{"id":11709,"date":"2026-09-22T16:46:53","date_gmt":"2026-09-22T19:46:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/?p=11709"},"modified":"2026-09-22T19:04:40","modified_gmt":"2026-09-22T22:04:40","slug":"entrevista-com-ana-flavia-nogueira-distinguida-pela-sbpmat-com-o-premio-jose-arana-varela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/entrevista-com-ana-flavia-nogueira-distinguida-pela-sbpmat-com-o-premio-jose-arana-varela\/","title":{"rendered":"Entrevista com Ana Fl\u00e1via Nogueira, distinguida pela SBPMat com o Pr\u00eamio Jos\u00e9 Arana Varela"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/foto-ana-flavia_sbpmat-e1790106610862.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-11710 size-full\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/foto-ana-flavia_sbpmat-e1790106610862.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"489\" \/><\/a>Quando estava na gradua\u00e7\u00e3o, Ana Fl\u00e1via Nogueira teve a chance de ver um dispositivo gerando eletricidade a partir da luz do Sol. Ela se encantou com o fen\u00f4meno e pouco depois, no mestrado, j\u00e1 estava trabalhando em uma pesquisa disruptiva com c\u00e9lulas solares. Esse foi o in\u00edcio de uma trajet\u00f3ria cient\u00edfica marcada por diversas incurs\u00f5es pelo mundo dos materiais para tecnologias fotovoltaicas emergentes.<\/p>\n<p>Trinta anos se passaram desde ent\u00e3o e, hoje, a professora Ana Flavia \u00e9 uma refer\u00eancia internacional na \u00e1rea, autora de artigos cient\u00edficos pioneiros que contam com centenas de cita\u00e7\u00f5es e de publica\u00e7\u00f5es em algumas das revistas de maior impacto em Materiais e Energia.<\/p>\n<p>Nascida em Bragan\u00e7a Paulista, no estado de S\u00e3o Paulo, em 1973, ela se formou no Bacharelado em Qu\u00edmica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em 1996 e obteve os diplomas de mestre e doutora em Qu\u00edmica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1998 e 2001, respectivamente.<\/p>\n<p>Foi pesquisadora de p\u00f3s-doutorado no Imperial College London (Reino Unido) entre 2001 e 2002 e na USP em 2003 e 2004. Ainda em 2004, tornou-se professora do Instituto de Qu\u00edmica da Unicamp, onde criou, no ano seguinte, o Laborat\u00f3rio de Nanotecnologia e Energia Solar (LNES), o qual ela coordena at\u00e9 agora. Mais de 70 trabalhos de pesquisa de gradua\u00e7\u00e3o, mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado foram orientados por ela nestes 22 anos.<\/p>\n<p>Em 2016, foi uma das coordenadoras do XV B-MRS Meeting, realizado na cidade de Campinas (SP).<\/p>\n<p>Entre 2017 e 2018, foi pesquisadora visitante na Stanford University (Estados Unidos). Em 2020, ganhou o Brazilian Women in Chemistry and Related Sciences Award, promovido pela American Chemical Society (ACS) e a Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica (SBQ), na categoria \u201clideran\u00e7a na academia\u201d. Em 2022, foi eleita membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC) na \u00e1rea de Ci\u00eancias Qu\u00edmicas e Fellow da Royal Society of Chemistry.<\/p>\n<p>Em 2025, foi nomeada membro do comit\u00ea gestor do Fundo Setorial de Energia (CT-Energ), ligado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o do Brasil, enquanto representante da comunidade cient\u00edfica. No final desse ano, Ana Fl\u00e1via ganhou o Pr\u00eamio de Reconhecimento Acad\u00eamico \u201cZeferino Vaz\u201d da Unicamp pelo seu destaque na doc\u00eancia, pesquisa e extens\u00e3o no Instituto de Qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Atualmente, al\u00e9m de ser professora e pesquisadora da Unicamp, Ana Fl\u00e1via \u00e9 diretora do Centro de Inova\u00e7\u00e3o em Novas Energias (CINE), centro de pesquisa constitu\u00eddo pela Fapesp e a Shell em 2018. O CINE re\u00fane mais de 250 pesquisadores de onze institui\u00e7\u00f5es em torno de projetos destinados a aprimorar tecnologias sustent\u00e1veis para a gera\u00e7\u00e3o e armazenamento de energia renov\u00e1vel. A cientista tamb\u00e9m atua como editora associada em tr\u00eas prestigiosos peri\u00f3dicos: Journal of Materials Chemistry C e Materials Advances, ambos da Royal Society of Chemistry, e Materials Today Chemistry, da Elsevier.