XVII Encontro da SBPMat/B-MRS Meeting: Relato das sessões técnicas.


Por uma ciência de alto impacto, diversa e inclusiva (Workshop Young Researchers´ School)

Domingo 16 de setembro, por volta das 13 horas. Natal, Rio Grande do Norte. O céu estava azul e o mar, verde. Provavelmente resistindo à tentação de uma tarde de domingo na praia, cerca de 150 pessoas optaram por ingressar ao Centro de Convenções do tradicional Hotel Praiamar, localizado a poucos metros da Praia de Ponta Negra – a mais famosa da turística capital potiguar. O motivo dessa estranha decisão? Participar do workshop Young Researchers School, atividade de quatro horas de duração oferecida sem custo adicional para os inscritos no XVII Encontro da SBPMat/ B-MRS Meeting.

Praia de Ponta Negra com o Morro do Careca ao fundo, a poucos metros do local do evento. 16/09/18.
Praia de Ponta Negra com o Morro do Careca ao fundo, a poucos metros do local do evento. 16/09/18.

O workshop começou com um tutorial do Professor Valtencir Zucolotto (IFSC – USP, Brasil), um membro da comunidade brasileira de pesquisa em Materiais conhecido não apenas pelas pesquisas de seu Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia, mas também pelas palestras, cursos online e workshops sobre escrita e editoração científica que ele cria e apresenta no Brasil e no exterior. Com bom humor e interação com a plateia, Zucolotto falou sobre como fazer pesquisa de alto impacto, desde a ideia inicial até a publicação do artigo, passando pela metodologia de pesquisa e pela escrita do paper. Além de mostrar dados, o professor compartilhou experiências vividas “dos dois lados do balcão” (Zucolotto é um pesquisador produtivo e citado, como atesta seu índice H de 42, e também é editor de revista e livros). O palestrante também deu “conselhos de quem já passou por isso” aos membros mais jovens da plateia. “É necessário aprender a conviver com a rejeição, que faz parte do trabalho do cientista”, disse Zucolotto, referindo-se à rejeição de artigos no processo de publicação. “Não se preocupe, seu artigo será rejeitado… e finalmente aceito em uma revista de alto impacto”, brincou.

[Veja material dos cursos do professor Zucolotto no site http://zucoescrita.com ]

Depois de um copioso coffee break patrocinado pela Elsevier, o workshop continuou com a apresentação da Diretora de Publicação da área de Ciência de Materiais da Elsevier, Christiane Barranguet, sobre diversidade e inclusão no ambiente das revistas e eventos científicos. Além de mostrar dados sobre participação feminina na ciência, a diretora contou os esforços da empresa para atingir diversidade e representatividade de gênero e geográfica nos corpos editoriais das revistas e nos grupos de plenaristas das conferências. Bons resultados assomam timidamente, mostrou ela. Porém, mulheres e latino-americanos ainda estão sub-representados nesses grupos. No final da palestra, Barranguet fez um convite à comunidade de Materiais para indicar nomes de cientistas, principalmente dos grupos sub-representados, que possam atuar nos corpos editoriais das revistas da Elsevier.

[Veja arquivo da apresentação de Christiane Barranguet em nosso Slideshare, aqui https://www.slideshare.net/SBPMat/how-can-academic-publishing-increase-diversity-and-inclusion  ]

A última parte do workshop retomou a questão do impacto das publicações exatamente onde o Professor Zucolotto tinha parado. Marlene Silva, também da equipe de Materiais da Elsevier, falou sobre maneiras de divulgar um artigo publicado para aumentar sua visibilidade, potencial de ser citado e impacto acadêmico e social. De acordo com a palestrante, o trabalho de difusão deve ser realizado sem perda de tempo, no embalo da alegria provocada pela notícia da aceitação do paper. Uma das ferramentas mais úteis para essa divulgação é, segundo Silva, o link de compartilhamento – URL disponibilizada aos autores dos artigos pela maioria das revistas da Elsevier, que outorga acesso direto e gratuito ao paper por 50 dias para qualquer pessoa que receba o link. Silva recomendou compartilhar esse link por todos os meios possíveis, desde as redes sociais (todas elas valem) acompanhado por textos e imagens atrativas, até a assinatura do e-mail do autor. A palestrante também falou sobre estratégias para tornar o artigo mais relevante em mecanismos de busca, conhecidas como SEO, como, por exemplo, tomar o cuidado de repetir as palavras-chave mais relevantes ao longo do paper.

[Veja arquivo da apresentação de Marlene Silva em nosso Slideshare, aqui https://www.slideshare.net/SBPMat/how-to-promote-your-article-116520984  ]
Workshop Young Researchers´ School. À direita, a partir da esquerda, Christiane Barraguet, Marlene Silva e Valtencir Zucolotto.
Workshop Young Researchers´ School. À direita, a partir da esquerda, Christiane Barraguet, Marlene Silva e Valtencir Zucolotto.

Resistente, forte e resiliente: assim é a comunidade brasileira de pesquisa em Materiais (Cerimônia de Abertura)

Uma agradável surpresa aguardava os cerca de 800 participantes que se acomodaram na sala principal do Centro de Convenções por volta das 19h30 para assistir à Cerimônia de Abertura. Logo após as palavras iniciais pronunciadas pelo mestre de cerimônia, doze músicos da Orquestra Potiguar de Clarinetas, ligada à Escola de Música da UFRN, saíram de seus esconderijos com seus instrumentos, ocuparam as proximidades do palco e encheram a sala de música brasileira – principalmente nordestina – numa amostra da riqueza e diversidade cultural deste país que contou com os ritmos de choro, baião, frevo e carimbó.

Encerrada a apresentação musical, montou-se a Mesa de Abertura, composta pelo Professor Antonio Eduardo Martinelli (Chairman do XVII Encontro da SBPMat), o Professor Osvaldo Novais de Oliveira Jr (Presidente da SBPMat), o Professor Rodrigo Ferrão de Paiva Martins (Segundo Vice-Presidente da União Internacional de Sociedades de Pesquisa em Materiais, IUMRS) e o Professor José Daniel Diniz Melo (Vice-Reitor da UFRN).

Na sequência, os presentes no palco e na plateia, em pé, entoaram o Hino Nacional Brasileiro, acompanhando a interpretação da Orquestra Sinfônica e Coral Madrigal da UFRN que estava sendo projetada nas telas distribuídas na sala.

Além das boas-vindas e agradecimentos, nas palavras dos membros da mesa houve diversas alusões à importância social e econômica da pesquisa em Materiais. “O conhecimento desta área é essencial para resolver a maior parte dos problemas da sociedade”, disse Diniz Melo, que também é docente da graduação e pós-graduação em Materiais da UFRN. O português Rodrigo Martins, que além de ser um cientista de Materiais destacado internacionalmente, é assíduo frequentador dos Encontros da SBPMat, destacou o papel dos materiais no desenvolvimento de um país. “Das ciências da vida até a indústria aeroespacial, os materiais são centrais a todos os desenvolvimentos e trazem melhor qualidade de vida à população”, disse Martins. “Este evento é uma celebração daquilo que a Ciência de Materiais tem feito para a sociedade”, destacou, por sua vez, o Professor Oliveira Junior.

