{"id":5070,"date":"2016-11-30T15:08:21","date_gmt":"2016-11-30T18:08:21","guid":{"rendered":"http:\/\/sbpmat.org.br\/?p=5070"},"modified":"2016-12-05T16:26:31","modified_gmt":"2016-12-05T19:26:31","slug":"gente-da-comunidade-entrevista-com-o-cientista-argentino-galo-soler-illia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/gente-da-comunidade-entrevista-com-o-cientista-argentino-galo-soler-illia\/","title":{"rendered":"Gente da comunidade: entrevista com o cientista argentino Galo Soler Illia."},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_5072\" aria-describedby=\"caption-attachment-5072\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Galo-guardapolvo-ext-2016.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5072\" src=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Galo-guardapolvo-ext-2016.jpg\" alt=\"Galo Soler Illia.\" width=\"600\" height=\"485\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Galo-guardapolvo-ext-2016.jpg 816w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Galo-guardapolvo-ext-2016-300x243.jpg 300w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Galo-guardapolvo-ext-2016-768x621.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-5072\" class=\"wp-caption-text\">Galo Soler Illia.<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p>Quantas voca\u00e7\u00f5es cient\u00edficas despertaram, e quantos acidentes dom\u00e9sticos provocaram, os jogos infantis de qu\u00edmica experimental, que, at\u00e9 um tempo atr\u00e1s, n\u00e3o seguiam todas as normas de seguran\u00e7a para brinquedos, hoje obrigat\u00f3rias? O cientista argentino Galo Juan de \u00c1vila Arturo Soler Illia pertence a esse grupo. Ele conta que seu interesse pela ci\u00eancia se acendeu (literalmente) com um pequeno inc\u00eandio provocado por um jogo de laborat\u00f3rio de Qu\u00edmica na casa de seus pais &#8211; \u00a0dois advogados, militantes da <em>Uni\u00f3n C\u00edvica Radical<\/em>. Esse era o partido, ali\u00e1s, do av\u00f4 de Galo Soler Illia, o Presidente Arturo Umberto Illia, que governou a Argentina de 1963 a 1966, at\u00e9 sofrer um golpe de Estado.<\/p>\n<p>Hoje, Galo Soler Illia pode ser considerado um dos pesquisadores mais conhecidos do pa\u00eds vizinho, tanto na comunidade cient\u00edfica (consta entre os 30 cientistas argentinos melhor posicionados no Google Scholar pelas cita\u00e7\u00f5es a trabalhos de sua autoria, e j\u00e1 recebeu os principais pr\u00eamios nacionais de ci\u00eancia) quanto entre o p\u00fablico leigo (no campo da Nanotecnologia, ele \u00e9 um divulgador muito ativo e did\u00e1tico presente em todas as m\u00eddias, e costuma ser fonte de informa\u00e7\u00f5es para os jornalistas argentinos).<\/p>\n<p>Galo Soler Illia nasceu em Buenos Aires em 31 de maio de 1970. Fez seus estudos prim\u00e1rios numa escola particular construtivista, o <em>Colegio Bayard<\/em>. Para cursar os estudos secund\u00e1rios ingressou, em 1983, ao <em>Colegio Nacional de Buenos Aires<\/em>, institui\u00e7\u00e3o\u00a0p\u00fablica dependente da <em>Universidad de Buenos Aires<\/em> (UBA), caracterizada, entre outras coisas, pela alta exig\u00eancia nos estudos, a riqueza das atividades extracurriculares e uma infraestrutura superior \u00e0 das outras escolas p\u00fablicas. Em 1988, formou-se pelo col\u00e9gio com uma especializa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias. Tanto no ensino prim\u00e1rio quanto no secund\u00e1rio teve oportunidade de fazer atividades em laborat\u00f3rios de ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Entre 1989, Soler Illia come\u00e7ou a cursar a gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Qu\u00edmicas na UBA. Durante a gradua\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a lecionar no <em>Departamento de Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica, Anal\u00edtica e Qu\u00edmica F\u00edsica<\/em> da UBA e a fazer pesquisa em um grupo de Qu\u00edmica de Materiais e tamb\u00e9m em um laborat\u00f3rio montado na casa de um amigo. Em 1993, ele obteve o diploma de licenciado em Qu\u00edmica, tendo uma m\u00e9dia nas avalia\u00e7\u00f5es das disciplinas de 9,13\/ 10. Na Argentina, a licenciatura habilita o diplomado a realizar todo tipo de atividade profissional na \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o, inclusive doc\u00eancia e atividades de pesquisa, e o prepara para um ingresso a um curso de doutorado sem passar pelo mestrado.