Gente da nossa comunidade: Entrevista com Victor Carlos Pandolfelli.

Victor Carlos Pandolfelli, professor titular do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (DEMa – UFSCar), foi empossado como membro do advisory board  da World Academy of Ceramics (WAC) em cerimônia realizada no dia 11 de junho em Montecatini Termi (Itália), durante a International Conference on Modern Materials and Technologies (CIMTEC). Na ocasião também foi realizada a primeira reunião do advisory board. Eleito para o mandato 2014 – 2018, Pandolfelli é um dos dois representantes das Américas no período, junto a um pesquisador dos Estados Unidos.

Graduado em Engenharia de Materiais pelo DEMa – UFSCar (1979), Victor Carlos Pandolfelli vem pesquisando temas da área de materiais cerâmicos desde os tempos de seu mestrado, defendido em 1984 no DEMa-UFSCar. Foi também nessa área a pesquisa de seu doutorado na University of Leeds (Reino Unido), concluído em 1989, e do estágio de pós-doutorado realizado de 1996 a 1997 na École Polytechnique de Montreal, no Canadá.

Pandolfelli é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e fellow da American Ceramic Society, além de membro da WAC. Participa ou participou do comitê editorial das revistas Interceram, Refractories Manual e Refractories World Forum (Alemanha), Materials Research, Revista Cerâmica e Journal of Materials Research and Technology (Brasil), China’s Refractories (China), Cerámica y Vidrio (Espanha), Refractory Applications, Refractories Applications Transactions e American Ceramic Society Bulletin (EUA), e Ceramics International (Itália).

É professor visitante da Wuhan University of Science and Technology (China) e coordenador latino-americano da Federation for International Refractories Research and Education (FIRE) uma organização que envolve universidades em diferentes países e empresas líderes na área de refratários. Desde 1993, coordena o Laboratório ALCOA (Aluminum Company of America) na UFSCar.

Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq – nível 1 A, é coautor de mais de 400 trabalhos publicados em revistas com árbitro, um livro e oito patentes depositadas. Orientou 50 mestrados e 16 doutorados. Muitos trabalhos desenvolvidos por ele ou com sua orientação foram distinguidos em premiações promovidas por entidades como a German Ceramic Society (Alemanha), Technical Association of Refractories of Japan, American Ceramic Society, Petrobras, Confederação Nacional das Indústrias, Associação Brasileira de Alumínio, Associação Brasileira de Cerâmica, Alcoa Aluminio S.A., Magnesita S.A. e ABM, entre outras. Em suas atividades profissionais, interagiu com 380 colaboradores em coautorias de trabalhos científicos.

Segue nossa entrevista com o pesquisador.

Conte-nos um pouco sobre sua história: o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar na área de materiais cerâmicos?

O primeiro aspecto que gostaria de ressaltar é que a vida é feita por escolhas que muitas vezes não são bem lógicas nem planejadas. Na verdade eu fiz Engenharia de Materiais e, a princípio, pensava em trabalhar na área de metais, mas durante meu estágio curricular em uma empresa durante a graduação, tive que atender uma demanda em materiais cerâmicos. Sendo assim, me formei tanto com especialidade em metais quanto em materiais cerâmicos. Em uma época em que a indústria oferecia mais empregos e melhores salários, desconsiderei este cenário e resolvi fazer mestrado em cerâmica no recém-criado programa de Engenharia de Materiais da UFSCar. Logo depois que eu entrei no mestrado, surgiu um concurso de professor na UFSCar. Eu prestei, fui aprovado e aí a minha vida se tornou realmente dedicada a materiais cerâmicos.

O ponto de virada profissional em termos de avanços aconteceu com o doutorado e pós-doutorado no exterior, quando a rede de contatos aumentou tremendamente, assim como a visibilidade do trabalho que estava coordenando. Outro aspecto que colaborou muito é que, desde o início, eu me empenhei em fazer projetos com empresas, os quais me ensinaram a fazer uma pesquisa que eu considero “pesquisa básica inspirada no uso”. Com isso, pude conciliar muito bem os fundamentos aprendidos e desenvolvidos na universidade com as necessidades da indústria, e também criar oportunidades para que os alunos pudessem realizar estágios e a gerar empregos.

Essa “pesquisa básica inspirada no uso” é uma via de duas mãos que estão continuamente interagindo entre si para criar uma ponte sólida entre a universidade e  a indústria. Nós, pesquisadores, precisamos entender as necessidades da indústria e usar as ferramentas que temos na universidade em pesquisa e fundamentação para podermos auxiliar a empresa a resolver problemas reais. Muitas vezes, é através de um problema real que nós somos motivados a entender os fundamentos, e a partir desses,  visualizarmos novas oportunidades de aplicação e geração de tecnologia.

Esse caminho que escolhi possibilitou que hoje eu participe da Federação Internacional de Materiais Cerâmicos para Alta Temperatura, a FIRE, que é uma organização sem fins lucrativos que reúne onze universidades ao redor do mundo e dezessete empresas do setor. O objetivo da FIRE é investir na formação de alunos em nível de mestrado e doutorado, dando suporte financeiro para que eles passem de seis meses a um ano em universidades ou empresas filiadas e, dessa maneira, tenham uma vivência internacional e possam aplicar ou complementar seus conhecimentos na área.

Sendo assim, a minha vida como pesquisador de materiais cerâmicos começou mais acidentalmente, e hoje, na verdade, ela é em engenharia de sistemas complexos, visto que, atualmente, nenhum material é apenas definido por uma única área de atuação.

Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais?

Desde que me tornei professor universitário, meu projeto na área profissional sempre foi estabelecer três pilares, os quais se retroalimentam e são os fundamentos de tudo que eu faço: o ensino, a pesquisa e a parceria industrial. Esse ciclo é vital para que, através do ensino, eu tenha contato com os bons alunos, tenha oportunidade de convida-los para realizar pesquisas e que possam posteriormente servir a indústria nacional e internacional ou a academia. Só através de uma boa parceria que nós detectamos as necessidades da indústria e podemos ilustrar nosso ensino por meio da aplicação dos fundamentos, de forma que não fiquem áridos e possam ser recheados com as necessidades da indústria.

Na parte de ensino, com certeza a formação de pessoas que estão na área acadêmica e industrial desenvolvendo ótimos trabalhos seria o ponto fundamental da minha contribuição na educação. Como diz a tradição, um bom professor é avaliado pelo número de pessoas que formou e são melhores que ele. Felizmente, hoje tenho alunos que estão muito bem empregados, tanto na área de pesquisa, quanto na de ensino, quanto nas empresas – o que mostra que a contribuição gerou frutos.

Na parte de pesquisa, o aspecto principal na minha auto-avaliação foi a seleção de uma área complexa para ser desenvolvida, com grande oportunidade de aprofundar e testar os conhecimentos. Quando eu fiz meu doutorado em cerâmicas avançadas senti, ao voltar ao Brasil, muita dificuldade em tornar esse assunto uma área de pesquisa. No entanto, os conhecimentos embutidos poderiam ser facilmente transportados para outras necessidades do país. Foi ali que eu visualizei que o que eu tinha aprendido poderia ser muito útil para a indústria de aço, metalurgia, alumínio e materiais para alta temperatura. Então, eu  adaptei os conhecimentos para a realidade local em vez de tentar trazer o estudo internacional para uma aplicação direta no Brasil em cerâmicas avançadas, a qual até hoje tem um mercado incipiente. Dentro desse cenário, a minha pesquisa procurou entender as etapas do ciclo produtivo dos materiais para alta temperatura. Eu defini uma estratégia de, a cada quatro ou cinco anos, me dedicar a um dos tópicos que envolve o ciclo produtivo e de entendimento desses materiais. Isso fez que, ao longo de mais de 20 anos trabalhando na área, tivesse conhecimento de todo o ciclo, e não apenas de informações coletadas da literatura. Como resultado, estamos escrevendo um livro que será publicado até o final do ano em inglês por uma editora alemã, recheado com os resultados das pesquisas que nós realizamos envolvendo desde as matérias primas, processamento, até as propriedades e as simulações, dando uma visão muito clara e profunda da engenharia de microestruturas em materiais cerâmicos para alta temperatura.

