Breves entrevistas com cientistas: Christian Polak (Vacuumschmelze GmbH & Co. KG, Alemanha).

Christian Polak
Christian Polak

Christian Polak interagiu pela primeira vez com Vacuumschmelze GmbH & Co quando a sua tese de doutorado sobre materiais amorfos, defendida na Universidade Técnica de Viena (TU Wien), despertou o interesse da empresa. Em 1993, ele começou a trabalhar na área de pesquisa e desenvolvimento da empresa, onde permanece.

A Vacuumschmelze iniciou suas atividades com o desenvolvimento do primeiro forno de fundição a vácuo (como sugere seu nome em alemão) há cerca de 100 anos na cidade alemã de Hanau. Hoje, a companhia é uma fabricante de materiais magnéticos avançados e produtos relacionados com mais de 4.000 funcionários localizados em dezenas de países. Esses materiais estão presentes na vida cotidiana de milhões de pessoas, fazendo parte de carros, aviões, elevadores, sistemas de energia solar e eólica, transformadores…

Rapid solidification technology.
Tecnologia de solidificação rápida.

Atualmente, Christian Polak lidera o Departamento de Tecnologia de Solidificação Rápida na empresa. Essa tecnologia permite fabricar fitas metálicas micrométricas com propriedades magnéticas superiores, processando o metal fundido em apenas uma etapa. Processos posteriores podem, ainda, transformar esses materiais de estrutura amorfa em ligas nanocristalinas (com grãos ou cristais nanométricos).

No XVII B-MRS Meeting, Polak oferecerá uma palestra plenária sobre esses materiais magnéticos nanocristalinos e suas aplicações, principalmente no segmento dos dispositivos eletrônicos miniaturizados.

Veja algumas informações que o Dr. Polak forneceu relacionadas ao assunto de sua palestra plenária.

Materiais Magnéticos Nanocristalinos

Nanocrystalline structure of VITROPERM material.
Estrutura nanocristalina do material VITROPERM.

Mais de vinte anos atrás, Yoshizawa, Oguma e Yamauchi introduziram uma nova classe de ligas à base de ferro exibindo um comportamento magnético suave (soft) superior. As propriedades foram uma combinação única de baixas perdas, alta permeabilidade e magnetostrição próxima de zero obtidas por permalloys e ligas amorfas Co-based, mas com uma magnetização de saturação até 1,2 Tesla – muito mais alta do que qualquer um desses materiais pode oferecer convencionalmente. O particular sobre o novo material é a sua microestrutura ultrafina de b.c.c. Fe-Si com tamanhos de grão de 10-15 nm a partir dos quais suas propriedades moles derivam por último. Com base nisso, essa nova classe de ligas foi denominada “nanocristalina”. O material é composto pela cristalização de uma liga de Fe-Si-B amorfa com pequenas adições de Cu e Nb. Esta composição é a chave para uma estrutura de grãos ultrafinos e as propriedades magnéticas moles associadas.

É bem conhecido que a microestrutura, visivelmente o tamanho do grão, determina essencialmente o ciclo de histerese de um material ferromagnético. No entanto, tivemos que construir uma compreensão mais profunda da coercividade (Hc) em toda a gama de comprimentos de correlação estrutural a partir de distâncias atômicas em ligas amorfas sobre tamanhos de grão (D) no regime nanométrico até tamanhos de grão macroscópico. A dependência 1 / D da coercividade para grandes tamanhos de grãos reflete a regra convencional de que boas propriedades magnéticas moles requerem grãos muito grandes (D> 100μm). Assim, a redução do tamanho das partículas para o regime da largura da parede do domínio aumenta a coercividade Hc. Por outro lado, as coercividades mais baixas são novamente encontradas para os menores comprimentos de correlação estrutural, como nas ligas amorfas e nas ligas nanocristalinas, para tamanhos de grão D <20nm. O novo material nanocristalino preenche a lacuna entre os metais amorfos e as ligas policristalinas convencionais. A combinação de tamanho de grão pequeno e propriedades magnéticas suaves é surpreendente e fascinante do ponto de vista clássico em engenharia magnética.

Papel dos Materiais Magnéticos Moles Nanocristalinos em dispositivos eletrônicos e outras aplicações:

Tape wound cores: a nanocrystalline material application.
Núcleos magnéticos: uma aplicação de materiais nanocristalinos.

O material magnético amorfo e nanocristalino, em forma de faixa, é utilizado para produzir os chamados núcleos de fita enrolada (= núcleos magnéticos). A adição de enrolamentos de cobre leva a componentes indutivos bem conhecidos para a indústria eletrônica.

A Vaccumschmelze é líder de mercado e tecnologia em muitas aplicações com anos de experiência no mercado internacional. A experiência da empresa abrange todo o processo de desenvolvimento, desde o conhecimento das características da liga até a tecnologia de fabricação e os locais de fabricação de baixo custo.

A VAC produz componentes indutivos baseados em material nanocristalino para os mercados de instalação, automotivo e industrial.

Exemplos para o mercado de instalação: Conversores de corrente total para chaves de proteção contra corrente de fuga à terra e conversores de corrente para medidores eletrônicos de energia.

Exemplos para o mercado automotivo: bobinas e transformadores para o gerenciamento de energia, antenas flexíveis para Keyless-Entry-Systems, para veículos híbridos e elétricos, sistemas de Recuperação, Start-Stop-Systems e conversores DC / DC.

Exemplos para o mercado industrial: bobinas, transformadores e sensores de potência para fontes de alimentação e retificadores. Bobinas de modo comum e núcleos nanocristalinos pavimentam o caminho para designs de filtro compactos e inovadores com a mais alta eficiência para acionamentos de motores elétricos superiores, de acordo com as mais novas regulamentações internacionais. Os transformadores de acionamento por gaveta proporcionam a mais alta segurança, excelente confiabilidade e longa vida útil para aplicações especiais (alta voltagem) combinando eficiência de transmissão de energia e sinal em um componente, resultando em custos totais mais baixos. Os sensores atuais oferecem máxima precisão.

