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De 5 a 7 de setembro de 2020, algumas dezenas de estudantes e jovens pesquisadores, junto a alguns professores, dedicaram as tardes do “feriadão” do Dia da Independência do Brasil a participar, na modalidade online, do I Encontro Nacional dos University Chapters da SBPMat (I ENUC).
O evento reuniu membros dos University Chapters (UCs) e pessoas interessadas em conhecê-los. O programa foi montado em torno de dois eixos: as apresentações dos UCs sobre suas equipes, instituições, ações realizadas e projetos para o futuro, e as palestras convidadas sobre assuntos de interesse dos UCs.
O ENUC surgiu a partir do desejo do UC da UFPE de querer interagir com os membros dos outros UCs da SBPMat. Nesta primeira edição, o evento foi totalmente organizado e realizado pelos membros do UC pernambucano.
UCs em ação: learn by doing
Em sua palestra, o professor Newton Barbosa (UFPA), coordenador nacional do programa UCs ponderou que, na carreira científica, ser competente na área do conhecimento escolhida é imprescindível, mas não é suficiente, principalmente no atual momento da história da ciência e da tecnologia, em que a solução de problemas exige interação entre pessoas e áreas. Habilidades como o diálogo, a flexibilidade, a proatividade e a liderança, disse ele, são também necessárias para o pesquisador. “A ideia do programa UCs é justamente ajudar a desenvolver essas habilidades, mediante o método do learn by doing, com os estudantes realizando projetos em equipe”, explicou o cientista.
“A pesquisa sozinha não vai preencher nosso CV”, acrescentou Karolyne Santos da Silva, presidente do UC pernambucano. “Precisaremos também organizar eventos, ocupar cargos administrativos, divulgar nosso trabalho na sociedade, entre outras coisas”, completou a doutoranda, que foi a coordenadora do evento.
Uma ampla gama de projetos realizados pelos chapters foi apresentada ao longo do evento, abrangendo desde a criação da logomarca e do estatuto interno da unidade, até a realização de palestras e entrevistas de divulgação científica para leigos, workshops para motivar meninas a atuarem em ciência e tecnologia, e seminários de formação de pesquisadores. O apoio a campanhas de ação social também faz parte das atividades realizadas pelos UCs, sempre com o duplo objetivo de aprender fazendo e de gerar um impacto positivo no entorno.
Impacto social da pesquisa
Em outra das palestras convidadas, o professor Roberto Faria (IFSC-USP), que foi presidente da SBPMat entre 2012 e 2015, falou um pouco sobre a história do programa UCs. “Eu queria uma maior participação na SBPMat dos estudantes, que são a riqueza maior que um país tem para o futuro”, disse o ex-presidente da SBPMat. Faria contou que tudo começou em 2013, durante sua primeira gestão como presidente da SBPMat. Em um evento científico na cidade de San Francisco (EUA), o professor Faria conversou com a coordenadora do programa de university chapters da Materials Research Society (MRS), que era nada menos que Mildred Dresselhaus, cientista internacionalmente renomada por seus trabalhos com nanomateriais de carbono, falecida em 2017. Um ano depois dessa conversa, o Programa UCs da SBPMat estava funcionando com 4 unidades ativas.
Antes de encerrar a sua fala, Faria convidou os membros dos UCs a pensarem sobre a relação da pesquisa em materiais com o desenvolvimento do Brasil e os problemas dos brasileiros, para achar soluções à contradição entre as riquezas naturais do país e a baixa qualidade de vida de grande parte de sua população.
O impacto social da pesquisa também foi abordado na palestra do professor Eduardo Martinelli (UFRN), diretor científico da SBPMat e coordenador da área de Materiais na CAPES. Martinelli compartilhou o trabalho que a CAPES tem feito para criar métricas que revelem de forma objetiva os impactos gerados pelos cursos de pós-graduação na qualidade de vida das pessoas. “A sociedade investe em nós, pesquisadores, e nós precisamos lhe responder de que maneira a beneficiamos”.
Essa preocupação apareceu também nas apresentações dos UCs, nas ações destinadas a mostrar aos leigos a presença e a importância da ciência na vida cotidiana.