Num discurso de abertura inspirador, o Professor Martinelli abordou um assunto que tem preocupado a comunidade científica brasileira. “Não apenas dificuldades econômicas, mas, principalmente, o entendimento do que é ou não prioridade para nosso país têm queimado parte do nosso passado e desafiado as melhores oportunidades de melhorar a Ciência e a Tecnologia no Brasil, colocando em risco um futuro melhor para a geração atual e as futuras”, disse o chair do evento, que é professor da graduação e pós-graduação em Materiais da UFRN e coordenador da Área de Materiais na CAPES. O chair destacou a força da comunidade de Materiais que, mesmo nesse contexto, permaneceu ativa e permitiu que o evento acontecesse, com um número elevado de participantes. “Somos gente de Materiais: resistente, forte e resiliente”, disse Martinelli. “Não desistimos nem desistiremos”.

Público na abertura do evento. Mesa de abertura; a partir da esquerda: Antonio Martinelli, Rodrigo Martins, José Diniz Melo e Osvaldo Novais de Oliveira Jr.
Público na abertura do evento. Mesa de abertura; a partir da esquerda: Antonio Martinelli, Rodrigo Martins, José Diniz Melo e Osvaldo Novais de Oliveira Jr.


 

Homenagens a destacados membros da comunidade (Palestra memorial “Joaquim da Costa Ribeiro”)

Depois das palavras dos membros da mesa, veio o momento das homenagens da SBPMat a cientistas brasileiros de longa e destacada trajetória. A primeira distinção, a qual não tinha sido anunciada na programação, foi para o Professor Aloísio Nelmo Klein (UFSC), quem recebeu uma placa comemorativa e um presente por seus “35 anos dedicados à Ciência Aplicada”. De fato, a carreira científica de Klein se destaca principalmente na quantidade de patentes (mais de 60 pedidos depositados em escritórios do Brasil, Europa, Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Japão, Taiwan, Singapura e Austrália) e nos numerosos projetos realizados em parceria com empresas. O homenageado, que é membro fundador da SBPMat e já se desempenhou como diretor científico, conselheiro e chairman de dois encontros anuais da sociedade, recebeu agradecimentos do presidente da SBPMat pela sua dedicação de longo prazo à sociedade.

[Veja entrevista de fevereiro de 2017 com o Professor Aloísio Nelmo Klein https://www.sbpmat.org.br/pt/gente-da-comunidade-entrevista-com-o-pesquisador-aloisio-nelmo-klein/ ]

O segundo homenageado da noite foi o Professor Fernando Galembeck, aposentado da UNICAMP desde 2011, mas ainda ativo, sendo inclusive Professor Colaborador dessa universidade. Ao longo de quatro décadas de carreira científica, Galembeck fez importantes contribuições à pesquisa aplicada e básica em temas diversos como modificação de superfícies, nanopartículas, nanocompósitos, eletrostática, materiais derivados de biomassa, entre outros. Ele é autor de mais de 250 artigos, 35 patentes e 20 livros ou capítulos de livros e conta com mais de 3.700 citações. Foi sócio fundador da SBPMat.

[Veja entrevista com Fernando Galembeck, reeditada em agosto de 2018 https://www.sbpmat.org.br/pt/cientista-em-destaque-entrevista-com-fernando-galembeck-que-proferira-a-palestra-memorial-no-xvii-encontro-da-sbpmat-reedicao-atualizada-de-entrevista-de-maio-de-2015/ ].

Galembeck foi escolhido para receber neste ano a principal honraria da SBPMat para pesquisadores de trajetória destacada na área de Materiais, a Palestra Memorial Joaquim da Costa Ribeiro. Essa distinção também homenageia, por meio de seu nome, um pioneiro da pesquisa experimental em Materiais no Brasil.

[Veja matéria sobre Joaquim da Costa Ribeiro https://www.sbpmat.org.br/pt/historia-da-pesquisa-em-materiais-joaquim-da-costa-ribeiro-e-o-efeito-termodieletrico/ ]

Na primeira parte da sua palestra, Galembeck abordou a relação entre matérias-primas, energia e alimentos, tendo em vista que a fome ainda é um problema da humanidade, e que a geração de energia pode concorrer com a produção de alimentos ao usar as mesmas matérias-primas. Essa situação piora, disse Galembeck, quando entra em jogo a especulação financeira. Entretanto, alentou o professor, graças aos avanços tecnológicos, é possível produzir bens ao combinar energia barata de fontes inesgotáveis como o sol e o vento, com matérias-primas abundantes como o lítio, magnésio e dióxido de carbono, ou até mesmo resíduos. “Lixo é oportunidade não aproveitada”, definiu o palestrante. Com relação ao uso da biomassa em países em desenvolvimento, ele mostrou que, além de gerar energia, reduzindo a dependência do país dos combustíveis fósseis, ela pode ser matéria-prima de produtos de alto valor agregado, gerando melhor renda para a população. Na segunda parte da palestra, Galembeck apresentou um panorama de algumas de suas contribuições científicas. O cientista também expressou seu otimismo quanto à crise que o Brasil atravessa, abordada um pouco antes pelo Professor Martinelli. “Sou experiente o suficiente para saber que no final tudo estará melhor do que o esperado”, afirmou.

[Veja arquivo da apresentação de Fernando Galembeck em nosso Slideshare, aqui https://www.slideshare.net/SBPMat/materials-for-a-better-future  ]

Depois da palestra, os presentes saíram do Centro de Convenções e, a poucos metros dali, puderam curtir o coquetel de boas-vindas do evento, realizado numa área externa do Hotel Praiamar, na brisa do mar e sob um céu estrelado e com lua crescente.

Esquerda: homenagem a Aloísio Klein. Direita: Palestra Memorial de Fernando Galembeck.
Esquerda: homenagem a Aloísio Klein. Direita: Palestra Memorial de Fernando Galembeck.

 


 

Teoria e experimentos, indústria e academia e multidisciplinaridade (Sessões orais e de pôster dos simpósios)

A comunidade brasileira de pesquisa em Materiais, majoritária no evento, se manteve ativa neste ano difícil, disse o chair do encontro na abertura. Para confirma-lo, bastava sentar um pouco nas salas de apresentações orais ou percorrer a tenda branca dos pôsteres (de preferência, com smartphone em mão, para acessar e salvar o resumo e dados dos pôsteres de interesse).

Mais de um milhar de profissionais e estudantes da pesquisa em Materiais apresentaram seus trabalhos e os debateram com seus pares no XVII B-MRS Meeting. Apesar da alta porcentagem de inscritos com trabalhos aprovados que acabou não comparecendo ao evento (cerca de 30%), muito provavelmente por não ter conseguido financiamento, os simpósios transcorreram com participação significativa nas sessões orais e de pôster. Alguns organizadores de simpósio foram além desses formatos tradicionais de apresentação e incluíram foros de discussão em seus programas. Quebraram a linearidade das cadeiras e incentivaram a discussão coletiva, em semicírculos, sobre tópicos que consideraram de especial importância. Outro destaque dos simpósios deste ano, de acordo com os organizadores, foi a qualidade das palestras convidadas – apresentações de 30 minutos proferidas por especialistas em temas do escopo do simpósio, que são convidados pelos organizadores.

O leque temático coberto pelos simpósios foi, mais uma vez, amplo e abrangente. Foram muitos os materiais abordados (nanomateriais, polímeros condutores, metais avançados, compósitos, óxidos metálicos, eletrocerâmicas, biomateriais, superfícies, revestimentos). Foram muitas as aplicações apresentadas (para os segmentos de energia, aeroespacial, saúde, eletrônica, bioeletrônica, fotônica, aumototivo, decorativo). Foram diversas as interações ocorridas: entre pessoas diferentes, entre o teórico e o experimental, entre indústria e academia, entre ciência e tecnologia, entre áreas do conhecimento (Química, Física, Biologia, Engenharia, Medicina).