<\/p>\n<p>Neste ano, a SBPMat elegeu esta cientista da nossa comunidade para receber o Pr\u00eamio Jos\u00e9 Arana Varela, destinado a pesquisadores destacados que atuam no Brasil. Como parte da distin\u00e7\u00e3o, a professora Ana Fl\u00e1via vai proferir uma palestra plen\u00e1ria sobre c\u00e9lulas solares de perovskita, no dia 30 de setembro, dentro do XXIV B-MRS Meeting.<\/p>\n<p>Saiba mais sobre Ana Fl\u00e1via e a sua frut\u00edfera e inspiradora trajet\u00f3ria profissional, nesta entrevista que ela concedeu ao Boletim da SBPMat.<\/p>\n<p><strong>Conte-nos o que a levou a se tornar uma cientista. <\/strong><\/p>\n<p>Eu posso dizer que eu sempre fui uma crian\u00e7a muito curiosa, pelo menos de acordo com os relatos da minha m\u00e3e. Era curiosa para tudo. A minha m\u00e3e conta que, assim que chegava carta em casa, eu ia l\u00e1 e abria, por pura curiosidade. E eu sempre perguntava o porqu\u00ea. Ent\u00e3o, acho que foi natural eu querer saber mais das coisas, querer pesquisar. No segundo colegial, decidi que queria estudar Qu\u00edmica na universidade. Eu estudava num col\u00e9gio de madres e a professora que dava aula de Qu\u00edmica era uma freira espanhola. Ela era muito divertida, muito engra\u00e7ada, e com ela eu me apaixonei pela F\u00edsico-qu\u00edmica. Como ela falava enrolado e n\u00e3o tinha uma boa did\u00e1tica, eu tinha que estudar sozinha. A\u00ed, eu entendia a mat\u00e9ria e, no dia seguinte, eu explicava o conte\u00fado para meus colegas. Foi assim que, com 16 para 17 anos, decidi que queria fazer Qu\u00edmica.<\/p>\n<p><strong>Naquele momento voc\u00ea j\u00e1 se enxergava como uma futura pesquisadora? <\/strong><\/p>\n<p>Naquele momento, eu n\u00e3o pretendia fazer mestrado, doutorado, p\u00f3s-doutorado. Eu sempre gostei de estudar, mas nada foi muito planejado na minha vida. Naquela \u00e9poca, a gente deixava a vida nos levar, a gente ia fazendo as coisas que a gente gostava e as oportunidades iam aparecendo&#8230; Ent\u00e3o, depois do col\u00e9gio, eu passei no vestibular da USP, da UNESP e da Unicamp, mas optei pela USP, por S\u00e3o Paulo. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi um caminho meio que natural, porque, logo no final do primeiro ano, eu j\u00e1 comecei a fazer inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com a professora Viktoria Klara Lakatos Os\u00f3rio, que tinha sido uma das alunas mais brilhantes do Instituto de Qu\u00edmica. Ela sabia muita, muita Qu\u00edmica. Eu continuei at\u00e9 o fim do curso fazendo inicia\u00e7\u00e3o no laborat\u00f3rio da Viktoria. Com meu jeito de ser, eu sempre conversava com todo mundo no corredor, perguntava o que eles faziam e tal. E \u201cvivia\u201d na salinha dos alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Era muito engra\u00e7ado, porque eles falavam que eu n\u00e3o podia sentar ali, que s\u00f3 teria uma mesa quando fosse aluna da p\u00f3s, mas eu era amiga de algumas das estudantes e vivia nessa sala. Ent\u00e3o, eu acho que ver o trabalho delas, ter contato com a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o muito cedo, logo no primeiro ano, isso fez uma diferen\u00e7a. Eu me apaixonei pela pesquisa, e a\u00ed foi natural depois seguir para o mestrado.<\/p>\n<p><strong>Como foi que voc\u00ea come\u00e7ou a trabalhar com c\u00e9lulas solares?<\/strong><\/p>\n<p>E eu gostava muito de ver coisas aplicadas, n\u00e3o queria fazer pesquisa fundamental. Sempre estava questionando: \u201cpor que eu estou estudando isso?\u201d, \u201cqual a aplica\u00e7\u00e3o disso?\u201d, \u201cpor que isso \u00e9 importante?