<\/p>\n<p>De 1994 a 1998, Soler Illia realizou o doutorado em Qu\u00edmica, tamb\u00e9m na UBA, sob orienta\u00e7\u00e3o do doutor em Qu\u00edmica Miguel Angel Blesa. Atrav\u00e9s da pesquisa sobre nanopart\u00edculas de hidr\u00f3xidos met\u00e1licos mistos, ele gerou conhecimento sobre o complexo mecanismo de forma\u00e7\u00e3o de part\u00edculas, o qual lhe seria muito \u00fatil nas pesquisas que realizou como p\u00f3s-doc e como pesquisador profissional, voltadas \u00e0 s\u00edntese de materiais com alto controle de suas caracter\u00edsticas. Concomitantemente ao doutorado, continuou lecionando, como assistente, na UBA.<\/p>\n<p>Em 1999, foi morar na Fran\u00e7a, junto a sua esposa, a tamb\u00e9m qu\u00edmica Astrid Grotewold, e permaneceram no pa\u00eds galo at\u00e9 o ano de 2002. Soler Illia fez um p\u00f3s-doutorado na <em>Universit\u00e9 Pierre et Marie Curie<\/em> (Paris), com supervis\u00e3o do doutor Cl\u00e9ment Sanchez, contando com uma bolsa com dura\u00e7\u00e3o de 2 anos do CONICET, principal entidade argentina de apoio \u00e0 ci\u00eancia e tecnologia. No p\u00f3s-doc, o argentino desenvolveu m\u00e9todos para produzir materiais com porosidade altamente controlada. Desse per\u00edodo, resultaram os artigos de Soler Illia mais citados at\u00e9 o momento, com mais de 1.800 cita\u00e7\u00f5es em um dos papers, segundo o Google Scholar. No final do per\u00edodo franc\u00eas, Soler Illia tamb\u00e9m trabalhou em aplica\u00e7\u00f5es de filmes finos mesoporosos para o centro de pesquisa e desenvolvimento da empresa Saint Gobain.<\/p>\n<p>Galo Soler Illia voltou \u00e0 Argentina no in\u00edcio de 2003, num per\u00edodo em que o pa\u00eds sa\u00eda de uma enorme instabilidade pol\u00edtica que provocou a passagem de 5 pessoas diferentes pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em apenas 11 dias. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds ainda estava sob os efeitos da grave crise econ\u00f4mica que tivera seu \u00e1pice em 2001. Entretanto, rapidamente, Soler Illia conseguiu ingressar \u00e0 carreira de pesquisador do CONICET trabalhando na <em>Comisi\u00f3n Nacional de Energia At\u00f3mica<\/em> (CNEA) e, sem perder tempo, fundou o <a href=\"http:\/\/www.qnano.com.ar\/index.html\"><em>Grupo Qu\u00edmica de Nanomateriales<\/em><\/a>, que, at\u00e9 hoje, atua no projeto e obten\u00e7\u00e3o de materiais nanoestruturados. Em 2004, o cientista se tornou, por concurso, professor da UBA, do departamento em que fizera seus estudos de grado e doutorado.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2015, Soler Illia se tornou diretor do <a href=\"http:\/\/www.unsam.edu.ar\/ins\"><em>Instituto de Nanosistemas<\/em><\/a> (INS) da <em>Universidad Nacional de San Mart\u00edn<\/em>, localizada na \u00e1rea metropolitana de Buenos Aires. O INS se define como um espa\u00e7o de pesquisa, desenvolvimento e cria\u00e7\u00e3o interdisciplinar em nanoci\u00eancia e nanotecnologia, cujo objetivo final \u00e9 resolver problemas priorit\u00e1rios da ind\u00fastria e da sociedade em geral. No instituto, Soler Illia conta com uma equipe cient\u00edfica multidisciplinar de 4 pesquisadores (mais 4 em 2017), 6 estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-docs e 1 t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio, al\u00e9m de uma equipe de gest\u00e3o formada por 6 profissionais.