20º aniversário da criação do Instituto de Física de São Carlos, e seis décadas participando da história da pesquisa em Materiais no Brasil.



O ano de 2014 é de comemorações para uma das instituições protagonistas da história da pesquisa em Materiais no Brasil. O Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da Universidade de São Paulo (USP), celebra seu 20º aniversário.

Entretanto, as origens do IFSC e de suas contribuições à Ciência e Engenharia de Materiais brasileira remontam a uns 60 anos atrás. “Desde a sua origem o IFSC teve um papel central no desenvolvimento da Ciência e Engenharia de Materiais, uma vez que a pesquisa em materiais esteve presente com os pioneiros do IFSC”, afirma o professor Antonio Carlos Hernandes, diretor do IFSC de 2010 a 2014 e pesquisador na área de Materiais.

O início da história pode ser fixado em 1953, quando a USP, que tinha sido fundada em 1934, inaugurou uma unidade de ensino e pesquisa na então pacata cidade de São Carlos, no interior do estado de São Paulo. Tratava-se da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), que existe até a atualidade. Na época, o diretor da escola, Theodoreto Souto, incumbido de formar a equipe de docentes-pesquisadores, levou até São Carlos professores recrutados, principalmente, na USP de São Paulo, no Rio de Janeiro e no exterior do país, mas não conseguiu que eles se assentassem na cidade por muito tempo.

Sergio Mascarenhas chegou a São Carlos em 1956 e protagonizou a história da pesquisa em Materiais na região. Crédito: SBPMat. Foto de 2012.

Do Rio de Janeiro, o primeiro a integrar a equipe de docentes da EESC foi o físico Armando Dias Tavares, assistente de Joaquim da Costa Ribeiro nos laboratórios de Física da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ). Em seguida, colaboradores e alunos de Dias Tavares, formados sob a influência de Costa Ribeiro e Bernhard Gross (principais pioneiros da pesquisa em Materiais no Brasil) saíram da “cidade maravilhosa” para o interior paulista, a convite de Souto. Entre eles, chegaram a São Carlos em 1956 os recém- formados em Física e Química e recém-casados Sergio Mascarenhas Oliveira e Yvonne Primerano Mascarenhas – um casal que deixaria um importante legado na história da Ciência e Engenharia de Materiais na região e no país.

Num momento em que, no mundo e no Brasil, a maior parte dos recursos humanos e materiais para pesquisa em Física se destinavam à Física nuclear e de altas energias, o casal Mascarenhas optou por iniciar estudos em Física da Matéria Condensada, área na qual tinham trabalhado junto a Costa Ribeiro no Rio de Janeiro. Documentos elaborados pelo IFSC comentam que Sergio e Yvonne enxergaram nessa área duas possibilidades para o grupo de São Carlos: a de se destacar internacionalmente num campo onde existia menos concorrência, e a de gerar aplicações que tivessem um impacto positivo na economia da região e na qualidade de vida da sua população.

Assim, na década de 1960, Sergio Mascarenhas criou o Grupo de Física da Matéria Condensada. “Graças a um intercâmbio muito forte entre a USP em São Carlos, e as universidades de Princeton e Carnegie Mellon nos Estados Unidos, e também grupos da Inglaterra e da Alemanha, principalmente de Stuttgart, nós conseguimos estabelecer um programa de formação de pesquisadores bastante intenso, o qual dura até hoje”, comentou Mascarenhas em entrevista concedida em 2013 ao Boletim da SBPMat. Entre os trabalhos com maior impacto realizados naquela época pelo grupo de São Carlos, é possível citar as pesquisas ligadas a defeitos em cristais, como cristais iônicos com centro de cor, os quais foram usados posteriormente para memórias ópticas.

No final da década de 1960, uma nova instituição de ensino e pesquisa, a Universidade Federal de São Carlos (USFCar), era criada na cidade, com participação efetiva de professores do grupo da EESC. Em particular, Sergio Mascarenhas, que foi o primeiro reitor (pro tempore) da universidade, propôs a criação na instituição do primeiro curso de graduação na América Latina em Engenharia de Materiais, buscando construir uma ponte entre a Ciência de Materiais e a geração de produtos, processos e serviços. O curso iniciou suas atividades em 1970.