Diversidade, representatividade e multidisciplinaridade
Contando com unidades em todas as regiões brasileiras, membros de diferentes grupos étnicos e uma boa proporção de mulheres nas diretorias, o programa UCs se aproxima bastante do ideal de diversidade e representatividade. Todavia, esses dois conceitos foram intensamente debatidos ao longo do evento, começando pela palestra de abertura, a cargo da professora Mônica Cotta (UNICAMP), presidente SBPMat (a primeira mulher a ocupar esse cargo na Sociedade). “Não é por acaso que temos hoje duas mulheres na abertura do encontro, a presidente da Sociedade e a coordenadora do evento”, notou o professor Petrus Santa Cruz (UFPE), tutor do UC que organizou o evento.
Na palestra, a professora Cotta também falou sobre a função das sociedades científicas e, em particular, sobre o passado, presente e futuro da SBPMat. “Para mim, o futuro está relacionado aos university chapters, porque são seus membros que conseguem se comunicar melhor com as novas gerações”, disse ela. A presidente mostrou que a história da SBPMat é ligada ao caráter fortemente multidisciplinar da pesquisa em materiais, que requer a fusão do conhecimento de físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e outros profissionais.
Pertencentes a uma geração mais habituada à abordagem multidisciplinar, os membros dos chapters incluíram o assunto com naturalidade nas suas apresentações, nas quais apareceram seus esforços por nuclear estudantes de diferentes áreas do conhecimento.
Resultados

O resultado mais evidente do evento foi possibilitar que cada UC conhecesse as outras unidades. Na avaliação da equipe organizadora, o encontro permitiu refletir sobre a efetividade dos projetos próprios e alheios, e as possibilidades de adaptação de cada ação às diversas realidades do país. “Destaco a troca de experiências e ideias entre os vários UCs, que refletem a pluralidade cultural da sociedade brasileira e das várias áreas que integram a comunidade de materiais”, diz a professora Mônica Cotta, presidente da SBPMat, que participou de todo o evento.
O I ENUC também foi gerador de projetos conjuntos. “Sem sombra de dúvidas, o ENUC promoveu de forma inédita a integração entre os vários UCs do nosso programa, a qual já pode ser vista em termos práticos com a organização em rede de um ciclo de webinários, que foi fruto do evento”, diz o professor Newton Barbosa, coordenador nacional do Programa UCs, que também acompanhou o evento na íntegra.
Além disso, o evento propiciou um contato mais profundo dos membros do programa com a diretoria da SBPMat e com outras pessoas que atuam ou atuaram na Sociedade. “Foi muito motivador poder observar a maturidade, o compromisso e o envolvimento destes alunes com os valores que partilhamos na SBPMat, e na área acadêmica em geral, como o respeito à ciência e ao método científico, a valores éticos, à diversidade e representatividade em todos seus aspectos”, expressa a presidente da Sociedade.
Outro importante resultado do I ENUC, na visão do professor Barbosa, foi o de ter aperfeiçoado a ideia do que é ser membro de um UC da SBPMat. “Ser parte de um chapter é, já na mais tenra idade científica, participar das discussões dos macroproblemas da Ciência e Engenharia de Materiais. Ser capaz de pensar e propor, de forma profissional e respeitosa, soluções para estes problemas. Ir além da bancada do laboratório e se tornar um profissional com múltiplas habilidades”, resumiu o coordenador do programa.
Comunicação e patrocínios

O evento também contou com uma palestra de Verónica Savignano, responsável por Comunicações na SBPMat. A jornalista científica apresentou todos os canais de comunicação da SBPMat, seus públicos e conteúdos, visando abrir possibilidades de interação com os UCs. Ao falar para uma geração muito mais acostumada que as anteriores à divulgação (via redes sociais), a jornalista procurou gerar uma reflexão sobre os critérios e diretrizes (éticos, estéticos e técnicos) que devem nortear o trabalho de comunicação. No momento das perguntas, a discussão girou em torno dos conceitos de desinformação, infodemia, pseudociência e fake news.
Finalmente, em outra palestra convidada, Rosely Maier Queiroz, ex-diretora financeira do UC-UFPE, compartilhou um passo-a-passo de como conseguir patrocínio e gerenciar o orçamento dos projetos dos UCs, com dicas específicas para este momento de pandemia e crise econômica.
Independência, tecnologia e luta
“Acho que a data deste evento é simbólica, pois a independência de um país depende da independência tecnológica”, disse o professor Petrus Santa Cruz, ao abrir o encontro. “Neste ano não tem desfile da Independência por causa da pandemia, mas tem um alerta de luta, a luta pela educação, pela ciência, pela redução das desigualdades sociais”, disse Karolyne, encerrando o evento.
