{"id":3240,"date":"2015-03-06T15:22:02","date_gmt":"2015-03-06T18:22:02","guid":{"rendered":"http:\/\/sbpmat.org.br\/?p=3240"},"modified":"2015-03-13T15:52:49","modified_gmt":"2015-03-13T18:52:49","slug":"historia-do-laboratorio-nacional-de-luz-sincrotron-parte-2-a-construcao-no-brasil-da-fonte-de-luz-sincrotron-e-de-suas-primeiras-estacoes-experimentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/historia-do-laboratorio-nacional-de-luz-sincrotron-parte-2-a-construcao-no-brasil-da-fonte-de-luz-sincrotron-e-de-suas-primeiras-estacoes-experimentais\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron \u2013 parte 2. A constru\u00e7\u00e3o, no Brasil, da fonte de luz s\u00edncrotron e de suas primeiras esta\u00e7\u00f5es experimentais."},"content":{"rendered":"<p>[Su\u00edte da reportagem: <a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/historia-do-laboratorio-nacional-de-luz-sincrotron-parte-1-o-sonho-de-uma-grande-maquina-de-pesquisa-no-brasil-e-os-passos-previos-a-construcao-do-laboratorio\/\">Hist\u00f3ria do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron \u2013 parte 1. O sonho de uma grande m\u00e1quina de pesquisa no Brasil e os passos pr\u00e9vios \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio.<\/a>]<\/p>\n<p>Durante a ditadura militar, o sonho de possuir no Brasil uma fonte de luz s\u00edncrotron tinha sido abra\u00e7ado pelo CNPq e por equipes de cientistas que conseguiram transform\u00e1-lo em projeto. No final do per\u00edodo, foi criada a figura de Laborat\u00f3rio Nacional de Radia\u00e7\u00e3o S\u00edncrotron (LNRS) e foi definida qual seria a cidade que o receberia: a paulista Campinas, sede da Unicamp.<\/p>\n<p>Em 1985, com Jos\u00e9 Sarney como primeiro Presidente civil do Brasil, e com Renato Archer como ministro do rec\u00e9m-criado Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia, um grupo de quatro pessoas ligadas ao LNRS realiza uma miss\u00e3o de trabalho de tr\u00eas meses nos Estados Unidos, no Stanford Linear Accelerator Center (SLAC), que possui uma fonte de luz s\u00edncrotron. Ali, a equipe do Brasil trabalha sob supervis\u00e3o do cientista\u00a0<a href=\"http:\/\/web.stanford.edu\/dept\/app-physics\/cgi-bin\/person\/wiedemann-helmut\/\" target=\"_blank\">Helmut Wiedemann<\/a>, especialista em luz s\u00edncrotron. \u201cNosso objetivo era\u00a0aprender os rudimentos da\u00a0teoria e tecnologia envolvidas na constru\u00e7\u00e3o da nossa fonte de luz s\u00edncrotron\u201d, diz <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3976969740642329\" target=\"_blank\">Antonio Ricardo Droher Rodrigues<\/a>, mais conhecido como Ricardo Rodrigues, que fez parte dessa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o governo d\u00e1 um passo atr\u00e1s no projeto perante algumas demonstra\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia de grupos da comunidade cient\u00edfica: cr\u00edticas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do s\u00edncrotron brasileiro e uma proposta de levar o laborat\u00f3rio para o Rio de Janeiro. Renato Archer decide ent\u00e3o realizar uma nova avalia\u00e7\u00e3o e, em 30 de janeiro de 1986, cria uma comiss\u00e3o assessora, coordenada por <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8757864423761699\" target=\"_blank\">Roberto Lobo<\/a>, a qual emite um parecer favor\u00e1vel para a implanta\u00e7\u00e3o efetiva do laborat\u00f3rio na cidade de Campinas.