Nacional de Córdoba, a mais antiga do país vizinho (fundada em 1613). Após a graduação, fez um estágio em microscopia eletrônica de transmissão na Université Paris-Sud, na França, onde acabou ficando para realizar o doutorado em temas de nanociência (embora, naquele momento, o prefixo “nano” ainda não fosse amplamente utilizado). Ugarte obteve o diploma de doutor em Física em 1990. Mudou-se, então, para a Suíça, onde realizou um estágio de pós-doutorado que durou cerca de três anos na École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL). Ali continuou fazendo nanociência e nanotecnologia e obteve resultados de grande impacto acadêmico, notoriamente as “nanocebolas de fulereno”, que lhe renderam, aos 29 anos de idade, seu primeiro artigo na revista Nature, assinado apenas por ele e destacado na capa da edição. Esse paper, que hoje conta com mais de 2.000 citações, seria o primeiro de seis artigos publicados por Ugarte nas duas principais revistas científicas do mundo (a Science e a Nature), entre dezenas de publicações em periódicos científicos especializados, também de altíssimo impacto, como Nature Nanotechnology, Nano Letters, Physical Review Letters, entre outros.

Em 1993, por motivos pessoais, Ugarte foi morar no Brasil, e começou a trabalhar com a equipe que estava iniciando a construção do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) no local atual, na cidade de Campinas (SP). Foi nesse contexto que ele pôde tornar realidade a sua ideia de construir um laboratório de microscopia eletrônica realmente aberto à toda a comunidade científica, sem esquecer os estudantes, que também cumprisse o papel de formar pesquisadores capazes de utilizar os equipamentos com habilidade. O Laboratório de Microscopia Eletrônica iniciou suas atividades em 1999, dirigido pelo cientista cordobés, e foi a semente do atual Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano). Entre 1994 e 1998, Ugarte atuou também como professor visitante na EPFL. Em 2004, o cientista deixou o LNLS para assumir o cargo de professor associado no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Desde 2007, ele é professor titular dessa instituição. Além disso, de 2004 a 2007, o professor Ugarte coordenou uma rede de pesquisa em nanomateriais, a NANOMAT, que incluía 23 instituições e 150 pesquisadores.

Ao longo de sua carreira científica, Daniel Ugarte proferiu mais de 100 palestras convidadas em eventos científicos internacionais e recebeu vários prêmios prestigiosos por suas contribuições acadêmicas excepcionais, como o prêmio universitário da Fondation Latsis Internationale (Suíça, 1994), o John Simon Guggenheim Fellowship (EUA, 2002), o Prêmio Scopus Brasil da Elsevier e a CAPES (Brasil, 2008) e o prêmio de Física de The World Academy of Sciences, TWAS (Itália, 2018). Em 2012, Ugarte foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Além disso, vários estudantes orientados por ele receberam prêmios por suas teses de doutorado, outorgados pela Presidência da República (Prêmio Marechal do ar Casimiro Montenegro Filho), pela CAPES, pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) e pelo IFGW – UNICAMP.

Daniel Ugarte é autor de mais de 100 artigos publicados em periódicos internacionais com revisão por pares. De acordo com o Google Scholar, sua produção acadêmica recebeu mais de 16.600 citações e seu índice h é de 43.

Veja a nossa entrevista com este sócio fundador da SBPMat e saiba mais sobre a sua história de vida, suas principais descobertas, suas críticas a algumas tendências no modo de se fazer ciência e sua mensagem aos pesquisadores mais jovens.

Boletim da SBPMat: – Gostaríamos de saber como/ por que você se tornou um cientista. Quando surgiu em você o desejo de ser cientista?