Na área de parcerias industriais, que é o terceiro pilar, diria que não tem forma de se fazer engenharia só no laboratório. Precisamos saber como o mercado atua, precisamos aprender a colocar prazos, a expor o conhecimento ao teste industrial, entender que o material é apenas um item do todo. Isso, eu devo muito às minhas parcerias industriais que sempre me acompanharam, desde que eu terminei o doutorado. Nós temos parcerias que já duram 24 anos contínuos, como é o caso da Alcoa alumínio, na qual várias pessoas foram formadas em nível de mestrado e doutorado, sendo alguns  funcionários da empresa. Várias outras indústrias nacionais e internacionais também contribuíram para gerar este ambiente de pesquisa básica inspirada no uso. Temos fortes parcerias com a Petrobras, com a Magnesita, que é uma empresa para cerâmicas para alta temperatura, com a FIRE, etc. Dessa forma, grande parte dos recursos  e oportunidades do grupo hoje são provenientes de parcerias industriais ou de federações que trabalham nessa ponte empresa-universidade.

Quais são, na sua opinião, os principais desafios atuais para a Ciência e Engenharia de Materiais?

Eu ressaltaria dois grandes desafios. Um seria o projeto  “genoma dos materiais”. Com a necessidade de reduzir os tempos e custos de pesquisa, cada vez mais é necessário criar uma base de conhecimento que possa por meio de simulações minimizar o tempo de experimentação laboratorial e chegar o mais rápido possível ao resultado desejado.  Esse “genoma dos materiais” consistiria em detectar o seu DNA e tentar,  associando ferramentas computacionais, chegar cada vez mais rápido ao conceito de novos materiais ainda não imaginados pela tecnologia atual. Então eu visualizo que o laboratório de materiais do futuro terá menos equipamentos, equipes multidisciplinares e mais computadores de alta velocidade de processamento, os quais darão uma ideia mais objetiva do que fazer no laboratório para se chegar aos novos materiais.

Outro grande desafio é a impressão 3D, que compõe a classe conhecida como additive manufacturing, a qual tem despontado com uma força tremenda, visto que as empresas têm percebido que o custo da mão de obra nos países em desenvolvimento já está muito caro. Numa primeira instância, as indústrias em países desenvolvidos começaram a perceber que os produtos manufaturados ficariam não competitivos se fabricados em outros locais. Então, numa primeira onda, levaram a produção para países em desenvolvimento. Mas ao longo do tempo o ambiente mudou, e em países como a China e o Brasil a mão de obra está começando a ficar muito cara. Associado a isto a legislação que rege a exportação e as suas respectivas taxas só agravam este cenário. Então, países como Alemanha e Estados Unidos estão voltando a produzir em casa utilizando um processo totalmente automatizado por meio da impressão 3D, que se assemelha a uma impressora comum, só que, ao invés de imprimir X Y, imprime X Y Z e, ao invés de usar tinta, usa materiais. Esta impressão 3D está simplesmente revolucionando todo o mercado visto que hoje já é possível se ter uma impressora de materiais em casa e fazer o build yourself de joias, brinquedos, etc . Adicionalmente, já se está fazendo a parte de implantes, utilizando as próprias células-tronco como elemento para criação dos órgãos em impressão 3D.

Com essa técnica, associada ao primeiro item que citei, a simulação, teremos novos materiais, incapazes de serem produzidos pelo processamento tradicional. Essa ideia que estou colocando para você foi a que eu levei para a minha primeira reunião do advisory board da WAC. Ela foi tão bem recebida pelo comitê que se tornou o tema do fórum fechado aos membros da academia daqui a dois anos, que congregará os melhores pesquisadores e empresas do mundo que estão se dedicando a essa área.

Outro ponto interessante para complementar é que nós estamos vivenciando o momento da Engenharia de Sistemas Complexos. Não se fala mais em área de especialização. O que nós precisamos mais do que nunca é a soma do conhecimento das diversas áreas. Por exemplo, nessa área de materiais impressos tridimensionalmente, não basta apenas ter o equipamento. Nós precisamos ter programadores de computação, engenheiros mecânicos, de produção, de materiais, químicos, físicos, biólogos, gestores, todos trabalhando em sintonia, pois não estamos mais falando de conhecimentos que uma única pessoa seja capaz de deter.

Na sua avaliação, de que maneira você construiu o reconhecimento da comunidade internacional de pesquisa em cerâmica explicitado, por exemplo, na sua eleição como membro do advisory board da WAC?

Eu acrescentaria ao que já foi dito que toda conquista é um trabalho em equipe. São 34 anos de trabalho intenso em parcerias nacionais e internacionais, com indústrias e agências de fomento. Acredito que a formula padrão para se conseguir alguma coisa é: trabalho em equipe, persistência, se associar ao que há de melhor e se expor nacional e internacionalmente.

Deixe uma mensagem para nossos leitores que estão iniciando suas carreiras de cientistas.

Minha resposta terá componentes tradicionais e outros não tão convencionais. A sugestão tradicional é amplamente conhecida: energia e dedicação, trabalho e suor. A parte não tradicional é não confundir as oportunidades que se tem hoje com as facilidades da vida. A vida não é fácil. A vida profissional é cheia de desafios e as oportunidades atuais vêm tornar a competição ainda mais acirrada. Agora a competição é global. Em qualquer lugar do mundo pode se fazer o que eu estou desenvolvendo no meu laboratório. Adicionalmente, todo jovem deve ficar muito atento que as empresas e as agências de financiamento vão buscar quem possa fazer melhor, da forma mais rápida e barata trazendo maior retorno para a sociedade.

Um ponto que eu gostaria de enfatizar é que o mundo real não é o Facebook, e que as conquistas são obtidas por muitas batalhas e muitas derrotas. Não existe esse universo virtual em que estamos sempre com pessoas famosas, desfrutando de vitórias e participando de festas.

Outro aspecto é que, devido às muitas oportunidades que se tem hoje, o jovem pega uma já olhando para outra, e não faz bem nenhuma delas. Em vez de se prender a um galho, está sempre pensando em pular para outro. Tem que tomar muito cuidado. Faça ao menos uma atividade bem feita de cada vez. Se estiver fazendo o mestrado, tenha uma boa produtividade, gere uma cadeia de relacionamentos e depois mude de assunto, se for o caso. As comunidades científicas não são tão grandes como a gente pensa.  Precisamos fazer, desde o princípio, um trabalho muito bom, de muita qualidade e com muito respeito ao grupo no qual se participa. O mundo dá volta muito rápido e, num futuro não distante, essas mesmas pessoas vão lhe abrir ou fechar as portas. Na vida profissional, até certo degrau, nós podemos subir pelas próprias competências, mas depois precisamos fortemente da inserção da comunidade nacional e internacional. Aí pode ser que eu precise das pessoas que eu deixei uma má impressão.

Gente da nossa comunidade: Entrevista com Reginaldo Muccillo.

Os novos membros da World Academy of Ceramics, durante a cerimônia de posse. O prof. Muccillo é o primeiro a partir da direita. (Foto cedida pelo prof. Muccillo)

Na manhã de 9 de junho, no distrito italiano de Montecatini Terme, o pesquisador da área de Materiais Reginaldo Muccillo, diretor administrativo da nossa SBPMat de 2012 a 2013, tomou posse como membro da World Academy of Ceramics (WAC). A WAC é uma entidade de caráter internacional com sede na Itália, dedicada a promover o progresso da área de cerâmicas e fomentar a compreensão do impacto social a das interações culturais da ciência, tecnologia, história e arte no campo das cerâmicas.

Reginaldo Muccillo foi um dos dezessete eleitos no 15º processo de eleição de acadêmicos da WAC, que reconhece o mérito de pessoas que fizeram contribuições significativas à área de cerâmicas. Único brasileiro desta eleição, Muccillo dividiu a cerimônia de posse com pesquisadores e outros profissionais da China, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, Itália, Japão, Polônia, Portugal e Suécia. A formalidade ocorreu durante a sessão de abertura da International Conference on Modern Materials and Technologies (CIMTEC).

Pesquisador do Centro de Ciência e Tecnologia de Materiais do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), Reginaldo Muccillo possui graduação, mestrado e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou estágios de pesquisa no exterior durante o doutorado, no National Research Council em Ottawa (Canadá), e no pós-doutorado, no Max Planck Institut fuer Festkoerperforschung em Stuttgart (Alemanha) e no Institut National Politechnique de Grenoble (França). Foi (co) coordenador de sete edições do Simpósio Brasileiro de Eletrocerâmica, do VII Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (2008) e da 6th International Conference on Electroceramics (ICE 2013). É editor principal da revista Cerâmica, órgão oficial da Associação Brasileira de Cerâmica (ABCeram), há 15 anos. É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq – nível 1A.

