{"id":3114,"date":"2015-02-04T13:55:25","date_gmt":"2015-02-04T16:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/sbpmat.org.br\/?p=3114"},"modified":"2023-04-30T14:50:07","modified_gmt":"2023-04-30T17:50:07","slug":"gente-da-nossa-comunidade-entrevista-com-o-pesquisador-aldo-craievich","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/gente-da-nossa-comunidade-entrevista-com-o-pesquisador-aldo-craievich\/","title":{"rendered":"Gente da nossa comunidade: entrevista com o pesquisador Aldo Craievich."},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><a href=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/FOTO-ALDO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3115\" title=\"FOTO ALDO\" src=\"http:\/\/sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/FOTO-ALDO.jpg\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/FOTO-ALDO.jpg 583w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/FOTO-ALDO-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><\/a>Ao longo de meio s\u00e9culo dedicado \u00e0 pesquisa em F\u00edsica da Mat\u00e9ria Condensada, o cientista <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5852367984234501\" target=\"_blank\">Aldo Felix Craievich<\/a>\u00a0fez relevantes contribui\u00e7\u00f5es ao estudo de estruturas e transforma\u00e7\u00f5es estruturais de s\u00f3lidos, pesquisando vidros (tema no qual foi pioneiro em pesquisa cient\u00edfica no Brasil), parafinas, materiais obtidos por sol-gel e diversos nanomateriais. Essas pesquisas renderam mais de 200 artigos publicados em revistas internacionais com revis\u00e3o por pares, os quais contam com mais de 3.600 cita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entretanto, o legado do trabalho de Craievich para a comunidade de Materiais vai al\u00e9m da sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Durante 17 anos, o cientista foi um dos protagonistas das sucessivas fases da hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (<a href=\"http:\/\/lnls.cnpem.br\/\" target=\"_blank\">LNLS<\/a>), cujos recursos para pesquisa t\u00eam impactado a comunidade de Materiais, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, como tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, principalmente latino-americanos. Craievich tamb\u00e9m se dedicou intensamente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios da luz s\u00edncrotron em cursos oferecidos em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e em dez escolas que dirigiu e nas quais participou como professor no\u00a0Centro Internacional de F\u00edsica Te\u00f3rica (<a href=\"http:\/\/www.ictp.it\/\" target=\"_blank\">ICTP<\/a>), em Trieste, It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Nascido no interior da prov\u00edncia de Santa F\u00e9, na Argentina, Craievich se formou em F\u00edsica em n\u00edvel de gradua\u00e7\u00e3o e doutorado pelo prestigiado <a href=\"http:\/\/www.ib.edu.ar\/index.php\/english-version.html\" target=\"_blank\">Instituto Balseiro<\/a>, localizado na cidade argentina de Bariloche, tendo desenvolvido seu trabalho de pesquisa de doutorado na Fran\u00e7a, no\u00a0<em>Laboratoire de Physique des Solides<\/em>\u00a0da\u00a0<em>Universit\u00e9 Paris-Sud<\/em>, sob supervis\u00e3o de Andr\u00e9 Guinier, um dos maiores expoentes da cristalografia e das t\u00e9cnicas de caracteriza\u00e7\u00e3o por raios X do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Craievich come\u00e7ou a trabalhar no Brasil em 1973, ano em que assumiu tarefas de doc\u00eancia e pesquisa no\u00a0Instituto de F\u00edsica e\u00a0Qu\u00edmica\u00a0de S\u00e3o Carlos (IFQSC), ligado \u00e0 USP, a convite de Yvonne Mascarenhas. Em 1976 voltou ao\u00a0<em>Laboratoire de Physique des Solides<\/em>\u00a0para realizar um est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado de um ano, retornando depois ao IFQSC. Em 1980 mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar como pesquisador no Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (<a href=\"http:\/\/portal.cbpf.br\/\" target=\"_blank\">CBPF<\/a>), cargo no qual permaneceu at\u00e9 1986. Em 1981 fez um segundo est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na Fran\u00e7a, dessa vez no centro nacional de luz s\u00edncrotron LURE &#8211; laborat\u00f3rio que continuou freq\u00fcentando por per\u00edodos mais curtos nos anos seguintes. Dessa maneira, quando assumiu a coordena\u00e7\u00e3o do comit\u00ea executivo do projeto que visava \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron no Brasil, Aldo Craievich era um dos rar\u00edssimos cientistas (seriam dois em todo o pa\u00eds) que tinham experi\u00eancia no uso dessa fonte de luz.<\/p>\n<p>Em 1987, voltou ao estado de S\u00e3o Paulo. At\u00e9 1997, liderou\u00a0o planejamento, projeto e constru\u00e7\u00e3o das primeiras sete linhas de luz do LNLS na cidade de Campinas e desenvolveu um extenso programa de forma\u00e7\u00e3o de novos usu\u00e1rios. Simultaneamente, a partir de 1987, Craievich deu aulas no Instituto de F\u00edsica da USP, na cidade de S\u00e3o Paulo e, a partir de 1997, dedicou-se em tempo integral a seu cargo de professor titular nessa institui\u00e7\u00e3o, na qual foi chefe do departamento de F\u00edsica Aplicada de 2002 a 2006.<\/p>\n<p>Aldo Craievich tamb\u00e9m participou da cria\u00e7\u00e3o da nossa SBPMat\u00a0desde as primeiras reuni\u00f5es e interc\u00e2mbios de mensagens eletr\u00f4nicas, ocorridos no ano 2000. Al\u00e9m disso, seu nome consta entre os cientistas que compuseram a \u201ccomiss\u00e3o interdisciplinar de Materiais\u201d, encarregada de elaborar os estatutos da SBPMat.