O professor Edgar Dutra Zanotto. Crédito: Enzo Kuratomi/ UFSCar.
No dia 25 de abril, o pesquisador da área de Materiais Edgar Dutra Zanotto, um dos principais fundadores da nossa SBPMat, recebeu o título “Peão da Tecnologia” da Fundação Parque Tecnológico de São Carlos – ParqTec. Criado em 1993, o título é concedido a pessoas que tenham contribuído significativamente, através de inovação tecnológica, para aumentar a produção, qualidade e competitividade de produtos, processos e serviços nas empresas. A cerimônia, realizada no São Carlos Science Park – Parque Tecnológico de São Carlos, contou com a presença de pesquisadores, professores, empresários e autoridades locais e regionais. Na mesma cerimônia, o professor José Guilherme Sabe também recebeu o título.
Segundo o presidente do Conselho do ParqTec, Irineu Gualtieri, o prêmio foi outorgado aos professores devido a suas ações em prol do desenvolvimento da cidade. “Com pioneirismo e inovação, os agraciados têm contribuído de maneira significativa para a construção da Capital da Tecnologia desenvolvendo pesquisas, implantando projetos e estimulando o surgimento de novas empresas” afirmou Gualtieri. “Os homenageados possuem todas as características de um Peão da Tecnologia. São dinâmicos, estratégicos, inovadores, ativos, transparentes e humanos”, concluiu o presidente do ParqTec, Sylvio Goulart Rosa Jr.
Sobre o professor Edgar Dutra Zanotto
O professor Edgar Dutra Zanotto é engenheiro de Materiais pela UFSCar, mestre em Física pela IFSC – USP e PhD em Tecnologia de Vidros pela Universidade de Sheffield, na Inglaterra. Ele atuou como professor visitante no departamento de Ciência e Engenharia de Materiais da Universidade de Arizona em 1987 e no “college of Optics and Photonics” da Universidade da Florida Central em 2005, ambos nos EUA.
O pesquisador, professor titular do departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (DEMa – UFSCar) e membro do Conselho de Curadores do ParqTec, foi o vencedor do Prêmio Almirante Álvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia – edição 2012. Zanotto já foi agraciado com mais 25 prêmios, que incluem três dos mais importantes em ciência dos vidros (Zachariasen Award concedido pelo Journal of Non-Crystalline Solids, Vittorio Gottardi Prize pela International Commission on Glass e G. W. Morey Award pela American Ceramic Society).
As atividades de pesquisa do professor e seus colaboradores focam principalmente o tema “cristalização e propriedades de vidros”. O professor e seus colaboradores já publicaram mais de 200 artigos, no Brasil e no exterior, realizaram mais de vinte projetos em parceria com empresas. Zanotto possui ainda 12 patentes depositadas, duas delas premiadas pelo Ministério da Educação (MEC) e pela IBM, e no Concurso Nacional “Prêmio Governador do Estado” – Invento Brasileiro 1996.
Zanotto é pesquisador nível 1A do CNPq, membro da Sociedade de Tecnologia de Vidros do Reino Unido, da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), da Academia Mundial de Cerâmica (WAC) e da Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento (TWAS).
O professor Zanotto também atuou como Coordenador Adjunto da diretoria científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), entre 1995 e 2005, com participação ativa na concepção e implantação de diversos projetos de fomento à pesquisa e de divulgação científica. Atualmente ele acumula as seguintes funções administrativas e consultivas: diretor do CEPID-Fapesp (CeRTEV- Center for Research, Technology and Education in Vitreous Materials), supervisor do Laboratório de Materiais Vítreos (LaMaV)-DEMa/UFSCar, editor principal do Journal of Non-Crystalline Solids, secretário da divisão de vidros e materiais ópticos da ACerS (EUA), vice-chair do comitê técnico de cristalização de vidros da International Commission on Glass; membro dos conselhos do International Materials Institute (USA), da ACIESP e do IMPA; diretor da Associação Brasileira de Cerâmica e Curador do ParqTec desde 1984.
(Texto elaborado com base em informações da assessoria de imprensa do ParqTec)
O artigo científico com participação de membros da comunidade brasileira de pesquisa em Materiais em destaque neste mês é:
Anielle Christine A. Silva, Sebastião W. da Silva, Paulo C. Morais, and Noelio O. Dantas. Shell thickness modulation in ultrasmall CdSe/CdS(x)Se(1-x)/CdS core/shell quantum dots via 1-thioglycerol. ACS Nano, 2014 Feb 25; 8(2):1913-22. DOI: 10.1021/nn406478f.