Nos simpósios desta edição do evento, houve velhos conhecidos (como o Simpósio Brasileiro de Eletrocerâmica, em sua décima primeira edição), simpósios com alguns anos de vida (como o de Engenharia de Superfícies) e simpósios totalmente novos na praça, como o de nanofibras e aplicações.

Os simpósios do XVII B-MRS Meeting foram organizados por 76 pesquisadores ligados a instituições de ensino e pesquisa ou empresas de diversos pontos do Brasil, bem como da Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, Estados Unidos e Portugal.

[Veja os destaques dos simpósios, enviados por alguns dos organizadores https://www.sbpmat.org.br/pt/xvii-b-mrs-meeting-highlights-of-the-symposia/ ]
Imagens dos simpósios. A partir da esquerda: apresentação oral, foro tecnológico e sessão de pôsteres.
Imagens dos simpósios. A partir da esquerda: apresentação oral, foro tecnológico e sessão de pôsteres.

 


Palestras sobre instrumentação científica

Localizada entre a entrada do Centro de Convenções e a Secretaria do evento, caminho à sala das plenárias, a área dos expositores teve muito movimento, e não apenas nos horários do coffee break, que foi servido no local. Vinte empresas e a UFRN estavam ali com seus estandes atendidos por especialistas, seus materiais de divulgação, brindes e, em alguns casos, equipamentos para demonstração. Além disso, na quarta-feira, algumas das empresas de instrumentação científica ofereceram dez palestras técnicas sobre avanços e as novas aplicações de diversas técnicas de caracterização, e sobre inovações em equipamentos laboratoriais.

E a participação dos expositores foi além do técnico. Solidus, empresa júnior de Engenharia de Materiais e Mecânica que participou do evento no estande da UFRN, disponibilizou uma moldura de fotos para os visitantes que quisessem tirar uma foto de lembrança do XVII B-MRS Meeting e compartilhá-la nas redes sociais.

Área dos expositores
Área dos expositores

 


 

Propostas de estudantes para a indústria aeroespacial (Desafio Aerospace Materials and Manufacturing for the Next Century)

Um dos destaques do evento foi o desafio tecnológico da indústria aeroespacial para estudantes de graduação e pós-graduação participantes do encontro. Com o objetivo de motivar estudantes a fazer pesquisa multidisciplinar com aplicações aeroespaciais, e de aproximar o meio acadêmico e a indústria, a atividade foi idealizada e organizada por um grupo de pesquisadores de universidades brasileiras e de duas empresas líderes do segmento aeroespacial, a estadunidense Boeing e a brasileira Embraer.

A atividade iniciou na segunda-feira, dia 17 de setembro, quando 55 estudantes, interessados em participar do desafio que tinha sido previamente anunciado pelos canais da SBPMat, fizeram suas inscrições no estande da Boeing, Patrocinadora Diamante do evento, localizado na área de expositores do centro de convenções. No final do dia, um sorteio definiu quais seriam os participantes do desafio.

No dia seguinte, durante o horário do almoço, especialistas apresentaram seis desafios técnicos relacionados a problemas ou oportunidades da indústria aeroespacial para 36 estudantes que almoçavam, na plateia, o conteúdo das lunch boxes patrocinadas pela Boeing. Após as apresentações, os estudantes formaram as respectivas equipes de trabalho.

Apenas 24 horas depois, os seis grupos tiveram que apresentar, em idioma inglês, suas soluções, enquanto eram avaliados nos quesitos de originalidade, conteúdo técnico, alinhamento com o desafio proposto, potencial de implementação da solução e qualidade da apresentação. O júri foi composto por nove pesquisadores da área de Materiais do Brasil e do exterior, ligados à Boeing, à Embraer e a instituições de ensino e pesquisa. Novamente, as lunch boxes acalmaram a fome dos participantes.

No dia seguinte, durante a Cerimônia de Premiação do evento, Catherine Parrish, Coordenadora Sênior de Pesquisa em Materiais e Processos na Boeing, e Fabio Santos da Silva, Engenheiro Sênior de Materiais, Desenvolvimento de Produtos na Embraer, anunciaram o trabalho vencedor e entregaram diplomas e brindes aos membros da equipe vencedora, composta por cinco estudantes de mestrado e doutorado em Materiais, Química e Física de instituições das regiões Sul, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil.  “Estamos muito felizes com os resultados do desafio. Os participantes apresentaram ideias realmente inovadoras; foi fantástico”, disse Parrish.

Respondendo ao desafio “Estruturas e sistemas aeroespaciais inspirados pela natureza – folha de lótus”, a equipe ganhadora apresentou as propriedades da folha de lótus, principalmente sua superhidrofobia e sua consequente capacidade autolimpante. Os estudantes sugeriram aplicações no segmento aeroespacial (principalmente, na fuselagem de aeronaves) de materiais com superfícies inspiradas na folha de lótus, e propuseram caminhos para obtenção dessas superfícies. “O que eu aprendi com esse desafio foi que manter a calma é muito importante para continuar desenvolvendo um trabalho e ajudar o próximo no que for possível. Cada um dá sua contribuição e juntos vamos somando as habilidades individuais”, conta Angélica Belchior Vital, doutoranda em Engenharia Química da UFRN e membro da equipe premiada. “Foi bem divertido e saímos empolgados com as ideias e discussões geradas”, comenta.

Três momentos do atividade, incluindo a apresentação dos desafios e das soluções.
Três momentos do atividade, incluindo a apresentação dos desafios (centro) e das soluções (direita).

 


 

Sustentabilidade e impacto acadêmico e social nas visões de cientistas mundialmente renomados (Palestras plenárias)

Duas plenárias por dia. Oito cientistas de destacada trajetória que, ao longo do evento, dividiram com os participantes do evento sua expertise em temas de grande impacto acadêmico, social e econômico. Pilares dos encontros da SBPMat, as palestras plenárias desta edição do evento reuniram algumas centenas de participantes e mostraram o papel crucial da pesquisa em Materiais em assuntos como sustentabilidade e saúde.

Junbai Li
Junbai Li

Na primeira plenária do evento, o Professor Junbai Li, do Instituto de Química da Academia Chinesa de Ciências, revelou como ajuda a natureza a montar nano e micro estruturas a partir de moléculas biológicas. Mais precisamente, Li, que é editor-chefe da revista Colloids & Surfaces A (Elsevier) e editor da seção de auto-montagem na Current Opinion em Colloid & Interface Science (Elsevier), utiliza um tipo de aminoácido (os peptídeos) como “tijolo” básico para formar suas estruturas por meio de processos de automontagem. Ele consegue controlar a arquitetura das estruturas e gerar formatos semelhantes a tubos, plaquetas, vesículas ou flores. O proeminente cientista chinês mostrou que essas estruturas, biocompatíveis, podem ser usadas para estancar sangramentos, curar doenças da pele e carregar fármacos. Materiais baseados em peptídeos farão parte da vida cotidiana em alguns anos, garantiu o cientista.