\u201d. E \u00e0s vezes a gente tem sorte, n\u00e9? Teve um dia que eu estava l\u00e1 no IQ-USP e vi o professor Carlo Bignozzi, da Universidade de Ferrara, na It\u00e1lia, que tinha uma colabora\u00e7\u00e3o com a professora Neyde Yukie Murakami Iha. Ele estava mostrando um prot\u00f3tipo grande de c\u00e9lula de TiO<sub>2<\/sub> sensibilizado por corante, que a gente chamava de \u201cc\u00e9lula TiO<sub>2<\/sub> corante\u201d. Era um dia de sol e ele colocava a c\u00e9lula num banco ao sol e a tapava com uma folha de vez em quando. A\u00ed a gente via no volt\u00edmetro que a c\u00e9lula estava gerando eletricidade a partir da luz solar. Aquilo me fascinou, a convers\u00e3o de energia luminosa em eletricidade. E \u00e9 um tema de pesquisa que tem muita Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica, que eu gostava muito. Ent\u00e3o, decidi que queria estudar Materiais no mestrado. Mas a USP n\u00e3o era forte em Materiais naquela \u00e9poca. Os principais qu\u00edmicos de materiais estavam em S\u00e3o Carlos, ou na Unicamp. Eu lembro que eu tive uma conversa com o professor Henrique Toma, do IQ-USP, e ele falou que na Unicamp eu iria encontrar v\u00e1rias pessoas que trabalhavam com Qu\u00edmica do Estado S\u00f3lido\/ materiais, como os professores Marco-Aur\u00e9lio de Paoli, Fernando Galembeck e Oswaldo Alves. E eu achei uma boa ideia conhecer uma outra universidade e uma outra cidade. Depois disso, numa reuni\u00e3o da Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica (SBQ), na qual eu fui apresentar meus trabalhos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, eu vi o pr\u00f3prio professor Marco-Aur\u00e9lio de Paoli. Eu me apresentei e falei que estava pensando em fazer mestrado na Unicamp. A\u00ed ele falou sobre um projeto em c\u00e9lulas TiO2 corante \u2013 o mesmo tipo de c\u00e9lula que eu tinha visto l\u00e1 nos corredores do IQ-USP nas m\u00e3os do professor Carlo Bignozzi. O Marco estava fazendo um sab\u00e1tico de seis meses na Alemanha naquele momento, estudando essas c\u00e9lulas. Ent\u00e3o, quando ele voltou \u00e0 Unicamp, ele precisou de algu\u00e9m para come\u00e7ar o projeto de c\u00e9lulas solares e eu passei na sele\u00e7\u00e3o para fazer mestrado. Foi perfeito! Ent\u00e3o, eu vim para a Unicamp para fazer o mestrado com o professor Marco-Aur\u00e9lio e a gente manteve uma colabora\u00e7\u00e3o com a professora Neyde. Era um mundo novo, s\u00f3 tinha n\u00f3s na Unicamp e a Neyde em S\u00e3o Paulo trabalhando com c\u00e9lulas sensibilizadas com corantes. O Marco tinha um grupo grande, de quase 30 pessoas, mas eu estava sozinha no meu tema de pesquisa, e o Marco era novo no tema. Ent\u00e3o, para mim, o mestrado foi um desafio. O doutorado j\u00e1 foi mais f\u00e1cil. Todo meu trabalho de mestrado e doutorado foi dedicado a produzir um eletr\u00f3lito polim\u00e9rico para as c\u00e9lulas TiO<sub>2<\/sub> corante. Fizemos o primeiro trabalho da literatura sobre esse tema. Por isso, meus artigos, tanto os do mestrado quando os do doutorado, s\u00e3o muito citados, tiveram impacto internacional. No doutorado, eu senti falta de discutir com outros pesquisadores, de colaborar. A\u00ed eu fiz um est\u00e1gio \u201csandu\u00edche\u201d no Imperial College com o professor James Durant, que me abriu muitas portas tamb\u00e9m. Novamente meu jeito de conversar com todo mundo me levou logo a construir networking, que eu acho um ponto muito importante na minha carreira. E com os artigos muito bons que fizemos, muito citados, o professor James me convidou para voltar para Londres no p\u00f3s-doutorado. Eu voltei, mas querendo fazer algo diferente, aprender coisas novas. Acho que essa \u00e9 uma caracter\u00edstica muito minha, a estabilidade, a repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me atrai. Ent\u00e3o eu disse que queria trabalhar com energia solar, mas n\u00e3o com as c\u00e9lulas de TiO<sub>2<\/sub> estabilizado com corante. O James estava come\u00e7ando um projeto com o professor Niyazi Serdar Sariciftci da \u00c1ustria, em c\u00e9lulas solares org\u00e2nicas. E fui eu que toquei o projeto. Tanto \u00e9 assim, que eu tenho o cr\u00e9dito de ter sido a primeira pessoa a montar uma c\u00e9lula solar org\u00e2nica no Imperial College. Isso foi l\u00e1 em 2002. Eu aprendi muito nesse projeto, mas, depois de um ano, eu quis voltar, por quest\u00f5es pessoais e porque o Brasil estava com muitas oportunidades de vagas em universidades. Eu poderia ter ficado no Imperial College e estar morando em Londres, mas n\u00e3o me arrependo. Aqui fa\u00e7o mais diferen\u00e7a. Ent\u00e3o eu voltei no Brasil e voltei \u00e0 USP, no laborat\u00f3rio do professor Henrique Toma, para trabalhar com novamente com c\u00e9lulas solares de TiO<sub>2<\/sub> corante, s\u00f3 que sob outra perspectiva. Eles tinham um monte de mol\u00e9culas fant\u00e1sticas, que a gente chamava de supramol\u00e9culas, e a ideia era testar essas supramol\u00e9culas nas c\u00e9lulas solares. Tamb\u00e9m rendeu muitos artigos, uns sete artigos publicados. Logo apareceu um concurso na Unicamp e, desde 2004, sou docente no Instituto de Qu\u00edmica da Unicamp.