Cientista em destaque: entrevista com Juliana Davoglio Estradioto.


Juliana Davoglio Estradioto
Juliana Davoglio Estradioto

Quando era pequena, Juliana Davoglio Estradioto sonhava em ser cantora. Hoje, com 18 anos, os projetos dela são outros: seguirá a carreira científica. Uma carreira que, na verdade, já começou. Quando tinha 15 anos, Juliana se deparou pela primeira vez com um artigo científico e conheceu um laboratório de pesquisa. A partir desse momento, em apenas três anos, ela conquistou dezenas de prêmios em competições e feiras de ciências (locais, regionais, nacionais e internacionais) para estudantes do ensino médio. Entre essas distinções, talvez a mais glamorosa seja a que a levará, em dezembro deste ano, a passar uma semana na Suécia junto a outros 24 jovens pesquisadores do mundo para participar da cerimônia de entrega dos Prêmios Nobel 2019 e das comemorações com os laureados, além visitar instituições e empresas da Suécia e apresentar seu trabalho a estudantes suecos, entre outras atividades.

Juliana nasceu e cresceu em Osório (RS), um município de 40 mil habitantes, localizado a 100 km de Porto Alegre, rodeado por lagoas, serras e mar. Ali, em 2015, depois de concluir o ensino fundamental em uma escola pública estadual, ela ingressou ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) –  campus Osório, que tinha sido inaugurado cinco anos atrás, para cursar o Curso Técnico em Administração Integrado ao Ensino Médio. Criados por lei sancionada em 2008, os Institutos Federais (IFs) são instituições públicas e gratuitas, ligadas ao governo federal, que se especializam na oferta de educação profissional e tecnológica desde o ensino médio até a pós-graduação. Atividades de extensão e pesquisa fazem parte da proposta dos IFs para todos os níveis.

Já em seu primeiro ano no IFRS, Juliana se entusiasmou com um projeto de extensão voltado à comunidade de agricultores familiares da região, com viés social e ambiental, coordenado pela professora Flávia Santos Twardowski Pinto. Inicialmente como voluntária e depois como bolsista do IFRS, Juliana acabou participando de três projetos envolvendo pesquisa e desenvolvimento ao longo dos três anos do ensino médio, sempre orientada pela professora Twardowski.

O primeiro trabalho de Juliana resultou não apenas no desenvolvimento de um plástico biodegradável feito com resíduos agrícolas disponíveis na região (casca de maracujá), mas também na criação de uma aplicação para esse material: uma embalagem para mudas que não necessita ser retirada antes do plantio. Por esse trabalho, Juliana recebeu várias distinções, como o 4º lugar em Engenharia Ambiental na maior competição de ciências do mundo para estudantes do ensino médio, a  Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF), realizada em Los Angeles (EUA) em maio de 2017. Outro reconhecimento internacional importante foi a medalha de ouro obtida na Genius Olympiad, competição de projetos de ensino médio que abordam problemas ambientais e suas soluções, realizada em Oswego (EUA) em junho de 2018. Em nível nacional, a principal distinção recebida por Juliana pelo trabalho do plástico de maracujá foi o primeiro lugar da categoria Ensino Médio na 29 ª edição do Prêmio Jovem Cientista, outorgado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e entidades parceiras. O prêmio foi entregue no Palácio do Planalto em dezembro no ano passado, com a presença do Presidente da República e várias outras autoridades governamentais.

No final do ano passado, quando Juliana concluiu o ensino médio no IFRS, ela já tinha uma opção concreta para a graduação: uma bolsa para estudar na University of Arizona (EUA), recebida como prêmio na Intel ISEF de 2018, da qual participou com um trabalho de desenvolvimento de materiais adsorventes a partir de resíduos agroindustriais para remoção de corantes em suspensão aquosa. Agora, ela tem, no mínimo, mais uma opção, pois foi aprovada no vestibular do curso de Engenharia Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Irá ficar na terra natal? Seja qual for a decisão, o histórico da moça faz pensar que saberá aproveitar as oportunidades.