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1986, \u00e9 designada a primeira diretoria do laborat\u00f3rio, com <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7384951401451091\" target=\"_blank\">Cylon Gon\u00e7alves da Silva<\/a> (professor do\u00a0Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin, IFGW,\u00a0da Unicamp) no cargo de diretor do laborat\u00f3rio, <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5852367984234501\" target=\"_blank\">Aldo Craievich<\/a> (pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas, CBPF) como vice-diretor e chefe do departamento cient\u00edfico do laborat\u00f3rio, e Ricardo Rodrigues (professor do Instituto de F\u00edsica e Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos, da USP) como chefe de projeto (coordenador t\u00e9cnico). Trata-se, na verdade, a diretoria de um laborat\u00f3rio que ainda n\u00e3o existe, e ela tem como miss\u00e3o principal, justamente, a implanta\u00e7\u00e3o do LNLS.<\/p>\n<p><strong>Da sala \u00e0 casa, da casa ao galp\u00e3o, e do galp\u00e3o ao campus<\/strong><\/p>\n<p>A equipe trabalha numa sala emprestada no pr\u00e9dio da Reitoria da Unicamp at\u00e9 o final do ano. No primeiro semestre de 1987, muda-se para uma casa alugada, de quatro quartos, localizada no bairro campineiro Ch\u00e1cara Primavera. Nesse momento, o laborat\u00f3rio j\u00e1 tem seu nome definitivo, Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS), e a equipe de trabalho \u00e9 formada pelos membros da Diretoria, mais o professor do IFGW <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5221039340928855\" target=\"_blank\">Daniel Wisnivesky<\/a> e cerca de seis outros colaboradores.<\/p>\n<p>\u201cInicialmente os membros da equipe recebiam como aut\u00f4nomos!\u201d, conta Ricardo Rodrigues. \u201cEsta situa\u00e7\u00e3o trabalhista foi \u201cregularizada\u201d, inicialmente, por uma abertura de 35 vagas do CNPq e, para continuar o crescimento necess\u00e1rio, por meio de um conv\u00eanio assinado entre o CNPq e a Funda\u00e7\u00e3o da Universidade de Campinas para o projeto e constru\u00e7\u00e3o do acelerador linear (LINAC), injetor do futuro s\u00edncrotron brasileiro\u201d, completa. Os impedimentos legais ou burocr\u00e1ticos para contratar pessoas s\u00f3 encontrar\u00e3o melhor solu\u00e7\u00e3o a partir de 1998, com a san\u00e7\u00e3o da lei n\u00b09.637, que criar\u00e1 a figura das organiza\u00e7\u00f5es sociais (pessoas jur\u00eddicas privadas, sem fins lucrativos, dedicadas ao ensino, pesquisa cient\u00edfica, desenvolvimento tecnol\u00f3gico, prote\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, cultura e sa\u00fade). \u201cA institui\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 fruto de um trabalho herc\u00faleo do Cylon\u201d, diz Ricardo Rodrigues.<\/p>\n<p>Em julho de 1987, a equipe de trabalho, que j\u00e1 conta com cerca de 40 pessoas, se muda para o bairro campineiro de Fazenda Santa C\u00e2ndida, ocupando um galp\u00e3o de 1.800 m2 que tinha sido comprado pelo CNPq e reformado durante o primeiro semestre.\u00a0 No final do ano, o grupo tem umas 50 pessoas. \u201cOs primeiros membros eram, na maioria, f\u00edsicos rec\u00e9m-graduados que \u201caprenderam fazendo\u201d todo o conhecimento necess\u00e1rio\u201d, conta Ricardo Rodrigues.<\/p>\n<p>Em 1990, o governo do Estado de S\u00e3o Paulo compra e cede ao LNLS um terreno de aproximadamente 500 x 800m2 (o campus) no bairro Guar\u00e1, distrito de Bar\u00e3o Geraldo, para sua instala\u00e7\u00e3o definitiva. Em 1992, a equipe do LNLS deixa o barrac\u00e3o de Santa C\u00e2ndida e ocupa os novos pr\u00e9dios do campus, sede definitiva do LNLS.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3245\" aria-describedby=\"caption-attachment-3245\" style=\"width: 534px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/foto-diretoria1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3245 \" title=\"foto diretoria\" src=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/foto-diretoria1.jpg\" alt=\"\" width=\"534\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/foto-diretoria1.jpg 668w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/foto-diretoria1-300x182.