Segue uma breve entrevista com o cientista.

Conte-nos um pouco sobre sua história: o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar na área de materiais cerâmicos?

Já na graduação, abandonei o curso de Engenharia na Escola Politécnica da USP para cursar somente Física. Bolsista de iniciação científica na área de Física Nuclear, convivi com pesquisadores de renome no Instituto de Física (IF) da USP, que efetivamente me influenciaram a seguir carreira científica. Após a graduação, fui para o IPEN para fazer mestrado em Física do Estado Sólido. Terminado o Mestrado, fui para o Canadá para o trabalho de doutorado sanduíche (que não existia na época). Na volta ao IPEN, após defender o doutorado no IFUSP, comecei a desenvolver pesquisa com materiais cerâmicos, mudando de Física do Estado Sólido para Ciência e Engenharia de Materiais.

Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais?

Trabalhando em um Instituto de pesquisas, pude dedicar todo meu tempo no trabalho de pesquisa, na busca de recursos em órgãos de fomento (FAPESP e CNPq) para infraestrutura de laboratório (sou um pesquisador experimental dedicado à montagem e coleta de dados em equipamentos, análise de dados, redação de artigos para submissão em periódicos indexados e arbitrados), treinamento e formação de pessoal, organização de eventos, edição de periódico científico, interação com o setor produtivo (meu campo de pesquisa permite, alem de desenvolver pesquisa fundamental na área de Ciência dos Materiais, visualizar aplicações em dispositivos de interesse em vários segmentos industriais).

Quais são, na sua opinião, os principais desafios de seus temas de pesquisa atuais para a Ciência e Engenharia de Materiais?

Explicação, modelagem e equacionamento teórico de vários fenômenos físicos e químicos que ocorrem em Ciência dos Materiais Cerâmicos.

Na sua avaliação, de que maneira você construiu o reconhecimento da comunidade internacional de pesquisa em cerâmica expresso na sua eleição como acadêmico da WAC?

Com o desenvolvimento de trabalhos de pesquisa, a formação de pessoal (iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-docs), a montagem de laboratórios para uso da comunidade científica (multi-usuários), a edição de periódico (revista Cerâmica) na área de materiais cerâmicos, a pesquisa em materiais para sensores e para produção alternativa de energia e, mais recentemente, em flash sintering.

Artigo em destaque: Mamão e canela, ingredientes de filmes antimicrobianos para embalar alimentos.

O artigo científico com participação de membros da comunidade brasileira de pesquisa em Materiais em destaque neste mês é:

Caio G. Otoni, Márcia R. de Moura, Fauze A. Aouada, Geany P. Camilloto, Renato S. Cruz, Marcos V. Lorevice, Nilda de F.F. Soares, Luiz H.C. Mattoso. Antimicrobial and physical-mechanical properties of pectin/papaya puree/cinnamaldehyde nanoemulsion edible composite films. Food Hydrocolloids. Volume 41, December 2014, Pages 188–194. DOI: 10.1016/j.foodhyd.2014.04.013.

Mamão e canela: ingredientes de filmes antimicrobianos para embalar alimentos.

Mamão e componentes da canela foram utilizados na fórmula dos filmes comestíveis antimicrobianos. À direita, um dos filmes. Crédito da foto: Flávio Anselmo Faria Ubiali – Núcleo de Comunicação Organizacional, Embrapa Instrumentação.

As embalagens comestíveis são filmes que podem ser ingeridos sem causar danos à saúde. Podem ser usados para cobrir alimentos no intuito de protegê-los, melhorar seu aspecto ou proporcionar alguma textura ou sabor. Filmes desse tipo já estão presentes no mercado substituindo tecidos animais em embutidos cárneos ou algas no sushi, por citar apenas alguns exemplos.

Além de ser interessantes do ponto de vista ambiental porque podem utilizar resíduos de frutas e hortaliças na sua composição, eles se tornam mais atrativos quando são dotados de propriedades antimicrobianas, pois permitem reduzir a quantidade de conservantes nos alimentos que recobrem.

No Brasil, uma equipe multidisciplinar composta por engenheiros de materiais, químicos e engenheiros de alimentos desenvolveu, a partir de fontes renováveis (pectina, mamão e óleo essencial de canela), filmes comestíveis com propriedades antimicrobianas.

O trabalho foi desenvolvido em três etapas principais. A primeira foi realizada no Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio da unidade de Instrumentação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e consistiu na obtenção e caracterização de nanoemulsões de cinamaldeído, componente majoritário do óleo essencial de canela. Por meio de agitação mecânica praticada de forma controlada em diversas velocidades, os pesquisadores obtiveram emulsões com partículas de cinamaldeído de diferentes tamanhos, de 40 a 270 nm de diâmetro.

Na segunda etapa, conduzida também na Embrapa Instrumentação, os pesquisadores fabricaram os filmes baseados em pectina (polímero natural presente em tecidos vegetais e conhecido por seu poder geleificante) e adicionados de polpa de mamão e das emulsões produzidas. Finalmente, a equipe realizou a caracterização dos filmes. Suas propriedades mecânicas e antimicrobianas foram analisadas no Laboratório de Embalagens da Universidade Federal de Viçosa (UFV, MG) e suas propriedades de barreira à umidade, avaliadas na Embrapa Instrumentação. Também participaram do trabalho professores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS, BA) e da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP, SP) que estavam em período de pós-doutorado nos laboratórios da Embrapa e da UFV.

Os resultados do estudo foram publicados recentemente no periódico Food Hydrocolloids.

Os filmes

A incorporação da nanoemulsão de cinamaldeído aos filmes inibiu o crescimento das quatro bactérias patógenas testadas pela equipe de pesquisadores (Escherichia coli, Salmonella enterica, Listeria monocytogenes e Staphylococcus aureus).

“O resultado mais interessante é que a redução do tamanho das partículas da nanoemulsão notoriamente potencializou a atividade inibitória dos filmes”, destaca o primeiro autor do paper, Caio Otoni, estudante de Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Isto pode impactar a utilização de embalagens poliméricas com finalidades antimicrobianas para uso em alimentos, dado que a mesma segurança alimentar garantida pela embalagem ativa pode ser atingida usando-se menores teores de conservantes, se encapsulados em partículas menores, o que é vantajoso para fabricantes (menor custo de produção) e consumidores (ingestão de menor carga de conservante)”, completa Otoni, que desenvolveu o trabalho, junto aos outros sete autores, durante um de seus estágios de iniciação científica enquanto cursava Engenharia de Alimentos na UFV.

Além de conferir as propriedades antibacterianas aos filmes, a nanoemulsão tornou-os menos permeáveis à umidade e menos plásticos (mais rígidos e menos capazes de se esticarem). Já a polpa de mamão teve o efeito inverso no que diz respeito a essas características.

Os autores Luiz Henrique Capparelli Mattoso, Marcos Vinicius Lorevice e Caio Gomide Otoni (da esquerda para a direita) na planta piloto da Embrapa Instrumentação, em São Carlos (SP). Crédito da foto: Flávio Anselmo Faria Ubiali – Núcleo de Comunicação Organizacional, Embrapa Instrumentação.

Encontro da E-MRS na França: organização da SBPMat e participação brasileira em simpósio de eletrônica orgânica.

A SBPMat participou da organização do Encontro de Primavera da Sociedade Europeia de Pesquisa em Materiais (E-MRS, na sigla em inglês), realizado de 26 a 30 de maio em Lille (França). O presidente da SBPMat, professor Roberto Mendonça Faria (IFSC-USP) foi um dos cinco coordenadores gerais do evento (chairs), junto a quatro cientistas da Europa.

Além disso, a SBPMat apoiou um dos 30 simpósios do evento, o DD “Functional materials and devices for organic electronics, o qual também contou com apoio do INCT INEO (Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica). O simpósio teve significativa participação brasileira. Os organizadores foram os professores Marco Cremona (PUC-Rio), diretor financeiro da SBPMat, Rodrigo Bianchi (UFOP), diretor científico da sociedade, Carlos Graeff (UNESP), ex-diretor científico da SBPMat, um cientista da Alemanha e outro da Itália.