Em mais uma iniciativa pioneira na área de Materiais, o grupo de São Carlos, com Sergio Mascarenhas à frente da organização, recebeu na cidade a comunidade brasileira de físicos de estado sólido (na época formada por cerca de 50 pesquisadores) para realizar o “1º Simpósio Nacional de Física do Estado Sólido e Ciência dos Materiais” num pequeno galpão batizado graciosamente de Rancho das Marocas.

Prédio do Instituto de Física e Química de São Carlos em 1970, pouco antes da criação formal do IFQSC. Crédito: IFSC/USP.

Como conseqüência do caminho de crescimento, institucionalização e ganho de autonomia trilhado por Mascarenhas e seus colaboradores do grupo de São Carlos, em 1971 foi criado o Instituto de Física e Química de São Carlos (IFQSC), cujo primeiro diretor foi o próprio Mascarenhas. O IFQSC contou desde o início com um Departamento de Física e Ciência dos Materiais, além do Departamento de Química e Física Molecular. Mais um passo foi dado em 1994, quando o IFSC foi desmembrado, dando lugar ao Instituto de Química de São Carlos (IQSC) e ao IFSC, cuja primeira diretora foi Yvonne Primerano Mascarenhas.

Outro marco da participação do IFSC na história da pesquisa em Materiais no Brasil foi a criação, em 1993, do programa interunidades em Ciência e Engenharia de Materiais da USP em São Carlos. Administrado pelo IFSC, o programa reúne docentes desse instituto, do IQSC e da EESC, além de pesquisadores de outras instituições da região.

Atuação com impacto acadêmico e social

Além de participar do programa interunidades, o IFSC possui um dos programas de pós-graduação em Física mais conhecidos e disputados do país, o qual tem obtido nota máxima nas avaliações da CAPES desde sua criação. Dentro de seu mestrado e doutorado, é possível pesquisar uma ampla variedade de temas, que inclui diversas possibilidades na área de Materiais, desde pesquisas fundamentais em Física da Matéria Condensada até estudos sobre materiais semicondutores, polímeros, cerâmicas e vidros. Ainda na área de Materiais, o IFSC atualmente possui grupos de pesquisa consolidados, como, por exemplo, o Grupo de Polímeros “Professor Bernhard Gross”, e abriga projetos de grande porte, como Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) e Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CePIDs).

Entretanto, o impacto acadêmico da atuação na área de Materiais do grupo de São Carlos que gerou o IFSC tem ultrapassado os limites do município de São Carlos. De acordo com o professor Antonio Carlos Hernandes, a primeira consequência dessa atuação foi a formação de doutores que passaram a atuar na área em outras instituições de ensino superior. “Com isso muitos centros universitários e de pesquisa que atuam em Materiais nos dias de hoje tem em seu DNA a formação no IFSC”, diz Hernandes.

“O IFSC reúne o que é essencial para a pesquisa de qualidade em materiais, com infraestrutura de equipamentos e pessoal com experiência em diversos tipos de materiais”, afirma o professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, vice-diretor do IFSC para o período 2012-2016. Contando com esses recursos, acrescenta Novais, formaram-se centenas de mestres e doutores em Materiais, muitos dos quais se tornaram líderes de grupos de pesquisa em todas as regiões do Brasil. “Esses líderes de várias instituições, assim como outros que fazem parte do IFSC, têm hoje papel relevante na organização da comunidade de Materiais no país, com atuação na SBPMat, realização de eventos e programas de cooperação nacional e internacional, e formulação de políticas públicas”, completa.

Mas o impacto da atuação do IFSC na área de Materiais vai além do ambiente acadêmico. O professor Hernandes destaca, entre outros exemplos, a criação de empresas de base tecnológica instaladas na cidade de São Carlos. “Essas empresas de alta tecnologia nasceram do trabalho de pesquisadores do IFSC, quase sempre envolvendo pesquisa em Materiais”, acrescenta o professor Novais, que também traz à tona outro tipo de contribuição social realizada pelos professores e pesquisadores do instituto, o “incansável trabalho de popularização da ciência, com programas diversos de extensão universitária, voltados para alunos do ensino médio e fundamental, assim como para o público em geral”.

Para saber mais.


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