Texto de divulgação:
Cristais ultrapequenos com cascas de espessura controlada.
Quando o professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Noelio Oliveira Dantas ideou uma nova metodologia para sintetizar pontos quânticos (cristais semicondutores de apenas alguns nanometros de tamanho), ele estava investigando rotas de fabricação dos minúsculos cristais visando aplicações biotecnológicas. Dessa maneira, o Laboratório de Novos Materiais Isolantes e Semicondutores que o professor Dantas coordena na UFU buscava atender demandas da Rede Nanobiotec- Brasil, programa da Capes destinado a promover a pesquisa em nanobiomateriais.
Representação de um ponto quântico obtido pelo método reportado no artigo.
Entretanto, os resultados superaram as expectativas iniciais. Além de gerar pontos quânticos ultrapequenos, compostos, basicamente, por um núcleo de seleneto de cádmio (CdSe) e uma casca de sulfeto de cádmio (CdS), o novo método, barato e altamente reproduzível, surpreendeu pela sua capacidade de controlar a espessura da casca dos pontos quânticos, uma novidade com relação a outras rotas conhecidas.
O trabalho foi desenvolvido durante a pesquisa de doutorado direto (sem mestrado prévio) que Anielle Christine Almeida Silva desenvolve no Instituto de Física da UFU, com orientação do professor Dantas e bolsa da Capes – Rede Nanobiotec. Alguns resultados da pesquisa foram publicados neste ano pelo periódico ACS Nano, num artigo assinado pela doutoranda e o orientador, junto a dois colaboradores da Universidade de Brasília, os quais contribuíram com a caracterização dos pontos quânticos por espectroscopia Raman e participaram da discussão dos resultados.
O trabalho
“A principal contribuição científica deste artigo é a proposta de uma nova metodologia de síntese, via solução aquosa, que permitiu o controle da espessura da casca de CdS em pontos quânticos ultrapequenos de CdSe em função da concentração de 1-tioglicerol”, resume Anielle, que, neste dias, defende sua tese de doutorado. Mais detalhadamente, os pesquisadores descobriram que, enquanto menores concentrações de 1-tioglicerol limitam o crescimento do núcleo dos pontos quânticos, maiores quantidades do composto promovem o crescimento controlado da sua casca.
Os cristais ultrapequenos obtidos apresentaram medidas de menos de 2 nm no núcleo e de 0,50 a 1,25 nm na casca. Para calcular estas medidas a partir de espectros obtidos pela técnica Raman, os autores do artigo utilizaram um modelo de confinamento de fônons com modificações propostas por eles mesmos e mais um autor em outro artigo publicado em 2013 (Anielle Christine Almeida Silva; Ernesto Soares de Freitas Neto; Sebastião William da Silva; Paulo Cesar de Morais; Noelio Oliveira Dantas. Modified Phonon Confinement Model and its Application to CdSe/CdS Core-Shell Magic-Sized Quantum Dots Synthesized in Aqueous Solution by a New Route. Journal of Physical Chemistry. C, v. 117, p. 1904-1914, 2013.).
Quanto às aplicações biotecnológicas inicialmente visadas, os autores explicam que estes pontos quânticos obtidos pela nova rota são promissores devido a sua capacidade de se dispersar facilmente em meios aquosos. De acordo com os cientistas, a estrutura dos cristais ultrapequenos obtidos, semelhante à de um sanduíche com duas fatias de pão e um fino recheio, pode contribuir à maior eficiência quântica e estabilidade dos pontos quânticos em meios biológicos. Para mais informações sobre estas aplicações, os cientistas indicam outro artigo: Anielle Christine Almeida Silva; Samantha Luara Vieira de Deus; Marcelo José Barbosa Silva; Noelio Oliveira Dantas. Highly Stable Luminescence of CdSe Magic-Sized Quantum Dots in HeLa Cells. Sensors and Actuators. B, Chemical, v. 191, p. 108-114, 2014.
1 vaga Física Experimental. Requisitos para provimento no cargo: Graduação em Física e Doutorado ou PhD em: Física ou Ciências ou Astromia ou Química ou Doutorado proveniente de programas de Pós Graduação vinculados a Capes nas áreas das Engenharias.
1 vaga Física Computacional. Requisitos para provimento no cargo: Graduação em Física e Doutorado ou PhD em: Física ou Ciências ou Matemática ou Computação ou Físico-Química ou Doutorado proveniente de Programas de Pós Graduação vinculados a Capes nas áreas das Engenharias.
Edital para Concurso de Professor Doutor junto ao IFGW/UNICAMP, que foi publicado no DOE de 17/04/14.