“O simpósio foi um sucesso, tanto no que diz respeito aos pesquisadores convidados, todos de alto gabarito e líderes na área de atuação, quanto no nível dos trabalhos apresentados e temas abordados, todos atuais na área de eletrônica orgânica”, resume o professor Cremona. “Além disso, o simpósio contribuiu para fortalecer a imagem do Brasil nesta área e começar novas colaborações, além de fortalecer aquelas já existentes”, completa.

Dedicado ao tema da eletrônica orgânica, o simpósio incluiu apresentações orais, pôsteres e 23 palestras convidadas em sessões sobre dispositivos orgânicos emissores de luz, transistores orgânicos, dispositivos flexíveis, sensores, células solares orgânicas, dispositivos bioeletrônicos, grafeno e outros filmes condutores transparentes. Outras sessões abordaram a relação nanoestrutura-função em dispositivos orgânicos avançados e a modelagem, simulação, métodos de caracterização e novos horizontes de materiais e dispositivos orgânicos.  “Os tópicos foram bem balanceados em pesquisas básicas e aplicadas na área de eletrônica orgânica, incluindo dispositivos eletrônicos e biosensores”, comenta o professor Bianchi.

Durante os quatro dias do simpósio, foram apresentados mais de 140 trabalhos de pesquisadores de países da União Europeia, Coreia, Japão, Brasil, Estados Unidos, Rússia, Estados Unidos, Austrália, entre outros países.  “As apresentações do Simpósio DD trouxeram ao E-MRS palestras de alto impacto com importante participação de pesquisadores brasileiros, mostrando que o país e a SBPMat tem atuado em áreas de impacto científico e de fronteira de conhecimento”, completa. De fato, o Brasil participou com cerca de 20 trabalhos no simpósio e duas palestras convidadas.

Prêmio do simpósio

O simpósio contou também com a premiação dos três melhores pôsteres e dois trabalhos apresentados na forma oral:

Orais:

  • Jean Nicolas Tisserant, ETH Zürich, D-AGRL Food and Soft Materials (Zürich, Switzerland). “Growth and Alignment of Thin Film Organic Single Crystals from Dewetting Patterns”, Empa.
  • Daniele Sette, CEA, LETI, DCOS (Grenoble, France). “Influence of the Annealing Temperature on the Properties of Inkjet Printed Porous Silver Layers”.

Pôsteres:

  • Anshuma Pathak, TU Munich, Molecular electronics (Munich, Germany),
  • Structural and Electrical Study of Organophosphonate SAMs on AlOx/Al”.
  • Jung-Hung Chang, National Taiwan University, Graduate Institute of Photonics and Optoelectronics (Tapiei, Taiwan), “All–solution processed transparent organic light emitting diodes with graphene as top cathodes”.
  • Lidiya Leshanskaya, Institute for Problems of Chemical Physics, Kinetics and Catalysis, Academician Semenov (Moscow, Russia), “Origin of the advanced charge transport properties of indigo thin films: influence of the dielectric on the crystal structure of the semiconductor”.

Boletim SBPMat – edição 21 – maio 2014.

Edição nº 21 – Maio de 2014
Saudações, .

XIII Encontro da SBPMat: João Pessoa – 28/9 a 2/10

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– O prazo para submissão de trabalhos para os simpósios da SBPMat foi prorrogado até 6 de junho. Realize sua submissão.

– Doutores do Estado de São Paulo podem solicitar um auxílio Fapesp para participar do XIII Encontro da SBPMat. Saiba como.

– Opções de hospedagem em João Pessoa? Aqui tem algumas.

Entrevistas com plenaristas:

Entrevistamos o prof. Alberto Salleo, da Universidade de Stanford, que falará no XIII Encontro da SBPMat sobre dispositivos eletrônicos orgânicos. Jovem, porém dono de uma carreira que já se destaca internacionalmente, Salleo nos contou sobre os trabalhos de seu grupo, que tem se aprofundado no estudo do papel exercido pelas imperfeições no transporte de cargas em semicondutores orgânicos. Ele também compartilhou conosco seus papers mais destacados, publicados na Nature Materials. Finalmente, Salleo falou sobre os próximos desafios e aplicações da eletrônica orgânica e adiantou o que pretende abordar na sua plenária, que promete ser informativa e amena para um amplo público. Veja nossa entrevista com Alberto Salleo (traduzida ao português).

Gente da nossa comunidade 

Na ocasião de sua posse como membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), conversamos com o professor Fernando Lázaro Freire Junior, que já foi presidente, diretor financeiro e diretor científico da SBPMat. Ao longo de sua trajetória científica, o professor Fernando Lázaro tem se dedicado especialmente à pesquisa de materiais baseados em carbono: filmes de DLC, nanotubos e grafeno. O pesquisador nos contou como virou um cientista e comentou suas contribuições mais destacadas à área de Materiais. Com grande parte de sua carreira desenvolvida na PUC-Rio, o professor destacou, na mensagem para os leitores mais jovens: é possível fazer pesquisa de impacto internacional no Brasil. Veja nossa entrevista com Fernando Lázaro Freire Junior.

História da SBPMat

Aqui também falamos com o professor Fernando Lázaro Freire Junior, presidente da sociedade durante dois mandatos consecutivos, de 2006 a 2009. Nesse período, a SBPMat organizou, além dos 4 encontros anuais, com número crescente de participantes, a Internacional Conference on Advanced Materials (ICAM 2009). Foi também nesses anos que a sociedade estruturou sua secretaria. O professor Fernando Lázaro nos apresentou um breve panorama de suas gestões, lamentou algumas pendências (proximidade com os sócios e interação com o setor produtivo) e, no final, opinou que o pessoal mais novo deve participar mais das decisões da SBPMat. Veja aqui.

Artigo em destaque

– Nosso “Artigo em destaque” (matéria de divulgação científica sobre um paper made in Brazil) do boletim de abril foi publicado no site Materials Today. Veja.

– O “Artigo em destaque” do nosso boletim de março consta entre os 10 mais lidos do mês de abril no site Materials Today. É o 4º. Veja.

Você pode sugerir artigos da área de Materiais com significativa participação brasileira publicados em periódicos com alto fator de impacto para ser divulgados na seção “Artigo em destaque” do boletim: comunicacao@sbpmat.org.br.

Dicas de leitura

Divulgação científica de artigos publicados em periódicos de alto fator de impacto.

-Descobertas sobre o dissulfeto de molibdênio geram nova técnica de análise e avançam nas aplicações deste material bidimensional (divulgação de paper da Science). Aqui.

-Num liquidificador, cientistas criam rota de produção de grafeno em grande escala para compósitos e revestimentos (divulgação de paper da Nature Materials). Aqui.

Biomateriais: microestruturas de seda são produzidas com fotolitografia e guiam a adesão de células(divulgação de paper da Advanced Materials). Aqui.

Biomimética: novas descobertas sobre anatomia das lagartixas inspiram material adesivo de ótimo desempenho desenvolvido sem nanotecnologia (divulgação de paper da Advanced Materials). Aqui.
Novidades dos INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do CNPq) sobre Materiais.

– INCT Namitec: Para monitorar a poluição do ar, projeto universidade-empresa desenvolve sensores sem bateria e de baixo custo. Aqui.
Outras novidades da área.

– Novo laboratório do IPT para desenvolvimento de estruturas, componentes e peças de baixo peso e alta resistência. Aqui.

– Estudo no Reino Unido de £ 3 milhões sobre nanopartículas para diagnóstico e tratamento de doenças cardiovasculares. Aqui.

Oportunidades

 Pós-doutorado na UFRGS em micro-nanomateriais, monitoração e processos para aplicação industrial. Aqui.

Seleção de novo diretor geral para o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Aqui.

Chamada São Paulo (Fapesp) – Finlândia para projetos colaborativos em alguns temas de Materiais. Aqui.

– Prêmio L´Oréal-Unesco-ABC “Para Mulheres na Ciência para projetos de pesquisa de jovens doutoras. Aqui.

Próximos eventos da área

13th International Conference on Modern Materials and Technologies (CIMTEC 2014). Aqui.

1st International Conference on Polyol Mediated Synthesis. Aqui.

 2º Workshop Adesão Microbiana e Superfícies. Aqui.

13th European Vacuum Conference + 7th European Topical Conference on Hard Coatings + 9th Iberian Vacuum Meeting. Aqui.

19th International Conference on Ion Beam Modification of Materials. Aqui.

XIII Encontro da SBPMat. Aqui.

MM&FGM 2014 – 13th International Symposium on Multiscale, Multifunctional and Functionally Graded Materials. Aqui.

