Processo seletivo para mestrado e doutorado em Engenharia da Nanotecnologia na COPPE/UFRJ.


Estão abertas as inscrições para o Processo Seletivo 2020/1 ao Mestrado Acadêmico e ao Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Nanotecnologia – PENt da COPPE/UFRJ.

O PENt é um Programa pioneiro no Brasil na área de Engenharia da Nanotecnologia, que deu início às suas atividades no ano de 2014.

Nesta oportunidade estão sendo oferecidas 20 vagas para o Mestrado Acadêmico (para entrada no período 2020/1) e um total de 20 vagas para o Doutorado (para entradas nos períodos 2020/1, 2020/2 e 2020/3).

O período de inscrição para ingresso no Mestrado Acadêmico no período 2020/1 é de 23/09/2019 a 22/11/2019.
O período de inscrição para ingresso no Doutorado no período 2020/1 é de 23/09/2019 a 13/12/2019.

Mais informações e documentos estão disponíveis na página do PENt na internet: http://www.pent.coppe.ufrj.br/index.php/processoseletivo.html

Da ideia ao mercado: Nanotecnologia para o bem-estar.


Nanomed-_logo

Uma combinação de espírito empreendedor, nascido na infância, e formação científica, desenvolvida na etapa universitária, levou Amanda Luizetto dos Santos a criar a Nanomed dois anos depois de concluir seu doutorado. “A fundação da Nanomed foi algo natural, sempre quis empreender, apenas precisei de um tempo para amadurecer o conceito como imaginava”, comenta.

Quando era uma criança, Amanda costumava montar uma banca na rua para vender seus desenhos. “Desde pequena o empreendedorismo roubou meu coração”, diz ela. O tempo passou e as brincadeiras foram se tornando um objetivo de vida. No final da graduação em Farmácia, cursada na PUC-Campinas, ela participou de uma iniciativa do Sebrae para formar jovens empreendedores, na qual abriu, manteve e encerrou (com saldo positivo, esclarece) uma empresa de velas de decoração. “Essa experiência foi muito enriquecedora e, de fato, reavivou meu interesse pelo mundo do empreendedorismo”, relembra.

Da graduação, Amanda pulou direto para o doutorado em Química Analítica, realizado no Instituto de Química de São Carlos (USP), no qual lidou com pesquisa em óleos essenciais. O doutorado incluiu um estágio científico nos Estados Unidos, na Cleveland State University. Depois, trabalhando junto à indústria de cosméticos, Amanda notou a demanda desse mercado por inovação e conseguiu conceber uma primeira versão da empresa. “Encontrei o que buscava desde pequena”, ela diz.

Localizada em São Carlos (SP), a Nanomed se dedica a desenvolver e comercializar nanossistemas sempre inovadores, pensados para resolver desafios específicos de segmentos da indústria como o cosmético e o de saúde e bem-estar. Um exemplo de tecnologia da Nanomed é o das nanocápsulas que protegem substâncias de interesse (moléculas hidratantes para a pele, aromatizantes usados em remédios, repelentes de insetos), as transportam em doses mínimas e as entregam no local desejado. As nanocápsulas e demais nanopartículas da Nanomed, reforça Amanda, passam por avaliações científicas para conferir se apresentam toxicidade com relação a tecidos vivos e ao meio ambiente.

Além de desenvolver nanossistemas para outras empresas, a startup está construindo seu portfólio de produtos. Os primeiros produtos próprios, duas linhas de cosméticos baseados em nanotecnologia, entrarão no mercado (via e-commerce) em breve. E, entre final deste ano e início do próximo, será a vez do lançamento de produtos dos segmentos de alimentos e saneantes.

A Nanomed foi formalmente criada em 2012 após a aprovação de um projeto no programa PIPE da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O PIPE apoia a pesquisa científica e tecnológica em pequenas empresas do estado de São Paulo. Pouco depois da criação, a Nanomed incubou-se no Parque Tecnológico de São Carlos (ParqTec), onde permaneceu até sua graduação, em 2017.