Área de Física Biológica Experimental – É desejável que o candidato tenha o seguinte perfil: Experimental em óptica não linear,
pulsos ultracurtos e microscopias fotônicas aplicadas às ciências da vida.
Está aberta, até o dia 23 de maio, a submissão de resumos para o XIII Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat). O evento será realizado de 28 de setembro a 2 de outubro em João Pessoa, no Centro de Convenções da cidade, recém-inaugurado.
São aceitos trabalhos de pesquisadores e estudantes do Brasil e do exterior em qualquer uma das áreas dos 19 simpósios do evento, os quais cobrem os mais variados temas da pesquisa em Materiais e suas aplicações. Os simpósios foram selecionados pelo comitê organizador do evento a partir das propostas recebidas numa chamada lançada em outubro do ano passado e direcionada a toda a comunidade científica.
Os melhores trabalhos de cada simpósio (no máximo, um pôster e um oral) apresentados por estudantes de graduação ou pós-graduação serão destacados no final do evento com o Prêmio Bernhard Gross. Os trabalhos premiados poderão fazer parte de um volume especial, dedicado aos melhores trabalhos do XIII Encontro da SBPMat, do periódico de acesso aberto “IOP Conference Series: Materials Science and Engineering”.
Sobre os Encontros da SBPMat
O encontro anual da SBPMat é um tradicional fórum internacional dedicado aos recentes avanços e perspectivas em ciência e tecnologia de Materiais. Nas últimas edições, o evento tem reunido cerca de 1.500 participantes das cinco regiões do Brasil e de dezenas de outros países para apresentação e discussão de trabalhos de pesquisa científica e tecnológica na área de Materiais. O evento conta também com palestras plenárias de pesquisadores mundialmente destacados e com expositores do interesse da comunidade de Materiais.
Divulgação dos Editais para Concursos de Professor Doutor junto ao IFGW/UNICAMP, que foram publicados no DOE de 04/04/14.
01) Dispositivos nano-estruturados – É desejável que o candidato tenha o seguinte perfil: Experimental nas sub-áreas: Dispositivos integrados, optomecânica, transporte, sensores avançados.
02) Informação Quântica Experimental – É desejável que o candidato tenha o seguinte perfil: Jovem pesquisador com característica de liderança para montar novo laboratório de pesquisa na área.
03) Física Experimental de Materiais Avançados – É desejável que o candidato tenha o seguinte perfil: Experimental nas sub-áreas de Materiais orgânicos; materiais emergentes (à base de carbono, grafeno, bucky-balls, nanotubos); magnéticos não usuais; isolantes topológicos; materiais vítreos, spintrônica; propriedades ópticas de materiais nano-estruturados.
Lançamos o Programa UC da SBPMat. Estudantes podem formar grupos organizados vinculados à sociedade para realizar palestras e outras atividades de C&T, participar de eventos, realizar intercâmbios etc., contando com um orçamento anual e apoio financeiro. O formulário de solicitação de criação já está disponível. Veja.
Artigo em destaque
Neste mês destacamos um artigo publicado na Nanoscale e realizado por grupos de pesquisa do Brasil com colaboradores da Espanha e da França. Os cientistas montaram sensores baseados em nanobastões de tungstato de prata e avaliaram seu desempenho para detectar ozônio – um gás que, acima de determinada concentração, é nocivo para a saúde. O tungstato de prata se revelou um ótimo material para uso em sensores de ozônio.
(Para sugerir artigos da área de Materiais com participação brasileira publicados em periódicos científicos com alto fator de impacto para ser divulgados nesta seção do boletim, entre em contato: comunicacao@sbpmat.org.br)
Gente da nossa comunidade
Conversamos com o cientista Sergio Mascarenhas, conhecido na nossa comunidade por ter criado, na UFSCar, o primeiro curso de Engenharia de Materiais da América Latina. Mascarenhas fez importantes contribuições à área de Materiais, como seus estudos em cristais iônicos, usados em memórias ópticas. Mas também foi além, e guiado pela ideia de cumprir a função social do cientista, conseguiu realizações que permearam áreas como a Biologia, Medicina e Agropecuária. Com 85 anos, o cientista tem hoje a preocupação de incentivar os jovens a desenvolverem alguns temas de fronteira que considera muito importantes para a humanidade, os sistemas complexos e a biomimética.
Iniciamos uma série de entrevistas com ex-presidentes da SBPMat sobre a atuação das sucessivas diretorias da nossa Sociedade. Na entrevista com Guillermo Solórzano, leia quais foram as principais ações, dificuldades e pendências da diretoria fundadora (2001-2003), os destaques dos primeiros encontros da SBPMat e mais. Aqui.
