Um aniversário da Engenharia de Materiais no Brasil: 40 anos do DEMa da UFSCar.



Em 1970, na recém-fundada Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), era criado o primeiro curso de graduação em Engenharia dos Materiais da América Latina.

O principal mentor e propositor desse curso foi o físico e químico Sergio Mascarenhas de Oliveira, então professor do Departamento de Física e Ciência de Materiais (DFCM) da Universidade de São Paulo (USP), que estava participando da criação da UFSCar. “Nesse momento eu vi que o Brasil, para se desenvolver tecnologicamente na indústria, saúde, agronegócio etc. precisava aproveitar melhor os materiais”, diz Mascarenhas a respeito do surgimento da ideia.

Na época, já havia alguns grupos de pesquisa no Brasil que estavam trabalhando em materiais poliméricos, cristais fotônicos e dielétricos (tema introduzido por Joaquim da Costa Ribeiro), entre outros tópicos. Havia também um curso de pós-graduação em Ciência de Materiais no Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. “Havia pesquisa em Ciência de Materiais, mas o que interessava era a Engenharia de Materiais, pois era ela quem iria agregar as noções tecnológicas que geram riqueza para o país, por meio da criação de empregos e da exportação. A Ciência de Materiais tinha que se transformar em Engenharia de Materiais para gerar produtos, processos e serviços”, completa Mascarenhas.

Apoios e resistências

Entre outros colaboradores, ajudaram a elaborar o projeto do curso os físicos estadunidenses David Welch, da Universidade de Princeton, e Richard Williams, que foi um dos pioneiros no desenvolvimento de telas LCD no laboratório da empresa de eletrônica RCA (Radio Corporation of America). Mascarenhas destaca também o papel dos deputados Ernesto Pereira Lopes e Lauro Cruz, que, no contexto do regime militar, apoiaram a implantação legal da UFSCar e do curso de Engenharia de Materiais. “Os deputados também apoiaram a minha indicação dos professores Warwick Kerr e Ernesto Hamburger como membros do conselho universitário da UFSCar apesar de terem sido presos no regime militar, sem o que eu me consideraria impedido de continuar na Presidência do conselho como Reitor pro tempore para a implantação da universidade”, completa Mascarenhas.

De acordo com ele, a implantação da graduação em Engenharia de Materiais encontrou bastante oposição no Brasil, principalmente entre acadêmicos da Engenharia Metalúrgica e da Química, que não compartilhavam a ideia da necessidade do curso. Um documento da coordenação da graduação em Engenharia de Materiais relata que a criação do curso e a realização do primeiro vestibular da UFSCar foram motivos de reações e de denúncias junto ao Conselho Federal de Educação, com instauração de inquérito, por considerar-se que “era precipitado criar no Brasil um curso de engenharia na área de Materiais e que deveria ser mais um dos vários cursos de Engenharia Metalúrgica existentes”. O documento também mostra as polêmicas e resistências surgidas em torno da estruturação do currículo do curso.

Mas o vestibular para “Engenharia de Ciência de Materiais”, como foi inicialmente chamado o curso, foi realizado e, em 1974, trinta e quatro estudantes se formavam nessa carreira. Oswaldo Baptista Duarte Filho, reitor da UFSCar de 2000 a 2008 e atual prefeito de São Carlos, foi um dos alunos da primeira turma do curso, que estava formada, principalmente, por jovens da região. “Eu queria estudar engenharia, e tinha que ser em uma instituição pública porque meus pais não tinham recursos para pagar uma escola particular”, relata. “O curso da UFSCar foi uma das poucas oportunidades de aumento, na época, de vagas públicas no país”, completa o ex-aluno, que diz que, quando prestou vestibular, enxergava a Engenharia de Materiais como uma coisa de futuro, uma oportunidade de contribuir com o desenvolvimento de novos materiais.

Na inserção da Engenharia de Materiais na realidade socioeconômica do país, Mascarenhas destaca o papel do professor Vanderlei Sverzut, que organizou o programa de estágios para os graduandos do curso. “Sverzut foi muito importante no processo de integração universidade – empresas, que permitiu garantir a empregabilidade e o prestígio dessa engenharia, nova no Brasil”, diz Mascarenhas. José Octávio Armani Paschoal, outro aluno da primeira turma, que hoje preside o Instituto Inova, destaca o pioneirismo do DEMa – UFSCar em incluir,  desde o início, na grade curricular do curso de graduação, a realização de estágios em empresas durante um semestre em tempo integral. Ele comenta que os estágios abriram inúmeras oportunidades de emprego aos jovens estudantes de Engenharia de Materiais e contribuíram para difundir ainda mais o curso junto às empresas. “Uma vez contratados, estes ex-alunos continuaram seus contatos com o DEMa e, em muitos casos, demandaram da UFSCar serviços especializados”, diz Paschoal. Ele acrescenta que a experiência dos estágios empresariais também influenciou o melhor direcionamento, com relação à inserção na indústria, dos temas de pesquisa de formados de Engenharia de Materiais que fizeram mestrados e doutorados no Brasil ou no exterior, e,  em alguns casos, chegou a  motivar a definição do tema em comum acordo com os representantes das empresas.

A criação do departamento

De acordo com as lembranças de Duarte Filho, os laboratórios começaram a chegar a partir do segundo ano do curso e os docentes da primeira turma eram professores-pesquisadores brasileiros da USP e Unicamp formados na área de Materiais em doutorados no exterior, e também professores estrangeiros de várias origens. “Lembro-me de docentes ingleses, indianos, chilenos e americanos”, diz Duarte Filho.