Desde o início, a startup tem se dedicado à pesquisa e desenvolvimento (P&D) de suas tecnologias e produtos e, simultaneamente, tem aproveitado a sua capacidade de realizar análises e ensaios para prestar serviços, principalmente a empresas dos ramos cosmético e farmacêutico. Graças à prestação de serviços, a Nanomed hoje é autossustentável, conta Amanda, que atua como CEO da empresa. “Contudo, o lucro ainda vem sendo reinvestido”, diz ela.

Para suas atividades de P&D e prestação de serviços, a Nanomed conta com equipamentos na sede da empresa, alguns deles adquiridos em projetos apoiados pela Fapesp e pelas agências federais Finep e CNPq. Além disso, a startup contrata ensaios específicos em laboratórios de universidades e outros parceiros.

Atualmente, atuam na Nanomed quinze pessoas – sócios, colaboradores, bolsistas e consultores. A maior parte da equipe é composta por mestres e doutores, formados em Farmácia, Química, Engenharia e Física, que trabalham no desenvolvimento de produtos e na prestação de serviços. A startup também conta com profissionais que atuam nas áreas jurídica e administrativa.

Sócia fundadora da Nanomed: Amanda Luizetto dos Santos.
Sócia fundadora da Nanomed: Amanda Luizetto dos Santos.

Veja nossa entrevista com Amanda Luizetto dos Santos, sócia-fundadora e CEO da Nanomed.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os fatores mais importantes no sentido de viabilizar a criação e desenvolvimento da startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – Os fatores fundamentais para a viabilização da Nanomed foram o apoio da Fapesp e do ParqTec. A Fapesp desde o começo da Nanomed é um pilar fundamental nos desenvolvimentos de tecnologia e produtos, através do financiamento de projetos inovadores e de alto risco. O ParqTec, que é a incubadora mais antiga da América Latina e está situada em São Carlos (SP), foi muito importante pois possibilitou a imersão no ambiente do empreendedorismo inovador, além de dar suporte na construção do negócio.

Boletim da SBPMat: – Quais foram, para você, os momentos mais importantes na história da startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – O momento mais importante foi participar de uma reunião no parlatório da Anvisa para defender um produto cosmético grau 2 desenvolvido pela Nanomed e, que será lançado e comercializado ainda este ano.

[Nota da reportagem: produtos grau 2 são aqueles produtos de higiene pessoal ou cosmética cujas características exigem comprovação de segurança e/ou eficácia, bem como informações sobre modo e restrições de uso]

Boletim da SBPMat: – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até momento pela startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – A principal dificuldade, ainda encontrada, é a morosidade e a burocracia regulatória que está atrelada ao fato de trabalharmos na área de saúde.

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua visão, a principal contribuição da startup para a sociedade?

Amanda Luizetto dos Santos: – A principal contribuição é oferecer produtos seguros e inovadores para sociedade e contribuir para a qualidade de vida da população.

Boletim da SBPMat: – Qual é sua meta/ seu sonho para a startup?

Amanda Luizetto dos Santos: – A meta da Nanomed é deixar as pessoas felizes e satisfeitas, oferecendo ao mercado nacional e internacional uma linha de produtos inovadores e de alta performance.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores do boletim e seguidores das redes sociais que avaliam a possibilidade de criar uma startup.

Amanda Luizetto dos Santos: – Acredito que precisamos ser realistas quando pensamos no futuro, em especial quando fala-se de abrir um negócio próprio. Aquela máxima de que empreender é não ter patrão não existe, na verdade, você tem milhares de patrões, como cliente, colaborador, governo, entre muitos outros. Então, empreender é sinônimo de trabalhar muito e, em todos setores do negócio (todos mesmo!). Criar uma startup e mantê-la viva exige muito trabalho (mas muito), dedicação, resiliência e cabeça fria.