Dicas de leitura
Divulgação científica de artigos publicados em periódicos de alto fator de impacto.
Nanopartículas de platina e níquel erodidas por dentro formam nanoestrutura com design otimizado para eletrocatálise (divulgação de paper da Science). Aqui.
Membranas de grafeno dessalinizam a água em escala subnanométrica (divulgação de paper da Science). Aqui.
Além de gerar eletricidade a partir do sol, material baseado em perovskita emite luz de várias cores (divulgação de paper da Nature Materials). Aqui.
Nova técnica de fabricação de membranas de grafeno para filtros monocamada e multicamada (divulgação de paper da Nano Letters). Aqui.
Novo biomaterial: gel se contrai na temperatura do corpo humano e leva células-tronco a iniciar a formação de dentes (divulgação de paper da Advanced Materials). Aqui.
Sistema de liberação de fármacos para pacientes com glaucoma: nanodiamantes em lentes de contato (divulgação de paper da ACS Nano). Aqui.
Bactérias em cristal líquido interagem e formam um novo material aplicável em Biomedicina. Veja texto e vídeo (divulgação de artigo dos Proceedings of the National Academy of Sciences). Aqui.
Novidades dos INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do CNPq) sobre Materiais.
Compostos metálicos desenvolvidos no INCT Redoxoma demonstram potencial ação antitumoral e antiparasitária. Aqui.
Livros, apresentações, material mutimídia etc.
Resenha de livro sobre nanomateriais e Engenharia de Tecidos. Aqui.
Oportunidades
Pós-doc nos Estados Unidos em perovskita ou semicondutores orgânicos via Ciência Sem Fronteiras. Aqui.
Pós-doc em materiais multiferroicos e dispositivos funcionais na Universidade Estadual de Maringá (PR). Aqui.
Pós-doc em materiais para aplicação em fotônica na Universidade Estadual de Maringá (PR). Aqui.
Próximos eventos da área
VI Curso do Método Rietveld de Refinamento de Estrutura. Aqui.
CONCURSO PÚBLICO DE PROVAS E TÍTULOS PARA PROFESSOR ADJUNTO (40h DE) DO GQI- 2014
Área: Química Inorgânica
Estão abertas, no período de 17 de março a 15 de abril de 2014, as inscrições para o Concurso Público de Provas e Títulos para o provimento de 01 (uma) vaga para o cargo de PROFESSOR ADJUNTO-A, com Dedicação Exclusiva, do Departamento de Química Inorgânica (GQI), do Instituto de Química, da Universidade Federal Fluminense.
O concurso constará de: 1) Prova Escrita; 2) Prova Prática; 3) Prova Didática e 4) Análise de Currículo . (Anexo I – item 6 do Edital 80/14)
Edital nº 80/2014, publicado no D.O.U nº 48, de 12/03/2014 – seção 3
Taxa de inscrição: R$ 230,00 (item 2.5 do Edital 80/14)
As inscrições deverão ser feitas através do sítio https://sistemas.uff.br/cpd/, mediante cadastro no sistema e pagamento da GRU, além do fornecimento de cópias digitalizadas de documentos (ítens 2.1, 2.2 e seus subítens do Edital 80/14).
O cientista Sergio Mascarenhas na noite de 23 de setembro de 2012, durante a palestra memorial Joaquim Costa Ribeiro do XI Encontro da SBPMat, realizado em Florianópolis (SC).
Ao longo de sua trajetória de cientista, Sergio Mascarenhas Oliveira, hoje com 85 anos de idade, fez importantes contribuições ao desenvolvimento da pesquisa científica, principalmente no Brasil e, em particular, na área de Materiais. Partindo da Física do Estado Sólido, pilar da Ciência de Materiais, transitou por várias áreas do conhecimento, como a Biofísica Molecular e a Física Médica, entre muitas outras.
Guiado pela ideia de exercer a função social do cientista, ligada ao desenvolvimento social, Mascarenhas promoveu avanços na ciência e tecnologia com significativo impacto em setores como agropecuária, saúde e educação.
Um exemplo que ilustra o trabalho do professor Mascarenhas é o recente desenvolvimento de um sistema minimamente invasivo para medir a pressão intracraniana. A motivação surgiu quando o professor recebeu, em 2005, o diagnóstico médico de hidrocefalia e, durante o tratamento, teve que se submeter a perfurações do crânio para medir essa pressão. A partir desse momento, junto a estudantes e empresas, e com apoio de diversas entidades, realizou uma série de estudos, os quais resultaram num sistema minimamente invasivo, mais barato e aplicável a um vasto universo de pacientes.