Novos desenvolvimentos: Aplicações de alta frequência (redução de tamanho).

Vacuumschmelze é tradicionalmente um fornecedor de componentes indutivos. Componentes indutivos convencionais, como núcleos magnéticos, componentes indutivos, bobinas e transformadores, bem como antenas flexíveis, são grandes e colocados em cima dos PCBs. Todos estes produtos estabelecidos são geralmente utilizados na gama de frequência mais baixa, e. a 50Hz ou até alguns kHz.

Respondendo aos desafios futuros dos circuitos eletrônicos, nos deparamos com novos requisitos – especialmente, houve uma tendência de usar frequências mais altas e, consequentemente, a tendência para a miniaturização. Isso permite o uso de componentes incorporados, nos quais caps, semicondutores, resistores e indutâncias localizam um local dentro do PCB, respectivamente em uma camada de um PCB multicamada.

Para dar os primeiros passos nessa direção, participamos de um projeto de pesquisa conjunto chamado VISA, que foi fundado pelo Ministério Federal Alemão de Educação e Pesquisa, onde nós tivemos que melhorar nossos materiais magnéticos amorfos ou nanocristalinos para torná-los prontos para altas frequências e incorporação. Tais componentes indutivos devem ser planos, a altura máxima não deve exceder 1 mm, as perdas de ferro devem ser tão baixas quanto possível e um fator de alta qualidade na freqüência de comutação até a faixa de MHz foi solicitado. Para aplicação, estávamos focados em conversores DC / DC para a pequena faixa de potência. Além disso, esperávamos aplicações para núcleos, indutores planares, materiais de blindagem e sensores para a indústria automotiva, p. sistemas de acionamento eletrônico, para tecnologia LED de energia ou carregadores fotovoltaicos ou para aplicações de blindagem, como sistemas de carregamento sem fio.

Novos desenvolvimentos: materiais de alta saturação (redução de tamanho).

Sabe-se bem que as ligas de Fe-Cu-Nb-Si-B nanocristalinas exibem excelentes propriedades magnéticas moles (baixo campo de coercividade Hc e alta permeabilidade µ) combinadas com baixa magnetostrição (ls) e polarização de alta saturação em torno de Js ~ 1.2T. Eles são amplamente utilizados em aplicações magnéticas.

Desde a sua descoberta, uma importante força motriz para o desenvolvimento adicional de ligas tem sido aumentar a polarização de saturação para receber uma mudança de fluxo efetiva mais alta após reverter a excitação magnética. Assim, um nível mais alto de indutância poderia ser alcançado em volume simultaneamente menor. Os desenvolvimentos mais recentes são as ligas Fe-Si-B-P-Cu, que apresentam uma alta polarização de saturação em torno de Js ~ 1,8 T, bem como uma coercividade razoavelmente baixa (Hc <10 A m).

Um problema associado a estas novas ligas é que elas estão localizadas perto do limite de formação de vidro, levando a sérios problemas de produção. Demonstrou-se recentemente que as composições mais recentes investigadas nos últimos anos exibem capacidade de formação de vidro suficiente para produção em grande escala. No entanto, a magnetostrição de saturação de ligas de Fe-Si-B-P-Cu nanocristalinas ainda é relativamente alta (ls≈14 ppm). A baixa magnetostricção, no entanto, é importante para boas propriedades magnéticas e insensibilidade ao estresse do ciclo de histerese. O objetivo do desenvolvimento atual é investigar a capacidade de aplicação de tais sistemas de liga e fornecer o tão faltar comportamento das propriedades magnéticas, particularmente no estado nanocristalino.


Para mais informações sobre este palestrante e a palestra plenária que ele proferirá no XVII Encontro da SBPMat/B-MRS Meeting, clique na foto do palestrante e no título da palestra: https://www.sbpmat.org.br/17encontro/home/

Breves entrevistas com cientistas: Pietro Matricardi (Universidade de Roma La Sapienza, Itália).

Pietro Matricardi
Pietro Matricardi

Em seu laboratório da Universidade de Roma “La Sapienza”, na Itália, o professor Pietro Matricardi e seu grupo desenvolvem novos materiais baseados em polissacarídeos.

Esses polímeros naturais que pertencem à família dos carboidratos são longas cadeias de açúcares simples, os monossacarídeos, e estão presentes em abundância em plantas e animais. Com eles, o professor Matricardi elabora diversos tipos de hidrogéis (géis com alto teor de água) que podem ser introduzidos no corpo humano sem afetar suas funções normais. Entre as principais aplicações desses materiais estão os sistemas de liberação de fármacos, nos quais um determinado medicamento é armazenado no hidrogel e liberado de maneira controlada dentro do corpo do paciente.

No XVII B-MRS Meeting, o Professor Matricardi ministrará uma palestra plenária sobre essa diversidade de hidrogéis polissacarídicos, sua preparação e suas aplicações farmacêuticas.

Formado em nível de mestrado (1989) e doutorado (1993) pela Universidade de Roma, Pietro Matricardi retornou a “La Sapienza” em 2004, como professor assistente no Departamento de Química e Tecnologias Farmacêuticas, após uma experiência profissional em empresas, inclusive no segmento farmacêutico. Atualmente ele é professor associado em “La Sapienza”.

Matricardi é autor de mais de 80 artigos em periódicos internacionais revisados por pares, editor de um livro sobre hidrogéis polissacarídicos e autor de alguns capítulos de livros. Sua produção científica conta com mais de 2.700 citações. Ele também é presidente da seção italiana da Sociedade de Liberação Controlada.

Veja nossa mini entrevista com este cientista italiano.

Boletim da SBPMat: – Gostaríamos de saber um pouco mais sobre sistemas de liberação de fármacos de hidrogel polissacarídico. Características, vantagens com relação a outros materiais, tipo de controle que esses hidrogéis possibilitam na liberação de fármacos.