O evento foi gravado e está disponível no canal do UC-UFPE no YouTube.
O Programa University Chapters da SBPMat promoverá webinários durante os meses de outubro e novembro. Cada chapter será responsável pela organização de um webinário. As palestras se propõem atender não só o público universitário, mas também todas as pessoas que tenham interesse sobre a temática.
Dentro dessa proposta, o UC-UFPE dará início ao ciclo com um webinário sobre empreendedorismo com foco na criação de startups com Edson Mackeenzy, conhecido como um dos principais incentivadores do ecossistema de startups do Brasil.
Veja a programação com as palestras confirmadas até o momento:
UC-UFPE
Título: COMO AS STARTUPS ESTÃO TRANSFORMANDO AS ORGANIZAÇÕES.
Palestrante: Edson Mackeenzy.
Data e horário: Segunda-feira, 05/10/2020 às 18h.
Através do Zoom (link aqui) e Youtube (link aqui).
UC – Caxias do Sul
Título: BIOMATERIAIS E SUA COMPATIBILIDADE COM A ENGENHARIA DE MATERIAIS.
Palestrante: Prof. Dra. Jadna Catafesta (coordenadora dos cursos de Engenharia de Materiais e Polímeros) – Universidade Caxias do Sul, RS.
Data e horário: 15/10/2020 às 20h.
Através do Zoom (link aqui).
UC – Catalão
Título: MINERAÇÃO ESPACIAL (Nome da palestra ainda será definido)
Palestrante: Dr. André Carlos Silva
Data e horário: 23/10/2020 às 15h.
Através do Zoom (link aqui).
UC – Teresina
Título: INTELIGENCIA ARTIFICIAL E MATERIAIS
Palestrante: Prof. Osvaldo Novais de Oliveira Jr.- Instituto de Física de São Carlos – USP
Data e horário:
Através do Zoom (link aqui).
Perovskitas aditivadas para células solares mais estáveis

Graças às contribuições de grupos de pesquisa de diversos países, as células solares baseadas em perovskitas tornaram-se rapidamente competitivas em termos de eficiência de conversão de energia – a porcentagem de energia solar que é convertida em energia elétrica – alcançando valores acima de 25%. Infelizmente, a boa eficiência conquistada para essas células solares não se mantém ao longo de seu tempo de uso, principalmente por causa da instabilidade da sua camada ativa. Composta por materiais da família das perovskitas, essa camada do “sanduíche” de materiais que forma uma célula solar é a responsável por absorver a luz. Face à umidade, e até mesmo à própria luz, a perovskita se degrada e atenta contra a vida útil da célula solar.
O problema tem ocupado muitos pesquisadores da área, entre eles, os do Laboratório de Nanotecnologia e Energia Solar (LNES), da Unicamp, liderado pela professora Ana Flávia Nogueira. Em pesquisa recentemente reportada no Journal of Materials Chemistry C (fator de impacto 7,059), membros do LNES conseguiram produzir filmes de perovskita mais estáveis frente à umidade e iluminação. Com eles, fabricaram células solares que apresentaram perdas de eficiência menores ao longo do tempo.

A estratégia adotada foi a de adicionar à perovskita um composto que lhe outorga estabilidade sem interferir negativamente na sua estrutura cristalina, da qual emergem propriedades essenciais para seu uso em células solares. O aditivo escolhido, um copolímero (polímero formado por dois monômeros diferentes), foi adicionado em diferentes concentrações à solução de iodeto de chumbo e iodeto metilamônio, a qual, ao cristalizar, forma um filme de perovskita modificado e mais estável.
Os pesquisadores usaram a técnica de spin coating para preparar filmes de perovskita pura e de perovskita “aditivada”. Em um teste de degradação do material, os autores expuseram as amostras à luz e umidade ambiente durante nove dias e observaram sua degradação, que ficou visível a olho nu pelo amarelamento dos filmes, cuja cor original é quase preta. Nas amostras com aditivo, a degradação foi retardada em alguns dias com relação às amostras de perovskita pura.