<\/p>\n<p>Atualmente, al\u00e9m de diretor do INS, Galo Soler Illia \u00e9 pesquisador principal do CONICET e professor associado da UBA. \u00c9 membro de conselhos assessores na <a href=\"http:\/\/www.fan.org.ar\/\"><em>Fundaci\u00f3n Argentina de Nanotecnolog\u00eda<\/em><\/a> (FAN) e no Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (Brasil), e membro do conselho editorial do <em>Journal of Sol-Gel Science and Technology<\/em> (Springer). Al\u00e9m disso, o cientista tem uma coluna de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sobre Nanotecnologia no programa televisivo \u201c<em>Cient\u00edficos Industria Argentina<\/em>\u201d, que vai ao ar uma vez por semana no canal p\u00fablico argentino. Finalmente, Soler Illia acaba de ser nomeado, neste m\u00eas de novembro, membro do Conselho Presidencial Argentina 2030, integrado por intelectuais de diversos campos para assessorar o presidente da Argentina, Mauricio Macri.<\/p>\n<p>Soler Illia, cujo \u00edndice h \u00e9 de 44, possui uma produ\u00e7\u00e3o de mais de 120 artigos publicados em peri\u00f3dicos cient\u00edficos internacionais, com cerca de 11 mil cita\u00e7\u00f5es, segundo o Google Scholar. J\u00e1 orientou 7 teses de doutorado conclu\u00eddas e \u00e9 autor de 2 livros de divulga\u00e7\u00e3o sobre nanotecnologia. Tamb\u00e9m \u00e9 autor de 4 pedidos de patentes.<\/p>\n<p>Seu trabalho foi reconhecido com uma s\u00e9rie de pr\u00eamios \u00e0 ci\u00eancia, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, entre eles os principais da Argentina, como o Pr\u00eamio Houssay 2006 e 2009, da secretaria e depois minist\u00e9rio de ci\u00eancia e tecnologia argentino; o Pr\u00eamio KONEX 2013, da funda\u00e7\u00e3o hom\u00f4nima, e o Premio Innovar 2011 e 2016, do <em>Ministerio de Ciencia, Tecnolog\u00eda e Innova\u00e7\u00e3o Productiva<\/em>. Tamb\u00e9m recebeu distin\u00e7\u00f5es da <em>Academia Nacional de Ciencias Exactas<\/em>, da FAN, da <em>Asociaci\u00f3n Argentina de Investigac\u00e3o Fisicoqu\u00edmica<\/em>, do CONICET, das empresa BGH e Dupont, entre outras entidades. Em maio deste ano, Galo Soler Illia foi designado acad\u00eamico titular da <em>Academia Nacional de Ciencias Exactas, F\u00edsicas y Naturales<\/em>, passando a compor um seleto grupo de apenas 36 cientistas.<\/p>\n<p>Segue uma entrevista com o cientista argentino.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Conte-nos o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar no campo dos materiais.<\/strong><\/p>\n<p>Galo Soler Illia: &#8211; Sempre gostei de Qu\u00edmica. Comecei com 5 anos, quando ganhei um jogo de Qu\u00edmica e, fazendo um experimento, queimei a mesa de jantar da casa dos meus pa\u00eds. Depois, em meus estudos de n\u00edvel secund\u00e1rio fui um pouco \u201cnerd\u201d, dedicando-me a escrever software para as aulas de F\u00edsica do meu col\u00e9gio. Escrever c\u00f3digo despertou em mim uma curiosidade por saber como funcionavam as coisas e como os problemas podiam ser resolvidos. Aprendi muit\u00edssimo. Perto do final do ensino secund\u00e1rio, decidi estudar Qu\u00edmica, pois achei que era um curso muito vers\u00e1til e maravilhoso que tinha grandes possibilidades em muitos campos. Nessa \u00e9poca, eu estava muito interessado na Biotecnologia, que era uma \u00e1rea nova. Mas na \u00e9poca em que comecei meus estudos de gradua\u00e7\u00e3o na Universidade de Buenos Aires (UBA), a \u00e1rea de Qu\u00edmica de Materiais come\u00e7ava a surgir. Ainda aluno, comecei a lecionar como ajudante no Departamento de Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica, Anal\u00edtica e Qu\u00edmica F\u00edsica da Faculdade de Ci\u00eancias Exatas e Naturais, inspirado pelo exemplo de professores jovens e entusiastas que estavam voltando do exterior e geravam uma atmosfera de trabalho e exig\u00eancia. Junto a meus melhores amigos, instalamos um laborat\u00f3rio em um quarto no terra\u00e7o da casa de um deles. Ali cresc\u00edamos cristais e planej\u00e1vamos s\u00edntese de mol\u00e9culas. Como pass\u00e1vamos o dia todo na universidade e t\u00ednhamos algum tempo libre, eu achei um lugar para trabalhar, sem receber bolsa nem sal\u00e1rio, em um grupo de Qu\u00edmica de Materiais que acabava de come\u00e7ar. Tudo foi muito r\u00e1pido e, quase sem perceber, finalizei meus estudos de gradua\u00e7\u00e3o e iniciei o doutorado, fabricando micropart\u00edculas para catalizadores. Foi uma \u00e9poca muito linda da minha vida, da qual conservo minha curiosidade inata, minha vontade de explorar e construir mat\u00e9ria e um maravilhoso grupo de amigos, que se tornaram destacados colegas disseminados pelo mundo todo.