<\/p>\n<p>Entre outras distin\u00e7\u00f5es, Craievich recebeu homenagens outorgadas pela comunidade de usu\u00e1rios e pela equipe do LNLS (1997 e 2010), pela Sociedade Brasileira de Cristalografia (2000), pelo Instituto Balseiro (2011) e pela\u00a0<em>Asociaci\u00f3n Argentina de Cristalograf\u00eda<\/em>\u00a0(2014). Recebeu duas vezes o Pr\u00eamio Mercosul de Ci\u00eancia e Tecnologia em 2004 e em 2010, por sua participa\u00e7\u00e3o em trabalhos de pesquisa sobre os temas &#8220;Energia para o Mercosul&#8221; e &#8220;Nanotecnologia para o Mercosul&#8221;, respectivamente. \u00c9 membro titular da Academia de Ci\u00eancias do Estado de S\u00e3o Paulo (ACIESP) desde 1980. Em dezembro de 2014, foi eleito membro titular da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC).<\/p>\n<p>Atualmente com 75 anos de idade, Aldo Craievich continua realizando atividades de pesquisa no IFUSP enquanto professor s\u00eanior (aposentado) e pesquisador 1A do CNPq. \u00c9 tamb\u00e9m membro do N\u00facleo de Apoio \u00e0 Pesquisa em Nanotecnologia e Nanoci\u00eancias (NAP-NN) da USP e do corpo editorial de v\u00e1rias revistas cient\u00edficas; entre elas o\u00a0<em>Journal of Synchrotron Radiation<\/em><em>\u00a0<\/em>(IUCr, Chester, UK), no qual atua como coeditor<em>.<\/em><\/p>\n<p>Segue uma entrevista com o pesquisador.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat:\u00a0 &#8211; Quando se despertou seu interesse pela ci\u00eancia?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Aldo Craievich<\/strong>: &#8211; Iniciei meus estudos universit\u00e1rios na\u00a0<em>Faculdad de Ciencias Exactas, F\u00edsicas y Naturales de la Universidad Nacional de C\u00f3rdoba<\/em>, Argentina, \u00a0em mar\u00e7o de 1959, ingressando na carreira de engenharia aeron\u00e1utica. Durante meus primeiros anos na universidade tinha que dividir meu tempo entre o estudo e meu trabalho nas Ind\u00fastrias Aeron\u00e1uticas e Mec\u00e2nicas do Estado (IAME). A decis\u00e3o de minha escolha de Engenharia Aeron\u00e1utica deveu-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre essa carreira e a \u00e1rea do meu trabalho no IAME, onde eu pensava continuar minhas atividades ap\u00f3s minha formatura. No entanto, limita\u00e7\u00f5es do meu tempo dispon\u00edvel, causadas por minhas atividades de trabalho, me fizeram perceber que a qualidade e o ritmo de avan\u00e7o de meus estudos universit\u00e1rios eram insatisfat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Depois de completar dois anos de engenharia aeron\u00e1utica, em mar\u00e7o de 1961, enquanto fazia minha inscri\u00e7\u00e3o para o terceiro ano, li acidentalmente um cartaz que mencionava a abertura de um concurso de ingresso a um curso oferecido pelo Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos de Bariloche na Argentina (hoje Instituto Balseiro). Um dos requisitos para o ingresso, que eu satisfazia, era ter aprovado o segundo ano de estudos de F\u00edsica ou Engenharia. Fiquei particularmente interessado nessa possibilidade, principalmente pelo fato de o Instituto Balseiro, al\u00e9m de oferecer uma forma\u00e7\u00e3o de excelente qualidade, concedia bolsas de estudo integrais para todos seus alunos de gradua\u00e7\u00e3o. Sem refletir muito no assunto me apresentei no concurso de ingresso, que aprovei. Assim, desde agosto 1961 at\u00e9 dezembro 1964 completei meu bacharelado em F\u00edsica no Instituto Balseiro. Nesse Instituto tive de fato a possibilidade de me dedicar exclusivamente ao estudo, num ambiente adequado e sem dividir minha aten\u00e7\u00e3o com outras preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Meu real interesse pela ci\u00eancia nasceu pouco depois de meu ingresso ao Instituto Balseiro. Durante a parte b\u00e1sica de meus estudos nesse Instituto, tive v\u00e1rios professores de qualidade singular, entre os quais Jos\u00e9 Balseiro (fundador e diretor do Instituto), Enrique Gaviola (f\u00edsico experimental argentino de prest\u00edgio internacional) e Guido Beck (renomado f\u00edsico te\u00f3rico de origem austr\u00edaca). Balseiro teve uma abnegada, entusiasta e eficiente atua\u00e7\u00e3o como diretor e professor, e exerceu uma forte influ\u00eancia sobre seus colegas e \u00a0alunos assim como sobre as gera\u00e7\u00f5es posteriores do Instituto. A pesar de o per\u00edodo da minha intera\u00e7\u00e3o com Balseiro ter sido breve (ele faleceu em mar\u00e7o de 1962), foi suficiente para que me fizesse descobrir a import\u00e2ncia das Ci\u00eancias F\u00edsicas. Hoje penso que minha intera\u00e7\u00e3o com os professores exemplares que tive durante meus primeiros anos no Instituto Balseiro, foi o que despertou meu interesse pela ci\u00eancia, que perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat:\u00a0 &#8211; O que o levou a se tornar um cientista e a trabalhar na \u00e1rea de Materiais, mais precisamente em F\u00edsica da Mat\u00e9ria Condensada?