Outro teste realizado pela equipe mostrou a capacidade dos filmes de se regenerarem após uma degradação inicial provocada pela exposição a um umidificador. As amostras aditivadas não apenas se degradaram menos, como também se regeneraram de forma espontânea, quase totalmente, trinta segundos após a retirada da fonte de umidade – um fenômeno conhecido como healing– como pode ser visto neste vídeo.
“Neste trabalho foi demonstrado que a incorporação de um copolímero a base de poli(óxido de etileno) à camada de perovskita consegue retardar e, em alguns casos, até reverter o processo de degradação do filme frente a umidade e iluminação”, resume Jeann Carlos da Silva, coautor do artigo.
Para estudar detalhadamente a estrutura e composição dos filmes, os autores usaram uma série de técnicas de caracterização, inclusive uma técnica de difração de raios X (in situ GWAXS), disponível no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que permitiu monitorar o processo de fabricação dos filmes. A partir do conjunto de resultados da caracterização, os autores conseguiram explicar o mecanismo que gera o efeito protetor nos filmes de perovskita aditivados. De acordo com eles, o efeito ocorre, principalmente, devido à interação que o copolímero realiza, por meio de ligações de hidrogênio, com o cátion metilamônio da perovskita. Nos filmes não aditivados, luz e umidade fazem com que parte do metilamônio passe ao estado gasoso e acabe saindo da estrutura da perovskita, gerando a degradação, parcialmente irreversível. Já nos filmes aditivados, o copolímero consegue reter o metilamônio, o que gera filmes mais estáveis e com maior capacidade de regeneração.
“Desse estudo, também foi possível investigar a dinâmica de cristalização da perovskita contendo o copolímero e entender os mecanismos de formação perovskita/copolímero em condições de umidade e iluminação”, destaca Francineide Lopes de Araújo, coautora do artigo. “Além disso, através do uso de técnicas de caracterização como a difração de raios-X in situ, o trabalho explora uma área importante para a compreensão do material, oferecendo uma enorme contribuição para a comunidade científica e abrindo novas perspectivas de investigações sobre a aplicação de polímeros no processo de formação e fabricação de células solares de perovskita”, completa.
Finalmente, a equipe científica fabricou células solares usando os filmes de perovskita com e sem aditivo como camada ativa, e comparou sua eficiência de conversão de energia. Inicialmente, a presença do copolímero diminuiu a eficiência dos dispositivos, já que, por ser um material isolante, ele prejudica a transferência de cargas elétricas. Contudo, nos testes de estabilidade, nos quais os dispositivos foram expostos a umidade e luminosidade durante vinte dias, as células de perovskita aditivada tiveram melhor desempenho.
Em números: enquanto as células solares de perovskita pura iniciaram com 17% de eficiência e mantiveram 47% desse valor no final do teste, os dispositivos de perovskita contendo 1,5 mg mL-1 % de copolímero tiveram uma eficiência inicial de cerca de 15%, mas mantiveram 68% dela depois dos 20 dias de teste.
“O problema da estabilidade das células solares de perovskita infelizmente não pôde ser solucionado de maneira definitiva através dessa pesquisa, no entanto, foi explorada uma importante via de proteção do material, principalmente contra exposição agressiva à umidade e iluminação, que futuramente pode ser combinada com outros mecanismos de proteção”, resume Jeann Carlos da Silva. “A pesquisa também reforça a viabilidade de se incorporar compostos extrínsecos à perovskita como agentes de proteção”, completa.
Este trabalho foi iniciado no LNES em 2016, no mestrado de Jeann Carlos da Silva, logo após o desenvolvimento, nesse mesmo laboratório, do primeiro protótipo de célula solar de perovskita do Brasil. A pesquisa foi finalizada através da colaboração da pós doutoranda Francineide Lopes de Araújo e de outros membros e ex-membros do grupo, sempre sob orientação da professora Ana Flávia.
O estudo contou com financiamento das agências brasileiras FAPESP, CNPq e CAPES, e é tema do projeto “Células Solares de Perovskita para Fotossíntese Artificial” do Center for Innovation on New Energies (CINE) com apoio da Shell e da Fapesp.


[Texto do professor Petrus Santa Cruz (DQF/UFPE), sócio da SBPMat.]