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3245\" class=\"wp-caption-text\">A partir da esquerda, Cylon Gon\u00e7alves da Silva, Ricardo Rodrigues e Aldo Craievich, por volta de 1990, no pr\u00e9dio provis\u00f3rio do LNLS. (Fotografia gentilmente cedida pelo professor Aldo Craievich).<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>M\u00e3os (e c\u00e9rebros) \u00e0 obra!<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1987 e 1997, a equipe do LNLS, que chega a contar com 70 pessoas, trabalha diariamente na constru\u00e7\u00e3o da fonte de luz s\u00edncrotron, cujo projeto prev\u00ea um acelerador linear ou <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Linear_particle_accelerator\" target=\"_blank\">LINAC<\/a>\u00a0e um acelerador circular conhecido como <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Storage_ring\" target=\"_blank\">anel de armazenamento<\/a>, al\u00e9m de uma s\u00e9rie de linhas de luz ou esta\u00e7\u00f5es experimentais (os laborat\u00f3rios em volta do anel nos quais os usu\u00e1rios utilizam a radia\u00e7\u00e3o para estudar a mat\u00e9ria por meio de diversos instrumentos cient\u00edficos ). \u201cAo longo de todos aqueles anos, quase que diariamente, v\u00edamos os problemas t\u00e9cnicos cedendo ao nosso ataque em equipe\u201d, diz Ricardo Rodrigues, que conduziu a constru\u00e7\u00e3o da fonte enquanto Aldo Craievich liderava a constru\u00e7\u00e3o das primeiras sete linhas de luz e desenvolvia um extenso programa de cursos, escolas e oficinas visando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novos usu\u00e1rios de luz s\u00edncrotron.<\/p>\n<p>O primeiro componente da fonte que fica pronto, no final de 1989, \u00e9 um LINAC capaz de acelerar os el\u00e9trons at\u00e9 uma energia de 50 a 60 milh\u00f5es de el\u00e9trons-volt (MeV). Esse acelerador linear far\u00e1 parte, mais adiante, do LINAC definitivo, de 18 m de comprimento e 120 MeV .<\/p>\n<p>Ainda em 1989, \u00e9 elaborado o projeto do acelerador circular, que, na verdade, n\u00e3o \u00e9 um c\u00edrculo e sim \u00e9 um pol\u00edgono de 93 metros de comprimento. O projeto prev\u00ea que o anel acelere os el\u00e9trons at\u00e9 uma energia de 1,15 bilh\u00f5es de el\u00e9trons-volt (GeV). Entre 1990 e 1991, ainda no galp\u00e3o, s\u00e3o constru\u00eddos os prot\u00f3tipos de componentes desse acelerador circular.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o das linhas de luz avan\u00e7a em paralelo. Para financi\u00e1-la, s\u00e3o elaboradas solicita\u00e7\u00f5es de aux\u00edlios a ag\u00eancias de fomento, principalmente FAPESP e CNPq.<\/p>\n<p>A partir de 1992, j\u00e1 na sede definitiva, no campus do bairro Guar\u00e1, as obras civis avan\u00e7am, as linhas de luz v\u00e3o sendo instaladas e os componentes do acelerador circular s\u00e3o produzidos &#8211; alguns deles, em s\u00e9rie, como\u00a0<span style=\"color: #000000;\">os mais de 100\u00a0eletro\u00edm\u00e3s\u00a0do anel<\/span>.<\/p>\n<p>Em 1995, come\u00e7a a montagem do anel e sua conex\u00e3o com o LINAC de 120 MeV, instalado num t\u00fanel subterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>No mesmo ano, a primeira linha de luz constru\u00edda no LNLS (<a href=\"http:\/\/lnls.cnpem.br\/beamlines\/uvsoftx\/toroidal-grating-monochromator-tgm\/tgm\/\" target=\"_blank\"><em>toroidal grating monochromator<\/em><\/a>, TGM), \u00e9 levada ao laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron CAMD, nos Estados Unidos, onde \u00e9 operada durante dois anos por membros do LNLS. Depois, volta a Campinas para fazer parte do LNLS. Mais um componente desenvolvido no LNLS, um monocromador de raios X, sai do pa\u00eds para ser testado, neste caso no laborat\u00f3rio s\u00edncrotron LURE, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em junho de 1996, a fonte de luz s\u00edncrotron est\u00e1 completa, montada e testada, e a equipe do LNLS consegue oper\u00e1-la em 1,15 GeV. Em outubro desse ano, a luz s\u00edncrotron chega por primeira vez a uma esta\u00e7\u00e3o experimental , a TGM.