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Aldo Craievich<\/strong>: &#8211; Durante a fase final de meus estudos de F\u00edsica no Instituto Balseiro, comecei a refletir sobre o tipo de \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica aonde deveria orientar meu futuro profissional. Nessa \u00e9poca de d\u00favidas ouvi o conselho de Conrado Varotto, mais tarde fundador da empresa INVAP (<em>spin-off<\/em>\u00a0do Instituto Balseiro) e agora diretor executivo da Comiss\u00e3o Nacional de Atividades Espaciais (CONAE) da Argentina, que me prop\u00f4s realizar meu trabalho final de gradua\u00e7\u00e3o sobre \u00a0propriedades estruturais e eletr\u00f4nicas de ligas met\u00e1licas. Logo depois de formado no Instituto Balseiro, ingressei ao Instituto de Matem\u00e1tica, Astronomia e F\u00edsica (IMAF, depois FaMAF) da\u00a0<em>Universidad Nacional de C\u00f3rdoba,<\/em>\u00a0Argentina, como assistente de ensino, em mar\u00e7o de 1965. Minha inten\u00e7\u00e3o inicial foi trabalhar num tema experimental de F\u00edsica da Mat\u00e9ria Condensada, sem ainda ter decidido a \u00e1rea espec\u00edfica. Sabendo de meu interesse, o diretor do IMAF, Alberto \u00a0Maiztegui, me sugeriu implantar um laborat\u00f3rio de raios X para pesquisas de materiais utilizando um difrat\u00f4metro previamente adquirido. Nessa oportunidade recebi o apoio de Alberto Bonfiglioli, pesquisador da Comiss\u00e3o Nacional de Energia At\u00f4mica de Buenos Aires. Bonfiglioli me sugeriu completar inicialmente minha forma\u00e7\u00e3o de base na \u00e1rea, realizando minha tese de doutorado no\u00a0<em>Laboratoire de Physique des Solides da Universit\u00e9 Paris Sud,<\/em>\u00a0em Orsay, Fran\u00e7a, sob a supervis\u00e3o do eminente professor Andr\u00e9 Guinier.\u00a0 Guinier foi um dos criadores e diretor do \u00a0<em>Laboratoire de Physique des Solides<\/em><em>\u00a0<\/em>e autor de pesquisas pioneiras sobre o a rela\u00e7\u00e3o entre a estrutura de s\u00f3lidos imperfeitos e as caracter\u00edsticas do espalhamento difuso dos raios X. Ele foi tamb\u00e9m pioneiro em aplica\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica de espalhamento de raios-X a baixos \u00e2ngulos (SAXS) ao estudo de materiais, um dos descobridores das conhecidas zonas Guinier-Preston em ligas de alum\u00ednio e autor de v\u00e1rios livros cl\u00e1ssicos nessa \u00e1rea de pesquisa.<\/p>\n<p>Em resumo, meu interesse pela pesquisa na \u00e1rea de materiais, mais precisamente pelos estudos da estrutura e das transforma\u00e7\u00f5es na mat\u00e9ria condensada, foi inicialmente despertado durante meu trabalho final da gradua\u00e7\u00e3o no Instituto Balseiro supervisado por C. Varotto, cresceu com minhas primeiras atividades em IMAF em colabora\u00e7\u00e3o com A. Bonfiglioli e se consolidou durante minha tese de doutorado na Fran\u00e7a sob orienta\u00e7\u00e3o de A. Guinier.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat:\u00a0 &#8211; E por que voc\u00ea veio ao Brasil?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Aldo Craievich<\/strong>: &#8211; Em 1969, ap\u00f3s meu regresso da Fran\u00e7a e recentemente doutorado, iniciei a implanta\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio de Raios X no IMAF em C\u00f3rdoba, Argentina, com o objetivo de aplicar as t\u00e9cnicas de difra\u00e7\u00e3o de raios X e de SAXS em estudos de materiais v\u00edtreos. Depois de v\u00e1rios anos de trabalho e de ter conseguido j\u00e1 alguns resultados, percebi que o desenvolvimento do laborat\u00f3rio ocorria mais lentamente do que eu esperava. Os motivos eram diversos, entre eles, dificuldades financeiras para adquirir equipamentos e um excessivo envolvimento em atividades administrativas, o que reduzia significativamente meu tempo para a pesquisa. Foi assim que, no fim de 1971, decidi realizar um est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no exterior para poder privilegiar durante algum tempo minha dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, em uma reuni\u00e3o da Sociedade Chilena de F\u00edsica realizada em Valdivia, Chile, em janeiro de 1972, tive meu primeiro contato com Yvonne Mascarenhas, professora do Instituto de F\u00edsica e Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos \u2013 IFQSC\/USP (hoje IFSC\/USP), S\u00e3o Carlos, que me convidou para realizar um est\u00e1gio de um ano em seu Laborat\u00f3rio de Cristalografia. Aceitei o convite e, em mar\u00e7o 1973, iniciei minhas tarefas de pesquisa e ensino no IFQSC. No Laborat\u00f3rio de Cristalografia havia nessa \u00e9poca um difrat\u00f4metro de raios X em opera\u00e7\u00e3o para estudos de policristais e um aparelho de SAXS adquirido pouco tempo antes. O que era esperado de mim, al\u00e9m de realizar tarefas de doc\u00eancia, era instalar o novo aparelho de SAXS e iniciar linhas de pesquisa em temas de meu pr\u00f3prio interesse e em colabora\u00e7\u00e3o com outros cientistas locais.<\/p>\n<p>Depois de iniciado meu est\u00e1gio no Brasil, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica geral na Argentina e particularmente as condi\u00e7\u00f5es para o ensino e a pesquisa nas universidades se foram deteriorando, o que me induziu a estender v\u00e1rias vezes meu est\u00e1gio tempor\u00e1rio no IFQSC. Mais tarde, em minhas v\u00e1rias visitas \u00e0 Argentina durante a parte final da d\u00e9cada de 1970, percebi um decl\u00ednio adicional e tamb\u00e9m uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social inquietante. Essas constata\u00e7\u00f5es e, por outro lado, os interessantes novos desafios que se apresentaram no IFQSC e o forte apoio que recebi da comunidade local e das ag\u00eancias de fomento (FAPESP e CNPq), me levaram a decidir transformar meu est\u00e1gio tempor\u00e1rio numa transfer\u00eancia definitiva. Percebi nesse momento que no Brasil tinha encontrado as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas necess\u00e1rias e promissoras para que eu pudesse realizar um bom trabalho em pesquisa.