[Veja arquivo da plenária de Junbai Li em nosso Slideshare, aqui   https://www.slideshare.net/SBPMat/molecular-assembly-of-peptide-based-materials-towards-biomedical-application ]
Christian Polak
Christian Polak

A plenária da tarde foi proferida por um cientista que trabalha há 25 anos na área de P&D da Vacuumschmelze, fabricante de materiais magnéticos avançados e produtos relacionados, nascida na Alemanha e presente em dezenas de países. Christian Polak falou sobre alguns dos materiais desenvolvidos na empresa (ligas magnéticas amorfas e nanocristalinas), seus processos de fabricação e suas aplicações em produtos que fazem parte do portfólio da empresa; por exemplo, transformadores, conversores e sensores de corrente elétrica. Na palestra, foi possível conferir que a aplicação de muito conhecimento científico especializado resulta em produtos amplamente comercializados e em inovações que acompanham as demandas do mercado consumidor, como, por exemplo, componentes para melhorar o desempenho de smartphones.

[Veja arquivo da plenária de Christian Polak em nosso Slideshare, aqui   https://www.slideshare.net/SBPMat/soft-magnetic-nanocrystalline-materials-for-inductors-and-shielding-applications-optimized-for-higher-frequencies]
Heinz von Seggern
Heinz von Seggern

Na terça-feira de manhã, a plenária foi oferecida por Heinz von Seggern, ex-pesquisador dos famosos Laboratórios Bell e da Siemens, e Professor Aposentado, mas ainda muito ativo, da Faculdade de Ciência de Materiais da Universidade Técnica de Darmstadt (Alemanha).  Seggern falou sobre polímeros ferroelétricos – materiais que apresentam, espontânea e permanentemente, cargas elétricas polarizadas – característica que pode ser aproveitada em diversas aplicações, como os conhecidos microfones de eletretos. Em perspectiva histórica, Seggern mostrou avanços na compreensão, fabricação, caracterização e aplicação de alguns desses materiais. Nessa história, foram citados pelo Professor Seggern pesquisadores brasileiros que são participativos sócios da SBPMat, como os professores Sérgio Mascarenhas, José Giacometti e Roberto Faria, bem como o alemão Bernhard Gross, que chegou ao Brasil na década de 1930 e acabou se tornando pioneiro da pesquisa em Materiais no país.

Bernhard Keimer
Bernhard Keimer

E depois de três plenárias sobre pesquisa principalmente aplicada, o Professor Bernhard Keimer (índice h=86), numa palestra que ele mesmo classificou como de pura pesquisa fundamental, mostrou os esforços experimentais que realiza junto a seu grupo do Instituto Max Planck de Pesquisa em Estado Sólido (Alemanha) para compreender e controlar comportamentos coletivos de elétrons, mais precisamente as chamadas “correlações eletrônicas”, que seriam responsáveis por gerar fenômenos tão impactantes como a supercondutividade. Para realizar seus estudos, Keimer, que é diretor desse instituto, cria “heteroestruturas”, as quais combinam finíssimas camadas de diversos materiais (principalmente óxidos metálicos). Trata-se de materiais quânticos – aqueles cujas propriedades macroscópicas dependem das propriedades ou comportamento de seus elétrons. Keimer e seus colaboradores analisam esses materiais usando técnicas de espectroscopia avançadas, e assim conseguem não apenas entender, como também começar a controlar, as correlações entre entidades tão minúsculas e difíceis de estudar como spins e cargas.

Carlos Graeff
Carlos Graeff

A relação entre energia, materiais e sustentabilidade voltou às sessões plenárias na manhã da quarta-feira, na palestra do brasileiro Carlos Frederico Oliveira Graeff, Professor e Pró-Reitor de Pesquisa da UNESP (Brasil). A fala começou com um panorama do uso das diferentes fontes de energia. Se atualmente 2/3 da eletricidade que a humanidade consome provêm de combustíveis fósseis, responsáveis pelo efeito estufa, essa relação mudará progressivamente até 2040, devido ao significativo aumento da energia solar e eólica na matriz energética. De fato, essas são fontes de energia capazes de fornecer energia em quantidades muito superiores à demanda humana atual (mais de 3.000 vezes no caso da luz solar). Depois de explicar os fundamentos do efeito fotovoltaico, responsável pela conversão de luz solar em eletricidade, Graeff falou sobre dois tipos de células solares que podem concorrer com as de silício –estas últimas, já amplamente comercializadas. O cientista mostrou as vantagens e desvantagens das células solares baseadas em corantes e em perovskitas, e citou as contribuições que ele tem feito, junto a seu grupo de pesquisa e colaboradores, para o desenvolvimento desses dispositivos. O sucesso das células solares depende de se combinar adequadamente uma série de materiais que devem trabalhar em conjunto, disse Graeff, lançando o desafio para a comunidade de pesquisa presente na sala.

[Veja arquivo da plenária de Carlos Graeff em nosso Slideshare, aqui   https://www.slideshare.net/SBPMat/materials-for-the-optimization-of-solar-energy-harvesting ]
You-Lo Hsieh
You-Lo Hsieh

A sustentabilidade permeou também a plenária de You-Lo Hsieh, Distinguished Professor da UC Davis (EUA). A cientista situou o momento atual na segunda revolução industrial, iniciada por volta de 1850 e impulsionada pelo uso do petróleo para gerar energia e materiais plásticos, e pelos avanços da Ciência e Engenharia de Materiais. Se, por um lado, essa revolução trouxe produtos que tornam a vida humana mais confortável, ela também aumentou milhares de vezes as emissões de dióxido de carbono e a gerou bolsões de lixo nos oceanos, para citar apenas algumas das consequências. Hsieh desenvolve novos materiais, como nanofibras e aerogéis biopoliméricos, que poderiam compor uma economia de outro tipo, baseada em processos químicos de baixo impacto ambiental e no uso da biomassa (o conjunto de organismos vivos, desde bactérias até resíduos animais ou vegetais). Com a parceria de empresas, ela espera transformar esses materiais em produtos novos que gerem mercados novos. A professora relacionou os desafios da implementação de uma economia desse tipo, desde conectar o desenvolvimento de tecnologia com as demandas do mercado até conseguir a aceitação dos consumidores.

Pietro Matricardi
Pietro Matricardi

As aplicações biomédicas voltaram à cena na penúltima plenária do evento. Pietro Matricardi, Professor da Universidade de Roma “La Spienza”, falou sobre seus trabalhos com hidrogéis (géis com alto conteúdo de água) baseados em polissacarídeos (polímeros naturais constituídos por longas cadeias de açúcares simples, os monossacarídeos). O hidrogel combinado com o polissacarídeo, disse Matricardi, pode formar um material inteligente, capaz de aderir a tecidos vivos, cobrir sua superfície sem deixar interstícios e interagir positivamente com eles. O gel pode ainda ser carregado com algum fármaco ou composto, que será liberado aos poucos no tecido vivo. Em colaboração com um dentista, Matricardi testou os efeitos de seu hidrogel, carregado com um anti-inflamatório e com hidroxiapatita (usada para regeneração óssea) em pacientes com periodontite severa, com resultados muito positivos. Em sua versão nano, o hidrogel, quando adequadamente fabricado, pode transportar um ou mais fármacos dentro do organismo e entrega-los na medida certa e no local certo. Tal é o caso de uma droga para tratamento do câncer de próstata que é conveniente administrar junto com um anti-inflamatório. Nanohidrogéis, carregados ou não com fármacos, também podem funcionar para tratar infecções bacterianas da pele, como demonstraram bons resultados de estudos realizados com ratos por Matricardi.