Mascarenhas nasceu no Rio de Janeiro. Na graduação, entre 1947 e 1951, estudou Física na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após um período como pesquisador em universidades dos Estados Unidos, decidiu voltar ao Brasil. No país cumpriu papeis muito importantes na criação e coordenação de algumas instituições como o Instituto de Física e Química da USP de São Carlos, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e seu curso de Engenharia de Materiais (o primeiro da América Latina), a unidade de instrumentação da Embrapa, o Instituto de Estudos Avançados de São Carlos da USP, o qual coordena até hoje, e seu Programa Internacional de Estudos e Projetos para a América Latina.
Sérgio Mascarenhas é professor titular, atualmente aposentado, da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor visitante nas Universidades de Princeton, Harvard e MIT, nos Estados Unidos; na Universidad Nacional Autónoma de México, no Institute of Physical and Chemical Research do Japão, na London University (Reino Unido), e, na Itália, no Abdus Salam International Centre for Theoretical Physics e na Università di Roma.
Orientou cerca de 50 teses de mestrado e doutorado e publicou cerca de 200 artigos e livros. Entre muitos prêmios e distinções, podem ser citados a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasil, Presidência da República); os prêmios Guggenheim e Fulbright (Estados Unidos); Yamada Foundation (Japão), Fundação Conrado Wessel 2006 na modalidade de Ciência Geral, e distinções de professor emérito e doutor “honoris causa” de várias universidades do Brasil e do exterior. Em 2012, foi a vez de a SBPMat lhe outorgar uma distinção, a palestra memorial Joaquim Costa Ribeiro. Mascarenhas é membro da Academia Brasileira de Ciências, da American Physical Society, membro fundador da Academia Latino Americana de Ciência e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.
A seguir, a transcrição da entrevista que o professor Mascarenhas nos concedeu às 20:30 horas do dia 26 de março, após o término de uma reunião de trabalho. O cientista nos falou um pouco sobre sua trajetória, a função social do cientista e sua mensagem para os mais jovens.
As principais contribuições à ciência, tecnologia e inovação, principalmente na área de Materiais e no Brasil.
Como eu comecei a fazer ciência no Brasil num momento em que não havia, praticamente, Materiais, eu tive a sorte de poder introduzir esse tipo de pesquisa, tanto a aplicada quanto a básica. Então eu diria que, do ponto de vista institucional, uma contribuição importante foi a criação do Grupo de Física da Matéria Condensada no Instituto de Física da USP em São Carlos, na década de 1960. Graças a um intercâmbio muito forte entre a USP São Carlos, e as universidades de Princeton e Carnegie Mellon nos Estados Unidos, e também grupos da Inglaterra e da Alemanha, principalmente de Stuttgart, nós conseguimos estabelecer um programa de formação de pesquisadores bastante intenso, o qual dura até hoje.
Depois, tive ocasião de ser o primeiro reitor da UFSCar, e aí eu propus a criação do curso de Engenharia de Materiais. Essa foi a primeira carreira de Engenharia de Materiais da America Latina e teve um grande sucesso, tanto do ponto de vista acadêmico como empresarial. Essas foram duas contribuições institucionais que levaram à formação de uma verdadeira escola no Brasil de Ciência e Engenharia de Materiais.
Do ponto de vista da pesquisa, há contribuições que eu fiz com a colaboração de muitos professores jovens e seniores. Primeiramente, as pesquisas ligadas a defeitos em cristais, como cristais iônicos com centro de cor, através de radiação ou crescimento cristalino com impurezas. Esses cristais iônicos que apresentam centros de cor foram usados posteriormente para memórias ópticas. Isso resultou de uma colaboração bastante forte do nosso grupo de São Carlos com os laboratórios RCA de Princeton e a Bell Labs, nos Estados Unidos.
Outra área que tivemos a satisfação de ver desenvolvida é a de eletretos, materiais dielétricos que podem manter uma polarização elétrica por muito tempo, até 100 anos, como é o caso do teflon. Esses eletretos, então, foram estudados principalmente pelo grupo orientado pelo professor Bernard Gross, que eu tive a felicidade de trazer para São Carlos. Ele trabalhou com um grupo do MIT e da Bell Labs e desenvolveram o famoso microfone de eletretos que foi usado em todos os celulares, telefones e muitas outras aplicações. Essa foi uma aplicação que ganhou um status global de um produto que praticamente nasceu em São Carlos.
