{"id":3393,"date":"2015-05-08T13:31:01","date_gmt":"2015-05-08T16:31:01","guid":{"rendered":"http:\/\/sbpmat.org.br\/?p=3393"},"modified":"2016-11-17T22:56:11","modified_gmt":"2016-11-18T01:56:11","slug":"gente-da-nossa-comunidade-entrevista-com-o-pesquisador-fernando-galembeck","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/gente-da-nossa-comunidade-entrevista-com-o-pesquisador-fernando-galembeck\/","title":{"rendered":"Gente da nossa comunidade: entrevista com o pesquisador Fernando Galembeck."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/fernando-galembeck.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3394\" title=\"fernando galembeck\" src=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/fernando-galembeck.jpg\" alt=\"\" width=\"342\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/fernando-galembeck.jpg 704w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/fernando-galembeck-211x300.jpg 211w\" sizes=\"(max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><\/a>Em <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1043780332502091\">Fernando Galembeck<\/a>, professor colaborador na Unicamp e diretor do <a href=\"http:\/\/lnnano.cnpem.br\/\">Laborat\u00f3rio Nacional de Nanotecnologia<\/a> (LNNano) de 2011 a 2015, o interesse por pesquisa come\u00e7ou a se manifestar na adolesc\u00eancia, quando, trabalhando no laborat\u00f3rio farmac\u00eautico do pai, percebeu a import\u00e2ncia econ\u00f4mica que os novos produtos, resultantes de esfor\u00e7os de pesquisa cient\u00edfica, tinham na empresa. Hoje com 72 anos, Fernando Galembeck, olhando para sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria cient\u00edfica, pode contar v\u00e1rias hist\u00f3rias nas quais o conhecimento gerado por ele junto a seus colaboradores, al\u00e9m de ser comunicado por meio de artigos cient\u00edficos, teses e livros, plasmou-se em patentes licenciadas e produtos criados ou aprimorados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Galembeck gradou-se em Qu\u00edmica em 1964 pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Ap\u00f3s a gradua\u00e7\u00e3o, permaneceu na USP trabalhando como professor (1965-1980) e, simultaneamente, fazendo o doutorado em Qu\u00edmica (1965-1970) com um trabalho de pesquisa sobre dissocia\u00e7\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o metal-metal. Depois do doutorado, realizou est\u00e1gios de p\u00f3s-doutorado nos Estados Unidos, nas universidades do Colorado na cidade de Denver (1972-3) e da Calif\u00f3rnia na cidade de Davis (1974), trabalhando na \u00e1rea de F\u00edsico-Qu\u00edmica de sistemas biol\u00f3gicos. Em 1976, de volta \u00e0 USP, teve a oportunidade de criar um laborat\u00f3rio de coloides e superf\u00edcies no Instituto de Qu\u00edmica. A partir desse momento, Galembeck foi se envolvendo cada vez mais com o desenvolvimento de novos materiais, especialmente os polim\u00e9ricos, e seus processos de fabrica\u00e7\u00e3o. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em 1980, ingressou como docente na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde se tornou professor titular em 1988, cargo no qual permaneceu at\u00e9 sua aposentadoria em 2011. Na UNICAMP ocupou cargos de gest\u00e3o, notadamente o de vice-reitor da universidade, al\u00e9m de diretor do Instituto de Qu\u00edmica e coordenador do seu programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Em julho de 2011 assumiu a dire\u00e7\u00e3o do rec\u00e9m-criado LNNano, no Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ao longo de sua carreira, exerceu fun\u00e7\u00f5es dirigentes na Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCT), Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica (SBQ), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia e Sociedade Brasileira de Microscopia e Microan\u00e1lise (SBMM), entre outras