Daniel Ugarte: – Nasci na Argentina, com a informação genética típica daquele país: mãe de origem italiana, e pai de origem espanhola (basca, para ser preciso), mas tentando ser inglês (adoro rugby). Acho que o exemplo de curiosidade, trabalho e interesses variados de meus pais teve influência majoritária nas minhas escolhas. Nasci e cresci numa cidade no meio das montanhas/serras na Argentina (cidade de Cosquín, com aproximadamente 10.000 habitantes, na província de Córdoba). Minha mãe era professora do ensino fundamental e sempre tentava, com recursos financeiros muito escassos, obter livros para seguir estudando e melhorar suas aulas (naquela época não tinha internet); nós líamos em família esses novos textos de história, dinossauros etc. Meu pai, mesmo tendo frequentado a escola somente até os 12 anos, sempre foi muito curioso e ativo. Fazia de tudo como amador e autodidata; muito inquieto, era ator, pintor, músico, consertava de tudo, fazia chaves etc. A curiosidade e o espírito de criança ficaram sempre com ele: toda coisa nova, ele queria desmontar para ver como funcionava. Se tivesse que definir sua profissão, eu diria que ele fazia cartazes publicitários. Na oficina dele, todos os equipamentos foram construídos por ele mesmo. Naquela sala de bagunça constante, eu brincava furando ferros, soldando fios, cortando madeira, martelando coisas. Tínhamos poucos luxos, nenhum brinquedo caro, mas sempre havia livros, e eu fazia coisas muito incomuns (supervisionado por meus pais) aos olhos das outras crianças, tais como aeromodelos, rádios de galena, um telescópio etc. Com minha mãe, cozinhávamos sempre receitas novas (nhoques, bolos, alfajores, doces, etc.); aos 10 anos, todo domingo ao meio-dia, eu preparava o churrasco da família. Esses experimentos de química e calor foram muito instrutivos (e saborosos), sabores e aromas que tento ainda hoje reproduzir com precisão. Finalmente, para completar, tive a sorte de ter certa facilidade com Lógica e Matemática, a qual ficou em evidência quando fui para a escola. Tenho que agradecer muito aos professores de Ciência e Matemática que se esforçaram para manter minha motivação naquela cidadezinha e que eu pudesse crescer e fazer evoluir esse talento incipiente. Acho que com essa infância, o sonho de fazer ciência e trabalhar num laboratório (ou numa cozinha) fazendo descobertas e construir instrumentos maravilhosos é a consequência mais natural do mundo (devo esclarecer que fora do laboratório meu hobby principal é cozinhar).

Boletim da SBPMat: – Conte, brevemente, o que o levou a atuar no campo dos nanossistemas.

Daniel Ugarte: – Na verdade cheguei ao mundo “nano” pelas mãos da microscopia eletrônica. Na Universidad Nacional de Córdoba cursei Física, muito mais interessado no perfil experimental e no trabalho de laboratório utilizando as mãos. No curso, você deve fazer uma dissertação final para obter seu diploma. Entre as várias opções do Instituto de Física, preferi fazer um projeto associado à microscopia eletrônica de varredura e espectroscopia de raios X. Uma escolha pragmática visando ter mais opções de emprego após a minha graduação. Naquele momento, tive sorte, surgiu uma oportunidade de ir à França fazer um estágio em microscopia eletrônica de transmissão, e, após chegar lá (Laboratoire de Physique des Solides, Université Paris-Sud, Orsay), fui convidado a fazer uma tese de doutorado para estudar a excitação de plásmons de superfície em partículas pequenas (em inglês da época eram “small particles”, não “nanoparticles” como é hoje). O termo “nano” não existia ainda, e a “plasmônica” era somente uma curiosidade (hoje representa um dos temas de nanociência mais ativos). Uma vez concluída a minha tese, pude conseguir um pós-doutorado em Suíça, num dos primeiros institutos que concentrava suas pesquisas nas propriedades novas que surgiam ao diminuir o tamanho das partículas (Institut de Physique Experimentale, École Polytechnique Féderale de Lausanne). Resumindo, comecei nos embriões nano e sempre continuei estudando sistemas pequenos com técnicas de alta resolução espacial associadas à microscopia eletrônica de transmissão. A resolução atômica ou nanométrica desta técnica é imprescindível para a pesquisa básica ou tecnológica em nanossistemas, e os caros microscópios se tornaram símbolos para exibir a riqueza de cada programa “nano”.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições científicas/ tecnológicas à área de Materiais e por que as considera mais relevantes? 