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Quais s\u00e3o, na sua pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o, as suas principais contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e1rea de Materiais?<\/strong>\u00a0<strong>Considere na sua resposta todos os aspectos da sua atividade profissional.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Aldo Craievich<\/strong>: As principais pesquisas que desenvolvi desde 1965 at\u00e9 hoje podem ser classificadas em cinco grandes linhas que descrevo a seguir (Menciono algumas refer\u00eancias relevantes associadas a cada linha de trabalho).<\/p>\n<p><strong>(i)Separa\u00e7\u00e3o de nanofases em s\u00f3lidos v\u00edtreos<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s minha transfer\u00eancia ao Brasil em 1973 iniciei estudos experimentais mediante a t\u00e9cnica de SAXS para determinar os mecanismos respons\u00e1veis pelas primeiras etapas do processo isot\u00e9rmico de separa\u00e7\u00e3o de nanofases em vidros de B2O3-PbO-Al2O3. Dessa forma continuava a linha de pesquisa que tinha iniciado no IMAF, na Argentina. Para interpretar os resultados utilizei um modelo termodin\u00e2mico proposto por John Cahn, chamado decomposi\u00e7\u00e3o espinodal, para sistemas correspondentes ao centro do\u00a0<em>gap<\/em>\u00a0de miscibilidade, e o modelo cl\u00e1ssico de nuclea\u00e7\u00e3o e crescimento para composi\u00e7\u00f5es e temperaturas pr\u00f3ximas \u00e0 fronteira binodal. Observei, em particular, a exist\u00eancia de um desvio sistem\u00e1tico dos resultados experimentais de SAXS com respeito \u00e0s previs\u00f5es do modelo de Cahn, que atribui a um efeito de relaxa\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es iniciais na matriz v\u00edtrea, produzidas pelo processo preliminar de\u00a0<em>quenching<\/em>. Como consequ\u00eancia dessas pesquisas, redigi os dois primeiros artigos publicados em revistas indexadas referentes a pesquisas sobre materiais v\u00edtreos realizadas no Brasil\u00a0<em>[Craievich, Phys.Chem.Glasses 16, 133 (1975); Craievich, Phys.Stat.Sol. 28, 09 (1975)]<\/em>.<\/p>\n<p>Verifiquei tamb\u00e9m que o modelo da decomposi\u00e7\u00e3o espinodal n\u00e3o descreve adequadamente os est\u00e1gios avan\u00e7ados da separa\u00e7\u00e3o de nanofases no sistema v\u00edtreo B2O3-PbO-Al2O3. Foi ent\u00e3o feita uma compara\u00e7\u00e3o dos resultados das experi\u00eancias de SAXS que realizei no IFQSC em 1973\/74, referentes aos est\u00e1gios avan\u00e7ados do processo, com as predi\u00e7\u00f5es da nova teoria estat\u00edstica desenvolvida por Joel Lebowitz et al. no fim da d\u00e9cada de 1970. Os resultados conduziram a um artigo que redigi em colabora\u00e7\u00e3o com Juan M. Sanchez (ex-aluno do IMAF e hoje\u00a0<em>vice-president for research<\/em>\u00a0da\u00a0<em>Texas University<\/em>) no qual demonstramos, por primeira vez quantitativamente para materiais v\u00edtreos, que a evolu\u00e7\u00e3o temporal \u00a0da fun\u00e7\u00e3o de estrutura experimental exibe as propriedades de escala din\u00e2mica previstas pela teoria\u00a0<em>[Craievich and Sanchez, Phys.Rev.Lett. 47, 1308 (1981)].<\/em><\/p>\n<p><strong>(ii)Estrutura e transi\u00e7\u00f5es de fases em cristais moleculares<\/strong><\/p>\n<p>De volta ao IFQSC de S\u00e3o Carlos, em 1977, depois de completar um est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na Fran\u00e7a, trabalhei, em colabora\u00e7\u00e3o com Jean Doucet do<em>Laboratoire de Physique des Solides<\/em>, Orsay, Fran\u00e7a, e um aluno de doutorado, em estudos sistem\u00e1ticos das estruturas e das transi\u00e7\u00f5es de fase de um conjunto de cristais de parafinas, compostos por mol\u00e9culas lineares CnH2n+2. Todas as parafinas estudadas exibem uma estrutura formada pela superposi\u00e7\u00e3o de camadas de mol\u00e9culas de CnH2n+2, com os seus eixos maiores paralelos e com empacotamento lateral compacto. Associamos as caracter\u00edsticas da expans\u00e3o t\u00e9rmica e das transi\u00e7\u00f5es de fase destes s\u00f3lidos a varia\u00e7\u00f5es da amplitude das libra\u00e7\u00f5es das mol\u00e9culas lineares em torno do seu eixo principal. Como resultado destas pesquisas, publicamos, em poucos anos, mais de 10 artigos, todos os quais receberam um alto n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es. Em particular, um deles, sobre os estudos de fases &#8220;rotat\u00f3rias&#8221; observadas em tr\u00eas parafinas com n = 17, 19 e 21, recebeu at\u00e9 hoje 209 cita\u00e7\u00f5es\u00a0<em>[Doucet et al, J.Chem.Phys. 75, 1523 (1981)].<\/em><\/p>\n<p><strong>(iii)Processos de forma\u00e7\u00e3o de nanomateriais pelo m\u00e9todo sol-gel<\/strong><\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1980 realizei uma s\u00e9rie de pesquisas\u00a0<em>in situ<\/em>\u00a0de transforma\u00e7\u00f5es estruturais mediante o uso da linha de SAXS associada \u00e0 fonte de luz s\u00edncrotron francesa (LURE). Interessaram-me em particular as transforma\u00e7\u00f5es estruturais que ocorrem durante um novo processo, denominado sol-gel, para a obten\u00e7\u00e3o de materiais nanoestruturados. Este processo complexo consta de uma sequ\u00eancia de passos que se inicia a partir de um precursor na forma de solu\u00e7\u00e3o l\u00edquida coloidal, continua com a agrega\u00e7\u00e3o das part\u00edculas coloidais e subsequente transi\u00e7\u00e3o sol-gel, para eventualmente ser completado por secagem e sinteriza\u00e7\u00e3o do material nanoporoso resultante.