Imagens de crio-microscopia eletrônica de transmissão de um nanohidrogel. Fonte: European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics. (2018) 127, 244-249. DOI: 10.1016/j.ejpb.2018.02.015.
Imagens de crio-microscopia eletrônica de transmissão de um nanohidrogel. Fonte: European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics. (2018) 127, 244-249. DOI: 10.1016/j.ejpb.2018.02.015.

Pietro Matricardi: – As principais características dos hidrogéis polissacarídicos são sua biocompatibilidade geral, devido à origem natural das matrizes poliméricas, e seu alto teor de água. As propriedades mecânicas decorrentes da combinação da arquitetura do polímero e da água do ambiente levam a matrizes altamente toleradas pelo corpo humano. Além disso, a ampla gama de polímeros disponíveis e o grande número de parâmetros ajustáveis para ajustar as propriedades das matrizes são aspectos muito importantes na adaptação das funções dos hidrogéis. Por fim, a incorporação de medicamentos nesses hidrogéis leva a sistemas de liberação de fármacos que podem ser explorados em muitas aplicações farmacêuticas e biomédicas, já presentes no mercado há muito tempo, desde as tópicas até as internas. Apenas para mencionar alguns exemplos: hidrogéis para cicatrização de feridas, tratamento de dermatite ou visco-suplementação com ácido hialurônico em articulações, cirurgia estética, regeneração de tecidos. Mais recentemente, nanohidrogéis de polissacarídeos, isto é, hidrogéis em nanoescala, estão ganhando uma grande atenção por suas propriedades como “transportadores inteligente” e alguns produtos estão quase prontos para o mercado; mas esses sistemas de entrega de fármacos estão apenas no começo de sua vida.

Boletim da SBPMat: – Queremos saber mais sobre o seu trabalho. Por favor, escolha dois artigos / patentes / produtos de sua preferência (seus favoritos) e descreva-os rapidamente.

Aspecto macroscópico de nanohidrogéis de baicalina sonicados (S) e autoclavados (A). Fonte: European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics. (2018) 127, 244-249. DOI: 10.1016/j.ejpb.2018.02.015.
Aspecto macroscópico de nanohidrogéis de baicalina sonicados (S) e autoclavados (A). Fonte: European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics. (2018) 127, 244-249. DOI: 10.1016/j.ejpb.2018.02.015.

Pietro Matricardi: – Nosso grupo concentrou-se na pesquisa em nanohidrogéis polissacarídicos há apenas alguns anos. Um dos principais resultados é condensado em duas patentes em que descrevemos como é possível obter nanohidrogéis polissacarídicos, prontos para uma formulação farmacêutica, usando um ciclo padrão de autoclavagem. Desta forma, a partir do fármaco e do polímero ambos suspensos em água, é possível obter, de uma só vez, nanohidrogéis estéreis com a droga embebida no interior.

  • WO2014199318 (A2) ― 2014-12-18 MC De Rugeriis, E. Montanari, C. Di Meo, P. Matricardi – METHOD FOR PREPARING NANOHYDROGELS.
  • WO2014199319 (A2) 2014-12-18 G. D’Arrigo, C. Cencetti, C. Di Meo, P. Matricardi – METHOD FOR THE TREATMENT OF NANOHYDROGELS.

Outro importante trabalho foi desenvolvido em colaboração com o Prof. Torchlin, da Northeastern University, Boston, MA, EUA. Nesse trabalho, exploramos a possibilidade de usar os nanohidrogéis para uma entrega dupla de fármacos. Especificamente, incorporamos um medicamento antineoplásico (paclitaxel) em um nanohidrogel de gelano anti-inflamatório (prednisolona), obtendo um efeito sinérgico dos dois fármacos na morte de células cancerígenas. Este trabalho recebeu o prêmio “Melhor artigo em EJPB 2014”.

  • Giorgia D’Arrigo, Gemma Navarro, Chiara Di Meo, Pietro Matricardi, Vladimir Torchilin. “Gellan gum nanohydrogel containing anti-inflammatory and anti-cancer drugs: a multi-drug delivery system for a combination therapy in cancer treatment”. European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics, (2014) 87 (1) 208-216. Doi: 0.1016/j.ejpb.2013.11.001.

 


Para mais informações sobre este palestrante e a palestra plenária que ele proferirá no XVII Encontro da SBPMat/B-MRS Meeting, clique na foto do palestrante e no título da palestra: https://www.sbpmat.org.br/17encontro/home/

Diretora científica da SBPMat é nova editora associada da ACS Applied Nano Materials.

Prof. Mônica Cotta.
Prof. Mônica Cotta.

A professora Mônica Alonso Cotta (Instituto de Física Gleb Wataghin, UNICAMP) assumiu a função de editora associada do ACS Applied Nano Materials, periódico científico da editora da American Chemical Society (ACS Publications) lançado no início de 2018. A revista tem caráter interdisciplinar e cobre temas relacionados a aplicações de nanomateriais.

A professora Cotta, que cumpre seu segundo mandato como diretora científica da SBPMat e foi organizadora do XV B-MRS Meeting, somou-se em julho deste ano à equipe de editores associados da revista, formada por mais quatro cientistas dos Estados Unidos, Coreia do Sul, China e Cingapura.

Aerospace Materials and Manufacturing for the Next Century (atividade do XVII Encontro da SBPMat).

Dear SBPMatians,

A new exciting activity will be held in this conference edition:

The “Aerospace Materials and Manufacturing for the Next Century” challenge.

The challenge is open to all participants registered as student, but attention: Only fifty students will be accepted for participation, and students interested must physically register for a lottery at the Boeing Booth prior to 17:00 on Monday (17/09). Students selected for participation will receive a notification email by 19:00 on Monday (17/09).

The challenge will begin at Tuesday (18/09) at 12:20pm, during a mandatory one and a half hour session from 12:20 – 13:50. All participants must be present. At that time, the Technical Challenge(s) will be revealed.

Teams will then have 24 hours to address technical challenges, and provide creative solutions.

On Wednesday, (19/09), at 12:00pm, the Challenge will close, and teams will divulge creative solutions.

Lunchboxes will be distributed to participants on both days.

