Gente da nossa comunidade: entrevista com o pesquisador Sergio Neves Monteiro.


Sergio Neves Monteiro formou-se em Engenharia Metalúrgica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1966. Logo após a graduação, foi aos Estados Unidos para continuar com a sua formação na Universidade da Flórida, a convite de um professor dessa universidade. Ali desenvolveu trabalhos sobre deformação de materiais e obteve o diploma de mestrado (1968) e o de doutorado (1972), ambos em Ciência e Engenharia de Materiais. Em 1976 realizou um pós-doutorado na Alemanha, na Universidade de Stuttgart.

Entre o mestrado e o doutorado, em 1968, voltou à UFRJ como professor e se tornou coordenador do curso de Engenharia Metalúrgica, além de participar da criação do Programa de Engenharia Metalúrgica e de Materiais no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (a COPPE). Foi professor titular do departamento de Engenharia Metalúrgica da UFRJ e da COPPE até se aposentar de seu cargo nessa universidade, em 1993. Então iniciou sua atuação na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), onde participou da comissão de implantação da universidade e criou o Laboratório de Materiais Avançados. Foi professor titular da UENF até 2012.  Desde 2012 é professor colaborador do Instituto Militar de Engenharia (IME).

Ao longo de sua carreira, exerceu diversos cargos administrativos na UFRJ, UENF, Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), Ministério de Educação (MEC), Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro e Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais (ABM), entre outras instituições.  

Pesquisador 1 A do CNPq, em 47 anos de vida acadêmica, orientou cerca de 80 mestrados e doutorados e publicou mais de 500 artigos em periódicos nacionais e internacionais, além de 58 capítulos de livros.

Recebeu prêmios e distinções da ABM, FAPERJ e Institute of Superhard Materials (Ucrânia), entre outras entidades. É fellow da American Society for Metals.

Segue uma entrevista com o pesquisador.

Boletim da SBPMat: – Conte-nos o que o levou a se tornar um pesquisador e a trabalhar na área de Materiais.

Sergio Neves Monteiro: – Desde criança sempre fui atraído por coisas da natureza, como animais, rochas, estrelas, terremotos, vulcões e tudo o que nos cerca. Assim, ao entrar para a Escola de Engenharia da UFRJ, a área que prontamente me interessou foi a de Metalurgia e Materiais. Já no terceiro ano, como monitor do professor Hervasio de Carvalho (então presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNEN) tomei contato com a pesquisa e fui motivado a fazer cursos na COPPE, que começava a se instalar na Escola de Química da UFRJ na Praia Vermelha. Convidado pelo professor Robert Reed-Hill, um dos professores do curso, parti para a Universidade da Florida logo após o término do curso de engenharia para o mestrado e, consequentemente, o início da carreira como pesquisador.

Boletim da SBPMat: – Quais são, na sua própria avaliação, as suas principais contribuições à área de Materiais?

Sergio Neves Monteiro: – Como professor da UFRJ, iniciei em 1968, juntamente com os professores Walter Mannheimer e Ubirajara Cabral, o Programa de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da COPPE. Ajudei a formar os primeiros mestres e doutores na área e participei da organização do 1° CIBECIMat, coordenado pelo professor Waldimir Longo no IME. Fui Pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UFRJ, Secretário de Ensino Superior no MEC em Brasília, Sub-Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro e Presidente do Conselho Superior da FAPERJ. Na pesquisa, venho contribuído ativamente e de maneira inovadora para os seguintes temas:

·        Envelhecimento dinâmico de metais;

·        Propriedades de compósitos reforçados com fibras naturais;

·        Mecanismos de proteção balística associada a novos materiais;

·        Caracterização de cerâmicas convencionais com incorporação de resíduos industriais;

·        Técnicas de processamento de diamante e outras metais/ligas superduras.

Detalhes de minhas realizações estão à disposição em meu curriculum na Plataforma Lattes.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para nossos leitores que estão iniciando suas carreiras de cientistas.