<\/p>\n<p>Realizei os primeiros trabalhos nesta linha em colabora\u00e7\u00e3o com grupos de pesquisa liderados por Jerzy Zarzycki (<em>Laboratoire de Verres du CNRS, Universit\u00e9<\/em>\u00a0de\u00a0<em>Montpellier, France)<\/em>\u00a0e Andr\u00e9 Aegerter (IFQSC-S\u00e3o Carlos).\u00a0 A maioria desses estudos experimentais visava \u00e0 an\u00e1lise da cin\u00e9tica de processos e foram feitos utilizando a t\u00e9cnica de SAXS\u00a0<em>in situ<\/em>\u00a0<em>[Lours et al, J.Non-Cryst.Solids 100, 207 (1988)].<\/em><em>\u00a0<\/em>Isso foi poss\u00edvel mediante a utiliza\u00e7\u00e3o de uma linha de SAXS associada a uma fonte de luz s\u00edncrotron de alta intensidade, o que permitiu medi\u00e7\u00f5es com alta resolu\u00e7\u00e3o temporal. Em v\u00e1rios casos, utilizamos novos conceitos de geometria fractal para conseguir uma caracteriza\u00e7\u00e3o precisa das estruturas, o que nos permitiu identificar de forma clara os mecanismos de agrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 1990, continuei meus estudos sobre as estruturas de v\u00e1rios nanomateriais e de processos de tipo sol-gel com a participa\u00e7\u00e3o de Luis Esquivias e seus colaboradores (Universidade de C\u00e1diz, Espanha), e com os pesquisadores do grupo liderado por Celso Santilli (UNESP-Araraquara). Com o grupo de Luis Esquivias trabalhamos em diversos temas, com \u00eanfase em pesquisas da influ\u00eancia do uso controlado de ultrassom sobre as caracter\u00edsticas estruturais dos &#8220;sonog\u00e9is&#8221; finais.\u00a0 Com Celso Santilli e seu grupo pesquisamos uma s\u00e9rie de nanomateriais, mediante estudos de SAXS\u00a0<em>in situ,<\/em>\u00a0que contribu\u00edram, em particular, para um melhor conhecimento da estrutura, dos mecanismos da forma\u00e7\u00e3o e das rela\u00e7\u00f5es com as propriedades de v\u00e1rios tipos de nanocomp\u00f3sitos h\u00edbridos organo-inorg\u00e2nicos\u00a0<em>[Dahmouche et al, J.Phys.Chem. B 103, 4937 (1999)].\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>(iv)Prote\u00ednas em solu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Participei desde a d\u00e9cada de 1980 em numerosas colabora\u00e7\u00f5es sobre estudos estruturais de prote\u00ednas em solu\u00e7\u00e3o. Particularmente, colaborei num estudo da estrutura terci\u00e1ria da albumina que resultou ser a primeira pesquisa publicada com resultados experimentais obtidos exclusivamente no LNLS<em>[Castelletto et al, J.Chem.Phys. 109, 2825 (1998)]<\/em>. Mais tarde, publicamos um trabalho sobre a varia\u00e7\u00e3o da densidade m\u00e9dia das prote\u00ednas com a massa molecular que na literatura estava sendo considerada invariante\u00a0<em>[Fischer et al, Protein Sci. 13, 2825 (2004)].<\/em>\u00a0Este artigo teve durante uma d\u00e9cada mais de 200 cita\u00e7\u00f5es na literatura. Mais recentemente, desenvolvemos um novo m\u00e9todo de determina\u00e7\u00e3o da massa molecular de prote\u00ednas em solu\u00e7\u00e3o utilizando exclusivamente resultados de experi\u00eancias de SAXS em escala relativa\u00a0<em>[Fischer et al, J.Appl.Cryst. 43, 101 (2010)].<\/em><\/p>\n<p><strong>(v)Estrutura e estabilidade de fases de nanopart\u00edculas met\u00e1licas e solu\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas de \u00f3xidos nanoestruturadas<\/strong><\/p>\n<p>Durante a \u00faltima d\u00e9cada participei num conjunto de estudos sobre estrutura, mecanismos de forma\u00e7\u00e3o e estabilidade de fases de diversos nanomateriais, em colabora\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios grupos de pesquisa.<\/p>\n<p>Com Guinther Kellerman, um dos meus alunos de tese e hoje professor na UFPR, publicamos v\u00e1rios artigos pioneiros sobre os mecanismos de forma\u00e7\u00e3o de nanopart\u00edculas de Bi e Ag em matriz v\u00edtrea e sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o tamanho das nanopart\u00edculas de Bi e suas temperaturas de fus\u00e3o e de cristaliza\u00e7\u00e3o. Os resultados experimentais foram tamb\u00e9m quantitativamente comparados com as previs\u00f5es te\u00f3ricas correspondentes\u00a0<em>[Kellermann and Craievich, Phys.Rev. B 78, 054106 (2008)].<\/em><\/p>\n<p>Em colabora\u00e7\u00e3o com Felix Requejo e seu grupo da\u00a0<em>Universidad Nacional de La Plata<\/em>, Argentina, pesquisamos diversas caracter\u00edsticas estruturais de nanopart\u00edculas de metais nobres suportadas em matrizes porosas\u00a0<em>[Giovanetti et al, Small 8, 468 (2012)]<\/em><em>\u00a0<\/em>e, mais recentemente, de arranjos de nanoplacas de CoSi2 enterradas\u00a0 e coerentes num substrato de \u00a0Si monocristalino.<\/p>\n<p>Com Diego Lamas da\u00a0<em>Universidad Nacional de San Mart\u00edn<\/em>, Argentina, e membros de seu grupo realizamos um conjunto de pesquisas de solu\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas de \u00f3xidos nanoestruturadas. No caso particular do sistema nanoestruturado zirc\u00f4nia-esc\u00e2ndia, demonstramos que \u00e9 poss\u00edvel reter a temperatura ambiente fases de estrutura c\u00fabica e tetragonal, com propriedades interessantes, que s\u00e3o est\u00e1veis somente a altas temperaturas nesses mesmos materiais quando compostos por cristais micro ou macrosc\u00f3picos<em>\u00a0<\/em><em>[Abdala et al, RSC Adv. 2, 5205 (2012)].