<\/p>\n<p>Finalmente, em julho de 1997, o LNLS inicia suas atividades de laborat\u00f3rio nacional, contando com uma fonte de luz s\u00edncrotron operando a uma energia maior do que a projetada ( 1,37 GeV), sete linhas de luz prontas para o uso, uma organiza\u00e7\u00e3o capaz de manter o laborat\u00f3rio em funcionamento e avaliar por revis\u00e3o por pares os projetos de pesquisa submetidos e uma comunidade de usu\u00e1rios desejosa de utilizar o laborat\u00f3rio. S\u00f3 em 1997, 100 projetos s\u00e3o realizados nas esta\u00e7\u00f5es experimentais do LNLS.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um laborat\u00f3rio feito em casa<\/strong><\/p>\n<p>Em resumo, esse laborat\u00f3rio que trabalha sem parar h\u00e1 17 anos viabilizando projetos de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica da comunidade de Materiais e de outras \u00e1reas foi quase totalmente projetado e constru\u00eddo no Brasil, mais precisamente na cidade de Campinas, por uma equipe de cientistas e seus colaboradores, os quais foram superando, com sucesso, os diversos desafios tecnol\u00f3gicos, financeiros, macroecon\u00f4micos, legais, burocr\u00e1ticos, humanos, psicol\u00f3gicos e de outros tipos que apareceram ao longo de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Essa equipe foi al\u00e9m da elabora\u00e7\u00e3o do projeto e montagem da grande m\u00e1quina cient\u00edfica. Seus membros fabricaram a maior parte das pe\u00e7as e componentes do grande laborat\u00f3rio, com exce\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de prateleira, como bombas e v\u00e1lvulas.<\/p>\n<p>Ao menos uma parte desse trabalho poderia ter sido feito em colabora\u00e7\u00e3o com empresas industriais, mas isso n\u00e3o aconteceu. De acordo com Ricardo Rodrigues, a ind\u00fastria nacional da \u00e9poca n\u00e3o estava equipada de modo a poder atender as demandas do projeto e n\u00e3o estava interessada em pequenos contratos que exigiam grande trabalho de engenharia. Por outro lado, existiam restri\u00e7\u00f5es de importa\u00e7\u00e3o que dificultavam a participa\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras. \u201cA economia era bastante fechada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas estrangeiras\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, os l\u00edderes do projeto estavam interessados em treinar uma equipe interna que dominasse toda a tecnologia empregada nos aceleradores para que o LNLS tivesse uma vida longa por meio de aperfei\u00e7oamentos cont\u00ednuos \u2013 os quais t\u00eam, de fato, acontecido. O LNLS de 2014 tem componentes que o LNLS de 1997 n\u00e3o possu\u00eda, notadamente o acelerador intermedi\u00e1rio (<em>booster<\/em>), um ondulador, dois wigglers e oito novas linhas de luz.<\/p>\n<p>O treinamento da equipe do LNLS consistia, principalmente, no \u201caprender fazendo\u201d, complementado por visitas de uma ou duas semanas em institui\u00e7\u00f5es do exterior an\u00e1logas ao LNLS. Al\u00e9m disso, desde o in\u00edcio o LNLS contava com um comit\u00ea internacional de especialistas que participava de reuni\u00f5es anuais em Campinas, nas quais a equipe brasileira apresentava os projetos e resultados para que fossem criticados.<\/p>\n<p>Para Yves Petroff, que dirigiu centros de luz s\u00edncrotron na Europa, acompanhou a implanta\u00e7\u00e3o do LNLS e foi seu diretor cient\u00edfico de novembro de 2009 a mar\u00e7o de 2013, o \u201cextremamente baixo\u201d or\u00e7amento dispon\u00edvel somado ao fato de que quase tudo foi constru\u00eddo no laborat\u00f3rio dilataram a constru\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina do LNLS, a qual demorou mais tempo do que o usual. \u201cPor\u00e9m, finalmente, isso foi uma vantagem, j\u00e1 que a equipe t\u00e9cnica adquiriu um conhecimento completo