[Veja arquivo da plenária de Pietro Matricardi em nosso Slideshare, aqui https://www.slideshare.net/SBPMat/polysaccharide-hydrogels-a-versatile-tool-for-biomedical-and-pharmaceutical-applications ]
Joan Morante
Joan Morante

A última plenária do evento começou com uma imagem tão conhecida quanto preocupante: emissões de dióxido de carbono em aumento e aquecimento global. “A economia circular de dióxido de carbono é desafio principal para a humanidade”, disse o palestrante, Joan Ramón Morante Lleonart (índice h=82), diretor do Instituto de Pesquisa em Energia da Catalunha (IREC), professor da Universidade de Barcelona e editor-chefe do Journal of Physics D. Esse conceito alude a retirar do ambiente o excesso de dióxido de carbono gerado pelas atividades humanas, captura-lo e transformar a molécula em compostos úteis, tais como metanol, metano ou ácido fórmico, capazes de gerar produtos e combustíveis. Para quebrar a molécula de CO2 em escala industrial, é necessário dispor de muita energia, a qual é desejável obter a partir de fontes renováveis. Ao longo desse processo de “reciclagem” do dióxido de carbono, os materiais cumprem, mais uma vez, papeis cruciais. Entretanto, os materiais existentes não dão conta, em muitos casos, de cumprir com eficiência, em condições reais, as funções necessárias para que essa reciclagem se torne realidade. O professor Morante pontuou uma série de desafios para a Ciência e Tecnologia de Materiais, relativos ao desenvolvimento ou aprimoramento de nanomateriais para captação e purificação de dióxido de carbono, materiais para cátodos e ânodos usados em processos fotoelétricos, materiais resistentes à corrosão para reatores e, principalmente, nanomateriais catalíticos para a redução do dióxido de carbono. A plenária encerrou a programação técnica do evento com uma imagem muito animadora: a de uma casa típica da economia circular do carbono. Essa casa não precisa de combustíveis fósseis para atender às necessidades de seus moradores; ela consome sol, vento, ar e água, produz toda a eletricidade e combustíveis que necessita, e devolve ao ambiente apenas ar puro.

[Veja arquivo da plenária de Joan Ramón Morante Lleonart em nosso Slideshare, aqui https://www.slideshare.net/SBPMat/catalyst-materials-for-solar-refineries-synthetic-fuels-and-procedures-for-a-circular-economy-of-the-co2 ]

 

 

 

Cientista em destaque: entrevista com Carlos Frederico Oliveira Graeff.


Prof. Carlos Graeff
Prof. Carlos Graeff

Fascinado desde pequeno pela ciência, da qual tinha um representante dentro de casa (o pai, renomado neurocientista), o ribeirão-pretano Carlos Frederico Oliveira Graeff escolheu a área de Física para seus estudos universitários. Obteve os diplomas de bacharel (1989), mestre (1991) e doutor (1994) em Física pela Unicamp. No mestrado e no doutorado, orientado pelo professor Ivan Chambouleyron, deu os primeiros passos como pesquisador na área de Materiais, com estudos sobre materiais baseados em germânio e silício. Durante o doutorado, fez um estágio de pesquisa no Max Plank Institut für Festkörperforschung, na Alemanha.

De 1994 a 1996, voltou à Alemanha para fazer pós-doutorado em ressonância magnética eletrônica, semicondutores e dispositivos eletrônicos no Walter Schottky Institute da Technische Universität München (TUM), com bolsa da fundação alemã Alexander Von Humboldt.

Ao voltar ao Brasil, tornou-se professor do Departamento de Física e Matemática da Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu durante 10 anos. Em 2006 ingressou como professor titular à Faculdade de Ciências de Bauru da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), onde ainda desenvolve seu trabalho de docência e pesquisa. Ao longo de sua carreira acadêmica, Graeff foi professor ou pesquisador visitante de instituições da França, China e Suíça.

De 2007 a 2009, Graeff foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais (POSMAT) da UNESP – campus de Bauru. Entre 2009 e 2014, foi coordenador da recém-criada Área de Materiais da CAPES, setor responsável pela avaliação dos programas brasileiros de pós-graduação em Materiais, entre outras funções. De 2011 a 2013, Graeff foi presidente do Clube Humboldt do Brasil e, em 2012 e 2013, diretor científico da SBPMat. O cientista também cumpriu ou cumpre funções de gestão ou conselho na FAPESP, CAPES e IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry).

Em 2017, depois de ter participado do corpo editorial de vários periódicos internacionais, foi nomeado editor associado na área de fotovoltaicos da revista Solar Energy (fator de impacto 4,018), da editora Elsevier. Também em 2017, tornou-se pró-reitor de Pesquisa na UNESP, cargo que desempenha até o presente.

Possuidor de um índice h é de 28, Graeff é autor de cerca de 200 trabalhos indexados que contam com mais de 2.500 citações, conforme o Google Scholar. Em três décadas de trabalho científico, junto à sua equipe do Laboratório de Novos Materiais e Dispositivos e a seus numerosos colaboradores nacionais e internacionais, Graeff tem feito contribuições à área de Materiais numa diversidade de assuntos. Entre seus artigos mais citados, encontram-se estudos sobre diamante sintético, heteroestruturas de silício e germânio, polímeros conjugados, látex e melanina (material biológico com propriedades semicondutoras, promissor para o desenvolvimento de dispositivos bioeletrônicos).

O pesquisador também tem trabalhado na área de energia fotovoltaica (conversão direta da radiação solar em eletricidade), fazendo uma série de contribuições ao desenvolvimento de células solares baseadas em diferentes materiais (corantes, perovskitas e semicondutores orgânicos). Sobre esse assunto, a energia fotovoltaica, Carlos Graeff oferecerá uma palestra plenária no XVII Encontro da SBPMat, que será realizado em Natal (RN) de 16 a 20 de setembro.

Segue uma entrevista com este destacado pesquisador da nossa comunidade.

Boletim da SBPMat: – Como ou por que você se tornou um cientista? Sempre quis ser cientista? Conte também, brevemente, o que o levou a atuar no campo dos materiais.

Carlos Graeff: – O meu pai, Frederico Graeff, é um pesquisador bastante conhecido e talvez tenha sido uma das influências mais importantes nesta minha decisão. Minhas tias também eram docentes e pesquisadoras, portanto tive acesso desde muito pequeno em casa ao mundo da ciência, que sempre me fascinou. A decisão de fazer Física veio em grande parte dos vários livros que li e da série Cosmos apresentada por Carl Sagan que passava na televisão. A decisão em trabalhar na área de Materiais veio tardiamente durante o meu bacharelado em Física após os primeiros cursos de Física da Matéria Condensada e Semicondutores. Trabalhei desde o início da pós-graduação em Materiais, e logo fui sendo atraído pelas interfaces da Física com a Química e Biologia em temas muito variados de Ciência e Engenharia dos Materiais.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais? Por favor, considere todos os aspectos da atividade científica.