O universo do empreendedorismo é uma adrenalina constante, particularmente acho viciante, ao mesmo tempo que traz satisfação imensa ao ver as coisas se concretizando, o frio na barriga é inevitável. Eu, ainda não sei se feliz ou infelizmente, não vivo sem.

Royal Society of Chemistry reúne artigos de autores do Brasil em coleção comemorativa do B-MRS Meeting.


RSC_collectionA Royal Society of Chemistry (RSC) preparou uma coleção online de artigos de autores brasileiros em comemoração ao XVIII B-MRS Meeting (Balneário Camboriú, 22 a 26 de setembro de 2019). A RSC é apoiadora desta edição do evento anual da SBPMat.

Intitulada Materials and Nano Research in Brazil, a coleção reúne 55 artigos publicados em periódicos da editora RSC entre 2017 e 2019. Todos os artigos selecionados podem ser acessados sem custo (open access) até 15 de outubro de 2019.

A coleção está disponível em www.rsc.li/brazil-mrs-2019

Da ideia à inovação: nanotecnologia para uma agricultura sustentável e produtiva.


krilltechUsar nanotecnologia para resolver problemas importantes da humanidade é, há muitos anos, uma meta pessoal de Marcelo Oliveira Rodrigues, professor da Universidade de Brasília (UnB) e sócio da Krilltech.

Um desses problemas é, sem dúvida, o da produção de alimentos. Dados da ONU e da FAO mostram que a demanda por alimentos crescerá mais de 50% até 2050, enquanto a expansão das áreas disponíveis para agricultura não acompanhará esse crescimento.

Lançada ao mercado neste ano como culminação de sete anos de pesquisa, desenvolvimento e testes, a Krilltech poderá fazer a sua contribuição, pela via da nanotecnologia, para uma agricultura mais produtiva e ecologicamente correta, que gere alimentos com melhor qualidade nutricional.  “Nossa tecnologia é uma revolução nos modos de produção e na forma como se faz agricultura sustentável”, diz Rodrigues.

Além de ter alguns projetos em desenvolvimento, a startup já conta com um portfólio de produtos, que inclui uma linha adaptável às necessidades do cliente. Os produtos podem ser aplicados no solo ou nas folhas das plantas, ou até mesmo na água, no caso de cultivos hidropônicos.

Os produtos da Krilltech aumentam as taxas de fotossíntese das plantas cultivadas, tornam mais eficiente seu consumo de água e aceleram seu metabolismo (bioestimulantes). Ao mesmo tempo, atuam como fertilizantes ao fornecer os micro e macro nutrientes necessários para o crescimento dos vegetais (nitrogênio, carbono, fósforo, potássio, entre outros). “Nossos nanoprodutos possuem multifunção”, diz Rodrigues. A startup também possui uma linha de produtos para incorporar sais minerais como zinco e ferro em grãos e vegetais. “Produzir batata, milho, lentilha e grão-de-bico enriquecidos com ferro e zinco irá contribuir para dirimir problemas de saúde pública associados à deficiência de sais minerais essenciais”, exemplifica o professor – pesquisador – empreendedor.

Por ser baseados em nanotecnologia, esses bioestimulantes – fertilizantes superam limitações das tecnologias convencionais e conseguem entregar muito mais nutrientes aos cultivos. “Estabilizar em meio aquosos todos os macro e micronutrientes em uma solução requer um material com elevada área superficial e extremamente hidrofílico. Sem recorrer à nanotecnologia é uma tarefa extremamente difícil”, explica Rodrigues.

De acordo com ele, os produtos da Krilltech não afetam a biota (conjunto de seres vivos) de solos e corpos de água, não se acumulam nos tecidos das plantas (são metabolizados), e não são tóxicos para fungos, bactérias e animais. Para garantir a não-toxicidade de seus produtos, a Krilltech conta com resultados de testes realizados com larvas, vermes, fungos, bactérias, peixes, diversas linhagens de células sadias e tumorais e cobaias.

Quanto aos processos produtivos da Krilltech, eles envolvem custos relativamente baixos, em parte devido ao sistema lean adotado pela startup, baseado na nivelação da produção de acordo com a demanda e no foco em aumentar a eficiência e evitar desperdício nos processos de produção. “Nós trabalhamos com produtos sofisticados, porém os processos de produção são eficientes e não necessitamos de equipamentos importados para produzir”, comenta Rodrigues. “Um investimento inicial de 70 mil reais é mais do que suficiente para produzirmos cerca de 150 kg/hora dos nossos produtos”, revela. Além disso, a Krilltech não utiliza reagentes tóxicos em seus processos e não gera resíduos, diz Rodrigues.

Com essas características da sua tecnologia, processos produtivos e produtos, a Krilltech quer conquistar um lugar no crescente mercado de bioestimulantes, atualmente dominado por empresas multinacionais sediadas principalmente na Europa, além da América do Norte e Índia. Segundo estimativas informadas pela Krilltech, a demanda por bioestimulantes aumentará principalmente na Ásia e América do Sul. Calcula-se que esse mercado movimentará cerca de US$ 3,5 bilhões em 2022.

Surgimento da startup: parceria UnB – Embrapa

Sócios da Krilltech. Acima: Ataílson Oliveira (diretor de tecnologia), Rogério Faria (diretor industrial) e Carime Vitória (diretora de P&D), todos doutorandos em Química na UnB. Em baixo: Marcelo Rodrigues e Marcelo Henrique (professores da UnB).
Sócios da Krilltech. Acima: Ataílson Oliveira (diretor de tecnologia), Rogério Faria (diretor industrial) e Carime Vitória (diretora de P&D), todos doutorandos em Química na UnB. Em baixo: Marcelo Rodrigues e Marcelo Henrique (professores da UnB).

“Transformar pesquisa científica em tecnologias absorvidas pelo mercado consumidor sempre foi um desejo pessoal”, diz o professor Rodrigues. Assim, em 2012, pouco depois de ingressar na UnB como professor adjunto, ele identificou projetos de seu grupo de pesquisa que tinham potencial de virar inovações. Em 2016, o grupo tinha desenvolvido uma nanoformulação à base de um fármaco de alto custo, usado no SUS (sistema único de saúde) para tratar infecções fúngicas. “Conseguimos reduzir a toxicidade e o custo do fármaco em cerca de 40 vezes, porém fomos frustrados com a falta de recurso para avançar nos estudos pré-clínicos de acordo com as normas Anvisa”, conta Rodrigues.

Ainda em 2016, o grupo começou a dialogar com uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa, a Embrapa Hortaliças, localizada em Brasília. Inicialmente, buscava-se o desenvolvimento de plásticos com propriedades ópticas especiais para uso em cultivo protegido (estufa e similares). “As conversas com o Dr. Juscimar Silva (Embrapa) evoluíram para o desenvolvimento dos nossos nanobioestimulantes”, diz Rodrigues.

O desenvolvimento laboratorial da tecnologia foi realizado na UnB, com participação de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, e suporte das agências governamentais FAP-DF, CNPq e Capes por meio de bolsas e recursos para material de consumo. “O financiamento público foi essencial para os primeiros estágios de desenvolvimento”, frisa Rodrigues.

Com apoio da Embrapa, a tecnologia foi testada na cultura de tomate, pimentão e alface. “Hoje estamos avaliando nossos produtos nas grandes monoculturas do país em parceria com empresas nacionais e multinacionais”, conta o sócio da Krilltech.

Em 2018, startup entrou no programa de pré-incubação do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da UnB, que visa auxiliar no desenvolvimento do modelo e plano de negócios e na formalização da futura empresa.

Atualmente, a Krilltech, junto à UnB e Embrapa, está em fase final de depósito da patente relativa à tecnologia usada nos produtos. “A Krilltech tem direito a exclusividade para explorar as tecnologias”, afirma Rodrigues.

Confiante na alta performance de seus produtos e na agilidade no desenvolvimento de inovações, a Krilltech já tem novos parceiros e novos projetos. A startup tem uma parceria para viabilizar a cultura de lúpulo na região Centro-Oeste e está testando sua tecnologia em condições de microgravidade visando contribuir a projetos de cultivo fora do planeta Terra (space farming). Além disso, adianta Rodrigues, em breve uma segunda startup será criada para explorar nanobiopesticidas de baixíssima toxicidade desenvolvidos no grupo.

Veja nossa breve entrevista com Rodrigues, que se formou em Química pela Universidade Federal de Sergipe na graduação e mestrado e obteve seu diploma de doutor em Química em 2010 pela Universidade Federal de Pernambuco.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os fatores mais importantes no sentido de viabilizar a criação e desenvolvimento da startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Sem dúvida, o suporte oferecido pela UnB, MCTI e pela EMBRAPA em termos das proteções das tecnologias, consultorias e treinamentos foram fundamentais para criação da Krilltech. Porém, gostaria de frisar que a crise induzida à qual a ciência brasileira vem sendo submetida e as dificuldades de se celebrar acordos de cooperação entre a Universidade e o setor privado foram dois fatores que contribuíram bastante para iniciarmos esse movimento de empreender.

Boletim da SBPMat: – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até momento pela startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Sair da zona de conforto implica em dificuldades que precisam ser superadas. Aprender a empreender requereu uma mudança cultural na forma como planejamos e desenvolvemos nossos projetos; creio que essa foi a grande dificuldade que superamos.

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua visão, a principal contribuição da startup para a sociedade?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Nossa tecnologia contribui para redução do impacto ambiental causado pela aplicação de fertilizantes convencionais. Por exemplo, quando fósforo e nitrogênio de fertilizantes são indevidamente lixiviados para rios, lagos e oceanos, eles podem induzir a formação de zonas mortas, já que o processo de eutrofização pode induzir o crescimento excessivo de algas que destroem o oxigênio da água.

Ao contrário dos nanomateriais convencionais (nanopartículas metálicas e de óxidos metálicos, micelas poliméricas etc), a nossa tecnologia viabiliza o emprego da nanotecnologia na agricultura. A Krilltech vem contribuir para uma reformulação da indústria de fertilizantes e fitoestimulantes, pois nossa tecnologia representa:

  • O desenvolvimento de uma agricultura sustentável baseada em agroquímicos ecológicos;
  • Contribuição para eliminar e reduzir o uso de insumos e práticas de agroquímicos perigosos (insumos químicos menos perigosos);
  • Mitigação dos riscos ambientais e de saúde humana devido à não- toxicidade dos nossos produtos (design de produtos químicos mais seguros);
  • Eliminação do impacto adverso da transferência trófica de nanopartículas convencionais na cadeia alimentar;
  • Um paradigma disruptivo necessário para a inovação na produção de alimentos com base em nanomateriais verdes.

Boletim da SBPMat: – Qual é sua meta/ seu sonho para a startup?

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Teremos unidades da Krilltech espalhadas pelo mundo inteiro, veremos nossa tecnologia contribuir para o desenvolvimento sustentável e contribuiremos para reduzir o impacto da erosão nutricional e desnutrição.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores do boletim e seguidores das redes sociais que avaliam a possibilidade de criar uma startup.

Marcelo Oliveira Rodrigues: – Dominar bem a tecnologia, conhecer o mercado e não desistir com as dificuldades. O ambiente de inovação no Brasil é insalubre e se sobressair nessas condições aumenta as chances de sucesso.

Cientista em destaque: entrevista com Daniel Mario Ugarte.


O prof. Daniel Ugarte em uma de suas duas atividades favoritas: a culinária. A outra é a pesquisa experimental.
O prof. Daniel Ugarte em uma de suas duas atividades favoritas: a culinária. A outra é a pesquisa experimental.

Daniel Mario Ugarte nasceu em 23 de março de 1963 em Cosquín, uma pequena cidade nas serras da província de Córdoba (Argentina). Cresceu num ambiente familiar de muito estímulo à curiosidade, o aprendizado e a experimentação. Depois de cursar o ensino fundamental e médio nessa cidade, fez a graduação em Física na capital da província, na Universidad Nacional de Córdoba, a mais antiga do país vizinho (fundada em 1613). Após a graduação, fez um estágio em microscopia eletrônica de transmissão na Université Paris-Sud, na França, onde acabou ficando para realizar o doutorado em temas de nanociência (embora, naquele momento, o prefixo “nano” ainda não fosse amplamente utilizado). Ugarte obteve o diploma de doutor em Física em 1990. Mudou-se, então, para a Suíça, onde realizou um estágio de pós-doutorado que durou cerca de três anos na École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL). Ali continuou fazendo nanociência e nanotecnologia e obteve resultados de grande impacto acadêmico, notoriamente as “nanocebolas de fulereno”, que lhe renderam, aos 29 anos de idade, seu primeiro artigo na revista Nature, assinado apenas por ele e destacado na capa da edição. Esse paper, que hoje conta com mais de 2.000 citações, seria o primeiro de seis artigos publicados por Ugarte nas duas principais revistas científicas do mundo (a Science e a Nature), entre dezenas de publicações em periódicos científicos especializados, também de altíssimo impacto, como Nature Nanotechnology, Nano Letters, Physical Review Letters, entre outros.

Em 1993, por motivos pessoais, Ugarte foi morar no Brasil, e começou a trabalhar com a equipe que estava iniciando a construção do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) no local atual, na cidade de Campinas (SP). Foi nesse contexto que ele pôde tornar realidade a sua ideia de construir um laboratório de microscopia eletrônica realmente aberto à toda a comunidade científica, sem esquecer os estudantes, que também cumprisse o papel de formar pesquisadores capazes de utilizar os equipamentos com habilidade. O Laboratório de Microscopia Eletrônica iniciou suas atividades em 1999, dirigido pelo cientista cordobés, e foi a semente do atual Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano). Entre 1994 e 1998, Ugarte atuou também como professor visitante na EPFL. Em 2004, o cientista deixou o LNLS para assumir o cargo de professor associado no Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Desde 2007, ele é professor titular dessa instituição. Além disso, de 2004 a 2007, o professor Ugarte coordenou uma rede de pesquisa em nanomateriais, a NANOMAT, que incluía 23 instituições e 150 pesquisadores.

Ao longo de sua carreira científica, Daniel Ugarte proferiu mais de 100 palestras convidadas em eventos científicos internacionais e recebeu vários prêmios prestigiosos por suas contribuições acadêmicas excepcionais, como o prêmio universitário da Fondation Latsis Internationale (Suíça, 1994), o John Simon Guggenheim Fellowship (EUA, 2002), o Prêmio Scopus Brasil da Elsevier e a CAPES (Brasil, 2008) e o prêmio de Física de The World Academy of Sciences, TWAS (Itália, 2018). Em 2012, Ugarte foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Além disso, vários estudantes orientados por ele receberam prêmios por suas teses de doutorado, outorgados pela Presidência da República (Prêmio Marechal do ar Casimiro Montenegro Filho), pela CAPES, pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) e pelo IFGW – UNICAMP.

Daniel Ugarte é autor de mais de 100 artigos publicados em periódicos internacionais com revisão por pares. De acordo com o Google Scholar, sua produção acadêmica recebeu mais de 16.600 citações e seu índice h é de 43.

Veja a nossa entrevista com este sócio fundador da SBPMat e saiba mais sobre a sua história de vida, suas principais descobertas, suas críticas a algumas tendências no modo de se fazer ciência e sua mensagem aos pesquisadores mais jovens.

Boletim da SBPMat: – Gostaríamos de saber como/ por que você se tornou um cientista. Quando surgiu em você o desejo de ser cientista?

Daniel Ugarte: – Nasci na Argentina, com a informação genética típica daquele país: mãe de origem italiana, e pai de origem espanhola (basca, para ser preciso), mas tentando ser inglês (adoro rugby). Acho que o exemplo de curiosidade, trabalho e interesses variados de meus pais teve influência majoritária nas minhas escolhas. Nasci e cresci numa cidade no meio das montanhas/serras na Argentina (cidade de Cosquín, com aproximadamente 10.000 habitantes, na província de Córdoba). Minha mãe era professora do ensino fundamental e sempre tentava, com recursos financeiros muito escassos, obter livros para seguir estudando e melhorar suas aulas (naquela época não tinha internet); nós líamos em família esses novos textos de história, dinossauros etc. Meu pai, mesmo tendo frequentado a escola somente até os 12 anos, sempre foi muito curioso e ativo. Fazia de tudo como amador e autodidata; muito inquieto, era ator, pintor, músico, consertava de tudo, fazia chaves etc. A curiosidade e o espírito de criança ficaram sempre com ele: toda coisa nova, ele queria desmontar para ver como funcionava. Se tivesse que definir sua profissão, eu diria que ele fazia cartazes publicitários. Na oficina dele, todos os equipamentos foram construídos por ele mesmo. Naquela sala de bagunça constante, eu brincava furando ferros, soldando fios, cortando madeira, martelando coisas. Tínhamos poucos luxos, nenhum brinquedo caro, mas sempre havia livros, e eu fazia coisas muito incomuns (supervisionado por meus pais) aos olhos das outras crianças, tais como aeromodelos, rádios de galena, um telescópio etc. Com minha mãe, cozinhávamos sempre receitas novas (nhoques, bolos, alfajores, doces, etc.); aos 10 anos, todo domingo ao meio-dia, eu preparava o churrasco da família. Esses experimentos de química e calor foram muito instrutivos (e saborosos), sabores e aromas que tento ainda hoje reproduzir com precisão. Finalmente, para completar, tive a sorte de ter certa facilidade com Lógica e Matemática, a qual ficou em evidência quando fui para a escola. Tenho que agradecer muito aos professores de Ciência e Matemática que se esforçaram para manter minha motivação naquela cidadezinha e que eu pudesse crescer e fazer evoluir esse talento incipiente. Acho que com essa infância, o sonho de fazer ciência e trabalhar num laboratório (ou numa cozinha) fazendo descobertas e construir instrumentos maravilhosos é a consequência mais natural do mundo (devo esclarecer que fora do laboratório meu hobby principal é cozinhar).

Boletim da SBPMat: – Conte, brevemente, o que o levou a atuar no campo dos nanossistemas.

Daniel Ugarte: – Na verdade cheguei ao mundo “nano” pelas mãos da microscopia eletrônica. Na Universidad Nacional de Córdoba cursei Física, muito mais interessado no perfil experimental e no trabalho de laboratório utilizando as mãos. No curso, você deve fazer uma dissertação final para obter seu diploma. Entre as várias opções do Instituto de Física, preferi fazer um projeto associado à microscopia eletrônica de varredura e espectroscopia de raios X. Uma escolha pragmática visando ter mais opções de emprego após a minha graduação. Naquele momento, tive sorte, surgiu uma oportunidade de ir à França fazer um estágio em microscopia eletrônica de transmissão, e, após chegar lá (Laboratoire de Physique des Solides, Université Paris-Sud, Orsay), fui convidado a fazer uma tese de doutorado para estudar a excitação de plásmons de superfície em partículas pequenas (em inglês da época eram “small particles”, não “nanoparticles” como é hoje). O termo “nano” não existia ainda, e a “plasmônica” era somente uma curiosidade (hoje representa um dos temas de nanociência mais ativos). Uma vez concluída a minha tese, pude conseguir um pós-doutorado em Suíça, num dos primeiros institutos que concentrava suas pesquisas nas propriedades novas que surgiam ao diminuir o tamanho das partículas (Institut de Physique Experimentale, École Polytechnique Féderale de Lausanne). Resumindo, comecei nos embriões nano e sempre co