Daniel Ugarte: – As nanoestruturas de carbono (fulerenos, nanotubos, grafeno) representam um exemplo típico de nanomateriais com propriedades novas. Considerando datas, os fulerenos foram descobertos em 1986, o sólido de fulerenos em 1990, os nanotubos em 1991. Trabalhando na Suíça em 1992, observei acidentalmente que, irradiando materiais de carbono com o feixe de elétrons de um microscópio eletrônico de transmissão, tudo se transformava em “cebolas de fulereno” (esferas concêntricas de grafite, como uma boneca russa). Este experimento gerou um novo membro para a recentemente descoberta família dos fulerenos, e o trabalho teve uma incrível repercussão a nível mundial. No entanto, o interessante foi que esse não era meu projeto de pós-doutorado, o qual era uma pesquisa mais focada no estudo da difração eletrônica de nanopartículas metálicas. Em Lausanne tínhamos um laboratório de microscopia completo e com todos os equipamentos de fronteira. E notei que ninguém os usava de noite; então, decidir ir lá brincar… fazer experimentos exploratórios, inocentes, alternativos e, sem querer, apareceram as cebolas…. Mas quando falei pela primeira vez dos resultados ninguém acreditou; um revisor da prestigiosa revista Physical Review Letters falou que meus dados eram tão ridículos como os da fusão fria (tema altamente controverso naquele momento); foi um insulto do pior nível. Mas eu continuei defendendo meu trabalho, eu obtinha os mesmos resultados uma e outra vez, e era a verdade. Eu continuei apresentando o resultado nos congressos; sobrevivi a muitos comentários violentos e humilhantes. Para fazer coisas um pouco fora do paradigma é preciso ter “couro duro”. Finalmente, com o apoio inesperado e espontâneo de Sir Harry Kroto (que recebeu o Prêmio Nobel de Química em 1996), que não me conhecia nem nunca tinha falado comigo, meu artigo foi publicado na revista Nature. Eu tinha menos de 30 anos, era muito inocente, e fiquei muito surpreso com o enorme interesse da mídia, pois dava reportagens para muitos países, entre eles Japão, Alemanha etc. Sentia como se o mundo estivesse caindo sobre a minha cabeça. Com experimentos “naifs” (despretensiosos) e fora de contexto, feitos à noite, com instrumentos avançados, eu tinha criado opções de trabalho que batiam na minha porta. Porém, nesse momento, para surpresa de meus colegas franceses e suíços, tomo um caminho alternativo, e em 1993 opto por vir viver no Brasil por razões pessoais e familiares.

Poucos anos depois, estávamos, numa tarde de sábado de 1995, no laboratório em Lausanne, fazendo propostas de ideias ousadas (“brain storming”) com meu amigo Walt de Heer (um cientista incrível considerando profundidade e criatividade). Decidimos testar uma que surgiu lá na hora: utilizar nanotubos de carbono (a ponta é bem fininha mesmo) para produzir uma fonte de elétrons. Juntamos uma prensa hidráulica, fita de teflon de tipo encanador, grades de microscopia, mica velha, umas coisas do laboratório (câmara de vácuo, osciloscópio etc.) e montamos uma coisa horrível, suja, grotesca, completamente improvisada e… funcionou!!!.  O resultado foi publicado na revista Science. Esse experimento criou uma nova área de pesquisa aplicada para os nanotubos de carbono que vários laboratórios industriais tentaram explorar; até hoje é uma área ativa de pesquisa. De novo, no meu caminho, outra proposta experimental inocente, mas criativa e descontraída (neste caso o resultado não foi acidental, mas planejado), que captou o interesse da comunidade tecnológica internacional.

No meu grupo no Brasil, decidi investir numa nova linha de pesquisa baseada num experimento irreverente proposto na Espanha por um pesquisador chamado Costa-Kramer (Nanowire formation in macroscopic metallic contacts: quantum mechanical conductance tapping a table top, Surf. Sci. 1995). Se juntarmos dois pedacinhos de ouro e depois os separarmos, no fim se forma um fio muito fino (como com chiclete) que pode até ter um átomo de diâmetro. Medindo a corrente elétrica que atravessa esse fio durante a elongação, podemos estudar efeitos quânticos na condução elétrica por nanoestruturas. Em Campinas, meu estudante Varlei Rodrigues (que depois recebera o Premio SBF de Melhor tese de Doutorado em Física em 2003) construiu um instrumento especificamente desenhado para realizar esse estudo com alta precisão em condições de ultra alto vácuo (UHV). Posteriormente pudemos fazer imagens de microscopia eletrônica do arranjo atômico dos fios gerados por elongação mecânica e também cálculos teóricos em colaboração com o grupo de Douglas Galvão. A partir dessas informações pudemos compreender em detalhe as nossas medidas experimentais; a partir desses resultados fui convidado a proferir quase uma centena de palestras em conferencias internacionais. Considero que esses resultados foram muito importantes do ponto de vista brasileiro, pois toda a pesquisa foi integralmente feita no país: as ideias, os experimentos avançados, a construção de instrumentação científica especifica, os cálculos teóricos e a compreensão. Além do impacto científico, a pesquisa sobre nanofios metálicos representa uma realização importante, pois nos permitiu mostrar, pelo exemplo, que estudos de nanociência experimental competitiva, podem, sim, ser feitos no país, combinando trabalho com originalidade e um certo grau de risco.