Winning team(s) will be announced during the closing ceremony (Sept. 20).

PREPARE TO TAKE PART OF THE AEROSPACE MATERIALS AND MANUFACTURING FOR THE NEXT CENTURY CHALLENGE!! See you at the Boeing Booth for Registration, prior to Monday (17/09) at 17:00.

Concurso para professor doutor no Instituto de Física da USP.

Edital IF-13/18  (Materiais em Escala Nanométrica)

Estarão abertas, até o dia 12 de setembro de 2018, as inscrições ao Concurso de Títulos e Provas para provimento de um cargo de Professor Doutor, na Referência MS-3.1, em RDIDP, com o salário de R$ 10.670,76, no Departamento de Física dos Materiais e Mecânica do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, na área de Materiais em Escala Nanométrica.

Edital – Versão em Portugues

Para candidatos brasileiros e estrangeiros com domínio da língua portuguesa, as instruções e os formulários para as inscrições estão disponíveis no site

http://portal.if.usp.br/ataac/sites/portal.if.usp.br.ataac/files/Edital%2013

Informações adicionais poderão ser obtidas na Assistência Acadêmica do IFUSP. Telefones +55-11-30916020 / +55-11-30917000, ou no DFMT, com Antonio Domingues dos Santos (adsantos@if.usp.br), fone +55-11-30916886

Boletim da SBPMat – 71ª edição.

 

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Boletim da
Sociedade Brasileira
de Pesquisa em Materiais

Edição nº 71. 31 de julho de 2018.
Artigo em Destaque

Em trabalho realizado na UNESP, uma equipe científica desenvolveu um nanocompósito de hidrogel e argila com capacidade de carregar fármacos (particularmente, o anti-inflamatório diclonaco sódico) e liberá-los de forma controlada e gradual. Nesse novo material, lamelas de argila formam uma barreira física que imprime um ritmo determinado, e controlável, à liberação do remédio. O trabalho foi reportado na revista científica ACS Applied Materials & Interfaces. Saiba mais.

imagem hidrogel

Da Ideia à Inovação

Na segunda parte da matéria sobre a história da fibra óptica, mostramos o trabalho realizado em laboratórios de empresas de alguns países desenvolvidos nas décadas de 1960-70. O relato inclui os estudos de Charles Kao (Nobel de Física 2009) que mostraram o caminho para que a fibra óptica fosse protagonista nas telecomunicações, e o trabalho do trio de pesquisadores da Corning que desenvolveu a primeira fibra óptica de baixa atenuação. Saiba mais.

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Notícias da SBPMat

Os Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC) em parceria com a SBPMat lançarão o volume especial “Materials Sciences for a Better Future”. A chamada de artigos estará aberta de 9 de agosto de 9 de novembro. Saiba mais.

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XVII Encontro da SBPMat/ B-MRS Meeting
(Natal, RN, 16 a 20 de setembro de 2018)

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Some-se a nós, junto à praia, e faça parte desta grande reunião, onde ciência e tecnologia se agregarão à natureza para uma experiência ideal de aprendizagem e intercâmbio!

Inscrições. Encerra hoje o período de inscrições com valor promocional por early registration. Além disso, existem descontos nas inscrições para sócios da SBPMat. Se você ainda não é sócio da SBPMat, pode se associar ao fazer a inscrição ao evento. O valor da inscrição somado ao valor da anuidade ficará menor do que o valor da inscrição para não sócios. Saiba mais.

Programa. O programa do evento estará disponível no site em breve.

Serviço de impressão de pôsteres. É possível enviar o arquivo por e-mail e, durante o evento, retirar o pôster impresso no centro de convenções. Saiba mais.

Tutorial. Os inscritos ao evento poderão participar sem custo adicional do tutorial sobre escrita científica e processo editorial. Inscrições gratuitas, no ato da inscrição geral do encontro. Saiba mais.

Conference Party. A festa do evento será na noite de 19 de setembro, à beira-mar, no Imirá Plaza Hotel & Convention, e terá patrocínio de periódicos científicos da ACS Publications. Saiba mais.

Hospedagem, transfer e passeios. Veja opções da agência de turismo oficial do evento, a Harabello. Aqui.

Palestras plenárias. Saiba quem são os 8 cientistas de renome internacional que proferirão as plenárias do evento e quais são os temas das palestras. Veja aqui.

Palestra memorial. A Memorial Lecture “Joaquim da Costa Ribeiro” será proferida pelo professor Fernando Galembeck, na abertura do evento.

Simpósios. Veja a relação dos 21 simpósios que compõem o evento. Aqui.

Expositores e patrocinadores. 20 empresas já reservaram seus estandes e 18 entidades participam do evento com outras formas de apoio e divulgação. Empresas interessadas em participar do evento podem entrar em contato com Alexandre no e-mail comercial@sbpmat.org.br.

Organizadores. O coordenador do evento é o professor Antonio E. Martinelli (UFRN). Conheça a equipe do comitê organizador.

Centro de convenções. O evento será realizado no centro de convenções do Hotel Praiamar, localizado a metros da famosa praia de Ponta Negra. Saiba mais.

Natal. Destino turístico de visitantes do mundo todo, Natal também oferece um prazeroso ambiente para debates, interações e aprendizagem. O clima agradável (seco e com temperatura média de 25 °C em setembro), o povo acolhedor e a deliciosa culinária da cidade criam uma atmosfera de bem-estar que vai além das belezas naturais do seu litoral. Veja vídeo sobre Natal.

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Dicas de Leitura

  • Biomateriais: cientistas desenvolvem nova matriz de colágeno e seda para crescimento de pele artificial (paper da Biomaterials). Saiba mais.

  • Materiais biogênicos: usando bactérias geneticamente modificadas e revestidas com nanopartículas, cientistas criam células fotovoltaicas que funcionam mesmo com baixa luminosidade (paper da Small). Saiba mais.
  • Usando um gel baseado em um composto natural, cientistas criam método para cristalizar substâncias ativas de fármacos e assim melhorar o desempenho da medicação. O material também é promissor como sistema de liberação de fármacos (paper da Small). Saiba mais.