Carlos Graeff: – Escolher as principais contribuições é sempre uma tarefa difícil. No meu caso em especial é fácil perceber, lendo o meu CV, que tenho uma trajetória bastante eclética em termos de materiais estudados e aplicações. Usando a originalidade como escolha, vou me deter em três temas; o primeiro, a produção de CoS (sulfeto de cobalto) a base de tintas ecológicas para a produção de eletrodos para células solares. Conseguimos um método simples, industrial e ecológico para substituir a platina em células solares a base de corante. No segundo tema, nós propusemos vários métodos alternativos para a síntese de melanina, o material responsável pelo bronzeado, e com isso conseguimos produzir materiais biocompatíveis com características muito especiais no que diz respeito por exemplo à solubilidade. Estamos identificando um defeito muito importante para esse material usando como ferramenta principal simulações computacionais combinadas com técnicas espectroscópicas. Estamos seguros que este material será importante na área emergente da bioeletrônica. No terceiro tema, descrevemos com detalhes todo o processo de degradação de semicondutores orgânicos identificando rotas para a produção de dosímetros de alta sensibilidade para aplicações em hospitais e clínicas que utilizam por exemplo raios gama para tratamentos e diagnóstico de câncer. Tivemos ainda contribuições muito originais na física da ressonância magnética detectada eletricamente, aumentando a sensibilidade e a compreensão geral dos fenômenos físicos envolvidos. Além destas contribuições de cunho fundamental, fui responsável com orgulho e satisfação pela implantação da área de materiais na CAPES. Outra fonte de satisfação são os bons alunos que tive a sorte de orientar, muitos deles cientistas brilhantes. Ajudei e coordenei a montagem de vários laboratórios tanto aqui no Brasil como no exterior, mais recentemente ajudei na montagem de um laboratório de ressonância magnética na China.

Boletim da SBPMat: – Agora convidamos você a deixar uma mensagem para os leitores que estão iniciando suas carreiras científicas.

Carlos Graeff: – Comecei o meu mestrado em 1989, numa época talvez tão conturbada como a atual, não desanimem! Com foco e um pouco de sorte sempre é possível gerar novas ideias, construir uma carreira sólida e contribuir para o nosso belo país. Estamos passando por uma grande revolução, com a emergência de novas tecnologias que vão alterar a sociedade de forma profunda. Cada vez mais a inteligência terá papel determinante nos rumos de nossa sociedade, estejam preparados para trabalhar neste novo mundo de grandes oportunidades. Busquem sempre o diálogo com especialistas das mais diversas áreas do conhecimento e dos mais diversos países. Muito possivelmente, nos próximos anos vamos desvendar os mistérios do funcionamento do cérebro, dominar formas de geração de energia ilimitadas e ecológicas, gerar inteligência artificial. Abram-se para o novo, sejam ousados, o Brasil precisa do espirito cidadão e empreendedor de vocês.

Boletim da SBPMat: – Você proferirá uma palestra plenária no XVII Encontro da SBPMat. Deixe um convite para nossa comunidade.

Carlos Graeff: – A energia fotovoltaica chega a sua maturidade comercial, estamos vivendo uma revolução energética sem precedentes. Na palestra procurarei mostrar alguns dados atualizados sobre as perspectivas do uso das células fotovoltaicas no Brasil e no mundo; seus princípios de funcionamento; os desafios para os cientistas e engenheiros de materiais nesta corrida incansável por materiais, processos e dispositivos cada vez mais eficientes, duráveis e ecológicos. Apresentarei resultados recentes de nosso grupo neste tema.

Entrevista com o ganhador da menção honrosa do Prêmio Capes de Tese 2014 na área de Materiais: Augusto Batagin Neto.


Augusto Batagin Neto

A menção honrosa do Prêmio Capes de Tese 2014  na área de Materiais na área de Materiais foi outorgada a Augusto Batagin Neto por sua tese de doutorado “Simulação de propriedades espectroscópicas e estruturais de materiais orgânicos para a aplicação em dispositivos”, defendida em 2013 pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). O trabalho foi orientado pelo professor Carlos Frederico de Oliveira Graeff.

O resultado do Prêmio Capes de Tese 2014 foi divulgado no início de outubro. A cerimônia de entrega dos prêmios acontecerá no dia 10 de dezembro de 2014, em Brasília.

Vejam nossa entrevista com Augusto.

Boletim da SBPMat: – Poderia nos contar brevemente como começou o seu interesse pela ciência e quais foram os momentos mais importantes na sua carreira acadêmica até o momento?

Augusto Batagin Neto: – Meu interesse pela ciência começou bastante cedo, desde criança me interessava por estudar “fenômenos” associados às ciências naturais. Lembro que minha irmã e eu tentávamos catalogar diferentes espécies de formigas de acordo com o tamanho do corpo e outras características. Fui sempre muito incentivado pelos meus pais e irmãos, na minha vida familiar sempre tive um ambiente que preconizava o diálogo, argumentos e troca de idéias, o que foi, e ainda é, a base da minha formação, em todos os sentidos.

Até o presente tive muitos momentos que considero de grande importância na minha carreira, o primeiro deles foi decidir cursar Licenciatura em Física. Escolhi o curso de Física justamente por se tratar da disciplina que eu tinha maiores dificuldades no Ensino Médio, (acredito que a falta de professores efetivamente formados em Física atuando no ensino público tenha sido um dos principais motivos de minha dificuldade inicial). Um segundo momento importante foi dar início à minha iniciação científica na Faculdade de Ciências (FC) – UNESP/Bauru. Já no fim do segundo semestre o professor Francisco Carlos Lavarda do Departamento de Física–FC–UNESP me convidou para iniciar um curso de treinamento cujo principal objetivo era preparar alunos dos anos iniciais da graduação a realizarem e interpretarem cálculos de estrutura eletrônica. Iniciamos as atividades e então fui contemplado com minha primeira bolsa da FAPESP. Em minha opinião, o suporte oferecido por esta tão excelente agência de fomento, principalmente nesta modalidade, é de vital importância para incentivar a formação de novos recursos humanos na pesquisa, e foi assim no meu caso.

Momentos importantes nem sempre são os mais fáceis. Um terceiro momento que considero de extrema importância em minha carreira/formação foi a realização do meu mestrado acadêmico inteiramente sem bolsa. Nesta ocasião prestei concurso e fui aprovado para o cargo de professor de educação básica II (PEBII) da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, realizando o mestrado e lecionando na rede de ensino pública. Terminei todas as disciplinas obrigatórias do mestrado no meu primeiro ano a fim de poder realizar a pesquisa com mais tranqüilidade na cidade em que tinha de assumir o meu cargo.

Sem dúvida, outro momento de extrema importância foi iniciar o meu doutoramento sob a orientação do professor dr. Carlos Frederico de Oliveira Graeff do Departamento de Física–UNESP/Bauru no Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologia de Materiais. Neste período tive contato com diferentes problemas teórico-experimentais e pude amadurecer como pesquisador. Ainda no meu doutorado, tive a oportunidade de realizar um estágio na Universidade de Tecnologia de Eindhoven (TUe) – Holanda sob a orientação do professor Peter Arnold Bobbert, experiência esta que me permitiu ter contato com diferentes técnicas de simulação e complementar minha formação básica.

Um último momento que considero importante foi a contratação como professor assistente no Campus Experimental de Itapeva da UNESP. Eu nasci nesta cidade e agora tenho a oportunidade de fazer com que o meu trabalho possa ajudar a trazer recursos humanos e tecnologia para esta região.

Boletim da SBPMat: – Por que começou a fazer pesquisa na área de Materiais?

Augusto Batagin Neto: – Fui introduzido na área de Materiais durante minha iniciação científica no estudo de biomoléculas, no mestrado iniciei o estudo de propriedades estruturais e ópticas de polímeros e no meu doutorado ampliei a minha área de pesquisa para o estudo de propriedades de transporte e magnéticas de materiais orgânicos.

Sempre achei interessante o uso de ferramentas de simulação para o estudo de propriedades de materiais, pois acredito que tais investigações podem trazer importantes contribuições científicas, tanto no que tange à ciência básica (na discussão de novos processos/fenômenos associados) como do ponto de vista tecnológico (na proposição de materiais/dispositivos com propriedades melhoradas).

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua opinião, a principal contribuição da tese premiada?