Falar de resultados alimenta nosso ego (o pequeno argentininho que todos levamos dentro…); outro aspecto de nossa contribuição para a sociedade vem quando nosso esforço é dedicado ao crescimento da comunidade, em particular para elevar o nível da ciência do país. Neste sentido, gostaria de lembrar um dos trabalhos mais reconfortantes de minha carreira: a idealização e criação de um laboratório multiusuário de microscopia eletrônica em Campinas. Esse projeto contou com o apoio constante e incondicional dos diretores do LNLS na época (Cylon da Silva, Aldo Craievich e Ricardo Rodrigues). Finalmente, os microscópios foram adquiridos com recursos (muitos recursos!!!) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Desde a ideia inicial, trabalhei para que o laboratório fosse aberto e disponível aos pesquisadores brasileiros (não nas intenções, mas na realidade) e que também tivesse formação de recursos humanos como um foco de suas atividades. Contrariando a opinião geral da comunidade, no laboratório de microscopia todas as observações eram realizadas pelos próprios alunos de graduação ou pós-graduação envolvidos nos projetos, após um processo de treinamento. Muitos estudantes aprenderam a trabalhar, e os instrumentos nem quebravam, mas tivemos que nos dar o tempo de ensinar os pesquisadores interessados. Este modo de operação tinha como alvo evitar o sistema feudal (“senhor dono” de instrumentos) ou aplicação de sicofantismo. Fiquei nesse laboratório até 2009. Esse laboratório cresceu e se transformou no que hoje é chamado Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano).

Boletim da SBPMat: –  Você possui uma quantidade fora do comum de artigos publicados em revistas de altíssimo impacto (Science, Nature, PRL …), principalmente no contexto de países em desenvolvimento. A quais fatores e competências você atribui esta característica da sua produção científica?

Daniel Ugarte: – Na pergunta anterior tentei dar vários exemplos de alguns momentos importantes de minha atividade científica. Tem contribuição do volume de trabalho, muito estudo, bem como a coragem de assumir riscos para fazer experimentos ousados e originais. Mas tem uma coisa que sempre tento ensinar aos meus estudantes: se nós fizermos um projeto, ele deve descascar um abacaxi e trazer uma contribuição relevante (se der certo…). Se alguma publicação for gerada, tem que contribuir com conhecimento novo, não de mentirinha, mas de verdade. Não vamos escolher somente temas de pesquisa que gerem resultado rápido; provavelmente o nosso estudo vai demorar, teremos que entender e aprofundar em muita coisa nova. Até podemos precisar desenvolver ferramentas/instrumentos/software para responder a pergunta científica. E eles perguntam: vai dar certo? Eu digo, não sei, se eu soubesse que vai dar certo não teria emoção, mas posso garantir que você vai crescer muito e obter uma sólida formação. Por exemplo, no tema de nanofios de ouro tivemos que responder comentários (de um competidor) sobre o que acontecia com a elongação mecânica a baixa temperatura. Para isso, precisávamos realizar um experimento extremamente desafiador e tentar observar a deformação mecânica de nanofio in situ dentro do microscópio a baixa temperatura com resolução atômica utilizando um porta-amostra em nitrogênio líquido. O estudante que topou o projeto (Maureen Lagos, que depois ganhou o prêmio CAPES de Tese em 2012) me perguntou: Vai ser difícil? O que você pensa? Minha resposta foi: Acho que não vai dar certo, mas para responder isso à comunidade devemos testar para confirmar se funciona ou não, e também até onde é possível observar; “bola pra frente”, vai, tenta fazer o melhor possível e boa sorte (vai precisar de muita…). Para minha surpresa, ele conseguiu as medidas, muito difíceis e demoradas; esses estudos feitos aqui no Brasil recebem até hoje (10 anos depois) muitos elogios e reconhecimento na comunidade científica.