Depois, a minha extensão desse conceito de eletretos para os materiais biológicos levou ao conceito de bioeletretos, que são materiais biológicos também capazes de manter uma polarização elétrica por longo tempo. Esse conceito de bioeletretos eu acho que foi uma das contribuições que eu tive a ventura de poder fazer, e hoje em dia é globalmente conhecido. Tem um livro de eletretos publicado pela editora Springer [MASCARENHAS, S. 1979 . Bioelectrets: electrets in biomaterials and biopolymers. Electrets – Topics in Applied Physics., Springer-Verlag . vol. 33 , p. 341 – 346] em que, num dos capítulos, eu discuto essa noção dos bioeletretos. O conceito vale para proteínas, DNA, polissacarídeos. Eu acho que esse conceito tem uma importância grande por ter um significado na Biologia e na Medicina.
Finalmente passamos a trabalhar com conceitos de Materiais também na área de Biofísica Molecular e Física Médica. Isso decorreu do fato de eu ter sido convidado pelo prêmio Nobel Abdus Salam para dirigir em Trieste (Itália) uma série de cursos, durante doze anos, nessas duas áreas. Essas contribuições foram capazes de disseminar a ideia e a carreira de Física Médica em muitos países em desenvolvimento na África, Ásia e América Latina. Essa foi, então, uma das contribuições das quais levo grande satisfação.
Mas tudo isso depende de gente, principalmente de jovens. Eu sempre digo que professor só é bom se tem alunos melhores do que ele. Eu tive a felicidade de ter alunos melhores do que eu, que foram além e deram continuidade à escola de Física da Matéria Condensada, de Materiais, como é o caso do professor Roberto Faria, que hoje em dia é presidente da SBPMat e trabalha numa área de fronteira, a de polímeros condutores – uma revolução na área de eletrônica, energia, farmacologia etc.
As ocupações atuais e as novas fronteiras do conhecimento.
Ultimamente eu tenho me preocupado em olhar os fenômenos sob o ponto de vista dos fenômenos complexos, nos quais você tem um grande número de variáveis e fenômenos não lineares. São exemplos: o cérebro, a Internet, a origem da vida. Então, a engenharia de sistemas complexos para Materiais, ela da origem a uma série de efeitos importantíssimos que vão ser gradualmente explorados. Essa questão de sistemas complexos permeia a engenharia, biologia, educação, agronegócio, que uma das áreas importantes para a humanidade para a produção de alimentos, a questão da biomassa, que é um problema importantíssimo para a produção de energia, a compreensão do cérebro.
Então acho que a minha função agora é chamar a atenção dos jovens e dos centros de pesquisa de países em desenvolvimento sobre a importância que tem o estudo de sistemas complexos, que exige muita modelagem computacional, o entendimento do que é inteligência artificial, teoria dos jogos, sistemas caóticos, fractais… E a pesquisa em materiais complexos é de uma importância central.
Outra área que eu acho que vai progredir mais, e é uma revolução anunciada, é a dos biomiméticos. Você olha na natureza biológica que trabalhou durante milhões de anos para produzir material numa concha, osso, pêlo, órgão e aprende como houve a evolução das propriedades desse material. É como se a gente abrisse um grande tesouro biológico do conhecimento.
A função social do cientista
Eu acho que a função social do cientista ela é essencial por dois motivos. Primeiro, se você olhar a história da humanidade, todas as grandes evoluções do pensamento humano partiram de ciência básica que se transformou em tecnologia. É importante o cientista para gerar, não só a voz da sociedade, mas uma espécie de autoconsciência da sociedade que se consolida numa política científica, tecnológica, educacional. Eu acho que um dos melhores exemplos disso é olhar a convergência entre ciência e tecnologia. Quando se inventou o motor elétrico do Faraday, demorou uns 40 anos para ter plena utilização dele. Hoje em dia você não pode nem imaginar o que aconteceria com a sociedade se não houvesse motor elétrico. Quando foi inventada a energia nuclear, em 10 a 15 anos você já tinha suas aplicações. E no mesmo ano em que foi inventado o laser, já foi aplicado. Então a convergência entre ciência e tecnologia é enorme. Isso significa a importância que o cientista tem e a pesquisa tem para fazer o desenvolvimento econômico que leva ao desenvolvimento social que leva ao desenvolvimento cultural que leva ao que o Charles Percy Snow disse que é a terceira cultura. No livro dele “The two cultures”, ele mostrou que, na época da segunda grande guerra, havia uma distância muito grande entre humanismo e ciência e tecnologia, havia até falta de respeito entre esses dois atores do desenvolvimento humano. Mas essa distância tem que convergir numa terceira cultura em que você tenha uma visão muito mais holística, não só do homem, mas também do universo, como no exemplo da teoria da Gaia de James Lovelock.