  • Fatores de impacto 2017. Veja alguns destaques da editora Elsevier na área de Materiais. Aqui.

Eventos

  • International Conference on Electronic Materials 2018 (IUMRS-ICEM). Daejeon (Coreia do Sul). 19 a 24 de agosto de 2018. Site.
  • Symposium “Nano-engineered coatings, surfaces and interfaces” no “XXVII International Materials Research Congress”. Cancun (México). 19 a 24 de agosto de 2018. Site.

  • 8th International Conference on Optical, Optoelectronic and Photonic Materials and Applications (ICOOPMA2018). Maresias, SP (Brasil). 26 a 31 de agosto de 2018. Site.

  • 16th International Conference on Molecule-based Magnets (ICMM2018). Rio de Janeiro, RJ (Brasil). 1 a 5 de setembro de 2018. Site.

  • XVII Encontro da SBPMat/ B-MRS Meeting. Natal, RN (Brasil). 16 a 20 de setembro de 2018. Site.

  • XXXIX Congresso Brasileiro de Aplicações de Vácuo na Indústria e na Ciência (CBrAVIC). Joinville, SC (Brasil). 8 a 11 de outubro de 2018. Site.

  • 6ª Edição do Workshop de Pesquisa e Tecnologia em Ciência dos Materiais. Sorocaba, SP (Brasil). 15 a 17 de outubro de 2018. Site.

  • São Paulo School of Advanced Science on Colloids (SPSAS Colloids). Campinas, SP (Brasil). 28 de outubro a 7 novembro de 2018. Site.

  • XIII Simpósio de Lasers e Suas Aplicações (XIII SLSA). Recife, PE (Brasil). 30 de outubro a 2 de novembro de 2018. Site.

  • International Conference of Young Researchers on Advanced Materials (ICYRAM 2018). Adelaide (Austrália). 4 a 8 de novembro de 2018. Site.

  • 6th Meeting on Self Assembly Structures In Solution and at Interfaces. São Pedro, SP (Brasil). 7 a 9 de novembro de 2018. Site.

  • 3rd International Brazilian Conference on Tribology (TriboBR 2018). Florianópolis, SC (Brasil). 3 a 5 de dezembro de 2018. Site.

  • II Simpósio Nacional de Nanobiotecnologia (IISNNB). São Bernardo do Campo, SP (Brazil). 6 e 7 de dezembro de 2018. Site.

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Você pode divulgar novidades, oportunidades, eventos ou dicas de leitura da área de Materiais, e sugerir papers, pessoas e temas para as seções do boletim. Escreva para comunicacao@sbpmat.org.br.

 

 

Da ideia à inovação: O fio de vidro que conectou o mundo (parte 2).

Veja nossa matéria sobre a primeira parte desta história.

E aqui estamos de volta à história do desenvolvimento das fibras ópticas.

No final da década de 1950, fibras ópticas curtas já eram produzidas industrialmente e usadas em alguns segmentos, principalmente em medicina para inspecionar o interior do corpo humano por meio de endoscópios.

Neste figura sobre o espectro eletromagnético, podem ser comparados os diversos tipos de radiação que existem. Fonte https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Espectro_EM_pt.svg.
Nesta figura sobre o espectro eletromagnético, podem ser comparados os diversos tipos de radiação eletromagnética que existem. Fonte https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Espectro_EM_pt.svg.

No âmbito das telecomunicações, a transmissão de informações por meio de fios de cobre e de ondas de rádio estava estabelecida e continuava avançando. O primeiro cabo transatlântico de fios de cobre foi instalado em 1956, e o primeiro satélite de telecomunicações, que usava ondas de rádio, foi lançado dois anos depois.  Entretanto, o crescente uso do telefone e da televisão estavam gerando uma urgente demanda por aumentar a capacidade de transmitir informações.

Empresas de telecomunicações da Europa e Estados Unidos começaram a buscar soluções em seus laboratórios de pesquisa. A maior parte das pesquisas focava, principalmente, no uso das ondas de rádio de comprimento mais curto e das micro-ondas, mas não considerava as ondas da chamada “região óptica”, formada principalmente pela luz visível. Todavia, era nas ondas de luz visível que podia ser encontrado o maior potencial para as comunicações. Para se ter uma ideia, essas ondas podem carregar dezenas de milhares de vezes mais informação do que as ondas de rádio, por exemplo.

A aparição em cena do laser puxou um pouco a história para o lado das telecomunicações ópticas. Inventado em 1960, em um centro de pesquisa de uma empresa aeroespacial dos Estados Unidos, o laser foi ganhando novas e melhores versões ao longo da década. Com a sua capacidade de emitir luz em forma de feixes muito estreitos que se conservam por grandes distâncias, o laser podia ser um ótimo parceiro da fibra óptica.

Entretanto, a fibra óptica era deixada de lado devido à sua enorme atenuação – redução de intensidade do sinal de luz entre dois pontos, a qual se mede em decibéis perdidos por quilômetro percorrido (dB/km). De fato, usando as fibras ópticas disponíveis naquele momento, apenas 1% da luz injetada na fibra permanecia nela 20 metros adiante. Perante essa baixíssima eficiência, outras formas de guiar a luz começaram a ser propostas e testadas por alguns grupos, enquanto outros pesquisadores continuavam investindo esforços e recursos em guias de ondas de rádio ou micro-ondas.

Os poucos grupos que apostavam na fibra óptica ou em guias de ondas ópticas similares (filmes finos, por exemplo) no início da década de 1960 estavam localizados na STL (centro de pesquisa da empresa britânica de telecomunicações STC); na CSF (forte grupo empresarial francês atuante em áreas como telecomunicações, defesa, materiais e eletrônica); nos laboratórios Bell (laboratório estadunidense de pesquisa industrial na época ligado à companhia de telecomunicações AT&T), e na universidade japonesa de Tohuku.