Veja nossa entrevista com Juliana.

Boletim da SBPMat: – Você acabou de concluir o Ensino Médio Integrado ao Técnico em Administração. Quando você ingressou ao curso, pensava atuar na área de administração? O que a levou a participar de projetos de pesquisa científica?

Juliana Davoglio Estradioto: – Para ingressar no IFRS – campus Osório precisa fazer um processo seletivo, e já antes do processo eu precisava optar entre Administração e Informática. Foi muito difícil fazer essa decisão com 14 anos e acabei optando pela Administração. Nunca imaginei que fosse fazer pesquisa e muito menos que seria em temáticas tão diferentes do que eu via em sala de aula. Acho Administração uma área muito importante, mas não me vejo atuando na área; agora que sou Técnica em Administração, acabei me apaixonando pela pesquisa!

Assim que eu ingressei no curso me interessei muito por um projeto de extensão rural pois minha família é muito envolvida com a área de agronomia. A coordenadora era a professora Flávia e tinha que fazer um processo de seleção para entrar no projeto. Lembro da adolescente de 14 anos que estava morrendo de nervosismo, mas muito animada com a possibilidade de fazer algo diferente das aulas teóricas, uma vez que os IFs oferecem várias oportunidades. Logo em seguida já estava sendo orientada pela professora Flávia e admirando o trabalho que ela faz.

Boletim da SBPMat: – Complementando a pergunta anterior, como/quando surgiu e se desenvolveu em você a vontade de ser cientista? A participação nas amostras e competições foi importante nesse processo?

Juliana Davoglio Estradioto: – Quando eu era criança eu gostava de subir em árvores, observar insetos e ficar em contato com a natureza. Contudo, ao longo da infância aprendemos a ser mais contidos e nosso espírito investigativo diminui. Então eu nunca tive a vontade de ser cientista apesar de ser curiosa quando era criança, meu sonho de infância era ser cantora! E por isso digo que a ciência me escolheu e não o contrário, jamais imaginei que ia ser algo pelo qual eu ia ser tão apaixonada. Quando entrei no Instituto Federal, me envolvi em projetos e tive uma professora que realmente me incentivou a seguir nessa área. O contato com a ciência me ajudou a enfrentar um momento pessoal difícil, me fez querer ser uma pessoa melhor e mais determinada, além de persistente enquanto cientista. A participação em feiras de ciências foi mais importante na minha construção pessoal e auxiliou no desenvolvimento das minhas habilidades comunicativas e empatia, enquanto que o convívio no laboratório e a vontade de pesquisar me mostraram que eu quero fazer isso para o resto da vida.

Boletim da SBPMat: – Sobre o desenvolvimento do plástico biodegradável a partir de resíduos de maracujá, conte-nos brevemente o caminho percorrido, da ideia até a realização do material e da aplicação. Você consultou muitos artigos científicos? Trocou ideias com outros pesquisadores? Quais laboratórios usou?

Juliana Davoglio Estradioto: – O projeto do plástico biodegradável a partir da casca de maracujá surgiu a partir de um problema que eu observei na minha região a partir do projeto de extensão rural que eu participei no primeiro ano do ensino médio: que a indústria de processamento de frutos gera resíduos, sendo que no maracujá os resíduos correspondem a 70% do fruto. Eu queria trazer uma utilização para essa casca e a professora Flávia foi essencial no papel de me motivar e instigar a ir atrás de uma solução. Conversamos sobre ideias para o aproveitamento da casca e então eu descobri o que eram os artigos científicos. Foi um susto pois eu tinha 15 anos e não havia tido contato com artigos até então. Os artigos são um meio de comunicação mais acadêmico e eu tinha que descobrir muitas coisas antes de conseguir ler eles, pois minhas aulas no ensino médio eram básicas e as técnicas voltadas para a administração. Precisei aprender muito sobre Química e Biologia antes de conseguir entender os artigos, conversei com outros pesquisadores e muito consultei minha orientadora. No meio do desenvolvimento do projeto (quando estava tudo dando errado ahahahaha), descobrimos por coincidência que a primeira orientadora da professora Flávia estava trabalhando com filmes plásticos biodegradáveis, a professora Simone Hickmann Flôres. Assim foi possível fazer um intermédio e utilizar alguns laboratórios do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para fazer análises mais complexas, enquanto eu continuei fazendo a pesquisa no laboratório de panificação do IFRS – campus Osório (o único que tinha na época). Quando eu tive boas amostras de plástico, comecei a me questionar sobre a aplicação que poderia dar ao material. E foi aí que eu me lembrei justamente das visitas aos agricultores, em que eu tinha visto mudas envolvidas por um plástico preto (o polietileno de baixa densidade). Queria substituir esse material pelo meu plástico biodegradável e foi bem difícil até conseguir chegar em uma embalagem recipiente para mudas. O mais legal dessa aplicação é que a embalagem pode ser plantada junto com a muda, evitando a geração de lixo.