entidades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Bolsista de produtividade de n\u00edvel 1A no CNPq, Galembeck \u00e9 autor de cerca de 250 artigos cient\u00edficos publicados em peri\u00f3dicos internacionais com revis\u00e3o por pares, os quais contam com mais de 2.300 cita\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de 29 patentes depositadas e mais de 20 livros e cap\u00edtulos de livros. Orientou quase 80 trabalhos de mestrado e doutorado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Recebeu numerosos pr\u00eamios e distin\u00e7\u00f5es, entre eles o Pr\u00eamio An\u00edsio Teixeira, da CAPES, em 2011; o Telesio-Galilei Gold Metal 2011, da Telesio-Galilei Academy of Science (TGAS); o Pr\u00eamio Almirante \u00c1lvaro Alberto de Ci\u00eancia e Tecnologia 2006, do CNPq e Funda\u00e7\u00e3o Conrado Wessel; o Trof\u00e9u Jos\u00e9 Pel\u00facio Ferreira, da Finep, em 2006; a Gr\u00e3-Cruz da Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico, em 2000, e a Comenda Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico, em 1995, ambos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Tamb\u00e9m recebeu uma s\u00e9rie de reconhecimentos de empresas e associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e empresariais, como a CPFL, Petrobr\u00e1s, Union Carbide do Brasil, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Fabricantes de Tintas, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria Qu\u00edmica, Sindicato da Ind\u00fastria de Produtos Qu\u00edmicos para fins Industriais do Estado do Rio de Janeiro, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pol\u00edmeros, Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica (que criou o Pr\u00eamio Fernando Galembeck de Inova\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica), Sindicato dos Engenheiros no Estado de S\u00e3o Paulo e da\u00a0<em>Electrostatic Society of America<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Segue uma entrevista com o cientista.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Boletim da SBPMat: &#8211; Conte-nos o que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar em temas da \u00e1rea de Materiais.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Fernando Galembeck: &#8211; Meu interesse por atividade de pesquisa come\u00e7ou na minha adolesc\u00eancia quando eu percebi a import\u00e2ncia do conhecimento novo, da descoberta. Eu percebi isso porque trabalhava, depois das aulas, no laborat\u00f3rio farmac\u00eautico do meu pai e eu via a import\u00e2ncia que tinham os produtos mais novos, os mais recentes. Eu via tamb\u00e9m como pesava economicamente para o laborat\u00f3rio o fato de depender de produtos importados que n\u00e3o eram fabricados no Brasil e que no pa\u00eds n\u00e3o havia compet\u00eancia para faze-los. A\u00ed percebi o valor do conhecimento novo, a import\u00e2ncia que tinha e o significado econ\u00f4mico e estrat\u00e9gico das descobertas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Isso se incrementou quando eu fiz o curso de Qu\u00edmica. Eu fui fazer o curso de Qu\u00edmica porque um professor meu no col\u00e9gio sugeriu que eu procurasse uma carreira ligada \u00e0 pesquisa. Ele deve ter percebido alguma inclina\u00e7\u00e3o, alguma tend\u00eancia minha. E eu fiz o curso de Qu\u00edmica na Faculdade de Filosofia, num ambiente em que a atividade de pesquisa era muito forte. Por causa disso eu resolvi fazer o doutorado na USP. Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia ainda cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o regulares no Brasil. O orientador com quem eu defendi a tese, que foi o professor Pawel Krumholz, era um pesquisador muito bom e tamb\u00e9m tinha feito uma carreira muito importante trabalhando em empresa. Ele foi diretor industrial da Orquima, uma empresa muito importante na \u00e9poca. Isso aumentou meu interesse por pesquisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Trabalhei em Qu\u00edmica por alguns anos e meu interesse por materiais veio de uma situa\u00e7\u00e3o curiosa. Eu estava praticamente me formando, nas f\u00e9rias do meu \u00faltimo ano da gradua\u00e7\u00e3o. Estava num apartamento, depois do almo\u00e7o, descansando. Lembro-me de ter olhado as paredes do apartamento e percebido que, com tudo que eu tinha aprendido no curso de Qu\u00edmica, eu n\u00e3o tinha muito a dizer sobre as coisas que eu enxergava: a tinta, os revestimentos etc. Aquilo era Qu\u00edmica, mas tamb\u00e9m era Materiais, e naquela \u00e9poca n\u00e3o havia no curso de Qu\u00edmica muito interesse por materiais. De fato, materiais se tornaram muito importantes em Qu\u00edmica por causa dos pl\u00e1sticos e borrachas, principalmente, que nessa \u00e9poca ainda n\u00e3o tinham a import\u00e2ncia que t\u00eam hoje. Estou falando de 1964, aproximadamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Bem, a\u00ed comecei a trabalhar em F\u00edsico-Qu\u00edmica, depois trabalhei um pouco numa \u00e1rea mais voltada \u00e0 Bioqu\u00edmica, a F\u00edsico-Qu\u00edmica Biol\u00f3gica, e, em 1976, recebi uma tarefa do Departamento na USP, que era a de instalar um laborat\u00f3rio de coloides e superf\u00edcies. Um dos primeiros projetos foi de modifica\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie de pl\u00e1sticos, no caso, o teflon. E a\u00ed eu percebi que uma grande parte da Qu\u00edmica de coloides e superf\u00edcies existia por causa de Materiais, porque ela se prestava para criar e desenvolver novos materiais. A partir da\u00ed eu fui me envolvendo cada vez mais com materiais, principalmente com pol\u00edmeros, um pouco menos, com cer\u00e2micos e, menos ainda, com metais.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Boletim da SBPMat: &#8211; Quais s\u00e3o, na sua pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o, as suas principais contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e1rea de Materiais? Considere na sua resposta todos os aspectos da sua atividade profissional, inclusive os casos de transfer\u00eancia de conhecimento \u00e0 ind\u00fastria.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Fernando Galembeck: &#8211; Eu vou falar mais ou menos seguindo a hist\u00f3ria. Eu acho que o primeiro resultado importante na \u00e1rea de Materiais foi justamente uma t\u00e9cnica voltada \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie de teflon, que \u00e9 um material no qual \u00e9 muito dif\u00edcil alguma coisa grudar. Tanto que tem a express\u00e3o do \u201cpol\u00edtico teflon\u201d, que \u00e9 aquele em que nada que se joga gruda. S\u00f3 que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, a gente quer conseguir ades\u00e3o no teflon, que determinada coisa grude. E por um caminho um pouco complicado, eu acabei percebendo que eu j\u00e1 sabia fazer uma modifica\u00e7\u00e3o de teflon, mas que eu nunca tinha percebido que era importante. Eu conhecia o fen\u00f4meno; tinha observado ele durante minha defesa de tese. Eu sabia que acontecia uma transforma\u00e7\u00e3o do teflon. Mas foi quando estava visitando um laborat\u00f3rio da Unilever em 1976, conversando com um pesquisador, que eu percebi que havia gente se esfor\u00e7ando para modificar a superf\u00edcie do teflon e conseguir ades\u00e3o. A\u00ed, juntando o problema com a solu\u00e7\u00e3o, logo que voltei ao Brasil tentei verificar se aquilo que eu tinha observado anteriormente realmente serviria, e deu certo. Isso deu origem \u00e0 minha primeira publica\u00e7\u00e3o sozinho e a meu primeiro pedido de patente, numa \u00e9poca em que praticamente n\u00e3o se falava em patentes no Brasil, principalmente no ambiente universit\u00e1rio. Eu fiquei muito entusiasmado com o seguinte: fui procurado por empresas que tinham interesse em aproveitar aquilo que eu tinha feito; uma no pr\u00f3prio