Charles Kao, provavelmente em 1966. Fonte https://www.youtube.com/watch?v=2-5sScP_fiw
Charles Kao, provavelmente em 1966. Fonte https://www.youtube.com/watch?v=2-5sScP_fiw

No grupo da STL, trabalhava Charles K. Kao, quem ganharia o Premio Nobel de Física em 2009 em reconhecimento a seus trabalhos com fibra óptica. Nascido em Xangai (China), Kao cursou o final do ensino secundário em um colégio britânico de Hong-Kong e foi morar na Inglaterra em busca de estudos universitários em eletrônica e comunicações, áreas que lhe apaixonavam. Formou-se em Engenharia Elétrica pela University of London em 1957, e logo começou a trabalhar para a STC, até receber e aceitar uma proposta de fazer doutorado empresarial no braço de pesquisa da empresa, o STL. Ali ajudou o pesquisador Antoni E. Karbowiak em seus estudos sobre diversos guias de onda, até que o Karbowiak saiu da STL para assumir uma cadeira de professor. Nesse momento, Kao se dedicou na STL ao projeto no qual ele mais acreditava, o do desenvolvimento de fibras compostas por núcleo e revestimento para serem usadas em telecomunicações como guias de ondas de luz visível.

Kao contou então com a ajuda de seu colega, o jovem engenheiro George Hockham, para desenvolver seus estudos sobre fibra óptica. Juntos se dedicaram a entender as causas das perdas de luz na fibra, para saber se elas poderiam ser eliminadas ou diminuídas ou se, pelo contrário, tentar baixar a atenuação era encarar uma batalha perdida. Enquanto Hockham estudava as imperfeições no formato ou tamanho das fibras, Kao se concentrava nas características do material, em particular sua estrutura e as impurezas e defeitos presentes nela. Os resultados dos estudos da dupla foram publicados em junho de 1966 nos IEEE Proceedings [K.C. Kao and G.A. Hockham, “Dielectric-Fibre Surface Waveguides for optical frequencies”. Proc. IEE, 113, 1151 (1996)].

Esse artigo pode ser considerado um marco na história da fibra óptica, por ser o primeiro que reportou as causas das perdas de luz na fibra óptica e que mostrou o caminho a seguir e a meta a alcançar para conseguir uma fibra apta ao uso em telecomunicações.

Com base nas características dos emissores (laser) e detectores de luz existentes, Kao e seu coautor afirmavam que, para poder usar as fibras em telecomunicações ópticas, era necessário baixar sua atenuação até chegar aos 20 dB/km. A meta era muito desafiadora, pois nas fibras disponíveis no momento a luz atenuava 20 dB… a cada 20 metros!  Isso na melhor das hipóteses. Contudo, ao mostrar que as principais causas das perdas de luz nas fibras ópticas estavam relacionadas à presença de impurezas no material, que absorviam ou espalhavam a luz e a desviavam da sua rota, o artigo apontou um caminho para diminuir a atenuação: o uso de vidros mais puros.

Representação do corte frontal de uma fibra óptica (na qual proporções não foram consideradas) com as duas partes principais da fibra: o núcleo, com índice de refração n1, e o revestimento, com índice de refração menor (n2).
Representação do corte frontal de uma fibra óptica (na qual proporções não foram consideradas) com as duas partes principais da fibra: o núcleo, com índice de refração n1, e o revestimento, com índice de refração menor (n2). Fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/Fibra_%C3%B3ptica#/media/File:Optical_fiber.svg

O artigo concluía que fibras cilíndricas compostas por um núcleo e um revestimento, ambos feitos de materiais vítreos com índices de refração levemente diferentes (maior no núcleo), poderiam ser meios de transmissão de informação muito melhores do que os existentes na época, além de mais baratos. Nessas fibras, a informação viajaria codificada em sinais de luz que percorreriam o núcleo, enquanto o revestimento garantiria que a luz permaneça no núcleo mesmo nas curvas.

Depois disso, Charles Kao continuou se dedicando à fibra óptica, investindo seu tempo não apenas na pesquisa, mas também na divulgação. De fato, ele proferiu palestras sobre seus estudos e sobre o potencial da fibra óptica em diversos laboratórios e empresas do mundo. Além disso, a STL divulgou um press release destacando as possibilidades da fibra óptica no campo das comunicações, o qual teve pouca repercussão na imprensa.

Em paralelo, junto a novos colaboradores, Kao fez uma série de experimentos com diversos vidros e outros materiais e mostrou, entre outros resultados, que no vidro denominado sílica fundida pura, a atenuação podia chegar a apenas 5 dB/km. O resultado era animador, mas transformar em uma fibra óptica esse material feito de dióxido de silício (SiO2) puro era outra história. Devido à sua pureza, esse vidro só podia ser fundido a altíssimas temperaturas, superiores a 1.500 °C. Além disso, depois de fundido, sua viscosidade dificultava a sua transformação em qualquer produto. Finalmente, o índice de refração da sílica fundida era extremamente baixo. Desse modo, utilizá-la para fabricar o núcleo da fibra, se por um lado seria vantajoso em termos de pureza, por outro lado seria complicadíssimo, não apenas pela dificuldade de processar o material, mas também pela impossibilidade de achar um material com índice de refração menor para o revestimento.

Nesse momento, alguns laboratórios de empresas da Alemanha, Estados Unidos, França, Reino Unido e Japão decidiram enfrentar o desafio de desenvolver a fibra óptica de baixa atenuação. Perante a dificuldade de lidar com a sílica fundida, a maioria desistiu desse material e tentou fazer fibras ópticas com outros vidros, retirando-lhes as impurezas. Por sua vez, outros grupos desistiram de fazer fibras ópticas de baixa atenuação ao ouvir especialistas em vidro que afirmavam que seria impossível retirar as impurezas que estavam incomodando.