Outro aspecto, fora o risco ou ousadia, é a qualidade; todo estudante ou colega que trabalhou comigo sabe que sempre fazemos o melhor possível, não tem “mais ou menos”. Só o melhor é aceito, ou, então, tem que fazer o experimento de novo até obter a mais alta qualidade. Alguns alunos me detestam, mas recentemente um antigo aluno da UNICAMP (hoje professor nos Estados Unidos) publicou um artigo na revista Nature, e me enviou uma mensagem agradecendo, pois hoje ele dá um enorme valor àquilo que aprendeu sobre puxar seus limites, nessa convivência comigo. Puxar a qualidade total do conteúdo do estudo, nos experimentos – que são a base em nosso grupo -, no estudo teórico, na interpretação, na modelagem etc. Como em todas as profissões, nós construímos nossa reputação ao longo dos anos, e ela pode ser prestigiosa ou não. Sempre foi um orgulho para meu grupo que nossos colegas e competidores recebem nossos trabalhos com atenção, acreditando que fizemos nosso melhor para cada resultado publicado (mas nem sempre concordam com nossas conclusões/interpretações… como todo mundo temos muitos artigos rejeitados).

Quando formei parte do comitê que analisa projetos no CNPq, fiquei surpreso pelo número de pesquisadores brasileiros que publicam mais de, digamos, 50 artigos por ano, mesmo alguns tendo altos cargos administrativos ou gestão em instituições de ensino ou pesquisa do Brasil (funções que requerem esforço concentrado as 24 horas do dia). Considerando minha capacidade de fazer pesquisa, acho totalmente impossível pensar em fazer quase uma publicação por semana!!! E isso se ficasse no laboratório o dia todo com os estudantes. Neste ponto gostaria de retornar ao conceito de qualidade, considerando o número e a contribuição científica de artigos gerados por um grupo ou pesquisador. Podemos assumir que segue uma distribuição estatística com forma de gaussiana descrita por dois parâmetros com uma média e uma largura (notas de 1 a 10). Conheço pesquisadores com produção um pouco incoerente, capazes de fazer o melhor (trabalho nota 10), e ao mesmo tempo, o pior (alguns trabalhos merecem nota muito baixa, digamos 1-2). Seja um grupo hipotético no qual a média de contribuição ao conhecimento por publicação é boa/muito boa (média 6 ou 7), e são geradas várias dezenas de publicações. Estatisticamente você deve publicar, entre essas dezenas, algum artigo com conteúdo de alta qualidade (lado superior da distribuição e longe da média) que obterá reconhecimento na comunidade (eventualmente, com sorte, publicado numa revista de alto impacto). Mas se você faz 100 publicações por ano e nenhuma atinge uma certa relevância na sua área de atuação, o nosso modelo estatístico simples indica que a contribuição média de seus trabalhos deve ser moderada. Além disso, também pode ser moderada a largura da distribuição; nesta situação, sua produção/trabalho é coerente, numa faixa estreita de nível de qualidade. As causas podem ser variadas; em alguns casos, a justificativa/explicação não precisa de longos discursos, é razoável associar contribuição moderada a, por exemplo, a juventude do pesquisador, infraestrutura deficiente ou financiamento limitado. O ponto crítico é quando o problema está na raiz, e as causas da qualidade moderada estão associadas à pesquisa dirigida para perguntas/alvos científicos/técnicos de menor importância e baixo risco. O que esperar de um ambiente, onde tanto as agências financiadoras como também os próprios pesquisadores (não é só culpa das agências) aceitam que essa séria deficiência pode ser compensada plenamente pelo número de publicações? O resultado será que os números crescerão, mas o impacto diminuirá.

Tira cômica do cartunista argentino Quino enviada pelo prof. Ugarte para ilustrar algumas de suas críticas a determinado modo de se fazer ciência.
Tira cômica do cartunista argentino Quino enviada pelo prof. Ugarte para ilustrar algumas de suas críticas a determinado modo de se fazer ciência.