teflon, outra em outro pol\u00edmero. Ent\u00e3o eu me senti muito bem, porque tinha uma descoberta, tinha uma patente e tinha empresas que, pelo menos, queriam saber o que era para ver a possibilidade de utiliz\u00e1-la. E mais uma coisa, logo depois da publica\u00e7\u00e3o do artigo eu recebi um convite para participar de um congresso nos Estados Unidos que abordava justamente a quest\u00e3o de modifica\u00e7\u00e3o de superf\u00edcies. Superf\u00edcies de pol\u00edmeros, de pl\u00e1sticos e borrachas, foi um assunto com o qual fiquei envolvido praticamente durante todo o resto da minha vida, at\u00e9 agora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Eu vou mencionar um segundo fato, que at\u00e9 o momento n\u00e3o teve consequ\u00eancias do mesmo tipo. Eu descobri um m\u00e9todo que permite fazer uma caracteriza\u00e7\u00e3o e uma separa\u00e7\u00e3o de part\u00edculas muito pequenas. Foi um trabalho bastante interessante. Isso foi publicado, tamb\u00e9m gerou um dep\u00f3sito de patente, mas n\u00e3o teve uma consequ\u00eancia pr\u00e1tica. Recentemente surgiram problemas ligados com nanopart\u00edculas, que \u00e9 um assunto muito importante hoje em Materiais, e que representam uma possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o daquilo que eu fiz h\u00e1 mais de 30 anos. O nome da t\u00e9cnica \u00e9 osmossedimenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em seguida veio um trabalho que fiz trabalhando em projetos junto com a Pirelli cabos. Com essa hist\u00f3ria de superf\u00edcies e pol\u00edmeros acho que eu tinha me tornado mais ou menos conhecido e fui procurado pela Pirelli, que me contratou como consultor e tamb\u00e9m contratou projetos que fiz na Unicamp. Um resultado desses projetos, que eu acho mais importante, foi o desenvolvimento de um isolante para tens\u00f5es el\u00e9tricas muito altas. Esse n\u00e3o foi um trabalho s\u00f3 meu, mas sim de uma equipe bastante grande, da qual fiz parte. Tinha v\u00e1rias pessoas da Pirelli e v\u00e1rias na Unicamp. O resultado desse projeto foi que a Pirelli brasileira conseguiu ser contratada para fornecer os cabos de alta tens\u00e3o do Eurot\u00fanel, ainda nos anos 80. Eu acho que esse foi um caso bem importante que teve um produto e significou um resultado econ\u00f4mico importante. Aqui eu quero insistir que isso foi feito no Brasil, por uma equipe brasileira. A empresa n\u00e3o era brasileira, mas a equipe estava aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Depois teve v\u00e1rios trabalhos feitos com nanopart\u00edculas, numa \u00e9poca em que a gente nem as chamava de nanopart\u00edculas; cham\u00e1vamo-las de part\u00edculas finas ou simplesmente de part\u00edculas coloidais pequenas. O primeiro trabalho que eu publiquei sobre nanopart\u00edculas foi em 1978. Teve outras coisas feitas em seguida que, no fim, acabaram desaguando num trabalho sobre fosfato de alum\u00ednio, que deu origem a teses feitas no laborat\u00f3rio e publica\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m foi licenciado por uma empresa chamada Amorphic Solutions, do grupo Bunge, que explora, basicamente, fosfato de alum\u00ednio. O assunto come\u00e7ou em meu laborat\u00f3rio, ficou no laborat\u00f3rio por v\u00e1rios anos, depois uma empresa do grupo Bunge aqui no Brasil se interessou, passou a participar, n\u00f3s colaboramos. Isso se tornou um projeto bastante grande de desenvolvimento. A Bunge depois achou invi\u00e1vel tocar o projeto no Brasil e hoje est\u00e1 l\u00e1 nos Estados Unidos. Eu acho uma pena que esteja l\u00e1, mas a\u00ed teve outras quest\u00f5es envolvidas, inclusive de desentendimento com a Unicamp, que \u00e9 a titular das patentes. Se olhar a p\u00e1gina da Amorphic Solutions na Internet voc\u00ea poder\u00e1 ver v\u00e1rias aplica\u00e7\u00f5es do produto. Pelo que percebo, atualmente est\u00e3o enfatizando o uso como material anticorrosivo