<\/em><\/p>\n<p><strong>b. Participa\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de institui\u00e7\u00e3o de pesquisa<\/strong><\/p>\n<p>No final de 1986 fui designado vice-diretor e chefe do departamento cient\u00edfico do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS) em Campinas.\u00a0 Nessa \u00e9poca o diretor e o chefe de projeto do LNLS eram Cylon Gon\u00e7alves da Silva e Ricardo Rodr\u00edgues, respectivamente. No LNLS iniciou-se em 1987 a constru\u00e7\u00e3o de uma fonte de luz s\u00edncrotron composta por um acelerador linear de el\u00e9trons de 120 MeV, um anel de armazenamento de el\u00e9trons (UVX) de 1,37 GeV e \u00a0um conjunto de linhas de luz.<\/p>\n<p>Durante minha gest\u00e3o no LNLS fui respons\u00e1vel pelo projeto das primeiras sete linhas de luz do LNLS, que foram desenvolvidas paralelamente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do acelerador linear e do anel de armazenamento. Tamb\u00e9m realizei um esfor\u00e7o persistente para promover a forma\u00e7\u00e3o dos futuros usu\u00e1rios do LNLS, organizando numerosos eventos (cursos de curta dura\u00e7\u00e3o, oficinas etc.) nos quais diversos especialistas (principalmente pesquisadores estrangeiros) ministraram palestras e\/ou participaram em sess\u00f5es de treinamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das tarefas administrativas e t\u00e9cnicas associadas a minhas fun\u00e7\u00f5es como vice-diretor, continuei realizando pesquisas experimentais durante per\u00edodos de uma a duas semanas por ano no laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron LURE, na Fran\u00e7a. Os conhecimentos de primeira m\u00e3o adquiridos nesses est\u00e1gios no exterior foram \u00fateis para meu trabalho relacionado com o planejamento e a constru\u00e7\u00e3o das primeiras linhas de luz do LNLS.<\/p>\n<p>A fase de constru\u00e7\u00e3o da fonte UVX e do primeiro conjunto de linhas de luz findou durante o primeiro semestre de 1997\u00a0<em>[Rodrigues et al, J.Synchr.Rad. 5, 1157 (1998)]<\/em><em>\u00a0<\/em>sendo em seguida \u00a0abertas ao uso pela comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Quando a fonte de luz s\u00edncrotron foi conclu\u00edda, em julho de 1997, considerei que tinha chegado o momento de afastar-me de minha fun\u00e7\u00e3o de vice-diretor do LNLS e continuar meu trabalho com dedica\u00e7\u00e3o exclusiva no Instituto de F\u00edsica da USP, a partir de 1998. Considerei que dessa forma eu poderia continuar minhas atividades como pesquisador usu\u00e1rio da fonte de luz e tamb\u00e9m contribuir de forma mais direta \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de estudantes e ao crescimento da comunidade de usu\u00e1rios do LNLS.<\/p>\n<p><strong>c. Participa\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de grupos e laborat\u00f3rios de pesquisa<\/strong><\/p>\n<p>Durante meus 50 anos de atividades de ensino e pesquisa trabalhei sucessivamente em cinco institui\u00e7\u00f5es: IMAF\/UNC na Argentina (1965-1972), IFQSC\/USP em S\u00e3o Carlos (1973-1980), CBPF em Rio de Janeiro (1981-1986), LNLS em Campinas (1987-1997) e IF\/USP em S\u00e3o Paulo (1998-&#8230;). As minhas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento de grupos e linhas de pesquisa nessas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o suscintamente expostas a seguir.<\/p>\n<p><strong>(i)IMAF (C\u00f3rdoba, Argentina)<\/strong>:\u00a0Criei e organizei no IMAF o seu primeiro laborat\u00f3rio de raios X, iniciei uma nova linha de pesquisa sobre separa\u00e7\u00e3o de fases de s\u00f3lidos v\u00edtreos e contribui \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de jovens estudantes na \u00e1rea de Ci\u00eancia dos Materiais. Publiquei em 1973 o primeiro artigo em colabora\u00e7\u00e3o sobre a estrutura de um material v\u00edtreo associado a pesquisas realizadas no IMAF.<\/p>\n<p><strong>(ii)IFQSC\/USP (S\u00e3o Carlos)<\/strong>:\u00a0Implantei no IFQSC em 1973 o primeiro laborat\u00f3rio de SAXS em funcionamento no Brasil. Nesse mesmo ano iniciei uma linha de pesquisa sobre materiais v\u00edtreos que se desenvolveu fortemente mais tarde pela a\u00e7\u00e3o principal de Edgar Zanotto (hoje diretor do LaMaV na UFSCar, S\u00e3o Carlos), a quem orientei na sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. Finalmente, em colabora\u00e7\u00e3o com Yvonne Mascarenhas e um aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, conclu\u00edmos em 1984 pesquisas estruturais pioneiras de prote\u00ednas em solu\u00e7\u00e3o realizadas mediante\u00a0 uso de SAXS.<\/p>\n<p><strong>(iii)CBPF (Rio de Janeiro)<\/strong>:\u00a0Implantei o primeiro laborat\u00f3rio de raios X do CBPF composto por um difrat\u00f4metro de policristais e uma c\u00e2mara de SAXS. Minha principal atividade no CBPF durante o per\u00edodo 1981-86\u00a0 foi a participa\u00e7\u00e3o nos estudos de viabilidade, tarefas de difus\u00e3o e sess\u00f5es de discuss\u00e3o que conduziram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, em 1986, do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron.<\/p>\n<p><strong>(iv)LNLS (Campinas)<\/strong>:\u00a0Durante meu trabalho no LNLS, al\u00e9m de realizar as atividades associadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da fonte de luz sincrotron descritas anteriormente, promovi e coordenei um dos projetos da primeira s\u00e9rie aprovada em 1996 pelo Programa de Apoio a N\u00facleos de Excel\u00eancia (PRONEX) do CNPq.