Então, para o desenvolvimento social, a pesquisa é a única arma que o homem tem para trazer a humanidade a um estágio de respeito à natureza, ao próprio homem e a sua função no cosmos. Eu acho que se a gente não tiver universidade que faça pesquisa e extensão, leve suas pesquisas para fora, a gente não tem a formação desse ciclo virtuoso que transforma conhecimento em qualidade de vida, em novas possibilidades para o homem, para esse homem sapiens sapiens que saiu da caverna e foi para o espaço.
Mensagem para os leitores mais jovens, em início de carreira.
Eu acho que essa carreira de Ciência de Materiais, Engenharia de Materiais, Biomateriais, Materiais Complexos é um mundo enorme que está a disposição do futuro da humanidade, mas esse futuro da humanidade depende do futuro desse jovem de hoje que pode enfrentar esses desafios e ter o grande prazer de construir uma humanidade mais virtuosa através das pesquisas com Materiais. Se você pensar o que significam os materiais para a vida humana, até numa visão mais direta da felicidade e do bem-estar, nossa vida depende de materiais. A nutrição depende de materiais, a comunicação, a saúde, a fabricação de todos os equipamentos, máquinas, robôs, navios, satélites. Então os materiais são realmente uma grande fonte de inovação, de riqueza. O jovem que escolhe essa carreira está escolhendo trabalhar no futuro da ciência e da tecnologia.
Ivan Guillermo Sólorzano-Naranjo presidiu a primeira diretoria da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat), composta também pelos diretores Fernando Lázaro Freire Júnior (PUC-Rio), José Arana Varela (UNESP), Roberto Cerrini Villas Bôas (CETEM), Elisa Maria Baggio Saitovich (CBPF) e Moni Behar (UFRGS).
Essa diretoria fundadora foi instituída durante a Assembleia Geral de Constituição da SBPMat, no dia 26 de junho de 2001 no Auditório do RioDatacentro da PUC-Rio, com mandato até 2003.
Nascido no Equador, Solórzano desenvolveu sua formação e carreira científica em vários lugares do mundo. Cursou Engenharia Mecânica na Escuela Politécnica Nacional em Quito, Equador, Engenharia Metalúrgica na Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e gradou-se pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) no Brasil. Realizou seu mestrado em Engenharia Metalúrgica e de Materiais também na PUC-Rio e doutorou-se em Ciência de Materiais pela McMaster University, no Canadá. Desenvolveu pesquisas de pós-doutorado no Max-Planck Institute – campus Sttutgart, na Alemanha, e foi professor visitante no Institut National Politechnique de Grenoble (França), no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e na Stanford University (EUA). É professor no Departamento de Engenharia de Materiais da PUC-Rio.
Liderou, junto com Edgar Zanotto, o processo de criação da SBPMat, foi presidente do Inter American Committee of Societies For Electron Microscopy (CIASEM) e da Sociedade Brasileira de Microscopia e Microanálise (SBMM) e chairman do International Committee da Materials Research Society (MRS). É membro de diversas comissões executivas internacionais como o International Federation of Microscopy Societies ( IFSM), assim como de comitês editoriais de revistas científicas internacionais, como a Materials Characterization (Elsevier) Journal of Materials Science (Springer) e Microscopy and Microanalysis (Cambridge University Press).
Segue uma entrevista com este ex-presidente da SBPMat sobre a atuação da primeira diretoria da nossa sociedade.
1. Relacione as principais ações realizadas durante seu mandato como presidente da SBPMat.
– Realizamos, com sucesso, o congresso inaugural (o I Encontro da SBPMat), assim como o II Encontro da SBPMat no ano subsequente.
– Estabelecemos um formato para o evento anual, baseado nos simpósios e inédito no país, o qual se mantém até agora.
– Registramos oficialmente a SBPMat.
– Filiamos a SBPMat à International Union of Material Research Societies (IUMRS).
– Inauguramos, desde o primeiro encontro, a colaboração com a Materials Research Society (MRS), dos Estados Unidos, e com a E-MRS, da Europa, a qual tem se mantido e fortalecido no tempo.
– Instituímos a figura de “sócios fundadores” com mais de 350 sócios que receberam os certificados respectivos e iniciamos uma campanha de filiação à SBPMat de membros profissionais e estudantes, atingindo mais 600 sócios regulares no segundo ano. No terceiro Encontro, já sob a presidência do professor Elson Longo, em Foz do Iguaçu, houve uma explosão no número de participantes, com mais de mil pesquisadores e estudantes.