X Brazilian Symposium on Glass and Related Materials (X-BraSGlass). Aqui.

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Entrevistas com os ex-presidentes da SBPMat: Fernando Lázaro Freire Junior (2006-2007 e 2008-2009).

Participante do processo de criação da SBPMat e membro da diretoria fundadora, Fernando Lázaro Freire Junior foi eleito presidente da nossa sociedade em duas eleições consecutivas, presidindo a diretoria da SBPMat de 2006 a 2007 e de 2008 a 2009. Durante todo o período, o professor Fernando Lázaro contou com o professor Osvaldo Novais de Oliveira Júnior como diretor administrativo. A diretoria financeira foi ocupada por Glória Dulce de Almeida Soares no primeiro mandato e por Sérgio de Souza Camargo Júnior no segundo. Aldo Felix Craievich e Paulo Fernando Papaleo Fichtner foram os diretores científicos nos dois mandatos, sendo que no segundo se somaram a essa diretoria Antonio Eduardo Martinelli e Margareth Spangler Andrade.

Pode ser dito que o professor Fernando Lázaro é um físico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), pois foi por essa instituição que ele obteve seu bacharelado em Física em 1978, o mestrado em 1981 e o doutorado em 1985. Já em 1979 começou a lecionar nessa universidade e, em 2012, tornou-se professor titular. Foi Diretor do Departamento de Física da PUC-Rio de 2003 a 2008. Na Europhysics Letters (publicação da European Physical Society), foi coeditor entre 2006 e 2010 e advisory editor de 2010 a 2013. Na Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), foi coordenador da Área de Física e Astronomia de 2008 a 2012 e atualmente é membro do Conselho Superior.

Desde 2011, o professor Fernando Lázaro é diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Em dezembro de 2013 foi eleito membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Autor de mais de 170 artigos científicos com mais de 2.500 citações, é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1 A.

Segue uma entrevista com este ex-presidente da SBPMat sobre seus dois mandatos.

1. Relacione as principais ações realizadas durante seus mandatos como presidente da SBPMat. 

Além da organização das reuniões anuais que tiveram um público sempre crescente no período, tivemos a organização da Internacional Conference on Advanced Materials (ICAM) no Rio de Janeiro, a estruturação da secretaria da SBPMat, além da  colaboração com as coirmãs MRS e E-MRS, as sociedades americana e europeia de materiais, e também com a Internacional Union of Materials Research Society (IUMRS), quando a SBPMat participou do Second World Materials Summit on Advanced Materials in Energy Applications and Sustainable Society Development, em Lisboa. Do ponto de vista administrativo foi possível deixar a sociedade com recursos em caixa. Aliás, essa prática começou na gestão do prof. Longo, a de deixar a presidência sem problemas financeiros ou trabalhistas para a gestão seguinte, e isso tem sido seguido nas gestões que me sucederam.

2. Relacione as principais dificuldades enfrentadas no período na direção da SBPMat.

Inicialmente foi a falta de estrutura administrativa da sociedade que até então dependia totalmente do trabalho de seus diretores e dos pesquisadores organizadores dos encontros anuais. Eu tive mais sorte que a diretoria anterior e com os recursos disponíveis foi possível a contratação de uma secretária e estagiários para tocar a sociedade. Mais adiante contratamos uma segunda secretária e a administração passou a ser mais profissional. Outro problema foi o a organização do ICAM. Tinha sido contratada uma agência de eventos que não deu conta do recado, o que causou um desgaste muito grande por conta da dificuldade de se organizar uma reunião internacional com a participação de mais de 1.600 pesquisadores.

3. O que gostaria de ter feito, mas ficou pendente?

Aproximar mais a Sociedade de seus sócios. Isso foi tentado de modo muito precário com o mural eletrônico da SBPMat que divulgava notícias de interesse de seus associados. Hoje, o nosso Boletim é ordens de grandeza melhor. Esse é um processo que leva tempo, não podemos comparar uma sociedade como a nossa com pouco mais de 10 anos com outras que tem 40, 50 anos de existência. Ficou faltando também uma maior interação com o setor produtivo, que ainda está longe de atingir um patamar que represente a importância que a pesquisa em Materiais tem em diversos setores da nossa economia.

4. O que você destacaria dos encontros da SBPMat organizados e ocorridos durante sua gestão?  

Em primeiro lugar, a crescente participação de estudantes e pesquisadores, mostrando que o Encontro Anual da SBPMat veio preencher uma lacuna no cenário brasileiro. Além disso, o caráter itinerante do Encontro. Realizamos nesses quatro anos encontros em Natal e Florianópolis, além do Rio de Janeiro e Guarujá. Como é uma reunião com significativa participação de pesquisadores de fora do país, esse aspecto é importante por levar a todas as regiões do país a possibilidade de nossos estudantes terem acesso aos eventos científicos. Outro ponto importante é o bom nível cientifico das contribuições que têm sido apresentadas e o caráter interdisciplinar dos simpósios, fazendo do Encontro Anual da SBPMat o mais importante evento no país na área de Materiais.

5. Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores sobre o processo eleitoral da nossa SBPMat?

A participação é ainda muito pequena e acho que a participação efetiva de seus associados é fundamental para o fortalecimento da SBPMat. A atual diretoria e conselho representam uma importante renovação quando comparada com as anteriores e é bom que seja assim, que o pessoal mais novo participe da sociedade, de suas decisões e da gestão.

Gente da nossa comunidade: entrevista com Fernando Lázaro Freire Junior.

O professor Fernando Lázaro Freire Júnior.

No dia 6 de maio, na Escola Naval do Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) realizou a cerimônia de posse de seus novos membros, eleitos em um processo de indicação e avaliação por pares realizado ao longo de 2013. Na oportunidade, 24 cientistas foram empossados como membros titulares da ABC. Entre eles, na área de Ciências Físicas, estava o professor Fernando Lázaro de Freire Junior, pesquisador da área de Materiais e ex-presidente da SBPMat.

Tendo em mente a ideia de ser pesquisador, Fernando Lázaro optou, na graduação, pelo Bacharelado em Física na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), formando-se em 1978.  Em 1979 começou a lecionar nessa universidade enquanto fazia, na mesma instituição, o mestrado (1979-1981) e o doutorado (1981-1985) em Física. Nesse período da pós-graduação, Fernando Lázaro fez suas primeiras intervenções científicas na área de Materiais por meio de um acelerador de íons, inicialmente utilizado por ele para trabalhos de Física Atômica.  Em 1998 foi à Università degli Studi di Padova (Itália) para fazer pós-doutorado, trabalhando com superfícies e interfaces de materiais.

De 2003 a 2008 foi Diretor do Departamento de Física da PUC-Rio. De 2008 a 2012 coordenou a Área de Física e Astronomia da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Na Europhysics Letters (publicação da Sociedade Europeia de Física), foi coeditor entre 2006 e 2010 e advisory editor de 2010 a 2013. Na SBPMat, cumpriu dois mandatos consecutivos como presidente,  dois como diretor científico e um como diretor financeiro.

Atualmente, Fernando Lázaro é professor titular da PUC-Rio e diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), além de membro do Conselho Superior da FAPERJ e coordenador do INCT de Engenharia de Superfícies. Autor de mais de 170 artigos científicos com mais de 2.500 citações, é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – nível 1 A. Entre seus trabalhos mais relevantes, constam vários estudos sobre materiais baseados em carbono: filmes de DLC (diamond-like carbon), nanotubos e, mais recentemente, grafeno.

Segue uma breve entrevista com o pesquisador.

Boletim da SBPMat: – Conte-nos um pouco sobre sua história: o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar na área de Materiais?

Fernando Lázaro Freire Jr.:  – Eu sempre gostei de Física e Matemática quando estudante do ensino médio, mas não tinha ideia em 1974, quando fiz a inscrição para o vestibular, que era possível fazer pesquisa no Brasil. Por isso fiz vestibular para Engenharia Elétrica na PUC-Rio e lá tomei conhecimento de que era possível fazer pesquisa em Física no Brasil. Fiz minha transferência para o curso de bacharelado em Física, facilitado porque em 1975 a PUC-Rio já tinha um Ciclo Básico comum a todo o Centro Técnico Científico. Com isso eu não perdi tempo. Estava no segundo ano de graduação. Minha pós-graduação, também na PUC-Rio, foi em Física Atômica, utilizando um acelerador de íons como ferramenta de trabalho. Como esse acelerador é também uma excelente ferramenta para análise de materiais, foi por esse caminho que entrei na área de Materiais.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais?

