Cientista em destaque: entrevista com Carlos Frederico Oliveira Graeff.



Prof. Carlos Graeff
Prof. Carlos Graeff

Fascinado desde pequeno pela ciência, da qual tinha um representante dentro de casa (o pai, renomado neurocientista), o ribeirão-pretano Carlos Frederico Oliveira Graeff escolheu a área de Física para seus estudos universitários. Obteve os diplomas de bacharel (1989), mestre (1991) e doutor (1994) em Física pela Unicamp. No mestrado e no doutorado, orientado pelo professor Ivan Chambouleyron, deu os primeiros passos como pesquisador na área de Materiais, com estudos sobre materiais baseados em germânio e silício. Durante o doutorado, fez um estágio de pesquisa no Max Plank Institut für Festkörperforschung, na Alemanha.

De 1994 a 1996, voltou à Alemanha para fazer pós-doutorado em ressonância magnética eletrônica, semicondutores e dispositivos eletrônicos no Walter Schottky Institute da Technische Universität München (TUM), com bolsa da fundação alemã Alexander Von Humboldt.

Ao voltar ao Brasil, tornou-se professor do Departamento de Física e Matemática da Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceu durante 10 anos. Em 2006 ingressou como professor titular à Faculdade de Ciências de Bauru da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), onde ainda desenvolve seu trabalho de docência e pesquisa. Ao longo de sua carreira acadêmica, Graeff foi professor ou pesquisador visitante de instituições da França, China e Suíça.

De 2007 a 2009, Graeff foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais (POSMAT) da UNESP – campus de Bauru. Entre 2009 e 2014, foi coordenador da recém-criada Área de Materiais da CAPES, setor responsável pela avaliação dos programas brasileiros de pós-graduação em Materiais, entre outras funções. De 2011 a 2013, Graeff foi presidente do Clube Humboldt do Brasil e, em 2012 e 2013, diretor científico da SBPMat. O cientista também cumpriu ou cumpre funções de gestão ou conselho na FAPESP, CAPES e IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry).

Em 2017, depois de ter participado do corpo editorial de vários periódicos internacionais, foi nomeado editor associado na área de fotovoltaicos da revista Solar Energy (fator de impacto 4,018), da editora Elsevier. Também em 2017, tornou-se pró-reitor de Pesquisa na UNESP, cargo que desempenha até o presente.

Possuidor de um índice h é de 28, Graeff é autor de cerca de 200 trabalhos indexados que contam com mais de 2.500 citações, conforme o Google Scholar. Em três décadas de trabalho científico, junto à sua equipe do Laboratório de Novos Materiais e Dispositivos e a seus numerosos colaboradores nacionais e internacionais, Graeff tem feito contribuições à área de Materiais numa diversidade de assuntos. Entre seus artigos mais citados, encontram-se estudos sobre diamante sintético, heteroestruturas de silício e germânio, polímeros conjugados, látex e melanina (material biológico com propriedades semicondutoras, promissor para o desenvolvimento de dispositivos bioeletrônicos).

O pesquisador também tem trabalhado na área de energia fotovoltaica (conversão direta da radiação solar em eletricidade), fazendo uma série de contribuições ao desenvolvimento de células solares baseadas em diferentes materiais (corantes, perovskitas e semicondutores orgânicos). Sobre esse assunto, a energia fotovoltaica, Carlos Graeff oferecerá uma palestra plenária no XVII Encontro da SBPMat, que será realizado em Natal (RN) de 16 a 20 de setembro.

Segue uma entrevista com este destacado pesquisador da nossa comunidade.

Boletim da SBPMat: – Como ou por que você se tornou um cientista? Sempre quis ser cientista? Conte também, brevemente, o que o levou a atuar no campo dos materiais.