\u00a0 Neste projeto sobre \u201cPesquisa e caracteriza\u00e7\u00e3o estrutural e magn\u00e9tica de materiais\u201d participaram 22 pesquisadores\/docentes do LNLS, IF\/USP, IF\/UNICAMP, IQ\/UNESP e DF\/UFPR.<\/p>\n<p><strong>(v)IFUSP (S\u00e3o Paulo)<\/strong>:<strong>\u00a0<\/strong>Contribui \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio de Cristalografia do IFUSP, principalmente mediante minha participa\u00e7\u00e3o no planejamento do projeto e na incorpora\u00e7\u00e3o de um novo aparelho de SAXS de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o com feixe de se\u00e7\u00e3o pontual. Este aparelho permite estudos de SAXS e GISAXS a temperatura ambiente e a altas temperaturas com sistema automatizado de coleta de dados. Esse moderno equipamento foi o primeiro em opera\u00e7\u00e3o no Brasil e provavelmente tamb\u00e9m em Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><strong>d. Contribui\u00e7\u00e3o em pol\u00edtica cient\u00edfica<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s realizar um est\u00e1gio sab\u00e1tico no laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron LURE, Orsay, Fran\u00e7a, de volta ao CBPF em 1982, participei em reuni\u00f5es de um grupo pequeno de pesquisadores que discutia a eventual viabilidade da constru\u00e7\u00e3o uma fonte de luz s\u00edncrotron no Brasil. Nesse mesmo ano, o presidente do CNPq depois de manifestar o seu apoio \u00e0 iniciativa, decidiu criar o Projeto Radia\u00e7\u00e3o Sincrotr\u00f3nica (PRS\/CNPq) coordenado pelo diretor do CBPF, Roberto Lobo. No contexto desse projeto atuei como coordenador do Comit\u00ea Executivo e membro do Conselho T\u00e9cnico Cient\u00edfico (CTC). Em minha fun\u00e7\u00e3o de coordenador do Comit\u00ea Executivo organizei reuni\u00f5es, palestras e visitas de especialistas estrangeiros. Tamb\u00e9m colaborei na elabora\u00e7\u00e3o de um primeiro projeto conceitual de uma fonte de radia\u00e7\u00e3o s\u00edncrotron e participei na reda\u00e7\u00e3o de uma proposta de plano diretor para sua implanta\u00e7\u00e3o. Detalhes dos trabalhos desenvolvidos foram expostos no artigo \u201cProposta preliminar de estudo de viabilidade de um Laborat\u00f3rio Nacional de Radia\u00e7\u00e3o S\u00edncrotron\u201d\u00a0<em>[Lobo et al, CBPF\/PRS 1 (1983)]<\/em>\u00a0e no relat\u00f3rio \u201cPRS: Atividades e Perspectivas\u201d\u00a0<em>[Craievich, CBPF\/PRS 14 (1984)].<\/em>\u00a0Coordenei tamb\u00e9m um programa de bolsas do CNPq que permitiram a jovens brasileiros acessar por primeira vez fontes de luz s\u00edncrotron no exterior e adquirir assim experi\u00eancia no seu uso.<\/p>\n<p>No per\u00edodo 1983-1985, apresentei na Argentina o projeto do s\u00edncrotron brasileiro, no Instituto Balseiro de Bariloche, na CNEA de Constituyentes, em reuni\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o F\u00edsica Argentina (AFA) em La Plata e no Simp\u00f3sio Latino Americano de F\u00edsica do Estado S\u00f3lido (SLAFES) em Mar del Plata.<\/p>\n<p>Por outro lado, participei na fase de funda\u00e7\u00e3o de duas novas organiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas: a Sociedade Brasileira de Pesquisa de Materiais (SBPMat) no ano 2000, que at\u00e9 hoje organizou treze encontros<strong>\u00a0<\/strong>anuais, e a Rede Latino Americana Mat\u00e9ria, que promoveu desde 1995 doze reuni\u00f5es cient\u00edficas (Simp\u00f3sios Mat\u00e9ria) em oito diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><strong>e. Forma\u00e7\u00e3o de novos cientistas<\/strong><\/p>\n<p>Desde 1965 at\u00e9 2009 ministrei diversas disciplinas de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nas diferentes institui\u00e7\u00f5es da Argentina e do Brasil onde trabalhei. Por outro lado, desde 1982 at\u00e9 hoje, participei em cursos curtos, escolas e oficinas de forma\u00e7\u00e3o e treinamento de usu\u00e1rios de luz s\u00edncrotron em diversas cidades do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Peru, Col\u00f4mbia, Venezuela, Cuba e M\u00e9xico. Tamb\u00e9m contribui \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios da luz s\u00edncrotron fora da Am\u00e9rica Latina, atuando como diretor e professor de uma s\u00e9rie de escolas sobre aplica\u00e7\u00f5es da luz s\u00edncrotron organizadas pelo Centro Internacional de F\u00edsica Te\u00f3rica (ICTP), em Trieste, It\u00e1lia. Essa atividade no ICTP se prolongou durante quase 20 anos, num total de dez escolas sucessivas de quatro semanas cada uma, realizadas bianualmente desde 1991 at\u00e9 2008.<\/p>\n<p>Por outro lado, orientei 18 alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (nove mestrandos e nove\u00a0doutorandos). A maioria de meus antigos orientandos continuou atuando como pesquisadores e professores em diversas universidades, nos estados de S\u00e3o Paulo, Bahia e Paran\u00e1, e em centros de pesquisa em Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. Um deles\u00a0trabalha numa empresa industrial do interior do Estado de S\u00e3o Paulo e outro, de origem francesa, que orientei na modalidade de cotutela com pesquisador da\u00a0<em>Universit\u00e9 Paris V<\/em>, atua em laborat\u00f3rio de pesquisa industrial na B\u00e9lgica. Mantenho ainda colabora\u00e7\u00f5es com dois de meus antigos orientandos em pesquisas de propriedades estruturais e transi\u00e7\u00f5es de fase de nanomateriais e em estudos mediante SAXS de prote\u00ednas e outras macromol\u00e9culas em solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; <\/strong><strong>O que o motivou a participar da hist\u00f3ria do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron? <\/strong><\/em><\/p>\n<p>Aldo Craievich: &#8211; Em 1981, j\u00e1 havendo ingressado ao CBPF, em Rio de Janeiro, decidi passar um ano sab\u00e1tico no laborat\u00f3rio de luz s\u00edncrotron LURE, em Orsay, Fran\u00e7a.