Fernando Lázaro Freire Jr.:  – A minha pesquisa sempre foi feita em colaboração com vários colegas e estudantes e acho que demos uma contribuição importante no estudo de filmes de carbono nanoestruturado (Diamond-like carbon films, DLC), como atestam as publicações com elevado número de citações e convites para palestras convidadas em vários congressos internacionais. Lógico que formar estudantes também tem sido importante, bem como a atuação na área de gestão, na PUC-Rio, CBPF e SBPMat.

Boletim da SBPMat: – Escolha algumas de suas publicações mais destacadas e, se possível, comente-as.

Fernando Lázaro Freire Jr.:  – O meu trabalho mais citado é um artigo na Applied Physics Letters em 1992 em coautoria com o Carlos Achete da COPPE/UFRJ e o Dante Franceschini, hoje na UFF, sobre a incorporação de nitrogênio em filmes DLC [Franceschini, D. F. ; Achete, C. A. ; Freire Junior, F. L. Internal Stress Reduction By Nitrogen Incorporation In Hard a-C:H Thin Films. Applied Physics Letters, New York, v. 60, p. 3229-3231, 1992]. Foi publicado na hora certa e tinha um resultado relevante para as aplicações desse material que era a redução da tensão interna do filme (fator importante no descolamento dos filmes dos substratos) sem significativa mudança em sua dureza.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua opinião, os principais desafios da sua área de pesquisa atual para a Ciência e Engenharia de Materiais?

Fernando Lázaro Freire Jr.:  – Eu tenho trabalhado com nanotubos de carbono e grafeno. Para ambos a produção de amostras de boa qualidade de modo controlado e economicamente viável ainda é um grande obstáculo para a utilização desses materiais de modo mais amplo do que o que é verificado até o momento.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores que estão iniciando suas carreiras de cientistas.

Fernando Lázaro Freire Jr.:  – Uma mensagem de estímulo. As condições materiais de trabalho hoje estão muito melhores de quando eu comecei três décadas atrás, o mesmo vale para os salários na academia. Portanto as coisas melhoraram e tendem a continuar melhorando e eu acho viável fazer pesquisa de boa qualidade e de impacto internacional no Brasil.

Entrevistas com plenaristas do XIII Encontro da SBPMat: Alberto Salleo (Universidade de Stanford, EUA).

Professor Alberto Salleo.

“Dispositivos Eletrônicos Orgânicos” é o tema da palestra plenária que será proferida pelo Professor Alberto Salleo no XIII Encontro Anual da SBPMat. O professor Salleo dirige um grupo de pesquisa na Universidade de Stanford (EUA), voltado para o desenvolvimento de novos materiais e técnicas de processamento para dispositivos eletrônicos / fotônicos de áreas amplas e flexíveis. Salleo se formou em Química, com láurea acadêmica, em 1994 pela Universidade La Sapienza, de Roma (Itália).  Concluiu seu mestrado em 1998 e seu doutorado em 2001, em Ciência de Materiais, pela Universidade de California, Berkeley (EUA). Ele passou 4 anos no Centro de Pesquisa Palo Alto (EUA) antes de se juntar ao Departamento de Ciência e Engenharia de Materiais da Universidade de Stantford em dezembro de 2005.  Salleo é Editor Principal da MRS Communications, Editor Associado do Journal of Electronic Materials, e membro do Conselho Consultivo do Journal of Organic Electronics. Recebeu o Early Career Achievement Award da SPIE, a sociedade internacional de Óptica e Fotônica, e o 3M Untenured Faculty Award, entre outras honras. Ele é autor ou coautor de mais 140 trabalhos em periódicos com revisão por pares, bem como de 6 capítulos de livros, além de ser o coautor de um livro sobre eletrônica flexível.

Confira abaixo nossa entrevista com o palestrante.

Boletim da SBPMat: – Escolha algumas de suas publicações mais destacadas sobre eletrônica orgânica e compartilhe-as com nossos leitores.

Alberto Salleo: – Meu grupo tem se interessado, há bastante tempo, pelo papel que as imperfeições exercem no transporte nos semicondutores orgânicos. Combinamos a caracterização dos materiais para correlacionar estrutura e propriedades, realmente nos aprofundando na “Ciência de Materiais” dos semicondutores orgânicos. Em 2009, investigamos a função da estrutura das bordas de grão no transporte de cargas em semicondutores cristalinos [J. Rivnay, L. Jimison, J. Northrup, M. Toney, R. Noriega, T. Marks, A. Facchetti, A. Salleo, “Large Modulation of Carrier Transport by Grain Boundary Molecular Packing and Microstructure in Organic Semiconductor Thin Films.  Implications for Organic Transistor Performance”, Nature Materials 8, 952-958 (2009)]. Depois, estendemos nosso trabalho para compreender como a microestrutura dos polímeros semicristalinos afeta a mobilidade do portador, e esboçamos algumas regras básicas para os materiais [R. Noriega, J. Rivnay, K. Vandewal, F.P.V. Koch, N. Stingelin, P. Smith, M.F. Toney, A. Salleo, “A general relationship between disorder, aggregation and charge transport in conjugated polymers“, Nature Materials, 12, 1037-1043 (2013)].

Nos últimos anos, temos nos interessado nos processos fundamentais da geração de cargas na fotovoltaica orgânica. Em colaboração com outros grupos, descobrimos o intermediário fundamental do processo de produção de cargas, que é o estado de transferência de carga termalizado. [K. Vandewal, S. Albrecht, E.T. Hoke, K.R. Graham, J. Widmer, J.D. Douglas, M. Schubert, W.R. Mateker, J.T. Bloking, G.F. Burkhard, A. Sellinger, J.M.J. Frechet, A. Amassian, M.K. Riede, M.D. McGehee, D. Neher, A. Salleo, “Efficient charge generation by relaxed charge-transfer states at organic interfaces”, Nature Materials 13, 63-68 (2014)].

O transporte de cargas em microestruturas poliméricas heterogêneas é dominado pela percolação através de regiões ordenadas.

Boletim da SBPMat: – Em sua opinião, quais são os principais desafios da eletrônica orgânica para a Ciência e Engenharia de Materiais?  E quais serão as principais aplicações dos semicondutores orgânicos que veremos no cotidiano nas próximas décadas?

Alberto Salleo: – Como esses materiais apresentam ligações de van der Waals fracas, sua microestrutura é muito dependente dos processos. Esta é uma propriedade excelente para os estudos fundamentais, uma vez que ela nos permite produzir uma grande variedade de estruturas com relativa facilidade. Por outro lado, a maioria das aplicações exige que muitos (às vezes, milhares) de dispositivos sejam integrados, o que impõe restrições rigorosas sobre a reprodutibilidade das características elétricas. Alcançar o nível de reprodutibilidade necessário para construirmos circuitos minimamente complexos ainda é desafiador.

Quanto às aplicações, é importante pensar em um espaço que seja bem adaptado às propriedades únicas dos semicondutores orgânicos. Displays de OLED já estão no mercado, mas talvez no futuro possam ser acionados por transistores orgânicos para expandir ainda mais sua flexibilidade, além da sustentabilidade em sua fabricação. OLEDs também são promissores como fontes de iluminação com baixo consumo e custos reduzidos. Claro, há um progresso contínuo na fotovoltaica, e a possibilidade de os materiais orgânicos integrarem células tandem vem se tornando cada vez mais realista, enquanto descobertas fundamentais também podem torná-los competitivos como junções simples para aplicações às quais sua leveza e flexibilidade agreguem valor. Por fim, há diversas aplicações que não exigem grande velocidade, mas que se beneficiam das propriedades mecânicas dos orgânicos. Estou falando da bioeletrônica e dos eletrônicos vestíveisos quais têm crescido significativamente nos últimos tempos. Dispositivos orgânicos têm sido usados para monitorar sinais cerebrais e entregar medicamentos em determinados pontos do organismo, além medir o batimento cardíaco ou a taxa de oxigênio sanguíneo.   

Boletim da SBPMat: – Conte-nos um pouco a respeito da palestra plenária sobre dispositivos eletrônicos orgânicos que dará no XIII Encontro da SBPMat.