do acelerador. Hoje, se h\u00e1 um problema, ele pode ser consertado rapidamente; a confiabilidade da m\u00e1quina (97%) est\u00e1 entre as melhores do mundo\u201d, afirma Petroff. De acordo com o f\u00edsico franc\u00eas, essa experi\u00eancia permitiu ao LNLS propor a constru\u00e7\u00e3o do acelerador SIRIUS, que est\u00e1 sendo liderada por Ricardo Rodrigues. A m\u00e1quina ter\u00e1 uma energia de 3 GeV e uma emiss\u00e3o de 0,28 nm.rad. \u201cSer\u00e1 uma fant\u00e1stica oportunidade para a comunidade de Ci\u00eancia dos Materiais no Brasil e na Am\u00e9rica Latina\u201d, diz Petroff.<\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Cylon Gon\u00e7alves da Silva. The National Laboratory for Synchrotron Light. The Brazil experience. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.slac.stanford.edu\/pubs\/beamline\/26\/1\/26-1-dasilva.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.slac.stanford.<wbr>edu\/pubs\/beamline\/26\/1\/26-1-<wbr>dasilva.pdf<\/wbr><\/wbr><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">&#8211; Aldo F. Craievich, Ricardo Rodrigues. The Brazilian synchrotron light source. Hyperfine Interactions 113 (1998) 465-475. (Springer)\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p><strong>BOX 1. Minientrevista com Cylon Gon\u00e7alves da Silva, primeiro diretor do LNLS (1986 \u2013 1998).<\/strong><\/p>\n<p><em>Boletim da SBPMat: &#8211; Foi dif\u00edcil para a equipe realizar um projeto desse porte, persistindo ao longo de uma d\u00e9cada?<\/em><\/p>\n<p>Cylon Gon\u00e7alves da Silva: &#8211; De meu ponto de vista, como respons\u00e1vel geral pelo projeto, a maior dificuldade foi financeiro-or\u00e7ament\u00e1ria. \u00c9 bom lembrar que o LNLS foi constru\u00eddo em um dos piores per\u00edodos da hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil. Por anos a fio, com a infla\u00e7\u00e3o fora de controle, eu n\u00e3o sabia no come\u00e7o do m\u00eas se haveria recursos para pagar os sal\u00e1rios no final do m\u00eas. E isto era uma informa\u00e7\u00e3o que eu tinha de guardar para mim mesmo, para n\u00e3o afetar o moral da equipe. Quanto aos recursos para custeio e investimento, lembro-me de um ano (1992) em que tivemos a fortuna de 800 mil d\u00f3lares para tocar o projeto. Cada m\u00eas era uma luta, vencida com muito esfor\u00e7o, e com a ajuda de amigos do projeto no Conselho Diretor e em Bras\u00edlia. Algum dia, ser\u00e1 necess\u00e1rio registrar estes fatos e seus nomes. T\u00ednhamos, no Congresso, um pequeno n\u00famero de deputados que apoiavam o projeto, \u201ca bancada do LNLS\u201d. \u00c9 interessante que ela compreendia todos os matizes do espectro pol\u00edtico. O que facilitava (um pouquinho) nossa vida na hora de discutir o or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Contribuiu para a continuidade do projeto a incapacidade dos tr\u00eas diretores de sincronizar suas depress\u00f5es. Se tiv\u00e9ssemos um grupo s\u00edncrono, o projeto teria falhado. Como os tr\u00eas nunca ficavam deprimidos ao mesmo tempo, os outros dois curavam o terceiro da depress\u00e3o e o projeto continuava. Sem desprezar a incapacidade de chegarmos a um acordo sobre se primeiro a equipe se suicidaria e depois o diretor geral (como este queria) ou se primeiro o diretor geral se suicidaria e depois a equipe (como queria a equipe).<\/p>\n<p>Com Ricardo na Diretoria T\u00e9cnica, as dificuldades t\u00e9cnicas pareciam n\u00e3o existir. E com Aldo cuidando da parte cient\u00edfica, n\u00e3o precisava me preocupar. Provavelmente, eles ter\u00e3o outra vis\u00e3o das dificuldades que enfrentaram.<\/p>\n<p><em>Boletim da SBPMat: &#8211; Quais foram, em suas lembran\u00e7as, os momentos mais emocionantes dessa hist\u00f3ria?