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Quais s\u00e3o, na sua pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o, as suas principais contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e1rea de Materiais, considerando todos os aspectos da atividade cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p>Galo Soler Illia: &#8211; Sempre me interessou construir materiais, o trabalho do qu\u00edmico de unir \u00e1tomo com \u00e1tomo, de fabricar novas arquiteturas. Centrei-me em compreender os fen\u00f4menos fisicoqu\u00edmicos que ocorrem na produ\u00e7\u00e3o de um material. Quando a gente conhece e compreende esses processos, passa de simplesmente \u201cpreparar\u201d um material a poder projet\u00e1-lo e sintetiz\u00e1-lo, por mais complexo que seja. E a gente pode aproveitar as propriedades dos elementos qu\u00edmicos a seu favor para obter as propriedades que a gente deseja. Vou dar tr\u00eas exemplos. Na minha tese, estudei a precipita\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de nanopart\u00edculas de hidr\u00f3xidos met\u00e1licos mistos, precursores de catalisadores. Descobrimos um mundo muito interessante e pudemos contribuir na compreens\u00e3o da complexidade por tr\u00e1s de um mecanismo din\u00e2mico de forma\u00e7\u00e3o de part\u00edculas: a influ\u00eancia dos efeitos estruturais no formato das part\u00edculas, a import\u00e2ncia da coordena\u00e7\u00e3o dos metais na forma\u00e7\u00e3o de uma fase mista, a evolu\u00e7\u00e3o da carga superficial e seu efeito na estabilidade de um coloide e muito mais, que me serviu futuramente como base s\u00f3lida para minha pesquisa. Tive a sorte de poder trabalhar com Miguel Blesa, Alberto Regazzoni y Roberto Candal, tr\u00eas excelentes Mestres que me guiaram, estimularam e corrigiram.<\/p>\n<p>Na minha segunda etapa, trabalhei em Paris, no laborat\u00f3rio de Cl\u00e9ment Sanchez, e, usando o que tinha aprendido, pude desenvolver m\u00e9todos para produzir materiais com porosidade altamente controlada, conhecidos como materiais mesoporosos organizados. Novamente, interessei-me pelos mecanismos de forma\u00e7\u00e3o do material, que s\u00e3o complexos, pois demandam o controle do crescimento de pequenas esp\u00e9cies inorg\u00e2nicas e sua automontagem com micelas. \u00c9 uma pequena sinfonia f\u00edsico-qu\u00edmica, que \u00e9 necess\u00e1rio aprender a tocar. Tivemos que usar, desenvolver e combinar t\u00e9cnicas de caracteriza\u00e7\u00e3o muito variadas para poder compreender quais fen\u00f4menos estavam ocorrendo e como eles controlavam a forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de poros, a estabilidade e cristalinidade dos materiais, que s\u00e3o, entre outras, as vari\u00e1veis importantes no desempenho final desses s\u00f3lidos.<\/p>\n<p>Na minha terceira etapa, de volta \u00e0 Argentina, estabeleci um grupo de pesquisa na <em>Comisi\u00f3n Nacional de Energ\u00eda At\u00f3mica<\/em>, em Buenos Aires, e me dediquei a construir arquiteturas mais complexas, baseadas em tudo que tinha aprendido. Minhas melhores contribui\u00e7\u00f5es nesse sentido se referem ao uso das for\u00e7as e intera\u00e7\u00f5es na nanoescala para fabricar nanocomp\u00f3sitos muito variados com propriedades \u00f3pticas e catal\u00edticas projetadas e surpreendentes. Tudo isso demandou a cria\u00e7\u00e3o de novos laborat\u00f3rios, a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos e a transfer\u00eancia de ci\u00eancia b\u00e1sica a tecnologias. Particularmente, nos \u00faltimos anos temos trabalhado com empresas e aspiramos a gerar nanotecnologia na Argentina, estendendo os conhecimentos do nosso laborat\u00f3rio \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Conte-nos um pouquinho sobre sua intera\u00e7\u00e3o com o Brasil. Voc\u00ea vem frequentemente ao pa\u00eds para colabora\u00e7\u00f5es, eventos, uso de labs, semin\u00e1rios? Tem trabalhos realizados com grupos do