Augusto Batagin Neto: – De forma geral a série de estudos apresentada na minha tese traz contribuições a distintas áreas envolvendo aplicações de materiais orgânicos na confecção de dispositivos.

No que tange o estudo de sistemas dosimétricos baseados em soluções de polímeros orgânicos, os resultados permitem identificar quais características estruturais e eletrônicas são desejáveis em sistemas de alta sensibilidade.

Com relação ao estudo de melaninas sintéticas, o trabalho aponta qual a origem dos centros paramagnéticos observados nestes sistemas, os quais podem possuir profunda influência nas propriedades de transporte deste biomaterial. Além disso, o estudo de reatividade traz informações a respeito das macroestruturas mais prováveis de serem observadas, tema bastante controverso na literatura.

Através de cálculos de estrutura eletrônica foi possível também sugerir o aparecimento de defeitos conformacionais induzidos por luz em complexos de Irídio. Tais compostos são extensivamente empregados na confecção de dispositivos emissores de luz, contudo em geral apresentam uma vida útil bastante curta. Nosso resultado sugere que defeitos estruturais podem advir de processos opticamente ativados, seguidos de transferência de carga, sugerindo uma possível rota de degradação destes complexos.

Por fim o estudo também contou com simulações visando modelar o experimento de ressonância magnética detectada eletricamente por meio de duas abordagens distintas: circuito equivalente e equações de “drift-difussion”. Os resultados obtidos permitem melhor compreender quais os efeitos esperados da existência de distintos entes ressonantes no sistema. Tal resultado poderia em princípio ser utilizado para distinguir características de transporte dependente do spin relativos a elétrons e buracos em dispositivos semicondutores.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os critérios que o guiaram para fazer uma pesquisa de qualidade destacada em nível nacional (a tese premiada)? A que fatores você atribui esta conquista?

Augusto Batagin Neto: – A ideia inicial era compreender uma série de fenômenos experimentais de um ponto de vista mais fundamental, todos eles associados direta ou indiretamente à aplicação de diversificados materiais em dispositivos optoeletrônicos. Um dos critérios que guiaram a pesquisa foi justamente tentar ir um pouco além da descrição fenomenológica dos processos em estudo.

Atribuo o sucesso da pesquisa a uma série de fatores, dentre os quais saliento o ambiente de intensa discussão científica existente em nosso grupo, liderado pelo professor Carlos Graeff. Naquele momento eu era o único estudante do grupo cujo trabalho era puramente teórico e a possibilidade de discutir, levantar teorias e testá-las empiricamente foi o diferencial do trabalho desenvolvido, não somente no desenvolvimento de minha tese, mas também em colaborações realizadas no decorrer do doutorado. Devo também apontar o apoio recebido por todo programa de Pós-Graduação POSMAT-UNESP/Bauru em especial o professor Francisco Lavarda, o suporte financeiro recebido pela CAPES e pela FAPESP, e os recursos computacionais disponibilizados no GridUnesp como fatores decisivos para a execução do projeto. Outro fator ao qual atribuo a qualidade do trabalho desenvolvido foi a possibilidade de estágio na TUe-Holanda; as discussões científicas que tive durante este período permitiram-me ampliar as linhas de pesquisa em que já atuava e desenvolver um trabalho diferenciado.

Boletim da SBPMat: – Gostaria de deixar alguma mensagem para nossos leitores que estão realizando trabalhos de iniciação científica, mestrado e doutorado na área de Materiais?

Augusto Batagin Neto: – Acredito que o crescimento constante de nossa área de pesquisa no país reflete o grande potencial dos recursos humanos que temos. A meu ver, a qualidade do trabalho intelectual que vem sendo desenvolvido em laboratórios nacionais não é em nada inferior ao que é feito na comunidade internacional. Neste sentido gostaria de deixar como mensagem a todos da comunidade que busquemos cada vez mais aumentar a nossa visibilidade, divulgando nossa pesquisa, não apenas nos meios tradicionais, mas também em outros meios diversificados de comunicação, inclusive redes sociais.

Aniversário da Área de Materiais da CAPES. Parte 2.


Pouco mais de quatro meses após a criação da Área de Materiais da CAPES, com o professor Lívio Amaral como coordenador pro tempore, ocorria, em 12 e 13 de junho de 2008, o primeiro encontro dos programas de pós-graduação da nova área. O evento teve lugar na sede da CAPES em Brasília. A pauta incluiu, basicamente, as apresentações dos dez programas já vinculados à Área de Materiais (os da UCS, UFC, UFPE, UFRGS, UFRN, UFSC, UNESP – Bauru, UNESP – Ilha Solteira, USP-Lorena e USP São Carlos), reuniões com algumas diretorias da CAPES e apresentações de novos programas (os da FATEC, FEEVALE, UFMT e UFSCar- Sorocaba). Alguns programas vinculados a outras áreas da CAPES (os da UFVSF, UFPR e UFS) também foram convidados para avaliarem uma possível mudança de área. No final do evento, houve uma discussão sobre a elaboração do chamado “documento de área”.

A elaboração desse documento foi finalizada no segundo encontro dos programas de pós-graduação da área, que ocorreu nos dias 5 e 6 de março de 2009 na PUC-Rio. Nessa oportunidade, a reunião foi convocada pelo professor Lívio Amaral em conjunto com a SBPMat, na época presidida pelo professor Fernando Lázaro Freire Junior. A pauta incluiu uma apresentação da SBPMat e grupos de trabalho sobre a elaboração do documento de área, o qualis da área e a ficha de avaliação dos programas de pós-graduação. O documento trazia, entre outras informações, um breve histórico da área de pesquisa e o detalhamento da ficha de avaliação, propondo e discutindo indicadores para os quesitos e itens de avaliação.

Em abril de 2009, o professor Lívio Amaral deixou a coordenação da Área de Materiais para assumir a Diretoria de Avaliação da CAPES. Sobre as ações realizadas durante sua gestão, que durou um ano e dois meses, o professor Amaral comenta que “o período foi levado essencialmente em identificar quais seriam os programas de pós-graduação da área; a partir disto, tentar consolidar o que poderia ser a “Área de Materiais” e exprimir a construção desta área ao conjunto das demais, de modo que a mesma pudesse ser entendida pela comunidade”. Por outro lado, Amaral lamenta não ter conseguido estimular, tanto em programas existentes quanto em novas iniciativas “a imperiosa necessidade de termos muito mais pesquisa e formação de recursos humanos em Biomateriais”, subárea na qual, de acordo com o professor, a situação do país ainda é bastante crítica. “Basta ir a uma reunião da MRS, seja a americana ou a européia, que é fácil constatar que, mais e mais, existe pesquisa em Biomateriais”, ilustra Amaral.

O professor Carlos Graeff, coordenador da Área de Materiais da CAPES, em palestra no IFSC-USP em novembro de 2013. Foto cedida por Carlos Graeff.

No dia 12 de agosto de 2009, o presidente da CAPES, professor Jorge Guimarães, divulgava por meio da portaria 097 que o professor Carlos Frederico de Oliveira Graeff fora designado para exercer a função de coordenador da Área de Materiais até 2010, completando o triênio iniciado por Lívio Amaral. Graeff ainda permanece na coordenação da área até junho de 2014, por ter sido designado coordenador por mais um triênio.

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ANEXO 1: Entrevista com o professor Carlos Graeff, coordenador da Área de Materiais da CAPES no período 2009 – 2014.

Boletim da SBPMat: – Poderia resumir a evolução quantitativa e qualitativa dos cursos de pós-graduação em Materiais no Brasil desde a criação da área de Materiais na Capes?