para prote\u00e7\u00e3o de a\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Mais ou menos na mesma \u00e9poca, num trabalho ligado tamb\u00e9m a nanopart\u00edculas, teve o desenvolvimento de nanocomp\u00f3sitos de borracha natural com argilas. Isso foi licenciado por uma empresa brasileira chamada Orbys, que lan\u00e7ou um produto chamado Imbrik, que \u00e9 um produto que a empresa fornece, por exemplo, para fazer rolos de borracha para fabrica\u00e7\u00e3o de papel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Outro caso de produto. Eu tinha feito um projeto com a Oxiteno, que fabrica mat\u00e9rias primas para l\u00e1tex, os tensoativos. Ela queria ter uma ideia de quanto se consegue mudar o l\u00e1tex mudando o tensoativo. Eu fiz um projeto com eles, que considero um dos mais interessantes daqueles em que estive envolvido. O resultado foi que percebemos que, mudando um pouco o tensoativo, n\u00f3s mud\u00e1vamos muito o l\u00e1tex. Esses l\u00e1tex s\u00e3o usados em tintas, adesivos, resinas. Ent\u00e3o a gente via que tinham uma variabilidade enorme. Esse trabalho foi divulgado, foi publicado. N\u00e3o deu patente porque foi um trabalho de entendimento. Ent\u00e3o, uma outra empresa, a Ind\u00fastrias Qu\u00edmicas Taubat\u00e9 (IQT) me procurou para fazer um l\u00e1tex cati\u00f4nico, mas por um caminho novo. L\u00e1tex cati\u00f4nicos em geral s\u00e3o feitos com sais de am\u00f4nio quatern\u00e1rios, os quais t\u00eam algumas restri\u00e7\u00f5es ambientais. A empresa queria uma alternativa que n\u00e3o tivesse essas restri\u00e7\u00f5es. No fim do projeto n\u00f3s fizemos os l\u00e1tex cati\u00f4nicos sem as restri\u00e7\u00f5es ambientais e a IQT colocou o produto no mercado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Teve outro caso, que tamb\u00e9m foi muito interessante, apesar de que acabou morrendo. Aqui no Brasil havia uma grande fabricante de polietileno tereftalato, o PET, que \u00e9 usado para muitas coisas, inclusive para garrafas. Eles souberam do trabalho que eu tinha feito com nanocomp\u00f3sitos, aquele da Orbys que eu mencionei, e me procuraram querendo fazer nanocomp\u00f3sitos do PET. N\u00f3s tivemos que procurar escapar daquilo que j\u00e1 estava patenteado no exterior e conseguimos um caminho totalmente novo. A empresa chamava-se Rhodia-Ster, e hoje ela faz parte de uma outra empresa, italiana, chamada Mossi e Ghisolfi. A empresa se entusiasmou e acabou patenteando isso no Brasil, e, em seguida depois, no exterior. Numa certa altura, eles resolveram que iam tocar o trabalho internamente, e o fizeram durante alguns anos. Um dia o meu contato na empresa me telefonou para me dizer o seguinte: \u201cOlha, n\u00f3s est\u00e1vamos trabalhando com duas tecnologias; uma era essa a\u00ed com a Unicamp e a outra, em outro pa\u00eds. As duas est\u00e3o funcionando, mas agora a empresa chegou num ponto em que optou por completar o desenvolvimento de uma\u201d. Quando chegam na fase final de um desenvolvimento de materiais, os custos dos projetos ficam muito altos. Tem que usar grandes quantidades de materiais, fazer muitos testes com clientes. Ent\u00e3o, a empresa decidiu tocar uma, que infelizmente n\u00e3o era aquela na qual eu tinha trabalhado. No fim das contas, foi um pouco frustrante, mas acho que foi interessante porque durante esse tempo todo, a empresa apostou bastante no caminho que a gente tinha iniciado aqui. Al\u00e9m disso, cada projeto desses significa recursos para o laborat\u00f3rio, significa dinheiro para contratar gente, empregos etc. Ent\u00e3o, esses projetos acaba dando muitos benef\u00edcios, mesmo quando n\u00e3o chegam at\u00e9 o fim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Agora, pulando alguns peda\u00e7os, vou chegar no \u00faltimo resultado, que \u00e9 bem recente, de depois que eu sai da Unicamp e vim para o CNPEM. Um objetivo do CNPEM \u00e9 o aproveitamento de