Talvez eu seja irresponsável, teimoso (as raízes bascas ajudam), mas meu trabalho ao longo dos anos seguiu certos padrões. Prefiro fazer um prato de alta gastronomia (as vezes meio queimado), do que fazer centenas de pratos de arroz e feijão. Prefiro fazer menos coisas e não ter numerosas publicações irrelevantes envolvendo trabalho que não incluiu risco nenhum (também tenho desses trabalhos), e assim ter tempo de me atualizar, me desafiar, estudar e ver coisas fora de meu principal interesse. Assim tenho a oportunidade para novas ideias, inocentes, irresponsáveis, que com sorte vão dar certo. É importante, primeiro, ter claro que coisa nova/diferente vamos fazer em nossa pesquisa; se não tem nada novo/arriscado, como vai ser a contribuição à geração de conhecimento? Na realidade, essa linha de pensamento não é muito popular se olhamos em detalhe a maior parte dos projetos financiados na comunidade brasileira (no entanto, muitos discursos e planejamentos a definem como essencial). Ao contrario, a viabilidade é muitas vezes mais importante que a relevância e a originalidade. Nem falar de outros temas que dificultam o aumento da relevância da pesquisa em nanociência no Brasil, tais como física experimental, instrumentação científica, multidisciplinaridade, onde o contraste entre discurso e realidade dá enorme tristeza. Como na gastronomia, prefiro o “slow food”, um bom prato, bom vinho e tempo para desfrutar. Devemos nos rebelar contra a “fast science” (projetos short-term), pois isso está levando à uma ciência superficial (shallow-knowledge).

É triste ver a evolução do Brasil, os números crescem, o impacto diminui… Muitos podem ver positivamente a publicação em revistas de alto impacto, mas nem todos concordam. Vou dar um exemplo. Decidi estudar alguns temas novos onde considero que existem oportunidades de coisas muito originais e interessantes. Para fazer perguntas mais profundas, é preciso entender. Aprender toma tempo… Assim, meu relatório de atividades teve problemas para ser aprovado por baixa produtividade: não atingi a média.  Nunca tive muita diplomacia nem habilidades políticas, portanto, juntando toda minha revolta, e sendo argentino e basco ao mesmo tempo, pergunto-me: será que sou terrivelmente ineficiente e devo me aposentar, o que no mínimo me permite manter meu espírito, minha liberdade e forma de trabalho intacta? Existem muitos discursos sobre como estimular pesquisa de ponta e formar pesquisadores; acho que meu jeito de contribuir é trabalhar “a mi maneira” e transmitir um exemplo para quem o considere válido.

Não posso esquecer de agradecer o sistema de Edital Universal do CNPq, onde sei que sempre posso enviar ideias malucas, e o sistema de revisão respeita minha história e confia em minha “irresponsabilidade”. É pouco dinheiro (se for comparado com os padrões internacionais), mas ganho muita liberdade !!!, e isso é essencial para ser criativo!!!

Boletim da SBPMat: – Agora convidamos você a deixar uma mensagem para os leitores que estão iniciando suas carreiras científicas.

Daniel Ugarte: – O trabalho científico requer ser sonhador e ter muita paixão, enorme esforço no estudo e no trabalho. Temos que poder associar conhecimento, originalidade, infraestrutura, habilidade técnica etc. Acho muito importante demonstrar a jovens que é possível sonhar e fazer pesquisa de ponta no Brasil. O meio científico pode ser muito agressivo, mas devemos ter claro que o mérito é o parâmetro mais importante, e que, apesar de o ambiente de pesquisa ser extremamente competitivo, é essencial desenvolver nossas atividades mantendo as qualidades humanas, profissionalismo e ética.

Ao longo de uma carreira científica devemos enfrentar essas muitas situações diferentes. Minha vida acadêmica no Brasil teve muitas etapas, algumas foram resplandecentes, com trabalho, desafios, produtividade e com estudantes excelentes e motivados (o laboratório era o paraíso). Mas não posso deixar de pensar em outras etapas muito tristes, decepcionantes… associadas às mediocracias locais. No entanto, as pedras lançadas em nosso caminho foram completamente superadas por nosso trabalho, nossos resultados e nossa ética. Sempre, sempre, o mérito e a competência vão ganhar no jogo da ciência.

Inscrições para o mestrado e doutorado em Nanotecnologia da COPPE/UFRJ.


