{"id":3318,"date":"2015-03-31T16:26:57","date_gmt":"2015-03-31T19:26:57","guid":{"rendered":"http:\/\/sbpmat.org.br\/?p=3318"},"modified":"2017-01-16T10:39:36","modified_gmt":"2017-01-16T13:39:36","slug":"a-fabricacao-dos-aceleradores-do-lnls-e-os-materiais-nacionais-por-cylon-goncalves-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/a-fabricacao-dos-aceleradores-do-lnls-e-os-materiais-nacionais-por-cylon-goncalves-da-silva\/","title":{"rendered":"A fabrica\u00e7\u00e3o dos aceleradores do LNLS e os materiais nacionais, por Cylon Gon\u00e7alves da Silva."},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_3319\" aria-describedby=\"caption-attachment-3319\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/anel-lnls-1996.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3319\" title=\"anel lnls 1996\" src=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/anel-lnls-1996-300x218.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/anel-lnls-1996-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/anel-lnls-1996.jpg 642w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3319\" class=\"wp-caption-text\">Foto do anel de armazenamento da fonte de luz s\u00edncrotron, no LNLS (Campinas, SP), em dezembro de 1996, \u00e9poca do in\u00edcio de seu funcionamento, 7 meses antes da inaugura\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio. (Cr\u00e9dito M.B.Jr)<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p>Quando demos a partida na constru\u00e7\u00e3o do LNLS, em 1986, e muito antes disto, na sua \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d, havia j\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de envolver a ind\u00fastria nacional na constru\u00e7\u00e3o dos equipamentos. Olhando de 2015, \u00e9 dif\u00edcil imaginar o que era a ind\u00fastria brasileira em 1985. Ainda \u00e9 mais dif\u00edcil conceber que, em alguns setores, entre eles o metal-mec\u00e2nico, ela era mais sofisticada do que \u00e9 hoje. A abertura da economia brasileira, necess\u00e1ria, por\u00e9m conduzida de forma atabalhoada e amadora pelo Governo Collor, acabou com boa parte da ind\u00fastria mais sofisticada que havia no Pa\u00eds ent\u00e3o. De todos os materiais necess\u00e1rios para construir os aceleradores, dois se destacavam por seu peso (literalmente): a\u00e7o e cobre. Para os im\u00e3s e c\u00e2maras de v\u00e1cuo necessit\u00e1vamos de a\u00e7o e para as bobinas dos eletro\u00edm\u00e3s, de cobre OFHC de baixo conte\u00fado de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Lembro-me da visita feita a nosso galp\u00e3o, por um especialista em ultra-alto v\u00e1cuo da Balzers que nos declarou, de forma arrogante, que \u201c\u00e9 imposs\u00edvel fabricar c\u00e2maras de ultra-alto-v\u00e1cuo\u201d com o a\u00e7o brasileiro. \u201cVoc\u00eas v\u00e3o ter de importar.\u201d N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer que isto foi um belo incentivo para que procur\u00e1ssemos um fornecedor brasileiro para nossas necessidades. Ricardo e eu compartilh\u00e1vamos um saud\u00e1vel desprezo por este tipo de especialista. Acho que n\u00f3s dois pens\u00e1vamos, sem falar em voz alta, quando ouv\u00edamos declara\u00e7\u00f5es deste tipo, mais ou menos a mesma coisa: \u201cAh \u00e9! N\u00e3o d\u00e1? Voc\u00ea vai ver!\u201d. Para a fabrica\u00e7\u00e3o dos \u00edm\u00e3s e das c\u00e2maras de v\u00e1cuo, havia duas perguntas n\u00e3o respondidas. Haveria no Brasil a\u00e7o com as caracter\u00edsticas requeridas? E o m\u00e9todo de corte a laser que pretend\u00edamos utilizar n\u00e3o afetaria negativamente as propriedades magn\u00e9ticas do material nas suas bordas? Ningu\u00e9m tinha utilizado esta t\u00e9cnica para fabricar eletro-\u00edm\u00e3s de precis\u00e3o at\u00e9 o LNLS consider\u00e1-la como uma op\u00e7\u00e3o, dadas as condi\u00e7\u00f5es muito especiais que enfrent\u00e1vamos. Quando come\u00e7amos, ningu\u00e9m tinha as respostas para estas perguntas. A experi\u00eancia mostrou que havia o a\u00e7o necess\u00e1rio no Brasil, tanto para os \u00edm\u00e3s (SAE1006, adquirido no mercado nacional e relaminado\u00a0 pela Mangels) quanto para as c\u00e2maras (AISI 316L), e que o corte a laser era uma t\u00e9cnica vi\u00e1vel e muito flex\u00edvel para a produ\u00e7\u00e3o de lotes relativamente pequenos de eletro-\u00edm\u00e3s<strong>*<\/strong>. Isto, naturalmente, n\u00e3o aconteceu da noite para o dia. Eventualmente, a longa hist\u00f3ria do desenvolvimento dos processos para os a\u00e7os, por exemplo, no caso das c\u00e2maras de v\u00e1cuo, de limpeza e soldagem, e no caso dos \u00edm\u00e3s, da melhoria das propriedades magn\u00e9ticas, poderia muito bem ser contada.