Alguns pesquisadores fizeram a diferença pelas contribuições dadas na consolidação de importantes áreas da Ciência no Brasil. No caso do Prof. Larry Clark Thompson, da Universidade de Minnesota-Duluth, será sempre lembrado não somente pela sua importância para a área dos compostos de coordenação no país, mas também pela sua generosidade. Durante o workshop “Larry Thompson e o Brasil” realizado para comemorar 40 anos de cooperação internacional em 2009, foi relembrado o início de suas contribuições na ciência brasileira em 1970, quando recebeu os professores Gilberto Sá (DQF/UFPE) e Oswaldo Serra (USP/Ribeirão Preto) em seu Grupo nos EUA, resultando em colaborações que se estenderam durante toda a sua vida acadêmica.
Ao longo dos últimos 50 anos, vários foram os episódios marcados por sua generosidade. Em 2002 o Prof. Thompson participou de banca de tese no DQF/UFPE sobre trabalhos pioneiros na exploração da degradação de seus complexos de lantanídeos, que resultou em dispositivo inovador para dosimetria de radiação UV, mas antes de participar da banca, Thompson hospedou a doutoranda em sua residência em Minnesota-Duluth, para que ela mostrasse a ele em seu laboratório, que os complexos realmente se degradavam sob ação da radiação UV, dando origem a uma nova linha de pesquisa de dispositivos para prevenção de câncer de pele, atualmente explorados para monitoramento individual de vitamina D em projeto do programa Sibratec Nano. Várias outras aplicações utilizam como parte ativa materiais luminescentes derivados de seus trabalhos.
Thompson esteve pela última vez no Brasil em 2017, mas infelizmente as circunstâncias impediram este ano a realização do workshop “Larry Thompson e o Brasil”, dos 50 anos de colaborações. Partiu aos 85 anos no último dia 15 de agosto, deixando muitas lembranças.
Prof. Petrus Santa Cruz (DQF/UFPE)
A Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat/ B-MRS) e a União Internacional de Sociedades de Pesquisa em Materiais (IUMRS) convidam a comunidade científica a enviar propostas de simpósio para o evento conjunto sobre pesquisa em materiais que ocorrerá de 29 de agosto de 2 de setembro de 2021.
Está aberta, até 2 11 de novembro de 2020 (prazo prorrogado), a chamada de propostas de simpósio para o evento que reunirá o XIX B-MRS Meeting (evento anual da SBPMat/B-MRS) e o IUMRS – ICEM (décima sétima edição da conferência internacional sobre materiais eletrônicos organizada bienalmente pela IUMRS).
O evento, inicialmente agendado para ocorrer em 2020, foi adiado em função da pandemia, e será realizado de 29 de agosto a 2 de setembro de 2021. O local permanece o mesmo: o Rafain Palace Hotel and Conventions, localizado em Foz do Iguaçu (Brasil), cidade turística próxima à fronteira com a Argentina e o Paraguai, que serve de base para as visitas às Cataratas do Iguaçu e para os outros atrativos dos entornos.
As propostas de simpósio podem ser submetidas por equipes de pesquisadores, de preferência de composição internacional, que desejem organizar um simpósio temático dentro do evento. As propostas que tinham sido enviadas e aprovadas para o evento de 2020 também deverão ser ressubmetidas. “Todas as propostas de simpósios precisarão ser enviadas até o prazo limite, incluindo aquelas que haviam sido aceitas para o evento de 2020”, reforça o professor Gustavo Dalpian, coordenador do evento. “Os organizadores dos simpósios que haviam sido aprovados anteriormente notarão, ao acessarem o sistema, que os dados da proposta de 2020 foram automaticamente copiados para o evento de 2021. Desta forma, os organizadores poderão fazer os ajustes necessários e ressubmeter, mas sem ter que entrar tudo novamente”, completa.
Como ocorre em todas as edições do B-MRS Meeting, o evento abrangerá um amplo leque de temas de Ciência e Tecnologia de Materiais, com uma ênfase especial em materiais eletrônicos, devida ao IUMRS ICEM. São bem-vindas, portanto, propostas de simpósios em temas relativos a todos os tipos de materiais, do design e síntese até as aplicações.
Para submeter uma proposta de simpósio, basta preencher, em idioma inglês, o formulário online disponível em http://sbpmat.org.br/proposed_symposium/.