materiais de fonte renov\u00e1vel para fazer materiais avan\u00e7ados. Tem toda uma filosofia por tr\u00e1s disso, relacionada ao esgotamento de recursos naturais, \u00e0 sustentabilidade&#8230; N\u00f3s temos trabalhado bastante para conseguir fazer coisas novas com materiais derivados da biomassa, e o principal interesse est\u00e1 na celulose. Ela \u00e9 o pol\u00edmero mais abundante do mundo, mas \u00e9 um pol\u00edmero muito dif\u00edcil de trabalhar. Voc\u00ea n\u00e3o consegue processar celulose como processa polietileno, por exemplo. Uma de nossas metas tem sido procurar formas de plastificar a celulose; ou seja, trabalhar a celulose da forma mais parecida poss\u00edvel \u00e0quela que usamos para trabalhar com pol\u00edmeros sint\u00e9ticos. Um resultado recente dentro dessa ideia \u00e9 que n\u00f3s conseguimos fazer adesivos de celulose em que o \u00fanico pol\u00edmero \u00e9 a pr\u00f3pria celulose, o que \u00e9 uma coisa nova. Foi depositado um pedido de patente no come\u00e7o do ano, n\u00f3s estamos submetendo isso agora para publica\u00e7\u00e3o e pretendemos trabalhar com empresas interessadas no assunto. J\u00e1 estamos discutindo um projeto para uma aplica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dessa celulose modificada, com uma empresa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esse \u00e9 o caso mais recente. No meio do caminho, v\u00e1rios outros projetos foram feitos com empresas, em quest\u00f5es do interesse das empresas. Revestir uma coisa, colar outra, modificar um pol\u00edmero para conseguir um certo resultado. Mas essas foram respostas a demandas das empresas, n\u00e3o foram pesquisas iniciadas no laborat\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Boletim da SBPMat: &#8211; Deixe uma mensagem para nossos leitores que est\u00e3o iniciando suas carreiras de cientistas.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Fernando Galembeck: &#8211; Em primeiro lugar, em qualquer carreira que a pessoa escolher, ela tem que ter uma dose de paix\u00e3o. N\u00e3o importa se a pessoa vai trabalhar no mercado financeiro, em sa\u00fade ou o que quer que ela v\u00e1 fazer; antes de mais nada, o que manda \u00e9 o gosto. A pessoa querer fazer uma carreira porque ela vai dar dinheiro, porque vai dar status&#8230; Eu acho que \u00e9 ruim escolher assim. Se a pessoa fizer as coisas com gosto, com interesse, o dinheiro, o prest\u00edgio, o status vir\u00e3o por outros caminhos. O objetivo \u00e9 que a pessoa fa\u00e7a uma coisa que a deixe feliz, que se sinta bem fazendo-a, que a deixe realizada. Isso vale n\u00e3o s\u00f3 para a carreira cient\u00edfica, mas para qualquer outra carreira tamb\u00e9m. Na cient\u00edfica, \u00e9 fundamental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Outra coisa \u00e9 que tem que estar preparado para o trabalho duro. N\u00e3o existe caminho f\u00e1cil. Eu conhe\u00e7o pessoas jovens que procuram muito a grande sacada que vai lhes trazer sucesso com relativamente pouco trabalho. Bom, eu acho melhor n\u00e3o esperarem isso. Pode at\u00e9 acontecer, mas esperar isso \u00e9 mais ou menos a mesma coisa do que esperar ganhar a Mega-Sena para ficar rico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Eu j\u00e1 tenho mais de 70 anos, ent\u00e3o j\u00e1 vi muita gente e muita coisa acontecer. Algo que me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 como jovens que pareciam muito promissores acabam n\u00e3o dando muito certo. Francamente, eu penso que uma coisa que n\u00e3o \u00e9 boa \u00e9 um jovem dar certo muito cedo, porque eu tenho a impress\u00e3o de que ele acostuma com a ideia de que sempre vai dar certo. E o problema \u00e9 que n\u00e3o tem nada, nem ningu\u00e9m, nem nenhuma empresa que sempre d\u00ea muito certo. Sempre vai ter o momento do fracasso, o momento da frusta\u00e7\u00e3o. Se a pessoa est\u00e1 preparada para isso, quando chega o