Estão abertas as inscrições para o Processo Seletivo 2019/1 ao Mestrado Acadêmico e ao Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Nanotecnologia – PENt da COPPE/UFRJ.

O PENt é um Programa pioneiro no Brasil na área de Engenharia da Nanotecnologia, que deu início às suas atividades no ano de 2014.

Nesta oportunidade estão sendo oferecidas 20 vagas para o Mestrado Acadêmico (para entrada no período 2019/1) e um total de 20 vagas para o Doutorado (para entradas nos períodos 2019/1, 2019/2 e 2019/3).

O período de inscrição para ingresso no Mestrado Acadêmico no período 2019/1 é de 08/10/2018 a 23/11/2018 07/12/2018 (NOVA DATA).
O período de inscrição para ingresso no Doutorado no período 2019/1 é de 08/10/2018 a 14/12/2018.

Mais informações e documentos estão disponíveis na página do PENt na internet: http://www.pent.coppe.ufrj.br/index.php/processoseletivo.html

Processo seletivo para mestrado e doutorado em Engenharia da Nanotecnologia da COPPE/UFRJ.


Estão abertas as inscrições para o processo seletivo 2018/1 ao mestrado acadêmico e ao doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Nanotecnologia – PENt da COPPE/UFRJ.

O PENt é um Programa pioneiro no Brasil na área de Engenharia da Nanotecnologia, que deu início às suas atividades no ano de 2014.

Nesta oportunidade estão sendo oferecidas 20 vagas para o mestrado acadêmico (para entrada no período 2018/1) e um total de 20 vagas para o doutorado (para entradas nos períodos 2018/1, 2018/2 e 2018/3).

O período de inscrição para ingresso no mestrado acadêmico no período 2018/1 é de 09/10/2017 a 24/11/2017.
O período de inscrição para ingresso no doutorado no período 2018/1 é de 09/10/2017 a 15/12/2017.

Editais e mais informações: http://www.pent.coppe.ufrj.br/index.php/processo-seletivo/ingresso-2018.html

 

Livro sobre materiais funcionais editado por pesquisadores do Brasil é lançado pela editora Springer.


ebookOs professores Elson Longo, diretor do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), e Felipe de Almeida La Porta, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), são os editores do livro “Recent Advances in Complex Functional Materials”, publicado pela editora Springer.

A obra reúne 17 capítulos de diversos autores, a maioria deles, de instituições brasileiras, sobre novas perspectivas para compreender e controlar as propriedades físicas e químicas de materiais funcionais complexos. Os textos abordam desde os métodos de fabricação até as propriedades e aplicações desses materiais. Além disso, discutem desafios e oportunidades do desenvolvimento de novos materiais funcionais capazes de resolver problemas associados a energias renováveis, saúde e meio ambiente, a partir do entendimento das propriedades físicas e químicas desses materiais.

Mais informações e venda do livro eletrônico (íntegra ou capítulos): http://www.springer.com/us/book/9783319538976#aboutBook

 

Participação da SBPMat na reunião anual da SBPC.


A partir da esquerda, Marcos Pimenta, Glaura Goulart Silva (diretora científica da SBPMat) e Aldo Zarbin em painel sobre nanoestruturas de carbono na 60ª Reunião Anual da SBPC.
A partir da esquerda, Marcos Pimenta, Glaura Goulart Silva (diretora científica da SBPMat) e Aldo Zarbin em painel sobre nanoestruturas de carbono na 60ª Reunião Anual da SBPC.

A SBPMat (B-MRS) esteve presente na 69ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), representada por um dos membros de sua diretoria, a professora Glaura Goulart Silva (UFMG). Evento gratuito e aberto à sociedade, a reunião anual da SBPC é realizada desde 1948 em universidades públicas de diferentes estados do Brasil. Neste ano, a reunião foi realizada na UFMG, em Belo Horizonte (MG), de 16 a 22 de julho, com o tema central “Inovação – Diversidade – Transformações”.

“A 69a Reunião Anual da SBPC constitui-se como um espaço de resistência ao desmonte da ciência e tecnologia no Brasil”, diz a diretora científica da SBPMat. “A comunidade brasileira atuante em ciência, em todas as suas idades, origens e funções, uniu-se numa mensagem clara: ciência e educação são investimentos, só nesta base temos como construir um futuro para nosso povo”, afirma.