Os simpósios constituirão o eixo principal do evento junto às palestras plenárias, as quais contarão com cientistas internacionalmente destacados que já confirmaram presença: Alex Zunger (University of Colorado Boulder, EUA), Edson Leite (LNNano, Brasil), Hideo Hosono (Tokyo Institute of Technology, Japão), John Rogers (Northwestern University, EUA), Luisa Torsi (Università degli Studi di Bari “A. Moro”, Itália), Tao Deng (Shanghai Jiaotong University, China) e Thuc-Quyen Nguyen (University of California Santa Barbara, EUA). A tradicional Palestra Memorial Joaquim da Costa Ribeiro será proferida por Cid Bartolomeu de Araújo (UFPE, Brazil).
As propostas de simpósio serão avaliadas pelo comitê do evento, e, até o final de 2020, será divulgada a lista dos simpósios aprovados. No dia 1º de fevereiro de 2021, será aberta a chamada de trabalhos, os quais deverão ser submetidos dentro dos simpósios temáticos. Os organizadores dos simpósios serão responsáveis pela avaliação dos resumos submetidos e pela programação do simpósio.
O evento conjunto XIX B-MRS Meeting + IUMRS ICEM 2021 é coordenado pelos professores Gustavo Martini Dalpian (UFABC) na coordenação geral, Carlos Cesar Bof Bufon (LNNANO) na coordenação de programa e Flavio Leandro de Souza (UFABC) como secretário geral. No comitê internacional, o evento conta com cientistas da América, Ásia, Europa e Oceania.
As últimas edições do B-MRS Meeting reuniram entre 1.100 e 2.000 participantes de vários países do mundo, que apresentaram seus trabalhos dentro dos simpósios.
Veja o site do evento: https://www.sbpmat.org.br/19encontro/ .

Olívia: de volta à casa dos pais depois de ter desenvolvido um sensor para detecção precoce de doenças.

O câncer de cabeça e pescoço atinge milhares de brasileiros todos os anos. Cerca de 60% dessas pessoas são diagnosticadas tardiamente, o que diminui sua qualidade de vida e dificulta o tratamento. Em seu doutorado em Ciências e Engenharia de Materiais, realizado na USP, Olívia Carr gerou um sensor de baixo custo capaz de detectar a propensão de um ser humano a desenvolver esse câncer.
O trabalho de Olívia foi destacado na capa de um renomado periódico científico internacional (o Talanta), além de gerar um pedido de patente e outros artigos publicados. E mais. A tecnologia desenvolvida nesse trabalho poderia ser adaptada para detectar outras doenças, inclusive a Covid-19.
Olívia, que tem 30 anos, deseja continuar fazendo contribuições à sociedade por meio da pesquisa, que é a atividade profissional que mais gosta de fazer e para a qual se capacitou durante uma década. Porém, desde o final do doutorado, em novembro do ano passado, ela só tem visto portas se fechando.
Inicialmente, a recém-doutora recebeu, com muito entusiasmo, três propostas para realizar pós-doutorado em projetos de empresas, mas duas delas caíram por conta da pandemia (as empresas preferiram não fazer esse investimento no novo cenário) e a terceira não vingou por outros motivos. A jovem doutora participou, então, de uma chamada do CNPq (principal agência federal de financiamento à pesquisa) para projetos relacionados ao combate da Covid-19, na qual ganharia uma bolsa. Contudo, o projeto não foi aprovado para receber financiamento. Depois dessas primeiras frustrações, Olívia continuou participando de processos seletivos em instituições de pesquisa e enviou seu currículo para empresas do Brasil que têm área de pesquisa e desenvolvimento. Infelizmente, não teve sucesso.
Em paralelo, para se manter ativa e dar sequência à carreira, ela tem trabalhado junto a antigos e novos colaboradores, escrevendo artigos científicos e um capítulo de livro acadêmico para publicação. Tudo sem receber remuneração, motivo pelo qual a jovem teve que voltar à casa dos pais na cidade de Rio Claro (SP), da qual tinha saído para fazer o doutorado em São Carlos.
Mas não é a primeira vez que Olívia passa por apertos financeiros para poder atuar em pesquisa. Nos quatro anos de doutorado, passou mais da metade do tempo sem bolsa. E aqui vale a pena fazer um esclarecimento, pois se engana quem pensa que o doutorando ganha bolsa para ter mais tempo para o estudo ou o ócio. O doutorado é, na maior parte dos casos, uma atividade de tempo integral, que inclui tanto a formação teórica do estudante (as disciplinas cursadas) quanto seu treinamento prático (a pesquisa de doutorado). Além disso, a pesquisa de doutorado é, muito além de um treinamento, um trabalho científico completo, cujos resultados contribuem ao avanço da ciência mundial e à inovação industrial.