<\/p>\n<p>Uma outra hist\u00f3ria, mais divertida, \u00e9 a do cobre para as bobinas dos eletro-\u00edm\u00e3s. O CERN nos havia recomendado a empresa finlandesa Outokumpu, que era a fornecedora deles. \u00c9 claro que, com esta recomenda\u00e7\u00e3o, est\u00e1vamos tranquilos quanto \u00e0 qualidade do produto finland\u00eas. Mas, eu n\u00e3o estava satisfeito em ter de importar cobre. Uma pesquisa revelou a exist\u00eancia em S\u00e3o Paulo da Termomec\u00e2nica, de propriedade de Salvador Arena. Consultados os meus \u201cespecialistas\u201d, todos foram un\u00e2nimes em dois pontos: tratava-se de uma empresa da melhor qualidade e de um empres\u00e1rio excepcional, dos mais dedicados ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico de seus produtos, apenas um tantinho temperamental. Achei que ele se encaixava no perfil de um fornecedor potencial para o LNLS e l\u00e1 fui eu explicar-lhe o projeto do LNLS e suas necessidades. Fui muito bem recebido, ouvi durante algumas horas uma exposi\u00e7\u00e3o sobre o belo programa educacional que era o seu projeto do cora\u00e7\u00e3o, pude expor nosso projeto brevemente, mas neste, Arena foi taxativo \u2013 \u201cNeste neg\u00f3cio n\u00e3o me meto. N\u00e3o quero nada com o governo. N\u00e3o vai dar certo. Esque\u00e7a, voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o conseguir. A Termomec\u00e2nica n\u00e3o vai fornecer para voc\u00eas.\u201d (Coloco entre aspas o texto, com a ressalva de que podem n\u00e3o ter sido as palavras exatas de Arena, mas o sentido \u00e9 o mesmo.)<\/p>\n<p>Confesso que fiquei decepcionado, mas a conversa n\u00e3o foi em v\u00e3o. Serviu para eu entender como ele pensava e para tra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia para dobr\u00e1-lo. Importamos, com a ajuda do CERN, uma tonelada de cobre OFHC da Outokumpu (uma fra\u00e7\u00e3o do que precisar\u00edamos) nas especifica\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para as bobinas dos dipolos do anel. O cobre fornecido pela Outokumpu foi OFHC\/OFE \u2013 99,99 % m\u00ednimo Cu com at\u00e9 0,0010 % max de oxig\u00eanio. \u00a0Assim que o material chegou, liguei para Salvador Arena para dizer-lhe: \u201cO Sr. n\u00e3o quis nos fornecer, importei da Outokumpu, sua concorrente.\u201d O que se ouviu do outro lado da linha n\u00e3o pode ser reproduzido na riqueza dos palavr\u00f5es nos quais Arena era pr\u00f3digo. Por baixo, fui chamado de moleque, e ele me assegurou nos termos mais enf\u00e1ticos que nunca tinha dito que a Termomec\u00e2nica n\u00e3o iria nos fornecer o cobre de baixo conte\u00fado de oxig\u00eanio que precis\u00e1vamos. E praticamente ordenou que eu voltasse l\u00e1 imediatamente com as especifica\u00e7\u00f5es que eles desenvolveriam o material para n\u00f3s. E foi o que fizeram. Gra\u00e7as \u00e0 estrat\u00e9gia da importa\u00e7\u00e3o da Outokumpu, o cobre fornecido pela Termomec\u00e2nica est\u00e1 at\u00e9 hoje cumprindo seu papel com galhardia n\u00e3o apenas nos dipolos, mas em todos os eletro-\u00edm\u00e3s do LNLS (certificado OFHC\/OF \u2013 99.95 % m\u00ednimo Cu + Ag com\u00a0 at\u00e9 0,0010 % max de oxig\u00eanio, mas com qualidade OFE). Aqui tamb\u00e9m, h\u00e1 uma longa hist\u00f3ria de desenvolvimento feito pela equipe do LNLS dos materiais at\u00e9 o produto acabado. Mas, isto fica para outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Prof. Cylon Gon\u00e7alves da Silva<\/p>\n<p>*Agrade\u00e7o a Guilherme Franco, Osmar Bagnato e Ricardo Rodrigues, da equipe do LNLS, por me refrescar a mem\u00f3ria sobre os tipos de a\u00e7o empregados, bem como os detalhes t\u00e9cnicos do cobre OFHC.<\/p>\n<p>[Artigo enviado para publica\u00e7\u00e3o no Boletim da SBPMat pelo professor Cylon Gon\u00e7alves da Silva, primeiro diretor do LNLS (1986-1998). Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a implanta\u00e7\u00e3o do LNLS, convidamos os leitores a acessarem a reportagem &#8220;<a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/historia-do-laboratorio-nacional-de-luz-sincrotron-parte-2-a-construcao-no-brasil-da-fonte-de-luz-sincrotron-e-de-suas-primeiras-estacoes-experimentais\/\">A constru\u00e7\u00e3o, no Brasil, da fonte de luz s\u00edncrotron e de suas primeiras esta\u00e7\u00f5es experimentais<\/a>&#8220;]<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><em>Voc\u00ea gostaria de sugerir um tema de hist\u00f3ria da pesquisa em Materiais no Brasil para uma reportagem do Boletim da SBPMat? Gostaria de escrever um texto sobre esse tema para publica\u00e7\u00e3o em nosso boletim? Entre em contato: comunicacao@sbpmat.org.br.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando demos a partida na constru\u00e7\u00e3o do LNLS, em 1986, e muito antes disto, na sua \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d, havia j\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de envolver a ind\u00fastria nacional na constru\u00e7\u00e3o dos equipamentos. Olhando de 2015, \u00e9 dif\u00edcil imaginar o que era a ind\u00fastria brasileira em 1985. Ainda \u00e9 mais dif\u00edcil conceber que, em alguns setores, entre eles [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[669,78,53,679],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3318"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3318"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4750,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3318\/revisions\/4750"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}