Alberto Salleo: – Meu interesse é compreender como a microestrutura e as imperfeições exercem uma função nas propriedades dos materiais. No fim das contas, essas relações são importantes para todos os dispositivos, portanto, considero que nosso trabalho é bastante fundamental, independentemente das aplicações. Meu objetivo na palestra é escolher um dispositivo (ainda tenho alguns meses para decidir qual!) e demonstrar exatamente como a estrutura do material, em todas as escalas, afeta o seu comportamento. Esse tipo de estudo estabelece um nexo entre os cientistas que produzem os materiais, aqueles que os processam, e aqueles que projetam os dispositivos.

Boletim SBPMat – edição 20 – abril 2014

 

Edição nº 20 – Abril de 2014

Saudações, .

Novidades da SBPMat 

XIII Encontro da SBPMat. 

João Pessoa, 28 de setembro a 2 de outubro.

Está aberta, até 23 de maio, a submissão de resumos para os simpósios da SBPMat, os quais cobrem 19 variadas áreas. Os melhores trabalhos de cada simpósio apresentados por estudantes serão distinguidos com o Prêmio Bernhard Gross e poderão ser publicados em volume especial de periódico de acesso aberto do IOP. Saiba mais.

Deseja nos ajudar a divulgar o XIII Encontro da SBPMat? Pode imprimir,  a partir do site do evento, o cartaz ou o folder.

Outras novidades da SBPMat. 

– Na mídia internacional: o site de divulgação da área de Materiais Materials Today, ligado à editora Elsevier, publicou nosso “artigo em destaque” do mês de março. Veja.

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Artigo em destaque

Uma equipe de pesquisadores de universidades brasileiras (UFU e UnB) desenvolveu um novo método para sintetizar pontos quânticos. Além de ser barato, reproduzível e eficiente para fabricar os minúsculos cristais semicondutores, o método veio com um bônus: permite o controle da espessura da casca dos pontos quânticos. Promissores para aplicações biotecnológicas, os resultados do trabalho foram publicados no periódico ACS NanoVeja a matéria de divulgação que preparamos para este boletim.

(Sugira artigos da área de Materiais com participação brasileira publicados em periódicos com alto fator de impacto para ser divulgados nesta seção do boletim: comunicacao@sbpmat.org.br)

Gente da nossa comunidade

Conversamos com o pesquisador Fernando Zawislak, introdutor da área de implantação iônica no Brasil. Mais de 30 anos atrás, Zawislak criou o Laboratório de Implantação Iônica da UFRGS – ainda hoje, o maior da América Latina – que atende as mais diversas áreas do conhecimento por meio da criação de nanoestruturas e da análise de materiais por feixe de íons. O cientista também foi um dos pais do Programa de Pós-Graduação em Ciência de Materiais da federal gaúcha. Na entrevista, o professor emérito nos falou sobre essas contribuições e o que o motivou a fazê-las. Ele também deixou um recado para os mais jovens, aconselhando-os a escolher uma área da qual gostem e um orientador atualizado e serem empreendedores e abertos à multidisciplinaridade. Veja nossa entrevista com Fernando Zawislak.

Professor Edgar Zanotto (UFSCar) recebe distinção da Fundação Parque Tecnológico de São Carlos por suas ações em prol do desenvolvimento da cidade paulista. Notícia.

Professor Victor Pandolfelli (UFSCar) é eleito para o advisory board da Academia Mundial de Cerâmica. Notícia.

Dicas de leitura

Divulgação científica de artigos publicados em periódicos de alto fator de impacto.

Materiais biomiméticos: inspirada na estrutura do nácar, nova cerâmica consegue tenacidade, resistência e dureza (divulgação de paper da Nature Materials). Aqui.

Como se fosse concreto armado, grafeno é reforçado com nanotubos de carbono, com uso potencial em telas flexíveis (divulgação de paper da ACS Nano). Aqui.

– Plantas nanobiônicas: nanotubos de carbono aumentam fotossíntese e introduzem funções não naturais em plantas (divulgação de paper da Nature Materials). Aqui.

– Mantos acústicos: dispositivo 3D torna uma região do espaço “invisível ao som” (divulgação de paper da Nature Materials). Aqui.

Novidades dos INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do CNPq) sobre Materiais.

INCT em Materiais Complexos Funcionais: triboeletrização é componente importante do atritoAqui.

– Nanotoxicidade do grafeno e óxido de grafeno: trabalho de pesquisadores brasileiros é capa de revista da ACS. Aqui.

– Sensor desenvolvido no INCT Namitec é usado em floricultura. Aqui.

Namitec desenvolve sensor de radiação ionizante, que pode evitar interferências em aparelhos de satélites, aviões etc. Aqui.

Oportunidades

Concurso para professor do IFGW – Unicamp em Física Biológica Experimental.  Aqui.

Vários concursos para professor no IFGW – Unicamp: dispositivos nano-estruturados

Física Experimental de materiais avançados e outros. Aqui.

– Competição BE-Basic para planos de negócios em produção sustentável de produtos de base biológica.  Aqui.

Próximos eventos da área

10º Encontro Brasileiro sobre Adsorção. Aqui.

9th Ibero-American Conference on Membrane Science and Technology (CITEM 2014). Aqui.

13th International Conference on Modern Materials and Technologies (CIMTEC 2014). Aqui.

1st International Conference on Polyol Mediated Synthesis. Aqui.

 2º Workshop Adesão Microbiana e Superfícies. Aqui.

13th European Vacuum Conference + 7th European Topical Conference on Hard Coatings + 9th Iberian Vacuum Meeting. Aqui.

19th International Conference on Ion Beam Modification of Materials. Aqui.

XIII Encontro da SBPMat. Aqui.

MM&FGM 2014 – 13th International Symposium on Multiscale, Multifunctional and Functionally Graded Materials. Aqui.

X Brazilian Symposium on Glass and Related Materials (X-BraSGlass). Aqui.

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Gente da nossa comunidade: entrevista com o pesquisador Fernando Zawislak.

O professor Fernando Zawislak. Crédito: arquivo pessoal.

Fernando Claudio Zawislak nasceu em 1935 no município gaúcho de Santa Rosa, numa família de origem polonesa que morava no meio rural. Na década de 1940, os pais de Fernando o enviaram a Porto Alegre junto com um de seus irmãos para estudar como alunos internos. Em 1952, a família toda se mudou para a capital gaúcha, dando continuidade à decisão de priorizar a educação dos filhos.

Em 1958, Fernando Zawislak se formou em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De 1960 a 1961 fez estágio no Laboratório Van de Graff da Universidade de São Paulo (USP) com os professores Oscar Sala e Ernst Hamburger. Ali teve os primeiros contatos com a pesquisa. Em seguida, retornou ao Instituto de Física da UFRGS e iniciou e coordenou um grupo de pesquisa experimental na área de Física Nuclear. Nesse campo, orientado pelo professor John D. Rogers, obteve o título de doutor, aprovado “com louvor” em 1967, transformando-se no primeiro doutor em Física formado pela UFRGS. De 1968 a 1970, fez pós-doutorado no California Institute of Technology (Caltech), nos Estados Unidos.

Em 1979 passou a trabalhar no campo da implantação iônica e uso de técnicas de feixes de íons para modificação e análise de materiais. Com este objetivo foi pesquisador visitante por um ano no Laboratório de Implantação Iônica de Orsay, da Universidade de Paris (França). Em 1981, fundou o Laboratório de Implantação Iônica na UFRGS mediante a aquisição de um acelerador de 400 kV. Em 1996 realizou a compra de um acelerador de 3 MV, o qual permitiu ampliar as atividades do laboratório para novos campos, como semicondutores, polímeros, metais e ligas metálicas, entre outros. Coordenou o Laboratório de Implantação Iônica desde a sua fundação até 2009. Hoje, o laboratório é o maior de seu tipo na América Latina, conta entre seus resultados com mais de 60 doutores formados e cerca de 1.000 artigos científicos publicados, além de trabalhos desenvolvidos em colaboração com grupos do Brasil, Alemanha, Argentina, Austrália, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França e Nova Zelândia. Durante a década de 1990, Zawislak participou no planejamento e na obtenção de recursos do Centro de Microscopia Eletrônica da UFRGS e da criação do  de Programa de pós-graduação em Ciência dos Materiais (PGCIMAT) da UFRGS.