Até o momento, Olívia não desistiu de ser pesquisadora, profissão que a encantou já no final da graduação em Física, quando conheceu o dia-a-dia de um laboratório de pesquisa. Todavia, depois de 10 meses sem remuneração, esta profissional da ciência, capacitada para desenvolver dispositivos que podem ter grande impacto na saúde das pessoas, começa a avaliar outras opções, como dar aulas de Física.
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Pós-doc: profissional essencial para um grupo de pesquisa eficiente
Na pandemia de Covid-19 que o mundo atravessa, a importância da ciência e da tecnologia tem ficado mais evidente para muitas pessoas, com exemplos que vão desde testes diagnósticos e vacinas até os dispositivos eletrônicos que nos permitem fazer quase tudo à distância.
Contudo, poucos conhecem em detalhe como é gerado o conhecimento científico e tecnológico nas universidades, que são as principais “fábricas” de conhecimento científico no Brasil. Para cada avanço reportado em um artigo ou patente, ou transformado em um produto ou processo, há meses ou anos de leitura, experimentos no laboratório, simulações no computador, discussões, análises de resultados. Além disso, existe o trabalho administrativo necessário em toda pesquisa, que inclui, entre outras tarefas, a elaboração de projetos para competir por financiamento, o recrutamento de recursos humanos e as compras de insumos e equipamentos – muitas vezes envolvendo burocráticas importações.
Muito longe da imagem do cientista trabalhando sozinho no laboratório, a realidade é que, para que tudo isso seja realizado, cada projeto científico deve contar com uma equipe de colaboradores. Idealmente, essas equipes são formadas por pessoas com diferentes graus de qualificação e experiência: bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado (recursos humanos em processo de formação), bolsistas de pós-doutorado (os profissionais juniores da ciência) e professores-pesquisadores (os líderes dos grupos).
Além de trabalharem em seus projetos de pesquisa, os “pós-docs” auxiliam na intermediação entre o professor-pesquisador e os estudantes, e ganham experiência no gerenciamento de pesquisa, pois participam mais ativamente de atividades administrativas a ela relacionadas. Diferentemente do professor, o pós-doc não tem obrigação de exercer a docência, nem precisa ocupar cargos de gestão na universidade. “O(a) pós-doutorando(a) pode se dedicar integralmente a projetos de pesquisa, garantindo eficiência”, afirma Osvaldo Novais de Oliveira Junior, professor-pesquisador do Instituto de Física de São Carlos da USP.
Nessa estrutura, todos se beneficiam. Os bolsistas-estudantes recebem mais atenção na sua formação, o pós-doc ganha experiência na profissão de cientista e o grupo se torna mais produtivo. “Em um grupo, a atuação do pós-doc alavanca a pesquisa e permite realizar trabalhos de maior complexidade”, diz a professora Mônica Cotta, líder do Laboratório de Nano e Biossistemas na UNICAMP.
Bolsas de pós-doutorado em queda
Um número aparentemente grande de doutores formados encontra-se atualmente numa busca infrutífera de oportunidades para exercer a atividade científica. A situação tem relação com a diminuição na quantidade de bolsas ofertadas pelas agências federais que lidam com bolsas de pesquisa: o CNPq e a Capes. De fato, depois de atingir valores máximos entre 2014 e 2015, a quantidade de bolsas de pós-doutorado tem diminuído significativamente, como mostram estes gráficos.

Sem remuneração, estes profissionais altamente capacitados e especializados, cuja formação leva em média uma década, podem encontrar posições no exterior, somando-se à “fuga de cérebros” que ocorre em épocas de pouca valorização da pesquisa no país. Ou pior, abandonar a ciência para garantir sua sobrevivência financeira.
Diferentemente de outros grupos que estão sofrendo por diminuição ou ausência de renda na pandemia, o grupo dos doutores sem remuneração não tem tido visibilidade na sociedade, nem tem sido atendido por algum programa de auxílio do governo.
Frente a este panorama, a SBPMat está reunindo histórias de doutores que não encontram oportunidades para se manterem ativos na pesquisa, com o objetivo de sensibilizar a sociedade e o governo para as dificuldades que estas pessoas e suas famílias estão passando, compreender os impactos negativos desta situação para o país e solicitar a recomposição do número de bolsas de pós-doutorado, além de uma política de valorização e incentivo à colocação de doutores em atividades de desenvolvimento e inovação em nossa sociedade.
