I Encontro Nacional dos University Chapters da SBPMat: cobertura do evento.



box enucDe 5 a 7 de setembro de 2020, algumas dezenas de estudantes e jovens pesquisadores, junto a alguns professores, dedicaram as tardes do “feriadão” do Dia da Independência do Brasil a participar, na modalidade online, do I Encontro Nacional dos University Chapters da SBPMat (I ENUC).

O evento reuniu membros dos University Chapters (UCs) e pessoas interessadas em conhecê-los. O programa foi montado em torno de dois eixos: as apresentações dos UCs sobre suas equipes, instituições, ações realizadas e projetos para o futuro, e as palestras convidadas sobre assuntos de interesse dos UCs.

O ENUC surgiu a partir do desejo do UC da UFPE de querer interagir com os membros dos outros UCs da SBPMat. Nesta primeira edição, o evento foi totalmente organizado e realizado pelos membros do UC pernambucano.

UCs em ação: learn by doing

Em sua palestra, o professor Newton Barbosa (UFPA), coordenador nacional do programa UCs ponderou que, na carreira científica, ser competente na área do conhecimento escolhida é imprescindível, mas não é suficiente, principalmente no atual momento da história da ciência e da tecnologia, em que a solução de problemas exige interação entre pessoas e áreas. Habilidades como o diálogo, a flexibilidade, a proatividade e a liderança, disse ele, são também necessárias para o pesquisador. “A ideia do programa UCs é justamente ajudar a desenvolver essas habilidades, mediante o método do learn by doing, com os estudantes realizando projetos em equipe”, explicou o cientista.

“A pesquisa sozinha não vai preencher nosso CV”, acrescentou Karolyne Santos da Silva, presidente do UC pernambucano. “Precisaremos também organizar eventos, ocupar cargos administrativos, divulgar nosso trabalho na sociedade, entre outras coisas”, completou a doutoranda, que foi a coordenadora do evento.

Uma ampla gama de projetos realizados pelos chapters foi apresentada ao longo do evento, abrangendo desde a criação da logomarca e do estatuto interno da unidade, até a realização de palestras e entrevistas de divulgação científica para leigos, workshops para motivar meninas a atuarem em ciência e tecnologia, e seminários de formação de pesquisadores. O apoio a campanhas de ação social também faz parte das atividades realizadas pelos UCs, sempre com o duplo objetivo de aprender fazendo e de gerar um impacto positivo no entorno.

Impacto social da pesquisa

Em outra das palestras convidadas, o professor Roberto Faria (IFSC-USP), que foi presidente da SBPMat entre 2012 e 2015, falou um pouco sobre a história do programa UCs. “Eu queria uma maior participação na SBPMat dos estudantes, que são a riqueza maior que um país tem para o futuro”, disse o ex-presidente da SBPMat. Faria contou que tudo começou em 2013, durante sua primeira gestão como presidente da SBPMat. Em um evento científico na cidade de San Francisco (EUA), o professor Faria conversou com a coordenadora do programa de university chapters da Materials Research Society (MRS), que era nada menos que Mildred Dresselhaus, cientista internacionalmente renomada por seus trabalhos com nanomateriais de carbono, falecida em 2017. Um ano depois dessa conversa, o Programa UCs da SBPMat estava funcionando com 4 unidades ativas.

Antes de encerrar a sua fala, Faria convidou os membros dos UCs a pensarem sobre a relação da pesquisa em materiais com o desenvolvimento do Brasil e os problemas dos brasileiros, para achar soluções à contradição entre as riquezas naturais do país e a baixa qualidade de vida de grande parte de sua população.

O impacto social da pesquisa também foi abordado na palestra do professor Eduardo Martinelli (UFRN), diretor científico da SBPMat e coordenador da área de Materiais na CAPES. Martinelli compartilhou o trabalho que a CAPES tem feito para criar métricas que revelem de forma objetiva os impactos gerados pelos cursos de pós-graduação na qualidade de vida das pessoas. “A sociedade investe em nós, pesquisadores, e nós precisamos lhe responder de que maneira a beneficiamos”.

Essa preocupação apareceu também nas apresentações dos UCs, nas ações destinadas a mostrar aos leigos a presença e a importância da ciência na vida cotidiana.