momento, ela supera, enquanto outros s\u00e3o destru\u00eddos &#8211; n\u00e3o conseguem superar. Por isso tem que ter cuidado para n\u00e3o se iludir com o sucesso, achar que, porque deu certo uma vez, sempre dar\u00e1 certo. Tem que estar preparado para lutar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quando eu fiz faculdade, pensar em fazer pesquisa parecia uma coisa muito estranha, coisa de maluco. As pessoas n\u00e3o sabiam muito bem o que era isso nem por que uma pessoa iria fazer isso. Tinha gente que dizia que a pesquisa era como um sacerd\u00f3cio. Eu trabalhei sempre com pesquisa, associada com ensino, associada com consultoria e, sem que eu nunca tenha procurado ficar rico, consegui ter uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que eu acho que \u00e9 muito confort\u00e1vel. Mas eu insisto, meu objetivo era fazer o desenvolvimento, fazer o material, n\u00e3o o dinheiro que eu iria ganhar. O dinheiro veio, ele vem. Ent\u00e3o, eu sugiro que as pessoas focalizem o trabalho, os resultados e a contribui\u00e7\u00e3o que o trabalho delas pode dar para outras pessoas, para o ambiente, para a comunidade, para o pa\u00eds, para o conhecimento. O resto vir\u00e1 por acr\u00e9scimo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Resumindo, a minha mensagem \u00e9: trabalhem seriamente, dedicadamente e com paix\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Finalmente, eu gostaria de dizer que acho que o trabalho de pesquisa, o trabalho de desenvolvimento ajuda muito a pessoa a crescer como pessoa. Ele afasta a pessoa de algumas ideias que n\u00e3o s\u00e3o muito proveitosas e bota a pessoa dentro de atitudes que s\u00e3o importantes e realmente ajudam. Uma vez um estudante perguntou para Galileu: \u201cMestre, o que \u00e9 o m\u00e9todo?\u201d. A resposta de Galileu foi: \u201cO m\u00e9todo \u00e9 a d\u00favida\u201d. Eu acho que isso \u00e9 muito importante em atividade de pesquisa, a qual, em Materiais, em particular, \u00e9 especialmente interessante porque o resultado final \u00e9 uma coisa que a gente pega na m\u00e3o. Na atividade de pesquisa a pessoa tem que estar o tempo todo se perguntando: \u201cEu estou pensando isto, mas ser\u00e1 que estou pensando certo?\u201d, ou \u201cFulano escreveu aquilo, mas qual \u00e9 a base do que ele escreveu?\u201d. Essa \u00e9 uma atitude muito diferente da atitude dogm\u00e1tica, que \u00e9 comum no dom\u00ednio da pol\u00edtica e da religi\u00e3o, e muito diferente da atitude da pessoa que tem que enganar, como o advogado do mafioso ou do traficante. O pesquisador tem que se comprometer com a verdade. Claro que tamb\u00e9m existem pessoas que se dizem pesquisadores e promovem a desinforma\u00e7\u00e3o. Alguns anos atr\u00e1s, falava-se de uma coisa chamada de \u201cBush science\u201d, express\u00e3o que remete ao presidente Bush. A \u201cBush science\u201d eram os argumentos criados por pessoas que ganhavam dinheiro como cientistas, mas que produziam argumentos para dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de Bush. Ou seja, o problema existe em ci\u00eancia tamb\u00e9m, mas a\u00ed voltamos \u00e0quilo que falei no in\u00edcio. A pessoa n\u00e3o pode entrar nisto porque vai ganhar dinheiro, vai ter prest\u00edgio ou vai ser convidado para jantar com o presidente; ela tem que entrar nisto pelo interesse que ela tem pelo pr\u00f3prio assunto.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Fernando Galembeck, professor colaborador na Unicamp e diretor do Laborat\u00f3rio Nacional de Nanotecnologia (LNNano) de 2011 a 2015, o interesse por pesquisa come\u00e7ou a se manifestar na adolesc\u00eancia, quando, trabalhando no laborat\u00f3rio farmac\u00eautico do pai, percebeu a import\u00e2ncia econ\u00f4mica que os novos produtos, resultantes de esfor\u00e7os de pesquisa cient\u00edfica, tinham na empresa. 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