Apenas um desses grupos fez escolhas diferentes, o da empresa Corning, nos Estados Unidos. Fundada em 1851, a firma sempre trabalhou com vidros, mas, longe de se estancar na produção de produtos de baixo valor agregado, ela protagonizou o desenvolvimento de muitas inovações, a começar pela bola de vidro da lâmpada incandescente de Thomas Edison. No início da década de 1930, foi na Corning que o químico Franklin Hyde criou o método de hidrólise de chama que viabilizou a fabricação e processamento de sílica pura. Nesse método, em vez de se fundir cristais de dióxido de silício, parte-se de um composto líquido baseado em silício que, aquecido em cima de uma chama, acaba gerando um pó que se pode ser depositado formando camadas de sílica.

Peter Schultz, Donald Keck e Robert Maurer, e fibras ópticas. Fonte: http://ethw.org/File:Corning_Fiber-optic_Inventors_3.jpg
Peter Schultz, Donald Keck e Robert Maurer, e fibras ópticas. Fonte: http://ethw.org/File:Corning_Fiber-optic_Inventors_3.jpg

Em 1966, a Corning incumbiu o físico Robert Maurer de pesquisar e desenvolver fibras ópticas de menos de 20 dB/km de atenuação para uso em comunicações ópticas. Em 1968, mais dois cientistas tinham se somado a Maurer nesse projeto:  Peter Schultz, doutor em Ciência do Vidro, e Donald Keck, doutor em Física.

O trio trabalhou duro em ideias que eram opostas àquelas que os demais grupos do mundo estavam seguindo. Na escolha do material, o grupo da Corning optou por usar o vidro mais puro e acrescentar impurezas quando necessário, em vez de retirar impurezas de vidros menos nobres até chegar à atenuação desejada. Os cientistas da Corning usaram, então, a sílica fundida pura para o revestimento da fibra óptica, o qual precisava de um material com índice de refração menor, e a sílica com pequeníssimas quantidades de titânio no núcleo, de modo a aumentar o índice de refração apenas o necessário e diminuir a pureza o mínimo possível.

Para o método de fabricação da fibra, o grupo da Corning também seguiu um caminho próprio, baseado no método que Hyde tinha desenvolvido mais de trinta anos atrás. O trio fabricou um tubo de sílica pura e depositou a sílica dopada dentro dele. Com essa fibra, cerca de quatro anos depois do início do projeto de desenvolvimento da fibra óptica de baixa atenuação, o grupo da Corning obteve a primeira medida de atenuação menor que 20 dB/km. Estava desenvolvida a primeira fibra óptica de baixa atenuação!

Em maio de 1970, a equipe depositou duas patentes revelando, respectivamente, a composição e o método de fabricação dessa fibra e, depois disso, começou a divulgar os resultados.

Em 1971, a Corning decidiu que o projeto poderia passar da fase de pesquisa à de desenvolvimento, na qual engenheiros trabalharam para tornar a fabricação adequada à escala industrial, para deixar a fibra mais resistente (a primeira fibra era mais frágil do que o desejável) e para finalizar o desenvolvimento junto a empresas que tinham interesse em comprar a fibra. Enquanto isso acontecia, a equipe de pesquisa continuou explorando, com bons resultados, novas possibilidades para obter melhores fibras ópticas. Depois disso, Maurer, Schultz e Keck se viram obrigados a dedicar uma grande parte do tempo deles a litígios judiciais relacionados às patentes da fibra óptica, que foram outorgadas à Corning em 1972 e 1973.

No início da década de 1970, a fibra óptica ainda não era uma inovação propriamente dita. De fato, a inserção dessa tecnologia no mercado demorou mais de 10 anos para acontecer. Essa parte da história, também interessante, não será abordada aqui, mas alguns marcos podem ser citados. Em 1975, no Reino Unido, as primeiras fibras ópticas não-experimentais foram instaladas. Em 1976, a Corning inaugurou a sua primeira fábrica industrial de fibras ópticas. Em 1983, nos Estados Unidos, foi instalada a primeira rede nacional de telefonia baseada em fibras ópticas. Em 1988, o primeiro cabo transatlântico de fibras ópticas foi instalado.

Atualmente, com bilhões de quilômetros de fibra óptica instalados, as telecomunicações no planeta Terra, principalmente via Internet, dependem fortemente desses finos fios de vidro ou plástico. Com relação a outras tecnologias, a fibra óptica mantém o primeiro lugar em velocidade de transmissão de dados, com imensas quantidades de informação podendo ser transmitidas em 1 segundo entre pontos distantes do planeta. Com relação às ondas de rádio que predominavam nas comunicações ópticas 60 anos atrás, essa capacidade aumentou nada menos que um milhão de vezes. Valeu a pena o esforço de todos os envolvidos na história, não é mesmo?

 


Para saber mais

Artigo em destaque: Labirinto de argila em matriz de hidrogel para liberação controlada de fármacos.

O artigo científico de autoria de membros da comunidade brasileira de pesquisa em Materiais em destaque neste mês é: Celso R. N. Jesus, Eduardo F. Molina, Sandra H. Pulcinelli, and Celso V. Santilli. Highly Controlled Diffusion Drug Release from Ureasil–Poly(ethylene oxide)–Na+–Montmorillonite Hybrid Hydrogel Nanocomposites. ACS Appl. Mater. Interfaces, 2018, 10 (22), pp 19059–19068. DOI: 10.1021/acsami.8b04559

Labirinto de argila em matriz de hidrogel para liberação controlada de fármacos

Ao combinar na escala nanométrica uma argila e um gel polimérico, uma equipe científica com membros da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (UNESP) e da Universidade de Franca (UNIFRAN) desenvolveu um novo material que consegue carregar fármacos e liberá-los de forma gradual e controlada.

A equipe testou in vitro – ou seja, no laboratório, em recipientes que simulam as condições biológicas – o desempenho do material na liberação de diclofenaco sódico. Esse fármaco é um anti-inflamatório, administrável por via oral ou por injeção, bastante utilizado para aliviar o inchaço e a dor gerados, por exemplo, por artrite, reumatismo, lesões musculares, cirurgias ou gota.