Sergio Monteiro Neves: – Parabenizo os jovens cientistas brasileiros pelo caminho que escolheram. Lembro que muito mais do que uma carreira profissional, com estabilidade e adequada remuneração em instituições de ensino e pesquisa, ser pesquisador pode trazer grande satisfação pessoal e a certeza de contribuir diretamente para o crescimento do país. A publicação de artigos em periódicos internacionais de alto impacto é uma tremenda realização com reconhecimento pela comunidade. A pesquisa tem sido uma das principais ferramentas para os avanços tecnológicos e de qualidade de vida nos países desenvolvidos.

Memorial Lecture “Joaquim da Costa Ribeiro” será para Eloisa Biasotto Mano.


Desde 2011, anualmente, a SBPMat outorga uma distinção a um pesquisador de trajetória destacada na área de Materiais, quem profere uma palestra durante o encontro anual da sociedade. O nome do ato é “Palestra memorial Joaquim da Costa Ribeiro”, em homenagem a esse pioneiro da pesquisa experimental em Materiais no Brasil. Em 2015, esta honraria da SBPMat será entregue a Eloisa Biasotto Mano, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante a abertura do XIV Encontro da SBPMat, no dia 27 de setembro às 19 horas no centro de convenções SulAmérica (Rio de Janeiro). Na ocasião, além de receber a distinção, a professora Biasotto Mano falará sobre a importância dos materiais macromoleculares.

Eloisa Biasotto Mano nasceu no dia 24 de outubro de 1924 no Rio de Janeiro.  Até os 13 anos de idade, ela desconhecia o que era a ciência e o trabalho do cientista – temas ainda pouco presentes no Brasil e pouco acessíveis ao público numa época em que nem a televisão existia por aqui. Mas os livros existiam, e Eloisa tinha acesso a muitos deles na gráfica onde o tio dela trabalhava como editor. A moça, que era muito séria e responsável, tinha sido incumbida de revisar as provas tipográficas de obras traduzidas do francês. E eis que Eloisa teve que ler “Madame Curie”, uma biografia da cientista nascida na Polônia que tinha ganhado dois prêmios Nobel, e que falecera poucos anos atrás. “Achei tão bacana alguém se interessar tanto por alguma coisa e ter a vida que ela tinha tido”, lembra Eloisa em entrevista no documentário “Eloisa Mano”. Foi assim que Eloisa descobriu a palavra “química” e começou a se interessar por essa área do conhecimento.

Aos 20 anos de idade, Eloisa Mano ingressou na Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil (UB), atual UFRJ, para realizar os estudos de grado. Estamos falando dos anos de 1940, em que menos de 40% das mulheres (e menos de 50% dos homens) eram alfabetizadas no país. O ensino superior era incipiente; as instituições podiam ser contadas com os dedos das mãos. Mas Eloisa formou-se em Química Industrial em 1947. Em 1955, obteve também o diploma do recém-criado curso de Engenharia Química. Em 1949, ela fez uma especialização em tecnologia de borracha no Instituto Nacional de Tecnologia, uma das poucas instituições que, na época, contava com infraestrutura para pesquisa experimental. Perante seu bom desempenho, foi convidada a permanecer na instituição como química tecnologista, o que lhe permitiu adquirir experiência em tecnologia de polímeros.

Nesse momento, Eloisa já tinha uma formação universitária, mas ela sentia que podia aprender mais. Pensou que deveria existir uma boa opção fora do Brasil e que ela poderia, de alguma maneira, arrumar os meios para viajar, pois ela não poderia pagar as despesas com recursos próprios. Então ela bateu à porta da Embaixada dos Estados Unidos e foi recebida com uma ótima notícia: havia uma bolsa para alguém com o perfil dela. Dessa maneira, entre 1956 e 1957, ela conseguiu realizar um treinamento em ciência de polímeros na Universidade de Illinois, nos EUA, sob a orientação do professor Carl Shipp Marvel – considerado um grande cientista e um pioneiro na área de Química Orgânica/Polímeros.