Boletim da SBPMat: – Em 2018 você começou a trabalhar em outro projeto ligado ao desenvolvimento de um material a partir de resíduos agrícolas, também coordenado pela professora Flávia. Poderia nos resumir do que trata esse trabalho e qual o status de desenvolvimento?

Juliana Davoglio Estradioto: – O projeto surgiu a partir da demanda de uma das maiores agroexportadoras da noz macadâmia aqui no Brasil, sendo que a noz está em ascensão no mercado mundial. O processamento do fruto para obter a noz que é comercializada gera um resíduo agroindustrial que é a casca de noz macadâmia. Essa casca normalmente é destinada a aterros sanitários ou para a combustão e produção de energia. O que eu queria fazer era uma aplicação biotecnológica, então minha hipótese foi se seria possível a utilização do resíduo agroindustrial da noz macadâmia na síntese de uma biomembrana polimérica. O projeto ainda está sendo desenvolvido e aprimorado, já consegui comprovar minha hipótese de forma positiva e estou buscando melhorar o aspecto das biomembranas.

Boletim da SBPMat: – A quais fatores e competências você atribui o sucesso que seus trabalhos tiveram em premiações nacionais e internacionais?

Juliana Davoglio Estradioto: – Acredito que minha vida seria completamente diferente se eu não tivesse estudado no Instituto Federal do Rio Grande do Sul, pois ele proporciona diversas oportunidades que infelizmente ainda não são ofertadas em outras escolas de ensino básico. Ter sido aluna do IF e orientada da professora Flávia fez com que minha visão sobre a educação e ciência mudassem, sou muito grata por entender o papel transformador que elas desempenharam na minha vida e em muitas outras realidades brasileiras.

Boletim da SBPMat: – A sua carreira em pesquisa científica começou com muitíssimo destaque. O que você pretende, do ponto de vista profissional, para os próximos anos ou para as próximas décadas da sua vida?

Juliana Davoglio Estradioto: – Pretendo continuar pesquisando nas áreas que sou apaixonada e ser uma cientista, gosto muito de ciências da natureza e acredito que nunca vá conseguir abandonar isso. Quero trabalhar com temáticas voltadas principalmente para a sustentabilidade, pois precisamos encontrar alternativas para o impacto que estamos causando em todos os ecossistemas. Contudo, além de ser uma pesquisadora, pretendo trabalhar com educação e divulgação científica.

Boletim da SBPMat: – Ao colocar seu nome no Google, a gente adivinha que a sua vida tem mudado bastante nos últimos tempos. São muitas entrevistas em todos os tipos de mídia, viagens, apresentações, premiações, formalidades, parabéns de políticos, conterrâneos e admiradores… Como você leva esta mudança?

Juliana Davoglio Estradioto: – É uma mudança muito positiva e representa muito para mim nesse momento, pois me sinto responsável pela divulgação de meninas que façam pesquisa no ensino médio. São atividades que me dão prazer e acredito que precisamos estimular outros jovens para que eles vejam a carreira científica como uma possibilidade e uma oportunidade.