O ex-aluno Paschoal lembra da grande dificuldade, logo percebida pelos estudantes, de se instalar não apenas o novo curso de Engenharia de Materiais, mas também a universidade como um todo. “Foram necessários muitos anos de dedicação e exaustivos trabalhos, de toda comunidade acadêmica, para transformar uma linda fazenda numa das melhores universidades do país”, completa Paschoal.

Nesses primeiros anos, especialistas estrangeiros fizeram contribuições importantes a uma segunda fase de institucionalização da Engenharia de Materiais: a criação do departamento, que foi fundado em 1972 e nomeado como Departamento de Engenharia de Materiais (DEMa). Ricardo Medrano e Egon Antonio Torres Berg foram os primeiros chefe e vice-chefe de departamento, respectivamente.

Na mesma época, em instituições de ensino superior da Europa e dos Estados Unidos, muitos nomes de departamentos de universidades estavam mudando de “Metalurgia” ou “Cerâmica” para “Ciência e Engenharia de Materiais”, incorporando a noção de que os materiais deveriam ser estudados pelos seus comportamentos e características, mais do que por suas classes (metais, cerâmicos).

Esse processo mundial de incorporação do conceito de Ciência e/ou Engenharia de Materiais ocorreu, de maneira pioneira, na Northwestern University, de Evanston (Illinois) nos Estados Unidos, que, em 1959, mudou o nome de seu departamento de “Metalurgia” para “Ciência dos Materiais”. Posteriormente, outras instituições consolidadas seguiram o mesmo caminho, como, em 1974, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Na UFSCar, os cientistas estrangeiros também assessoraram a equipe local na elaboração de projetos para obter financiamento, na criação de linhas de pesquisa, na formação doutoral e pós-doutoral de docentes do departamento no exterior a partir de 1973 e, finalmente, no estabelecimento de um programa de pós-graduação em Ciência e Engenharia de Materiais, que ocorreu em 1979, impulsionado pela inexistência no país de especialistas nessa nova área.

Um artigo do professor José Roberto Gonçalves da Silva, que participou desde os primeiros tempos da implantação da Engenharia de Materiais na UFSCar e foi chefe do departamento de 1978 a 1981, cita alguns desses cientistas que assessoraram a UFSCar em seus primórdios: Rubens Ramalho, da Universidade Laval do Canadá; Jorge Sábato, da Comissão Nacional de Energia Atômica da Argentina; Marshal Frederick Merrian, da Universidade da Califórnia dos EUA, e Franz Richard Brotzen, da Universidade Rice dos EUA.

    

Inauguração do prédio principal do DEMa, ocorrida em 06/11/1986, com a presença do Ministro de Ciência e Tecnologia Renato Archer. Antes disso, as atividades do departamento eram realizadas na área sul do campus, onde hoje funcionam alguns departamentos do Centro de Educação e Ciências Humanas. Fotografias cedidas pelo DEMa-UFSCar para esta matéria.

Disseminação da Engenharia de Materiais no Brasil

Na década de 1970, apenas mais um curso de graduação em Engenharia de Materiais foi implantado, na atual Universidade Federal de Campina Grande. Na década de 1980, surgiram mais dois cursos de graduação, no IME (1982) e na Universidade Estadual de Ponta Grossa (1989). Atualmente, há mais de 40 cursos de graduação em Engenharia de Materiais. Só a UFSCar já formou mais de 1.700 engenheiros de Materiais. A pós-graduação do DEMa, por sua vez, já formou cerca de mil mestres e doutores.

Hoje, Sergio Mascarenhas de Oliveira considera que a área de Materiais no Brasil já atingiu maturidade. “Temos ciência, engenharia e educação para formar lideranças. E o governo enxerga a área como estratégica”, diz.

Sobre o impacto da Engenharia de Materiais na economia regional, o prefeito de São Carlos comenta que a cidade detém o título oficial de capital nacional da tecnologia. “Isso se deve, principalmente, à presença da USP e UFSCar”, diz Duarte Filho. “Na engenharia, a área de Materiais teve grande influência, pois muitas pessoas formadas aqui acabaram sendo empreendedoras ou profissionais de empresas de tecnologia em materiais”. São Carlos possui a maior densidade de doutores do Brasil e uma proporção de patentes por habitantes cinco vezes maior do que a média nacional.

Paschoal afirma que a área de Materiais, com o apoio e liderança do DEMa – UFSCar, foi uma grande geradora de empresas de base tecnológica. “A área também vem contribuindo permanentemente para o fortalecimento de empresas, seja com foco em setores estratégicos, como aeronáutica, saúde, óptica e fotônica, como também em setores mais tradicionais, com permanente necessidade de inovação, como o automobilístico, siderúrgico, metal-mecânico, de cerâmica e polímeros, e o agronegócio, entre outros”, menciona o presidente do Instituto Inova. De acordo com ele, atualmente, existem cerca de 250 empresas de base tecnológica em São Carlos, que surgiram a partir dos laboratórios das universidades, muitas com influência do DEMa.

 

Para saber mais.

  • UFSCar. CCET. Coordenação do curso de graduação em Engenharia de Materiais. Projeto Pedagógico. Curso de graduação em engenharia de Materiais. São Carlos, setembro de 2004. Disponível aqui.
  • José Roberto Gonçalves da Silva. Influências sobre o curso de Engenharia de Materiais da UFSCar. Jornal da Ciência (SBPC), 9 de maio de 2007. Disponível aqui.

 

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Comments
    • Lineu Peixoto dos Santos

      Fui um dos alunos da primeira turma de Engenharia de Materiais, então Engenharia de Ciência dos Materiais, da UFSCar. Não consegui me formar nos 5 anos normais mas consegui me formar depois e me orgulho de ter visto a UFSCar desde o início.
      Gostaria de receber informações sobre encontro de ex alunos do curso de Materiais, principalmente dos “dinossauros” que ainda estão por aqui.
      Obrigado

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