– Na assembleia da IUMRS, postulamos a SBPMat como instituição anfitrioa para sediar, no Rio de Janeiro, o subsequente International Congress on Advanced Materials (ICAM). O ICAM 2009 se realizou com sucesso no Rio de Janeiro sob a minha coordenação.
– Deixamos dinheiro no caixa da sociedade, uns 80 mil reais.
2. Relacione as principais dificuldades enfrentadas no período na direção da SBPMat.
Foi um desafio levar adiante a consolidação da SBPMat devido a nossa falta de recursos e pequena infraestrutura; tinha apenas a minha secretária “part-time” para me ajudar com a comunicação e tarefas administrativas que iam surgindo, e a ajuda dos meus alunos (um deles fez a primeira home page da SBPMat ), mas foi também uma época de muito entusiasmo em que recebi todo o apoio da comunidade brasileira de pesquisadores, muito motivados em cristalizar esta empreitada. As agencias financiadoras, CNPq, Capes, FAPERJ, FAPESP, reconheceram a importância desta iniciativa e prestaram seu apoio desde o primeiro encontro. Nada a reclamar, considero um privilegio termos tido esta experiência de fundar uma sociedade científica nacional e interdisciplinar no Brasil…
3. O que gostaria de ter feito, mas ficou pendente?
Uma das coisas que eu propus, mas não saíram do papel, foi a formação de comitês ou comissões executivas de atividades específicas de importância para a consolidação y crescimento da Sociedade: comissão de assuntos acadêmicos; comissão de relação com o setor industrial; comissão de publicações, comissão de relações internacionais, comissão de prêmios y distinções… Cada comitê ou comissão deveria ter um responsável ou coordenador (chairman) com uma gestão com período de vigência, apresentar relatórios periódicos (geralmente na ocasião do Encontro da SBPMat) etc.
Além disso, como o Brasil é grande, seria necessário ter seções regionais da SBPMat com diretorias devidamente instituídas e regulamentadas pelos estatutos da SBPMat. O papel destas regionais seria basicamente promover os mesmos objetivos gerais da SBPMat, mas em caráter regional e local, sempre alinhados com as diretrizes da Sociedade (através da Diretoria e Conselho) e assim contribuindo ao seu fortalecimento com maior impacto na comunidade cientifica e na sociedade Brasileira.
Tudo isto dá agilidade à Sociedade e aumenta a participação dos membros da nossa comunidade. É importante aumentar a participação efetiva dos sócios, particularmente dos jovens. Temos uma boa geração de talentos com vontade participar e deveriam ser convidados a participar da Sociedade.
4. O que você destacaria dos dois encontros da SBPMat organizados e ocorridos durante sua gestão?
– O I Encontro da SBPMat contou com a participação das MRS americana e europeia e da International Union of Materials Societies (IUMRS). Todos os presidentes dessas entidades vieram ao encontro, que teve cerca de 400 participantes, cinco simpósios, presença de autoridades nacionais. Do ponto de vista internacional teve ótima representatividade e visibilidade.
– Instituímos a obrigatoriedade do inglês como idioma oficial nos Encontros da SBPMat. Isto tem atraído a participação de pesquisadores do exterior de maneira crescente.
– Reforçamos o caráter interdisciplinar da Sociedade, refletido nos simpósios, onde cada simpósio deveria ter co-chairs de diferentes setores do conhecimento (isto é, Física, Engenharias, Química etc.), incentivando a presença de colegas do exterior, e um comitê organizador envolvendo cientistas do setor acadêmico, de centros de pesquisa e da indústria. Este modelo vem se mantendo com sucesso.
– Tanto no primeiro como segundo encontros da SBPMat tivemos como co-chairs de simpósios distinguidos cientistas internacionais , como o presidente da MRS (na época, Alex King) e o Presidente da E-MRS (na época, Giovanni Marletta).
5. Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores sobre o processo eleitoral da nossa SBPMat? (importância de participar das eleições enquanto eleitores ou candidatos etc.)
– Considero importante estabelecer e difundir um programa ou processo claro de eleição para presidente da SBPMat com dois candidatos excelentes com trajetória de participação na SBPMat, identificados por um search committee, em que a comunidade participe efetivamente da escolha, da eleição. Idem para os diretores. Não deveríamos ter mais candidato único para presidente, ou chapa única, nem reeleição, pois isso elimina esta participação da comunidade e desmotiva a sua participação na SBPMat. Vejam o exemplo do MRS onde o mandato é de um ano e sem reeleição.
– Cronograma de eleição que permita conhecer os resultados da eleição do presidente , diretoria e conselho na ocasião do Encontro da SBPMat. Assim a participação do presidente eleito já nesse encontro deve facilitar a transição com a nova diretoria.