Da ideia à inovação: 15 anos de trajetória da Nanox.



Colaborador no Laboratório de Microbiologia da Nanox. Na mesa, um dos produtos da empresa.
Colaborador no Laboratório de Microbiologia da Nanox. Na mesa, um dos produtos da empresa.

Em 2004, três jovens formados em Química pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) criavam uma empresa de materiais baseados em nanotecnologia. Hoje, a Nanox conta com cerca de 30 produtos desenvolvidos, uma plataforma tecnológica formada por sete patentes (três mundiais, uma na Europa, uma nos Estados Unidos) e um histórico de mais de 200 clientes atendidos, não apenas no Brasil, mas também em outros 13 países.

O negócio da Nanox consiste em desenvolver, produzir e comercializar materiais baseados em nanotecnologia cujas propriedades (bactericida, fungicida, repelente, antissuor, antialérgico…) agreguem valor a determinado produto (embalagem, piso, tapete, camiseta…). Dessa maneira, a Nanox fornece a seus clientes (empresas dos mais diversos segmentos) nanomateriais que podem ser facilmente incorporados a seus produtos e que trazem benefícios tangíveis para seus consumidores finais.

Atualmente, os “carros-chefe” da Nanox são os aditivos antimicrobianos à base de prata. A empresa desenvolveu uma série de produtos desse tipo dentro de três grandes linhas: os aditivos em solução (líquidos), em forma de pó (sólidos), e já misturados a materiais poliméricos.

Como mostra a razão entre o número de produtos lançados e os anos de existência da empresa (cerca de 30 inovações em 15 anos), na Nanox a palavra inovação faz parte do dia-a-dia. Geralmente, o processo acontece da seguinte forma. Em seus contatos com o mercado, a equipe da Nanox identifica demandas latentes que podem ser supridas mediante a aplicação das tecnologias que a empresa domina. A equipe, então, valida suas ideias de inovação com potenciais clientes e, finalmente, começa a trabalhar no desenvolvimento dos produtos.

Na sua sede de 500 m2, localizada na cidade de São Carlos (SP), a Nanox possui cerca de 150 m2 de laboratórios internos para pesquisa e desenvolvimento e controle de qualidade. São três laboratórios de físico-química, um de engenharia de materiais e um de microbiologia, no qual a equipe realiza os testes de eficiência bactericida e fungicida. A empresa conta com dois pesquisadores (um mestre e um doutor) dedicados às atividades de P&D, mas, dependendo do projeto e da fase de desenvolvimento, a equipe envolvida pode incluir até cinco pessoas. Além disso, a Nanox tem parceria com laboratórios de pesquisa externos para realizar as atividades nas quais não existe expertise interna e para aquelas que necessitam equipamentos muito caros, como a caracterização de materiais por microscopia eletrônica ou raios X.

História e cases

Tudo começou em um centro de pesquisa da UFSCar apoiado pela Fapesp, o Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), hoje Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF). Ali, sob orientação do professor Elson Longo, os amigos André Luiz de Araujo (que trabalhou na empresa até 2011 e permanece até o presente como acionista), Daniel Tamassia Minozzi (atual COO) e Luiz Gustavo Pagotto Simões (atual CEO) faziam suas pesquisas de iniciação científica e mestrado.

Em 2004, frente a uma demanda que a empresa brasileira de eletrodomésticos Multibrás apresentou ao CMDMC, o trio acabou enxergando uma oportunidade de empreendimento no segmento de materiais baseados em nanotecnologia, setor que contava com poucos produtos e pouquíssimas empresas no Brasil naquele momento.

Para viabilizar esse primeiro projeto, que consistia no desenvolvimento de filmes nanoestruturados para proteger superfícies metálicas, a Nanox conseguiu financiamento do programa Pipe da Fapesp, dedicado a apoiar pesquisa para inovação em pequenas empresas do estado de São Paulo. Esse seria o primeiro de sete financiamentos obtidos pela Nanox no programa Pipe para apoiar diversas fases do desenvolvimento de tecnologias e produtos, além de recursos da Finep para inovação (por meio do Programa de Subvenção Econômica) e do CNPq (bolsas RHAE, de pesquisador na empresa).

Em 2005, a Nanox vendia um produto próprio pela primeira vez. Era um filme com nanopartículas de dióxido de titânio aplicado nos filtros de ar de secadores de cabelo usados em salões de beleza, fabricados pela empresa brasileira Taiff. O efeito bactericida e fungicida do nanomaterial garantia mais higiene no salão e saúde para os clientes. O produto rendeu à Nanox um Prêmio Finep de Inovação em 2007, além de bastante divulgação e visibilidade.

Em 2006, ao perceber que havia muito espaço para inovações da Nanox em produtos de plástico, os sócios decidiram começar a desenvolver nanomateriais em forma de aditivos que pudessem ser incorporados a diversos polímeros. Por meio de parcerias com empresas (os clientes da Nanox), essas inovações chegaram até o consumidor final. Um exemplo são os filmes de PVC (aqueles que se usam no ambiente doméstico para embalar frutas cortadas e outros alimentos) com escudo antibacteriano. Em 2014, a empresa brasileira AlpFilm lançou uma linha de filmes com aditivos da Nanox cujo efeito antibacteriano e antifúngico permite conservar por mais tempo os alimentos embalados ao evitar sua degradação. Outro case da Nanox é o da embalagem que dobra a validade do leite fresco graças à ação antibacteriana do aditivo. A primeira garrafa de leite bactericida do mundo começou a ser usada pela agroindústria brasileira Agrindus em 2015, e foi manchete de sites e revistas do segmento de alimentos e embalagens de vários países.

No ano de 2009 houve mais um marco na história da Nanox. Uma apresentação que a empresa preparou para uma equipe da General Electric no Brasil foi parar na filial da empresa no México e gerou tanto interesse que, 15 dias depois, a Nanox estava fazendo sua primeira exportação, a qual consistiu em aditivos para plástico para fabricar caixas de geladeiras no México. A partir desse momento, a Nanox começou a olhar mais para o mercado externo, iniciando uma estratégia que inclui investimentos em feiras internacionais, representantes em diversos países e treinamento da equipe para lidar com questões burocráticas inerentes ao processo de exportação e à introdução dos produtos da Nanox nos diferentes países. Essa caminhada percorrida se reflete hoje em exportações que representam 12% do faturamento da empresa, com vendas recorrentes para Argentina, Chile, Colômbia e México; meio caminho andado para entrar no mercado dos Estados Unidos, e distribuidores em países da América Latina, Europa Oriental e Ásia. Além disso, a Nanox participou neste ano de um programa de aceleração de negócios da Plug and Play Tech Center, plataforma de inovação sediada no Vale do Silício que já recebeu empresas como a Dropbox e PayPal. A Nanox foi uma das 15 selecionadas entre 1.000 empresas do mundo.

Veja a nossa entrevista com Luiz Gustavo Pagotto Simões, mestre (2005) e doutor (2009) em Química pela UNESP, co-fundador e atual CEO da Nanox.

Gustavo Simões e Daniel Minozzi, CEO e COO da Nanox respectivamente, no Plug and Play Tech Center.
Gustavo Simões e Daniel Minozzi, CEO e COO da Nanox respectivamente, no Plug and Play Tech Center.

Boletim da SBPMat: – Quais foram os fatores mais importantes que permitiram que a Nanox se desenvolva nas diversas fases?

Gustavo Simões: – Foi uma soma de fatores. Os recursos financeiros, tanto os públicos quanto os de venture capital – estes últimos a partir de 2006, quando a empresa virou uma S.A. -,  e também o trabalho dos empreendedores e do time para validar os produtos e colocá-los no mercado. Nós sempre usamos os recursos da Fapesp e Finep para diminuir os custos de aquisição de capital para desenvolvimento, principalmente em alguns momentos cruciais da empresa. Por exemplo, em um momento em que a gente tinha uma tecnologia, mas a escala dela era muito pequena, nós conseguimos um PIPE fase 3 que nos permitiu aumentar a escala de produção. O investidor também foi importante, melhorou a estrutura administrativa e comercial da empresa. O mais importante foi validar tudo aquilo que a gente achava que podia ser produto Nanox, e não dá para fazer isso sem dinheiro ou sem gente. Além disso, não podemos deixar de agradecer o professor Elson Longo, que acompanhou a Nanox em todas suas fases como torcedor, conselheiro científico, parceiro, divulgador…

Boletim da SBPMat: – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas até momento pela Nanox?

Gustavo Simões: – Realmente comercializar nanotecnologia no Brasil não é nada fácil. Naquela época, muita gente falou que queria ter nanotecnologia, mas muito poucos apostaram. A gente teve muita sorte de ter alguns parceiros-chave como a Taiff e a IBBL. Essas empresas resolveram, frente a um mercado tão competitivo como o brasileiro, se diferenciar e colocar um produto como o nosso no produto deles. Então, a dificuldade de conseguir clientes sempre foi uma das maiores. E também a de sobreviver nessa loucura que é o Brasil para empreender. As variações na taxa de câmbio, por exemplo, impactam diretamente na empresa, e a gente tem que ir contornando as situações, tem que ter um pouco de jogo de cintura. É difícil planejar e sair aquilo que você planejou.

Boletim da SBPMat: – A Nanox é reconhecida em vários lugares do mundo e exporta seus produtos para diversos países. Conte-nos um pouco sobre a internacionalização da Nanox e como é para esta empresa brasileira concorrer nos mercados externos.

Gustavo Simões: – Os mercados da América Latina são parecidos com o brasileiro. São menos regulados, o que aumenta a possibilidade de concorrência porque sempre pode haver um player local que compita com você. Por outro lado, esses mercados são mais fáceis de acessar do que os mais regulados, como o dos Estados Unidos, onde você precisa de vários registros e licenças das agências reguladoras, que requerem uma série de estudos e testes caros. Nem todo mundo está disposto a fazer tudo isso. Então, a maior regulamentação cria uma barreira de entrada ao mercado que diminui a quantidade de concorrentes. Nós estamos nesse processo de conseguir licenças para poder vender nossos produtos nos Estados Unidos e já conseguimos algumas. Em alguns produtos, nós vamos ter apenas três concorrentes nos Estados Unidos.

Além dessa questão regulatória, outros fatores que dificultam a exportação são os culturais, como a língua. Na América Latina, o Brasil é o único país de língua portuguesa. No Brasil tem também algumas burocracias, as bancárias, por exemplo, que atrapalham as exportações ou, até mesmo, fazem um negócio não valer a pena. Isso tem que mudar.

Então, fazer internacionalização é caro. Tem que participar de feiras no exterior e ter um time treinado na burocracia da exportação e na regulamentação dos mercados que se quer alcançar. Porém, eu acho que, em produtos como os nossos, mais intensivos em tecnologia e menos em mão de obra, o Brasil é bem competitivo. A gente tem até incentivo para exportar; se você exporta, você não paga alguns impostos e o produto fica com preço mais competitivo no exterior. Exportações representam aproximadamente 12% do faturamento da Nanox, mas essa porcentagem deve crescer. Depois da última feira internacional da qual participamos (do segmento de plásticos) recebemos pedidos do Irã, índia, Paquistão…

Boletim da SBPMat: – Qual é, na sua visão, a principal contribuição da Nanox para a sociedade?

Gustavo Simões: – Uma contribuição é a formação de recursos humanos, sempre com uma convivência muito boa aqui dentro. Muita gente passou por aqui já e hoje estão trabalhando super bem em multinacionais. Além disso, acho importante compartilhar por meio de reportagens, palestras etc. a nossa experiência do ponto de vista do empreendedorismo, para mostrar que existe uma forma diferente de trabalhar que não é numa empresa privada ou como professor na universidade. É importante mostrar que existe a possibilidade e que há incentivos e apoios no país, talvez nem tantos quanto a gente gostaria, mas muito mais do que em outros lugares. Além disso, a outra contribuição que a gente deixa são nossos produtos para segurança alimentar e melhor qualidade de vida. Mas, como o próprio Elson [Longo] diz, se eu conseguir deixar uma linha na literatura, já é muita coisa; agora, se eu puder motivar uma pessoa a empreender e tocar um projeto, isso é muito importante.

Boletim da SBPMat: – Qual é sua meta/seu sonho para a Nanox?

Gustavo Simões: – A gente quer consolidar a internacionalização, e queremos nos colocar como um player global. A gente está fazendo um movimento bem forte, apesar de o dólar estar castigando a gente, porque estamos ganhando em reais e gastando em dólares. Nos próximos 5 anos, temos expectativa de ter uma participação maior do mercado internacional nas receitas, tanto que abrimos um escritório nos Estados Unidos e estamos falando com investidores para obter recursos de lá.

Boletim da SBPMat: – Deixe uma mensagem para as pessoas que avaliam a possibilidade de empreender.

Gustavo Simões: – Eu colocaria que empreender vale a pena e é necessário. Eu acho que o conhecimento técnico que a gente obtém em nossos cursos de graduação, por exemplo em Materiais, não deixa a desejar para qualquer outro lugar do mundo. A gente tem que converter o conhecimento em riqueza, e só existe uma forma de fazer isso que é empreender.

Eu acho que essa questão da interação universidade-empresa e spin-offs é o futuro para a gente criar uma economia diferenciada baseada em valor agregado num país onde temos um mercado consumidor enorme. Se a gente conseguir utilizar todos esses recursos financeiros e humanos, essas pessoas extremamente bem formadas, e gerar produtos e serviços para a economia, acho que o futuro é bem promissor.


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