Carlos Graeff: – A área foi criada em 2008 com a adesão de 10 programas. Hoje somos 29; ou seja, crescemos 290% em 6 anos. Esses são os dados quantitativos, mas o mais importante é que a área diversificou-se. Trata-se de uma área multidisciplinar, e nos novos programas, novas fronteiras do conhecimento foram abarcadas com interfaces nas áreas biológicas e médicas, além de agronegócios, para citar alguns casos. Além disso, outra característica importante desta evolução foi a expansão de regiões atendidas com programas de pós-graduação, em especial locais ainda carentes de programas de ensino superior nas regiões Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.

Boletim da SBPMat: – O que você destacaria quanto às ações realizadas e os fatos ocorridos durante sua gestão como coordenador da área de Materiais da Capes?

O professor Carlos Graeff, coordenador da Área de Materiais da CAPES, em palestra no IFSC-USP em novembro de 2013. Foto cedida por Carlos Graeff.

Carlos Graeff: – A marca principal de nossa gestão foi a transparência. Fizemos uma série de reuniões com os coordenadores e, como a área é ainda relativamente pequena, pudemos tomar uma série de decisões de forma coletiva, relativas, principalmente, à avaliação. No que diz respeito aos cursos novos, procuramos convidar sempre novos membros nos comitês de análise. Esta medida, além de proporcionar um julgamento justo dos pedidos ao trazer especialistas nas áreas de atuação do futuro programa, melhora o conhecimento dos programas já existentes sobre o funcionamento da CAPES. Outra consequência é uma maior participação dos docentes dos diversos programas no funcionamento da área. Uma questão recorrente é a falta de conhecimento que a comunidade tem da CAPES; ao trazer um número representativo de docentes nos processos avaliativos, a tendência é um estreitamento do relacionamento da comunidade científica com a CAPES. Espero que esta entrevista possa contribuir neste sentido.

Além da atuação nesta interface com os programas de pós-graduação, sou membro titular do Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) da CAPES. No CTC-ES liderei um grupo de trabalho no tema “produtos técnicos”. Existe uma crescente demanda por uma interação mais forte entre a academia e a sociedade de maneira geral, ou seja, por desenvolvimento de pesquisas aplicadas ou desenvolvimento tecnológico. Na realidade, a criação das áreas de Materiais e Biotecnologia tiveram como uma das inspirações justamente a tentativa desta aproximação. No entanto, do ponto de vista da avaliação dos programas que trabalham nesta interface e, especialmente, na modalidade de mestrado profissional, existe uma carência por instrumentos que possam mensurar e qualificar os produtos gerados por esses programas. Estou mencionando a produção de patentes, protótipos etc.. Portanto é fundamental que o sucesso da CAPES em bem avaliar a produção intelectual (no caso de Materiais, basicamente artigos em periódicos científicos) também se estenda à produção técnica. As discussões foram muito produtivas e esperamos que em breve isso se reflita tanto na etapa da coleta de informações como na avaliação das mesmas pela CAPES.

Boletim da SBPMat: – Comente sobre o Qualis da área.

Carlos Graeff: – Uma das discussões realizadas dentro da área foi como gerar um Qualis que atendesse a multidisciplinaridade. O Qualis é um instrumento muito debatido na comunidade acadêmica de forma geral, mas em especial nas áreas mais dinâmicas do conhecimento, pois sua função é das mais importantes, qualificar o principal produto intelectual gerado pelos programas de pós graduação, os artigos científicos. A forma de qualificar atualmente mais utilizada faz uso do fator de impacto. No entanto, o fator de impacto reflete o tamanho e a dinâmica das diferentes comunidades acadêmicas. Por exemplo, quando comparamos os fatores de impacto médios da área de engenharia com aqueles das áreas de ciências naturais (Física, Química, Biologia), os mesmos são inferiores. Não queremos entrar no debate das razões desta diferença que é mais marcante ainda se entrarmos, por exemplo, no campo das humanidades. Mas a diferença existe, e, portanto, devemos levar isso em consideração para não gerarmos distorções na avaliação, por exemplo, de uma pós-graduação com forte viés em pesquisa em Engenharia de Materiais contra outra em Química de Materiais. Nossa proposta, portanto, separa os periódicos em grandes grupos: Ciência dos Materiais, Engenharia de Materiais e áreas correlatas. Com isso procuramos justiça ao comparar os artigos gerados por grupos de engenheiros ou físicos que atuem na área de Materiais. Evidentemente, nossa proposta precisa de ajustes, mas creio que demos um passo importante nesta direção.

Boletim da SBPMat: – Na sua opinião, quais são os desafios que a área tem para os próximos anos?

Carlos Graeff: – O Brasil passa por um momento importante em que sua indústria sofre a concorrência cada vez mais forte devido à maior abertura de nosso mercado e sua integração com a economia mundial. Um caminho importante é a sofisticação de nossos produtos e processos, e a área de Materiais tem muito a contribuir para uma indústria mais forte e competitiva. Para não me alongar, a Nanotecnologia que esta cada vez mais em evidência, e há uma expectativa de que possa gerar uma série de novos produtos é tema fundamentalmente da área de Materiais. Portanto a CAPES, e a SBPMat, têm papel importante neste tema. Ações nesta direção estão sendo discutidas tanto na CAPES quanto na SBPMat. Além das grandes questões nacionais, a área ainda tem espaço para crescer. Existe entre outros, por exemplo, o enorme e urgente desafio de criarmos um programa de pós-graduação na região Norte, única região ainda sem oferta de programas de pós-graduação na área de Materiais.

Boletim da SBPMat: – Fique à vontade para outros comentários.

Carlos Graeff: – Fico honrado pela generosa oferta do professor Lívio Amaral de conduzir a implantação da área de Materiais na CAPES. Aprendi muito e pude acompanhar as mudanças que a CAPES sofreu nos últimos anos com foco na melhoria do nosso sistema de pós-graduação. Teremos em breve mudanças significativas no processo de avaliação, entre elas a introdução de um novo instrumento de coleta e apoio à avaliação chamado de Plataforma Sucupira. Essas iniciativas foram conduzidas com entusiasmo e competência pelos professores Lívio Amaral e Jorge Guimarães. Portanto gostaria de encerrar com um agradecimento a ambos.

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ANEXO 2: O “bê-a-ba” da Área de Materiais da CAPES.

As principais incumbências das áreas da CAPES são: avaliar e promover a criação de novos programas de pós-graduação; avaliar os programas existentes sugerindo sua nota; avaliar pedidos de auxílio como estágios no exterior para discentes e docentes e pedidos de financiamento para organização de eventos no país e analisar pedidos para participar de eventos fora do país. Além disso, os coordenadores são a mais importante interface entre a comunidade acadêmica e a CAPES.

A Área de Materiais é composta pelo coordenador e dois coordenadores adjuntos. O cargo do segundo coordenador adjunto foi criado recentemente, em meados de 2013, para acompanhar mais detalhadamente os programas de mestrado profissional. Além disso, na Diretoria de Avaliação da CAPES existe um ou mais técnicos que auxiliam a Coordenação de Área com os procedimentos internos e interfaces da CAPES com a comunidade.

Os coordenadores de área são escolhidos pela presidência da CAPES após consulta aos programas de pós-graduação e às sociedades técnico-científicas ligadas à área.

Página da Área de Materiais da CAPES: http://www.capes.gov.br/component/content/article/44-avaliacao/4676-materiais

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