<\/em><\/p>\n<p>Cylon Gon\u00e7alves da Silva: &#8211; O funcionamento do primeiro LINAC de 50 MeV (em dezembro de 1989), aquele que eu chamava do \u201cGrande Projeto de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o\u201d da equipe t\u00e9cnica, foi o primeiro ind\u00edcio de que est\u00e1vamos no caminho certo e t\u00ednhamos reunido a equipe certa. As dificuldades de importar qualquer coisa eram imensas naquela \u00e9poca e havia componentes, como klystrons, que n\u00e3o pod\u00edamos fabricar ou adquirir no Brasil. Iniciamos a fabrica\u00e7\u00e3o das estruturas aceleradoras, mas apareceu uma oportunidade de adquiri-las da China e encurtamos o caminho. Para as importa\u00e7\u00f5es, at\u00e9 1990, a ajuda do CERN foi decisiva. Mas, isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os pain\u00e9is internacionais de revis\u00e3o do projeto mostraram, em poucos anos, o incr\u00edvel crescimento profissional da jovem equipe. Especialmente no segundo painel, quando os jovens da equipe t\u00e9cnica come\u00e7aram a falar com os grandes especialistas de aceleradores que traz\u00edamos como colegas e n\u00e3o como estudantes.<\/p>\n<p>Para mim, a constru\u00e7\u00e3o do LNLS foi acima de tudo uma desculpa para formar profissionais de qualidade. O sucesso que tivemos est\u00e1 mais do que demonstrado pelo n\u00famero de membros da nossa equipe que (infelizmente) emigraram e hoje ocupam posi\u00e7\u00f5es de destaque em grandes laborat\u00f3rios no exterior. \u00c9 por esta raz\u00e3o que considero o Sirius um projeto important\u00edssimo tamb\u00e9m, pela oportunidade de formar t\u00e9cnicos e engenheiros de primeira linha. N\u00e3o apenas para trabalhar no Laborat\u00f3rio, mas para contribuir na ind\u00fastria e com a cria\u00e7\u00e3o de empresas para a eleva\u00e7\u00e3o do patamar tecnol\u00f3gico do Brasil. E para n\u00e3o se perder o que se alcan\u00e7ou com os primeiros passos dados pelo LNLS.<\/p>\n<p>Apesar de todos os momentos dif\u00edceis que vivemos, que n\u00e3o foram poucos,\u00a0de uma coisa nunca tive d\u00favida. De que se persist\u00edssemos, o projeto chegaria a bom termo. O grande ceticismo que cercava nossa empreitada, pela maioria da comunidade cient\u00edfica, foi um bom est\u00edmulo para que prossegu\u00edssemos. Sem querer e sem saber, at\u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o ajudou a concretizar o LNLS. As primeiras inje\u00e7\u00f5es e armazenamento de el\u00e9trons no anel e a vis\u00e3o da primeira luz s\u00edncrotron foram o coroamento emocionante desta certeza. Marcaram o ingresso do Brasil no grupo de pa\u00edses capazes de projetar e construir aceleradores de part\u00edculas de grande porte.<\/p>\n<p>A linha de luz operando no CAMD (Louisiana, EUA), uma exporta\u00e7\u00e3o (tempor\u00e1ria) do primeiro instrumento cient\u00edfico complexo do projeto, constru\u00eddo no Brasil, mostrou para nossa equipe e a comunidade internacional que n\u00e3o era apenas a constru\u00e7\u00e3o do anel que avan\u00e7ava com qualidade, mas tamb\u00e9m o projeto e constru\u00e7\u00e3o dos instrumentos necess\u00e1rios para utiliz\u00e1-lo. Gra\u00e7as a esta opera\u00e7\u00e3o, parte da equipe t\u00e9cnica come\u00e7ou a se familiarizar com as dificuldades envolvidas na vida real de um instrumento conectado a uma fonte de luz s\u00edncrotron, mesmo antes que tiv\u00e9ssemos a nossa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o em Organiza\u00e7\u00e3o Social (1998), depois de uma longa batalha, com a cria\u00e7\u00e3o de um novo modelo institucional para a Ci\u00eancia no Brasil, foi outro momento emocionante para mim. Talvez, a mais importante das contribui\u00e7\u00f5es que eu possa ter dado ao projeto. Aqui \u00e9 preciso agradecer \u00e0 ex-Deputada Federal Irma Passoni (PT-SP) por ter me levado para conhecer o Dr. Aloysio Campos da Paz (falecido em 2014) do Hospital Sarah de Bras\u00edlia. Foi a partir da longa conversa com ele que concebi o modelo institucional que me levou a formular a proposta do Contrato de Gest\u00e3o, muito antes do Ministro Bresser Pereira levantar a bandeira da Reforma do Estado (abandonada cedo demais, isto \u00e9 certo). Esta \u00e9 outra hist\u00f3ria que mereceria ser contada um dia.