Brasil ou em laborat\u00f3rios brasileiros? <\/strong><\/p>\n<p>Galo Soler Illia: &#8211; Retornei \u00e0 Argentina em 2003 e, imediatamente, tive como referencia o que estava se gestando no Brasil. Desde aquela \u00e9poca, comecei a desenvolver projetos no Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS), que \u00e9 um farol para todos aqueles que trabalhamos em Materiais na Am\u00e9rica Latina. A intera\u00e7\u00e3o com o pessoal do s\u00edncrotron foi muito importante para podermos caracterizar nossos materiais, e \u00e9 impressionante ver como as instala\u00e7\u00f5es t\u00eam melhorado nestes anos. Faz poucos meses, tive a oportunidade de conhecer o pr\u00e9dio do Sirius, que \u00e9 simplesmente impressionante, e ser\u00e1 refer\u00eancia mundial. Tamb\u00e9m tive a oportunidade de conhecer diversas universidades proferindo cursos e colaborando na forma\u00e7\u00e3o de graduandos e estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, geramos a Escola de S\u00edntese de Materiais, que fazemos em Buenos Aires, e que ter\u00e1 sua oitava edi\u00e7\u00e3o em 2017. Essa escola foi idealizada para gerar uma comunidade de cientistas latino-americanos com compet\u00eancias na s\u00edntese racional de materiais. Come\u00e7amos com muitos estudantes brasileiros, gra\u00e7as ao apoio da Sociedade Argentino-Brasileira de Nanotecnologia, que depois, infelizmente, parou de funcionar. \u00c9 muito belo ver como os estudantes de ambos os pa\u00edses trabalham juntos nos laborat\u00f3rios e discutem e apresentam seus trabalhos em \u201cportunhol\u201d. A partir dessa escola, e com ajuda de v\u00e1rios colegas, est\u00e3o surgindo redes de colabora\u00e7\u00e3o que, sem d\u00favida, v\u00e3o nos proporcionar a base tecnol\u00f3gica para fazermos empreendimentos conjuntos de maior porte. Viajo v\u00e1rias vezes por ano ao Brasil e sempre admiro a for\u00e7a do pa\u00eds para impulsionar o desenvolvimento tecnol\u00f3gico local. Espero que, passados estes momentos de dificuldades, possamos continuar crescendo em conjunto.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Sempre convidamos os entrevistados desta se\u00e7\u00e3o do boletim a deixarem uma mensagem para os leitores que est\u00e3o iniciando suas carreiras cient\u00edficas. O que voc\u00ea diria a esses cientistas juniores?<\/strong><\/p>\n<p>Galo Soler Illia: &#8211; Olhando para atr\u00e1s, posso fazer tr\u00eas recomenda\u00e7\u00f5es aos jovens cientistas. Uma \u00e9 que nunca percam sua imagina\u00e7\u00e3o e sua capacidade de se fazerem perguntas; a segunda \u00e9 que trabalhem duro para encontrar as respostas, e a terceira \u00e9 que aproveitem as surpresas. \u00c0s vezes, a gente est\u00e1 treinado para desenvolver um caminho e uma estrat\u00e9gia e a gente foca no rigor de demonstrar e formalizar o que a gente encontra. Por\u00e9m, \u00e9 essencial saber que esse caminho que a gente tra\u00e7a \u00e9 cheio de cantinhos interessantes, e que, \u00e0s vezes, um aspecto que n\u00e3o lev\u00e1vamos em considera\u00e7\u00e3o nos abre um panorama novo e inexplorado. Dizia Newton que a gente, enquanto cient\u00edfico, \u00e9 \u00e0s vezes como uma crian\u00e7a que na praia acha uma concha mais bonita do que outras e \u00e9 feliz, mas, perante a gente, estende-se o enorme oceano da verdade. Meu conselho \u00e9: busquemos incessantemente nossas conchas, curtamos com elas e aproximemo-nos da compreens\u00e3o das maravilhas do nosso universo. E tenhamos sempre em conta que desenvolver ci\u00eancia em nosso continente \u00e9 um belo desafio que vai agregar riqueza a nossos pa\u00edses e bem-estar a nossos irm\u00e3os.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quantas voca\u00e7\u00f5es cient\u00edficas despertaram, e quantos acidentes dom\u00e9sticos provocaram, os jogos infantis de qu\u00edmica experimental, que, at\u00e9 um tempo atr\u00e1s, n\u00e3o seguiam todas as normas de seguran\u00e7a para brinquedos, hoje obrigat\u00f3rias? O cientista argentino Galo Juan de \u00c1vila Arturo Soler Illia pertence a esse grupo. 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