Dentro da programação do evento, a professora Goulart Silva participou da mesa redonda “Nanoestruturas de carbono: a próxima revolução tecnológica? ”, que ocorreu no dia 17 de julho das 15:30 às 18:00 horas. Além da diretora científica da SBPMat, participaram da mesa o professor Aldo Zarbin (UFPR), presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), e o professor Marcos Pimenta (UFMG), coordenador do INCT de Nanomateriais de Carbono e do Centro de Tecnologia em Nanomateriais (CTNano), do qual a professora Goulart Silva é vice-coordenadora.

Na mesa redonda, que contou com grande audiência e muitas perguntas, foram apresentados os nanomateriais de carbono, sua estrutura, propriedades e aplicações com o foco em seu potencial para contribuir em diversas áreas tecnológicas. “Discutimos como a nanotecnologia pode ser impactante em uma nova era tecnológica que tenha a sustentabilidade como requisito fundamental”, relata a diretora científica da SBPMat. “Os membros da mesa e os participantes evoluíram para uma visão conjunta de que uma grande gama de nanomateriais vai ocupar espaços relevantes nas tecnologias futuras. Não só os nanomateriais de carbono, mas, sem dúvida, os nanotubos de carbono e o grafeno são sistemas muito importantes nesse conjunto”, reporta ela.

De acordo com Goulart Silva, todos participantes da sessão enfatizaram a necessidade de investimentos em ciência e tecnologia no Brasil, a fim de que os avanços feitos em áreas como a nanotecnologia tenham continuidade.

Dicas de leitura. Livro “Nanociência e Nanotecnologia: Princípios e Aplicações” (editora Elsevier).


“Nanociência e Nanotecnologia: Princípios e Aplicações” é uma obra distribuída em 3 volumes, com um total de 22 capítulos, redigidos por especialistas e cientistas renomados de diferentes regiões do país. O volume 1 apresenta tópicos de nanoestruturas; o volume 2, técnicas de nanocaracterização, e o volume 3, exemplos de aplicações.

Os organizadores do livro são os pesquisadores doutores Alessandra da Róz (IFSP), Fábio de Lima Leite (UFSCar/CCTS), Marystela Ferreira (UFSCar/CCTS) e Osvaldo Novais Oliveira Jr (USP/IFSC). “Observamos que em português eram poucos os livros destinados à Nanociência e Nanotecnologia e nos unimos para organizar a série”, diz Marystela Ferreira.

A obra foi lançada em 2015 pela editora Campus, da Elsevier. “O sucesso da série lançada em 2015 foi tão grande que a Elsevier nos convidou para editar essa série em língua inglesa”, conta Ferreira. O novo desafio foi aceito e vem sendo realizado pelos organizadores, com a ajuda dos autores e da editora. Os dois primeiros volumes em inglês foram lançados em 2016, e p lançamento do volume 3 está previsto para junho de 2017. Na edição em língua inglesa, novos capítulos foram adicionados no sentido de abranger o máximo possível de materiais e técnicas. “Destaca-se o acréscimo de estruturas de carbono no volume 1 e a apresentação da técnica de SPR (superfície de ressonância de plásmons), no volume 3”, comenta Ferreira.

De acordo com a pesquisadora, a obra aborda os conceitos básicos e os princípios fundamentais da Nanociência e da Nanotecnologia, além de temas como nanossensores, filmes nanoestruturados e técnicas de nanocaracterização (incluídas pensando nos estudantes de graduação e pós que realizam pesquisa experimental). A série também inclui tópicos de mecânica quântica e simulação computacional – temas que ainda não tinham sido abordados em livros nacionais de Nanociência – redigidos em linguagem fácil e objetiva, com aplicações e ilustrações, comenta Ferreira. Novas linhas de pesquisa, como Nanomedicina, Nanoeletrônica e Nanoneurobiofísica também foram abordadas na série. “Trata-se de uma obra que reúne tópicos em áreas como Biologia, Biotecnologia, Física Materiais, Medicina, Química e áreas afins”, diz Ferreira.

Os volumes estão disponíveis no Science Direct (site da Elsevier para busca de artigos e livros) e à venda na forma de e-book e livro impresso no site da Elsevier.

Links para a edição em inglês:

Volume 1.

Volume 2.

Volume 3.

applications techniques nanostructures