Após a experiência no exterior, Eloisa voltou à Escola Nacional de Química da UB e passou cerca de cinco anos trabalhando na área de Microbiologia Industrial, tendo o professor Raymundo Augusto de Castro Moniz de Aragão como mentor. Aragão era um dos incentivadores da criação na UB de um instituto de Química, voltado à pesquisa e pós-graduação, o que aconteceu em 1959. Mais adiante, o professor Aragão seria reitor da universidade e ministro da Educação e Cultura do Brasil.

Em 1960, Eloisa Mano obteve o grau de doutora pela UB com uma tese na área de Química Orgânica. Em 1962, foi aprovada num concorrido concurso do Instituto de Química da UB e obteve a cátedra de Química Orgânica. Nesse mesmo ano, o Instituto de Química se tornou uma das primeiras instituições do país a oferecer cursos de pós-graduação, ao abrir as inscrições para os mestrados em Química Orgânica e Bioquímica.

Em 1964, Eloisa saiu novamente do Brasil para seu segundo treinamento em ciência de polímeros, este na Universidade de Birmingham (Inglaterra), com o Professor J.C. Bevington. No ano seguinte, Eloisa estava de volta ao Brasil e à universidade, cujo nome mudara para o atual UFRJ justamente nesse 1965. Em 1968, a professora criou o primeiro grupo de pesquisa em Polímeros do Brasil, formado inicialmente por 9 mestrandos orientados por ela, que trabalhavam no campus da Praia Vermelha, no bairro carioca da Urca. O Grupo de Polímeros ganhou boa fama e começou a atrair, constantemente, novos membros, mas a infraestrutura edilícia não acompanhava o crescimento do grupo.

Em 1972, o grupo conseguiu financiamento de órgãos governamentais para a construção de um novo prédio, no campus da UFRJ na Ilha do Fundão, na Baía de Guanabara. O grupo passou então passou a chamar-se “Núcleo Macromolecular”. Eloisa cuidou pessoalmente do projeto do prédio, e continuou cuidando com carinho de seu local de trabalho depois de concluída a construção, em 1978.

Em 1976, o núcleo foi transformado no Instituto de Macromoléculas (IMA), e a professora Eloisa se tornou a sua primeira diretora, posição que ocupou até sua aposentadoria compulsória, em 1994. Nesse ano, o IMA teve seu nome modificado para Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano. Em 1995 Eloisa foi nomeada professora emérita da UFRJ.

Em paralelo a seu trabalho no IMA, a professora Eloisa desenvolveu uma atuação internacional que contribuiu a internacionalizar o IMA, gerando oportunidades no exterior para os alunos do instituto. Além de fazer parte do comitê editorial de vários periódicos nacionais e internacionais da área de polímeros, Eloisa foi pesquisadora e professora visitante em universidades e institutos de pesquisa da Holanda, Noruega e Espanha (1972), Alemanha (1976), México e Estados Unidos (1977), Argentina (1978), Japão (1979), Chile (1983), França (1989), entre outros.

Em mais de meio século dedicado à pesquisa, Eloisa Mano orientou cerca de 50 trabalhos de mestrado e doutorado, e publicou 17 livros, 4 capítulos de livros e mais de 200 artigos em periódicos científicos nacionais e internacionais. Nessas publicações, ela contou com a colaboração de cerca de 250 coautores.

Sua atuação foi reconhecida por meio de prêmios e distinções por numerosas e diversas entidades, como a American Chemical Society (ACS), Society of Plastics Engineers (SPE), Society of Polymer Science, Sociedade Brasileira de Química (SBQ), Associação Brasileira de Química (ABQ), Associação Brasileira de Polímeros (ABPol), Conselho Regional de Química, Prefeitura do Rio de Janeiro, Presidência da República do Brasil e associações empresariais do Rio de Janeiro.