\u00a0 A minha motiva\u00e7\u00e3o para esse est\u00e1gio surgiu da possibilidade que se me apresentava de acessar um novo tipo de instrumenta\u00e7\u00e3o experimental que me permitiria realizar pesquisas de meu interesse, imposs\u00edveis em laborat\u00f3rios cl\u00e1ssicos, tais como estudos cin\u00e9ticos in situ de varia\u00e7\u00f5es estruturais r\u00e1pidas a altas temperaturas de materiais v\u00edtreos.<\/p>\n<p>Finalizado meu ano sab\u00e1tico no LURE e j\u00e1 de retorno ao CBPF, em setembro de 1982, fui convidado pelo Diretor do CBPF para participar nas atividades formais que visavam \u00e0 futura constru\u00e7\u00e3o de uma fonte de luz s\u00cdncrotron no Brasil. Minha motiva\u00e7\u00e3o para participar no CBPF nos trabalhos preliminares desse projeto e depois no LNLS na fase de constru\u00e7\u00e3o da fonte de luz foi consequ\u00eancia de uma conjun\u00e7\u00e3o de raz\u00f5es. Eu considerei que (i) a eventual futura disponibilidade local de uma fonte de luz s\u00edncrotron seria de grande relev\u00e2ncia para o desenvolvimento da ci\u00eancia brasileira, (ii) a disponibilidade de um s\u00cdncrotron no Brasil seria, em particular, muito \u00fatil para o avan\u00e7o de minhas linhas de pesquisa em andamento, e (iii) eu havia adquirido, j\u00e1 em 1982, a compet\u00eancia e a experi\u00eancia necess\u00e1rias para participar de forma ativa nas tarefas propostas.<\/p>\n<p><em><strong>Boletim da SBPMat: &#8211; Deixe uma mensagem para nossos leitores que est\u00e3o iniciando suas carreiras de cientistas.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Aldo Craievich: &#8211; Considero que uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e importante para ser um bom cientista na \u00e1rea na qual eu trabalho \u00e9 sentir um forte interesse por entender e tratar de explicar a natureza essencial e as propriedades relevantes da mat\u00e9ria que nos rodeia. Por isso minha primeira mensagem \u00e9 para encorajar nas suas carreiras cient\u00edficas os jovens estudantes que de fato sentem esse tipo de interesse.<\/p>\n<p>Os estudos que transformam um jovem estudante num bom cientista dependem menos da natureza dos temas espec\u00edficos e muito mais da forma como os novos conhecimentos s\u00e3o apresentados e adquiridos. O estudante e o professor devem considerar cada novo tema de estudo como um desafio a ser enfrentado. Por outro lado, o \u00a0estudante deve valorizar o trabalho mais dif\u00edcil dos professores que apresentam cada novo tema visando sua compreens\u00e3o profunda, evitando caminhos f\u00e1ceis. Nesse sentido minha segunda mensagem aos jovens estudantes \u00e9 a de, na medida do poss\u00edvel, procurar os ensinamentos, conselhos e orienta\u00e7\u00e3o de professores n\u00e3o somente destacados, mas tamb\u00e9m exigentes.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es pessoais de todo pesquisador para o progresso da ci\u00eancia devem ser consideradas por eles, em geral, como relativamente modestas. A minha terceira mensagem est\u00e1 relacionada com uma qualidade importante que, a meu ver, deve possuir todo pesquisador novo e tamb\u00e9m aqueles com maior experi\u00eancia: uma atitude permanente de respeito pelo trabalho alheio. Uma mensagem muito clara sobre este tema foi mencionada por Balseiro, diretor do Instituto de F\u00edsica onde realizei meus estudos de gradua\u00e7\u00e3o, em seu discurso aos alunos rec\u00e9m-formados na primeira turma desse Instituto em 1958. Ele disse \u201cN\u00e3o creio que haja um \u00edndice mais pat\u00e9tico de incultura, excetuando a viol\u00eancia, que a falta de respeito pelo trabalho alheio. Essa falta de respeito \u00e9 uma forma de destrui\u00e7\u00e3o e quem destr\u00f3i o fruto do trabalho alheio bem pode ser qualificado de selvagem, isto \u00e9, a incultura em sua mais pr\u00edstina forma\u201d\u00a0<em>[<\/em><em><a href=\"http:\/\/www.ib.edu.ar\/index.php\/historia-del-ib\/primera-graduacion.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.ib.edu.ar\/index.php\/historia-del-ib\/primera-graduacion.html<\/a>].<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Para saber mais sobre o professor Aldo Craievich: <\/strong>artigo \u201c<em>Un f\u00edsico del Mercosur<\/em>\u201d publicado pela revista \u201c<em>Ciencia e Investigaci\u00f3n. Rese\u00f1as<\/em>\u201d, tomo 1, n<sup>o<\/sup>\u00a03, dispon\u00edvel aqu\u00ed:\u00a0<em><a href=\"http:\/\/aargentinapciencias.org\/images\/stories\/R-tomo1-3\/RevRes-1-3xArt\/7a24Craievich-ceiRes-1-3.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/aargentinapciencias.org\/images\/stories\/R-tomo1-3\/RevRes-1-3xArt\/7a24Craievich-ceiRes-1-3.pdf<\/a>.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de meio s\u00e9culo dedicado \u00e0 pesquisa em F\u00edsica da Mat\u00e9ria Condensada, o cientista Aldo Felix Craievich\u00a0fez relevantes contribui\u00e7\u00f5es ao estudo de estruturas e transforma\u00e7\u00f5es estruturais de s\u00f3lidos, pesquisando vidros (tema no qual foi pioneiro em pesquisa cient\u00edfica no Brasil), parafinas, materiais obtidos por sol-gel e diversos nanomateriais. 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