Carlos Graeff: – O meu pai, Frederico Graeff, é um pesquisador bastante conhecido e talvez tenha sido uma das influências mais importantes nesta minha decisão. Minhas tias também eram docentes e pesquisadoras, portanto tive acesso desde muito pequeno em casa ao mundo da ciência, que sempre me fascinou. A decisão de fazer Física veio em grande parte dos vários livros que li e da série Cosmos apresentada por Carl Sagan que passava na televisão. A decisão em trabalhar na área de Materiais veio tardiamente durante o meu bacharelado em Física após os primeiros cursos de Física da Matéria Condensada e Semicondutores. Trabalhei desde o início da pós-graduação em Materiais, e logo fui sendo atraído pelas interfaces da Física com a Química e Biologia em temas muito variados de Ciência e Engenharia dos Materiais.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais? Por favor, considere todos os aspectos da atividade científica.

Carlos Graeff: – Escolher as principais contribuições é sempre uma tarefa difícil. No meu caso em especial é fácil perceber, lendo o meu CV, que tenho uma trajetória bastante eclética em termos de materiais estudados e aplicações. Usando a originalidade como escolha, vou me deter em três temas; o primeiro, a produção de CoS (sulfeto de cobalto) a base de tintas ecológicas para a produção de eletrodos para células solares. Conseguimos um método simples, industrial e ecológico para substituir a platina em células solares a base de corante. No segundo tema, nós propusemos vários métodos alternativos para a síntese de melanina, o material responsável pelo bronzeado, e com isso conseguimos produzir materiais biocompatíveis com características muito especiais no que diz respeito por exemplo à solubilidade. Estamos identificando um defeito muito importante para esse material usando como ferramenta principal simulações computacionais combinadas com técnicas espectroscópicas. Estamos seguros que este material será importante na área emergente da bioeletrônica. No terceiro tema, descrevemos com detalhes todo o processo de degradação de semicondutores orgânicos identificando rotas para a produção de dosímetros de alta sensibilidade para aplicações em hospitais e clínicas que utilizam por exemplo raios gama para tratamentos e diagnóstico de câncer. Tivemos ainda contribuições muito originais na física da ressonância magnética detectada eletricamente, aumentando a sensibilidade e a compreensão geral dos fenômenos físicos envolvidos. Além destas contribuições de cunho fundamental, fui responsável com orgulho e satisfação pela implantação da área de materiais na CAPES. Outra fonte de satisfação são os bons alunos que tive a sorte de orientar, muitos deles cientistas brilhantes. Ajudei e coordenei a montagem de vários laboratórios tanto aqui no Brasil como no exterior, mais recentemente ajudei na montagem de um laboratório de ressonância magnética na China.

Boletim da SBPMat: – Agora convidamos você a deixar uma mensagem para os leitores que estão iniciando suas carreiras científicas.

Carlos Graeff: – Comecei o meu mestrado em 1989, numa época talvez tão conturbada como a atual, não desanimem! Com foco e um pouco de sorte sempre é possível gerar novas ideias, construir uma carreira sólida e contribuir para o nosso belo país. Estamos passando por uma grande revolução, com a emergência de novas tecnologias que vão alterar a sociedade de forma profunda. Cada vez mais a inteligência terá papel determinante nos rumos de nossa sociedade, estejam preparados para trabalhar neste novo mundo de grandes oportunidades. Busquem sempre o diálogo com especialistas das mais diversas áreas do conhecimento e dos mais diversos países. Muito possivelmente, nos próximos anos vamos desvendar os mistérios do funcionamento do cérebro, dominar formas de geração de energia ilimitadas e ecológicas, gerar inteligência artificial. Abram-se para o novo, sejam ousados, o Brasil precisa do espirito cidadão e empreendedor de vocês.

Boletim da SBPMat: – Você proferirá uma palestra plenária no XVII Encontro da SBPMat. Deixe um convite para nossa comunidade.

Carlos Graeff: – A energia fotovoltaica chega a sua maturidade comercial, estamos vivendo uma revolução energética sem precedentes. Na palestra procurarei mostrar alguns dados atualizados sobre as perspectivas do uso das células fotovoltaicas no Brasil e no mundo; seus princípios de funcionamento; os desafios para os cientistas e engenheiros de materiais nesta corrida incansável por materiais, processos e dispositivos cada vez mais eficientes, duráveis e ecológicos. Apresentarei resultados recentes de nosso grupo neste tema.


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