Aposentou-se da UFRGS em 2005. É Professor Emérito da federal gaúcha, pesquisador nível 1 A do CNPq, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e Comendador e Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Durante sua carreira formou 14 doutores e 16 mestres, publicou mais de 160 artigos científicos em revistas internacionais indexadas e foi chairman de, entre outras, duas das mais importantes conferências internacionais da área de implantação iônica, a Ion Beam Modification of Materials (Canela, RS, 2000) e a Radiation Effects in Insulators (Gramado, RS, 2003), ambas realizadas pela primeira vez em país latino-americano.

Segue uma breve entrevista com o pesquisador.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à Ciência e Engenharia de Materiais? Conte-nos também o que o levou a realizá-las.

Fernando Zawislak: – Eu iniciei minha carreira científica trabalhando na área de Física Nuclear Experimental. Inclusive, fiz doutorado nessa área. Em 1968 fui para Califórnia para fazer o pós-doutorado no California Institute of Technology. Lá, nesse instituto, estava se iniciando a área de Ciência de Materiais, e, mais precisamente, a área de implantação iônica e análise por feixe de íons. Os Estados Unidos tinham decidido investir fortemente na área de interdisciplinaridade, especialmente em Ciência dos Materiais. Lá no Caltech eu não trabalhei em Materiais, mas acompanhei os trabalhos. E eu disse: “Se eu tiver oportunidade, vou iniciar no Brasil essa área de implantação iônica e estudos de materiais por feixes de íons”.

A Califórnia era um dos três ou quatro lugares do mundo onde estava iniciando a área de implantação iônica e análise de materiais. E eu ia nos seminários, apesar de estar trabalhando em outra área. Então voltei ao Brasil em 1970, mas foi só em 1982 que consegui instalar o Laboratório de Implantação Iônica. Foi uma mudança radical na minha vida, mas acho que isto é importante: todo pesquisador deveria, se possível, mudar uma ou duas vezes de área durante sua carreira para ir sempre para uma área mais moderna. Eu estava trabalhando numa área mais antiga, onde estava difícil publicar, e a implantação iônica estava começando, e até agora é muito importante.

Nessa área de Ciência de Materiais, que iniciei em 1982 quando mudei de área, adquiri o primeiro implantador, e formei, nesses vinte e poucos anos, até a minha aposentadoria, muitos doutores e mestres, publiquei mais de cem trabalhos e desenvolvi estudos, basicamente na área de nanoestruturas de materiais e modificação de materiais por feixes de íons.

Na verdade, eu estava interessado na interdisciplinaridade, e a área de Ciência de Materiais é evidentemente interdisciplinar. Essa interdisciplinaridade é absolutamente necessária, como os Estados Unidos descobriram, fundando nessa época vinte centros interdisciplinares. Assim, no Brasil, quando eu voltei, comecei a lutar por essa interdisciplinaridade. Na verdade todo mundo era a favor, mas nem a universidade nem as agências de fomento apoiavam as áreas interdisciplinares. Existia um domínio das disciplinas clássicas. Cada departamento focava na sua área e, com o surgimento de novas áreas, as pessoas não queriam compartilhar, não queriam perder alunos, bolsas… Bom, mas lutamos bastante, e eu fui um dos que lutaram pela criação da pós-graduação em Ciência dos Materiais na UFRGS, junto com colegas da Física, da Química, da Engenharia. E conseguimos realizar.

Então, os frutos da minha atividade em Materiais foram, de um lado, o Laboratório de Implantação Iônica e, por outro lado, a criação da pós-graduação em Ciência dos Materiais. Também tive uma ação muito intensa tentando convencer nas reuniões científicas de que era absolutamente essencial entrar na área interdisciplinar porque todos os grandes avanços da pesquisa e da inovação são interdisciplinares.

Até hoje, o Laboratório de Implantação Iônica é o maior da América Latina e é similar em eficiência e equipamentos a muitos dos bons laboratórios do mundo todo. O laboratório tem 25 doutores, sendo que sempre tem 21 ou 22 permanentes e 3 ou 4 pós-doutores. Tem 30 alunos de pós-graduação, uma meia dúzia de técnicos, mais os alunos de iniciação científica… Temos um total de mais de 50 pessoas no laboratório. Eu dirigi o laboratório até 2010, quando fui substituído por um colega, um jovem, que é o Pedro Grande.

O curso de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais, eu acho que também está indo muito bem, mas ainda tem dificuldades. Eu cheguei a formar alunos do curso, mas agora estou aposentado.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua opinião, os principais desafios atuais da área de implantação iônica com relação à Ciência e Engenharia de Materiais?

Fernando Zawislak: – Eu acho que o importante da implantação iônica é que ela engloba várias áreas de pesquisa, começando pela Física, Química, várias Engenharias, Biologia, Genética, Geologia, todos são campos onde a implantação iônica e, principalmente, a análise de materiais no acelerador, são importantes. Nós conseguimos medir quantidades muito pequenas de impurezas, por exemplo. De uns cinco anos para cá nós introduzimos microfeixes, que são feixes focalizados para o tamanho de um mícron. Esse feixe tem condições de analisar microestruturas, incrustações da Geologia ou da Microeletrônica. Agora nós temos dois aceleradores no laboratório, um menor, que é o primeiro, e outro de 3 MV que foi adquirido no final de década de 1990. As técnicas, como RBS, MEIS etc. medem, inclusive, as formas e tamanhos das nanopartículas. A gente, por um lado, implanta uma impureza numa matriz e, de acordo com a energia da implantação e a temperatura, você faz nanopartículas desde 2 ou 3 nm até 100 nm. Então eu acho que o futuro e os desafios são muito grandes, e a técnica tem muita potencialidade em muitas áreas. Por exemplo, nós estamos analisando o vinho do Rio Grande do Sul. Eu acho que o laboratório está indo muito bem. Eu me aposentei, mas, graças a Deus, fui bem substituído. O laboratório está indo até melhor do que quando eu era coordenador…

Boletim da SBPMat: – Conte-nos quais são suas principais ocupações atuais e seus projetos para o futuro.

Fernando Zawislak: – Bom, no futuro eu não estou pensando muito. Eu estou aposentado faz dez anos, sou Professor Emérito. Ainda tenho bolsa do CNPq, pois continuo publicando, mas agora a minha produtividade propriamente de pesquisa está diminuindo. Eu estou usando o meu tempo para ajudar os colegas mais jovens, participando de algumas sociedades, de alguns conselhos… Em fim, atividades para uma pessoa que já está na aposentadoria. Meu último aluno se formou no ano passado, doutor, e já não estou aceitando mais alunos, mas continuo ajudando se me pedem alguma coisa.

Boletim da SBPMat: – Gostaria de deixar uma mensagem para nossos leitores que estão iniciando suas carreiras de cientistas?

Eu acho que o importante para o pesquisador é escolher a carreira numa área que ele goste. Como professor, muitos colegas me perguntam: “Que carreira deve meu filho seguir?”. Eu costumo responder: “Qualquer uma, desde que ele goste. Todas são boas”.

Eu também acho que os jovens agora não devem fazer um curso de graduação muito afunilado numa área só. Acho que devem ficar com a mente aberta para a interdisciplinaridade, colaborar com outros colegas, eventualmente cursar disciplinas em outras áreas. Para mim, isso é muito importante, porque ficar muito focalizado numa área tem um espectro muito restrito: vai acabar sendo professor na universidade. E acho que a expectativa do Brasil é que os jovens saiam da universidade e criem indústrias, inovação etc.

Penúltimo conselho: escolha um orientador atualizado em campo moderno de trabalho.

E o último é: tem que ser empreendedor. Isso é o que falta. No Brasil discute-se muito essa questão da interação da indústria com a universidade, mas não adianta, não se pode transformar um industrial “velho” que ficou rico fazendo parafusos, e convencê-lo de que tem que contratar doutores e fazer um laboratório de pesquisa. São os jovens os que têm que iniciar isso. Nos resultados das nossas universidades, alguns sucessos de inovação tecnológica foram feitos por alunos que saem do doutorado e até da graduação. Então, como se faz um jovem empreendedor? Tem que procurar fazer estágios, na indústria, se possível, e, eventualmente, ir para um país onde exista essa cultura do empreendedor, como, por exemplo, os Estados Unidos, a Alemanha, a Coreia, o Japão. Aqui no Brasil, os químicos são mais empreendedores do que os físicos, algumas áreas da Engenharia também, mas ainda falta, e isso é extremamente importante. Seria importante conscientizar o jovem de que ele pode sair da universidade e ir para um novo campo para inovar tecnologicamente.