Diversidade, representatividade e multidisciplinaridade

Contando com unidades em todas as regiões brasileiras, membros de diferentes grupos étnicos e uma boa proporção de mulheres nas diretorias, o programa UCs se aproxima bastante do ideal de diversidade e representatividade. Todavia, esses dois conceitos foram intensamente debatidos ao longo do evento, começando pela palestra de abertura, a cargo da professora Mônica Cotta (UNICAMP), presidente SBPMat (a primeira mulher a ocupar esse cargo na Sociedade). “Não é por acaso que temos hoje duas mulheres na abertura do encontro, a presidente da Sociedade e a coordenadora do evento”, notou o professor Petrus Santa Cruz (UFPE), tutor do UC que organizou o evento.

Na palestra, a professora Cotta também falou sobre a função das sociedades científicas e, em particular, sobre o passado, presente e futuro da SBPMat. “Para mim, o futuro está relacionado aos university chapters, porque são seus membros que conseguem se comunicar melhor com as novas gerações”, disse ela. A presidente mostrou que a história da SBPMat é ligada ao caráter fortemente multidisciplinar da pesquisa em materiais, que requer a fusão do conhecimento de físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e outros profissionais.

Pertencentes a uma geração mais habituada à abordagem multidisciplinar, os membros dos chapters incluíram o assunto com naturalidade nas suas apresentações, nas quais apareceram seus esforços por nuclear estudantes de diferentes áreas do conhecimento.

Resultados

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O resultado mais evidente do evento foi possibilitar que cada UC conhecesse as outras unidades. Na avaliação da equipe organizadora, o encontro permitiu refletir sobre a efetividade dos projetos próprios e alheios, e as possibilidades de adaptação de cada ação às diversas realidades do país. “Destaco a troca de experiências e ideias entre os vários UCs, que refletem a pluralidade cultural da sociedade brasileira e das várias áreas que integram a comunidade de materiais”, diz a professora Mônica Cotta, presidente da SBPMat, que participou de todo o evento.

O I ENUC também foi gerador de projetos conjuntos. “Sem sombra de dúvidas, o ENUC promoveu de forma inédita a integração entre os vários UCs do nosso programa, a qual já pode ser vista em termos práticos com a organização em rede de um ciclo de webinários, que foi fruto do evento”, diz o professor Newton Barbosa, coordenador nacional do Programa UCs, que também acompanhou o evento na íntegra.

Além disso, o evento propiciou um contato mais profundo dos membros do programa com a diretoria da SBPMat e com outras pessoas que atuam ou atuaram na Sociedade. “Foi muito motivador poder observar a maturidade, o compromisso e o envolvimento destes alunes com os valores que partilhamos na SBPMat, e na área acadêmica em geral, como o respeito à ciência e ao método científico, a valores éticos, à diversidade e representatividade em todos seus aspectos”, expressa a presidente da Sociedade.

Outro importante resultado do I ENUC, na visão do professor Barbosa, foi o de ter aperfeiçoado a ideia do que é ser membro de um UC da SBPMat. “Ser parte de um chapter é, já na mais tenra idade científica, participar das discussões dos macroproblemas da Ciência e Engenharia de Materiais. Ser capaz de pensar e propor, de forma profissional e respeitosa, soluções para estes problemas. Ir além da bancada do laboratório e se tornar um profissional com múltiplas habilidades”, resumiu o coordenador do programa.

Comunicação e patrocínios
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O evento também contou com uma palestra de Verónica Savignano, responsável por Comunicações na SBPMat. A jornalista científica apresentou todos os canais de comunicação da SBPMat, seus públicos e conteúdos, visando abrir possibilidades de interação com os UCs. Ao falar para uma geração muito mais acostumada que as anteriores à divulgação (via redes sociais), a jornalista procurou gerar uma reflexão sobre os critérios e diretrizes (éticos, estéticos e técnicos) que devem nortear o trabalho de comunicação. No momento das perguntas, a discussão girou em torno dos conceitos de desinformação, infodemia, pseudociência e fake news.

Finalmente, em outra palestra convidada, Rosely Maier Queiroz, ex-diretora financeira do UC-UFPE, compartilhou um passo-a-passo de como conseguir patrocínio e gerenciar o orçamento dos projetos dos UCs, com dicas específicas para este momento de pandemia e crise econômica.

Independência, tecnologia e luta

“Acho que a data deste evento é simbólica, pois a independência de um país depende da independência tecnológica”, disse o professor Petrus Santa Cruz, ao abrir o encontro. “Neste ano não tem desfile da Independência por causa da pandemia, mas tem um alerta de luta, a luta pela educação, pela ciência, pela redução das desigualdades sociais”, disse Karolyne, encerrando o evento.

O evento foi gravado e está disponível no canal do UC-UFPE no YouTube.


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