Tales: doutor em Química, freelancer e pesquisador voluntário

Professor-pesquisador é a profissão que Tales da Silva Daitx escolheu para si. Gosta de ciência desde criança, mas foi na universidade que encontrou a paixão de descobrir coisas novas e de transmitir conhecimento a outros através da pesquisa e da docência. Tales percorreu, então, o caminho necessário para se formar adequadamente e se tornar apto a concursar em alguma instituição pública ou particular de ensino e pesquisa.
Depois da graduação em Química na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele conseguiu ingressar no programa de pós-graduação em Química dessa universidade – um programa de excelência, com nota máxima na avaliação da Capes (entidade encarregada da expansão e consolidação da pós-graduação no Brasil). Ali, passou seis anos fazendo o mestrado e o doutorado, ambos com pesquisas na área de materiais inteligentes.
Em meados de março deste ano, poucos dias após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia de Covid-19, Tales defendeu sua tese – etapa final de todo doutorado – no Instituto de Química da UFRGS. Foi uma das últimas defesas realizadas de forma presencial no instituto, junto à da esposa dele, que realizara o doutorado simultaneamente. Desde então, o casal, que mora em Porto Alegre, está tentando conseguir renda para pagar suas contas e, ao mesmo tempo, se manter ativo e produtivo na pesquisa – dois objetivos que não tem sido possível conciliar.
Ao se doutorar, Tales pretendia passar à etapa seguinte da carreira científica, o pós-doutorado (popularmente chamado de “pós-doc”). Para isso, ele contatou um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde poderia aplicar o conhecimento adquirido na pós-graduação em um projeto de desenvolvimento de nanopartículas inteligentes para uso em embalagens biodegradáveis.
Assim, depois da defesa do doutorado, já em plena pandemia, Tales participou de dois editais do CNPq, principal agência federal de financiamento à pesquisa, para tentar obter uma bolsa de pós-doc, com valor em torno dos 4 mil reais. Capacitado para realizar o projeto e dono de um currículo competitivo, com onze artigos científicos publicados em periódicos internacionais e duas patentes (uma depositada e uma já concedida), Tales obteve uma nota próxima à máxima no primeiro edital. Contudo, ele foi informado de que não seria contemplado com uma bolsa devido aos recursos disponíveis. O segundo edital, cujo resultado sairia neste mês de agosto, foi suspenso devido à pandemia.
Atualmente, enquanto busca outras oportunidades, Tales atua como pós-doc voluntário (sem bolsa nem outro tipo de remuneração) no grupo de pesquisa onde realizou o doutorado. Participa de reuniões, faz buscas bibliográficas, escreve projetos. Entretanto, ele não consegue se dedicar a essas atividades em tempo integral, já que, para suprir as necessidades financeiras básicas do casal, Tales se tornou um freelancer. Este profissional de 30 anos, altamente capacitado e especializado em uma área do conhecimento, passa boa parte do seu tempo realizando serviços que não requerem essa qualificação, como o lançamento de dados em sistemas informatizados.
“Eu acho uma pena esta situação no Brasil, da falta de oportunidades para doutores. No passado houve bastante investimento em ciência e tecnologia, e teve bons resultados. O país ficou bem posicionado no mundo em pesquisa. Mas o investimento não teve continuidade, e isso fará com que se volte à estaca zero” diz Tales. “Além disso, a pandemia mexeu no sistema de pesquisa. As políticas públicas de C&T deveriam ser revisadas”, completa.
No mês de agosto foram realizados os últimos webinários técnicos de 2020 do programa Lives & Webinars da SBPMat. Cinco palestras online sobre instrumentação científica e caracterização de materiais foram proferidas por profissionais de empresas de instrumentação, do Brasil e do exterior. Entre 30 e 160 participantes assistiram a cada uma das palestras, realizadas no Zoom e no Facebook da SBPMat.
O programa Lives & Webinars é uma iniciativa da SBPMat para aprendizagem e treinamento durante o período de distanciamento social devido à pandemia de Covid-19, realizada em parceria com empresas de instrumentação.
Assista aos webinários realizados em agosto cuja gravação foi autorizada pelos palestrantes: