{"id":6680,"date":"2018-04-30T12:28:33","date_gmt":"2018-04-30T15:28:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/?p=6680"},"modified":"2018-05-07T18:38:45","modified_gmt":"2018-05-07T21:38:45","slug":"da-ideia-a-inovacao-uma-invencao-biomimetica-que-virou-metonimia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/da-ideia-a-inovacao-uma-invencao-biomimetica-que-virou-metonimia\/","title":{"rendered":"Da ideia \u00e0 inova\u00e7\u00e3o: Uma inven\u00e7\u00e3o biomim\u00e9tica que virou meton\u00edmia."},"content":{"rendered":"<p><strong>Adivinha.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9, o que \u00e9? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 talvez o mais conhecido dentre os produtos biomim\u00e9ticos (isto \u00e9, produtos desenvolvidos pelo ser humano imitando seres vivos que foram \u201cdesenvolvidos\u201d pela natureza ao longo de muitos milh\u00f5es de anos).<\/p>\n<p>\u00c9 um caso de inven\u00e7\u00e3o que virou inova\u00e7\u00e3o (entrou no mercado) e, depois de algum tempo, teve enorme aceita\u00e7\u00e3o entre os consumidores. Seu uso se espalhou pelo planeta Terra (em terra firme, \u00e1gua e ar) e chegou at\u00e9 a Lua.<\/p>\n<p>\u00c9 uma inven\u00e7\u00e3o que foi a semente de uma companhia multinacional que hoje comercializa milhares de produtos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea n\u00e3o adivinhou? Vai mais uma pista.<\/strong><\/p>\n<p>A palavra popularmente usada para designar este produto corresponde, na verdade, a uma marca registrada, e n\u00e3o ao objeto em si. \u00c9 um caso de meton\u00edmia, parecido ao dos \u201ccotonetes \u00ae\u201d (o nome correto neste caso seria \u201chastes flex\u00edveis com pontas de algod\u00e3o\u201d).<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 sabe de qual inven\u00e7\u00e3o estamos falando? Ainda n\u00e3o? Ent\u00e3o, leia atentamente a hist\u00f3ria desta inven\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_6682\" aria-describedby=\"caption-attachment-6682\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/da-ideia-a-inovacao-uma-invencao-biomimetica-que-virou-metonimia\/640px-burdock_hooks\/\" rel=\"attachment wp-att-6682\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6682\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/640px-Burdock_Hooks-e1525101545169.jpg\" alt=\"Frutos de uma planta do g\u00eanero Arctium, similares \u00e0queles que inspiraram a inven\u00e7\u00e3o. Cr\u00e9ditos: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bur#\/media\/File:Burdock_Hooks.jpg\" width=\"400\" height=\"258\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6682\" class=\"wp-caption-text\">Frutos de uma planta do g\u00eanero Arctium, similares \u00e0queles que inspiraram a inven\u00e7\u00e3o. Cr\u00e9ditos: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bur#\/media\/File:Burdock_Hooks.jpg<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tudo come\u00e7ou em 1941, nos Alpes su\u00ed\u00e7os. George de Mestral, um engenheiro eletr\u00f4nico su\u00ed\u00e7o de trinta e poucos anos, estava de volta de um passeio pela montanha com seu cachorro, retirando os carrapichos que tinham grudado no pelo do c\u00e3o e na roupa dele durante a caminhada. Essas bolinhas revestidas de espinhos s\u00e3o os frutos de algumas fam\u00edlias de plantas, e sua capacidade de aderirem ao pelo de animais \u00e9 uma vantagem dessas esp\u00e9cies, pois ajuda a dispersar as sementes que est\u00e3o dentro do fruto.<\/p>\n<p>Conta a hist\u00f3ria que, nesse momento, Mestral se perguntou por que os carrapichos grudavam e decidiu observ\u00e1-los com um microsc\u00f3pio que havia na casa dele. O engenheiro percebeu ent\u00e3o que a fixa\u00e7\u00e3o ocorria entre dois elementos: por um lado, min\u00fasculos la\u00e7os formados na pelagem emaranhada do cachorro ou na superf\u00edcie dos tecidos; por outro, as pontas dos pequenos espinhos dos carrapichos, as quais tinham forma de gancho. Esses \u201cganchinhos\u201d flex\u00edveis enredavam-se nos lacinhos e s\u00f3 se desprendiam ao afastar com certa for\u00e7a ambos os elementos (ganchos e la\u00e7os). Com olhar biomim\u00e9tico e esp\u00edrito inventor (Mestral apresentou sua primeira patente aos 12 anos), ele enxergou nesse sistema natural de fixa\u00e7\u00e3o revers\u00edvel, um modelo para desenvolver artificialmente um produto muito \u00fatil.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 adivinhou qual \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o? Se sim ou se n\u00e3o, veja como continua a hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_6683\" aria-describedby=\"caption-attachment-6683\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/da-ideia-a-inovacao-uma-invencao-biomimetica-que-virou-metonimia\/patente-us2717437-0\/\" rel=\"attachment wp-att-6683\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6683\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/patente-US2717437-0.jpg\" alt=\"Figura contida na patente US2717437A, representando o m\u00e9todo para produzir o tecido com ganchos nas pontas dos fios. \" width=\"400\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/patente-US2717437-0.jpg 400w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/patente-US2717437-0-300x266.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6683\" class=\"wp-caption-text\">Figura contida na patente US2717437A, representando o m\u00e9todo para produzir o tecido com ganchos nas pontas dos fios.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante alguns anos, George de Mestral enfrentou o desafio de criar um prot\u00f3tipo desse sistema de min\u00fasculos ganchos e la\u00e7os. O problema principal era desenvolver um m\u00e9todo que permitisse fabricar de modo simples uma faixa de tecido na qual se erguesse, perpendicularmente, uma boa concentra\u00e7\u00e3o de ganchinhos flex\u00edveis.<\/p>\n<p>Parece que o processo n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, e que Mestral sofreu para encontrar gente que o ajudasse a produzir tal tecido. Contudo, em 1952, ele depositou um pedido de patente no escrit\u00f3rio de patentes dos Estados Unidos sobre um tecido desse tipo e a forma de fabric\u00e1-lo. No documento, Mestral apresentou um \u201ctecido tipo veludo\u201d, pois era coberto, assim como o veludo, de um denso \u201cbosque\u201d de fios empinados. Entretanto, diferentemente do veludo, no novo tecido os fios eram de nylon (material que tinha sido recentemente criado), e uma boa parte dos fios tinha pontas em forma de gancho. O processo de fabrica\u00e7\u00e3o proposto na patente era similar <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7RRM8TONMIQ\">ao do veludo tradicional<\/a>, usando um tear, s\u00f3 que com alguns truques adicionais para formatar os ganchos nas pontas dos fios de nylon.<\/p>\n<p>Concedida em 1955, essa parece ser a primeira de <a href=\"https:\/\/patents.google.com\/?inventor=%22Mestral+George+De%22&amp;oq=ininventor:%22Mestral+George+De%22\">uma s\u00e9rie de patentes<\/a> do engenheiro su\u00ed\u00e7o em torno da inven\u00e7\u00e3o que \u00e9 a resposta da nossa adivinha.<\/p>\n<p>Em seguida, Mestral fundou uma empresa para fabricar e comercializar o produto. Contudo, o sistema de fabrica\u00e7\u00e3o que tinha proposto na patente n\u00e3o era completamente mecanizado e n\u00e3o lhe permitia uma produ\u00e7\u00e3o em escala industrial. O acabamento para gerar os ganchos era manual&#8230; e\u00a0 muito trabalhoso. O engenheiro teve que esperar cerca de 20 anos desde seu \u201cheureca!\u201d para obter um tear capaz de produzir em massa o tecido com os ganchinhos.<\/p>\n<p>Ao acasalar o tecido com os ganchinhos com outro tecido coberto por um emaranhado de lacinhos, Mestral obteve um produto para fixa\u00e7\u00e3o revers\u00edvel, com mil e uma utilidades, e com potencial para revolucionar o mercado dos z\u00edperes e bot\u00f5es.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, o sistema inventado por Mestral n\u00e3o tinha uma apar\u00eancia muito atraente. Por\u00e9m, aos pouquinhos, ele foi ganhando visibilidade (de colunas em jornais at\u00e9 filmes futuristas) e sendo adotado por diversos segmentos. No final da d\u00e9cada de 1960, por exemplo, a inven\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser utilizada por fabricantes de cal\u00e7ado esportivo, substituindo os cadar\u00e7os, e se destacou no programa espacial da NASA \u201cApollo\u201d como sistema para fixar pequenos objetos \u00e0s paredes das naves espaciais, impedindo que ficassem flutuando.<\/p>\n<p>Atualmente, o produto est\u00e1 super disseminado. Ele ajuda a resolver pequenos problemas do dia-a-dia em escrit\u00f3rios, lojas, resid\u00eancias, hospitais, laborat\u00f3rios, passarelas, escolas&#8230;<\/p>\n<p><strong>Precisa de mais uma pista para adivinhar qual \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o? Aqui vai. \u00c9 a \u00faltima:<\/strong><\/p>\n<p>Em 1956, George de Mestral obteve o registro de marca para sua empresa. O nome inventado pelo su\u00ed\u00e7o \u00e9 a uni\u00e3o de duas palavras em franc\u00eas (idioma predominante na regi\u00e3o da Su\u00ed\u00e7a onde ele nasceu e morreu): \u201cvelours\u201d (veludo) e \u201ccrochet\u201d (gancho).<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos dizer o nome desta inven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo? At\u00e9 porque <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=129&amp;v=rRi8LptvFZY\">\u00e9 proibido<\/a>. \u201cVelcro\u201d designa hoje a empresa multinacional que comercializa esse e outros produtos similares, e \u00e9 tamb\u00e9m a marca registrada usada para todos os produtos da empresa, e n\u00e3o apenas para o \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Hook_and_loop_fastener\">fixador de gancho e la\u00e7o<\/a>\u201d. V\u00e1 explicar isso para as crian\u00e7as, que gostam tanto do V________, principalmente nos t\u00eanis&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_6685\" aria-describedby=\"caption-attachment-6685\" style=\"width: 384px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/da-ideia-a-inovacao-uma-invencao-biomimetica-que-virou-metonimia\/micrograph_of_hook_and_loop_fastenervelcro_like\/\" rel=\"attachment wp-att-6685\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6685\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Micrograph_of_hook_and_loop_fastenerVelcro_like.jpg\" alt=\"Imagem de microsc\u00f3pio mostrando como os ganchos se enredam nos la\u00e7os nesta inven\u00e7\u00e3o. Cr\u00e9ditos: https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Micrograph_of_hook_and_loop_fastener,(Velcro_like).jpg\" width=\"384\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Micrograph_of_hook_and_loop_fastenerVelcro_like.jpg 384w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Micrograph_of_hook_and_loop_fastenerVelcro_like-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6685\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de microsc\u00f3pio mostrando como os ganchos se enredam nos la\u00e7os nesta inven\u00e7\u00e3o. Cr\u00e9ditos: https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Micrograph_of_hook_and_loop_fastener,(Velcro_like).jpg<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adivinha. 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