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pessoal, fiquei emocionado com a concess\u00e3o do t\u00edtulo de Pesquisador Em\u00e9rito do LNLS quando deixei o Laborat\u00f3rio, o qual me dava o direito de manter uma sala e um v\u00ednculo com o Laborat\u00f3rio que havia ajudado a criar. Sempre imaginei voltar um dia a conviver com aquele ambiente extraordin\u00e1rio de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, acompanhando o trabalho e o entusiasmo de jovens pesquisadores, ainda que como mero espectador nas arquibancadas. Lamento que, anos mais tarde, tenha tido de devolver este t\u00edtulo em circunst\u00e2ncias muito desagrad\u00e1veis. N\u00e3o ter sido convidado para a visita que o ent\u00e3o Ministro Raupp fez ao LNLS para a celebra\u00e7\u00e3o dos 25 anos do Laborat\u00f3rio, nem para o lan\u00e7amento da pedra fundamental do Sirius, se explica, sem d\u00favida, pelo fato de que, quando o CNPq me concedeu o t\u00edtulo de Pesquisador Em\u00e9rito, a comunica\u00e7\u00e3o a mim endere\u00e7ada no LNLS foi devolvida com a observa\u00e7\u00e3o \u201cDestinat\u00e1rio desconhecido, devolver ao remetente\u201d. \u00a0<em>Sic transit gloria mundi.<\/em><\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong>BOX 2. Minientrevista com Ricardo Rodrigues, coordenador t\u00e9cnico da implanta\u00e7\u00e3o do LNLS e l\u00edder do projeto SIRIUS desde 2009.<\/strong><\/p>\n<p><em>Boletim da SBPMat: &#8211; Quais foram, em sua opini\u00e3o, os principais desafios enfrentados durante a constru\u00e7\u00e3o do LNLS?<\/em><\/p>\n<p>Ricardo Rodrigues: &#8211; Como coordenador t\u00e9cnico, foi aceitar meus pr\u00f3prios erros de avalia\u00e7\u00e3o otimista dos prazos para contornar as dificuldades t\u00e9cnicas. Para contrapor essas frustra\u00e7\u00f5es sempre pod\u00edamos transferir a culpa para a desorganiza\u00e7\u00e3o do nosso Pa\u00eds, onde projetos s\u00e3o aprovados, mas sem compromisso dos Governos. Esta era e continua sendo a grande dificuldade de qualquer projeto desse tipo. Neste aspecto tivemos a sorte de ter uma Dire\u00e7\u00e3o Geral inteligente e apta para as extenuantes negocia\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para manter um ritmo razo\u00e1vel nas libera\u00e7\u00f5es de recursos. A falta de comprometimento dos governos com os projetos oficialmente aprovados induz \u00e0 falta de foco na sua execu\u00e7\u00e3o j\u00e1 que a demora na libera\u00e7\u00e3o de recursos financeiros permite que os projetos sejam continuamente revisados.<\/p>\n<p><em>Boletim da SBPMat: &#8211; Foi dif\u00edcil para a equipe realizar um projeto desse porte, persistindo ao longo de uma d\u00e9cada?<\/em><\/p>\n<p>Ricardo Rodrigues: &#8211; N\u00e3o. As pessoas que se envolveram no Projeto estavam procurando grandes desafios tecnol\u00f3gicos. Sempre houve uma infraestrutura t\u00e9cnica adequada e em funcionamento de modo que, em tempos de pouco dinheiro, era poss\u00edvel testar novas ideias ou aperfei\u00e7oar solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas com poucos recursos. Quase tudo podia ser feito \u201cem casa\u201d. Para jovens entusiastas de ci\u00eancia e tecnologia isto \u00e9 muito importante j\u00e1 que traz agilidade ao processo. Outro aspecto \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o de todos nas decis\u00f5es t\u00e9cnicas. Todos sentiam uma grande responsabilidade pelos resultados e grande orgulho pelos acertos.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Su\u00edte da reportagem: Hist\u00f3ria do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron \u2013 parte 1. 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