O material desenvolvido é um nanocompósito, no qual é possível distinguir um hidrogel polimérico, uma argila e o fármaco. O hidrogel (gel que absorve quantidades de água superiores às normais sem se dissolver) é composto por um material híbrido orgânico-inorgânico chamado siloxano-poliéter ou ureasil. A argila é conhecida como montmorilonita, e se apresenta no nanocompósito em forma de lamelas nanométricas homogeneamente dispersas no hidrogel. Quanto ao diclofenaco sódico, que aparece encapsulado dentro do nanocompósito, é incorporado ao material durante a preparação do mesmo, como se fosse mais um “ingrediente”.

O nanocompósito foi obtido pela equipe paulista por meio do processo sol-gel. Esse método de preparo de materiais é baseado em uma série de reações químicas, nas quais ocorre uma transformação de um “sol” (líquido com partículas nanométricas em suspensão) em um gel (rede rígida tridimensional com interstícios nos quais o líquido permanece imobilizado).

Neste nanocompósito, o hidrogel, que é hidrofílico, tem como função principal absorver água do meio externo e armazená-la em seus interstícios. Nesse ambiente aquoso, moléculas do fármaco se dispersam devido ao processo físico de difusão até atravessarem os poros do hidrogel e saírem para o meio externo, o qual seria o corpo humano se o material estivesse sendo usado para liberar fármacos em pacientes reais.

imagem hidrogelA principal novidade do material é o uso da argila, que é impermeável, para controlar o modo como o fármaco é liberado. De fato, no material desenvolvido pela equipe paulista, as lamelas nanométricas de argila atuaram como barreira física à passagem das moléculas de água e do fármaco.

Conforme ilustra a imagem ao lado, o conjunto de lamelas formou um verdadeiro labirinto que retardou o movimento dessas moléculas, imprimindo um determinado ritmo à absorção de água e à liberação do diclofenaco sódico.

“A principal contribuição do trabalho foi desenvolver um sistema de barreira baseado em um material híbrido orgânico-inorgânico contendo polímero-argila para o controle fino de liberação do fármaco diclofenaco de sódio”, afirma Eduardo Ferreira Molina, autor correspondente de artigo sobre o assunto, recentemente publicado no periódico ACS Applied Materials & Interfaces. Molina atualmente é professor da Universidade de Franca (SP).

No trabalho reportado nessa revista, os autores prepararam uma série de amostras do nanocompósito usando diferentes proporções de argila montmorilonita, e também amostras do hidrogel sem argila. Os cientistas usaram várias técnicas de caracterização para analisar a estrutura dos nanocompósitos obtidos e das fases que os compõem (o hidrogel e a argila), bem como para estudar a absorção de água e a liberação do fármaco no material. Dessa maneira, a equipe conseguiu verificar que a presença da argila era essencial para controlar a forma como o fármaco era liberado. Ajustando a porcentagem de argila usada na preparação dos nanocompósitos, os pesquisadores conseguiram evitar que uma grande dose de diclofenaco sódico fosse liberada no início (um problema comum em sistemas de liberação de fármacos). Eles também conseguiram que a liberação posterior ocorresse de forma pausada e a uma taxa constante e previsível.

Os resultados deste trabalho podem constituir um primeiro passo rumo ao uso deste nanocompósito como sistema de liberação de fármacos para tratamentos prolongados de artrite, enxaqueca, dor pós-cirúrgica etc. Com um sistema como este, a medicação poderia ser liberada paulatinamente nas doses e taxas mais adequadas, mantendo a concentração ideal do fármaco na corrente sanguínea.

Celso R. N. Jesus (esquerda), primeiro autor do artigo e Eduardo F. Molina, autor correspondente.
Celso R. N. Jesus (esquerda), primeiro autor do artigo e Eduardo F. Molina, autor correspondente.

O trabalho, que recebeu financiamento das agências federais brasileiras CAPES e CNPq e da agência paulista FAPESP, foi realizado no Instituto de Química da UNESP, na cidade de Araraquara, com exceção das medidas de espalhamento de raios-X a baixo ângulo (SAXS), realizadas no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), na cidade de Campinas.

A pesquisa foi desenvolvida entre 2010 e 2014 no doutorado em Química de Celso Ricardo Nogueira Jesus, com orientação do professor Celso Valentim Santilli (UNESP) e da professora Sandra Helena Pulcinelli (UNESP). A ideia, até então inédita, de desenvolver esses nanocompósitos para funcionarem como barreiras para liberação controlada de fármacos surgiu no início do doutorado de Nogueira Jesus. O tema reuniu temas desenvolvidos em outros dois trabalhos de pós-graduação. Por um lado, a pesquisa de doutorado de Eduardo Molina, orientada pelo professor Santilli, sobre siloxano-poliéter para liberação controlada de fármacos. Em 2010, esse trabalho estava em fase de conclusão. Por outro lado, o trabalho de mestrado de Márcia Hikosaka, orientado pela professora Pulcinelli e concluído alguns anos atrás, sobre o preparo de nanocompósitos com polímeros e argila montmorilonita.

Volume especial dos Anais da Academia Brasileira de Ciências “Materials Science for a Better Future”.

aabc-sbpmatOs Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC) em parceria com a Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat) lançarão o volume especial “Materials Sciences for a Better Future”.

Segundo o editor, Frank Crespilho, professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) e membro da SBPMat, esta é uma grande oportunidade para se comemorar o sucesso das pesquisas na área de Materiais no Brasil. Também, esse volume especial faz parte da continuação das comemorações do centenário da Academia.

Os sócios da SBPMat e demais pesquisadores estão convidados a submeter seus trabalhos originais completos pelo site da revista no Scielo, de 9 de agosto a 9 de novembro de 2018, indicando na submissão e na Cover Letter sua participação no volume especial.

As publicações dos AABC não têm custo para os autores e podem ser acessadas livremente. Os AABC têm se engajado na publicação de volumes especiais, contemplando todas as áreas das ciências. Recentemente, a revista publicou artigos para o especial “Brazil: Frontiers of Chemical Sciences”, que podem ser acessados livremente aqui.

Site para submissão de trabalhos: https://mc04.manuscriptcentral.com/aabc-scielo