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sempre trabalhou com c\u00e9lulas solares?<\/strong><\/p>\n<p>Agora estou na minha quarta tecnologia de c\u00e9lula fotovoltaica emergente: trabalhei com a TiO2 corante, com c\u00e9lulas org\u00e2nicas, com c\u00e9lulas h\u00edbridas org\u00e2nicas-inorg\u00e2nicas, e agora com as de perovskita. Como eu falei, gosto de fazer coisas diferentes. Por isso, tamb\u00e9m trabalhei bastante com nanocomp\u00f3sitos, nanotubos de carbono, gera\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio, quantum dots de calcogenetos de sulfeto e seleneto de c\u00e1dmio e quantum dots de perovskita. Vamos ver qual ser\u00e1 a pr\u00f3xima que a Ana Fl\u00e1via vai inventar!<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as suas descobertas cient\u00edficas favoritas entre todas que voc\u00ea fez ao longo da carreira?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a minha favorita \u00e9 a minha primeira descoberta, que fiz no mestrado e doutorado, que foi a primeira c\u00e9lula de TiO2 de estado s\u00f3lido. Acho que essa foi a grande descoberta. Tem tamb\u00e9m uma descoberta muito legal que foi a do p\u00f3s-doc em c\u00e9lulas org\u00e2nicas. Naquele momento, todo mundo sabia que a transfer\u00eancia de el\u00e9trons do pol\u00edmero para o fulereno era muito r\u00e1pida, da ordem de fentosegundos, mas ningu\u00e9m sabia sobre a rea\u00e7\u00e3o de volta, que a gente chama de recombina\u00e7\u00e3o. E o processo de recombina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante quanto o processo de inje\u00e7\u00e3o de cargas. Ningu\u00e9m tinha ideia de que era poss\u00edvel medir isso, e a gente mediu no meu p\u00f3s-doutorado. Ent\u00e3o, isso tamb\u00e9m foi uma descoberta bem interessante, saber quanto o el\u00e9tron demorava para ele voltar de novo do fulereno para o pol\u00edmero. Al\u00e9m disso, eu gosto muito do trabalho que a gente tem feito mais recentemente com o estudo da perovskita por meio de t\u00e9cnicas in situ e operando, com e sem radia\u00e7\u00e3o s\u00edncrotron. Acho que \u00e9 por esse trabalho que o meu grupo hoje se destaca na comunidade cient\u00edfica. Esse trabalho come\u00e7ou l\u00e1 no meu sab\u00e1tico com o professor Michael Toney, no s\u00edncrotron de Stanford, o SLAC, e consistiu em usar as t\u00e9cnicas dispon\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o s\u00edncrotron para entender mais sobre a perovskita. A gente descobriu muita coisa dentro da pesquisa fundamental: como a perovskita se forma a partir da solu\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o as etapas da cristaliza\u00e7\u00e3o do filme. Acho que a gente contribuiu bastante nesse sentido.<\/p>\n<p><strong>Quais foram as principais dificuldades que voc\u00ea encontrou para desenvolver sua carreira? Elas s\u00e3o relacionadas ao fato de ser mulher?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu acho que sempre trabalhei muito porque sou apaixonada pelo que eu fa\u00e7o. E como eu sempre trabalhei muito, nunca tive muito tempo para ficar reclamando. Eu tinha que trabalhar, eu gosto do que eu fa\u00e7o e acho que eu sempre dei muita conta de fazer muita coisa. Al\u00e9m disso, eu nunca fui uma pessoa perfeccionista, o que acho que me ajudou, porque me permitiu fazer bastante coisa. Quando voc\u00ea quer fazer uma coisa perfeita, eu acho que voc\u00ea gasta muita energia. Mas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s dificuldades, eu n\u00e3o sei se as maiores foram por ser mulher ou por ser um jovem pesquisador trazendo uma pesquisa nova para o Brasil. Ningu\u00e9m pesquisava c\u00e9lulas solares org\u00e2nicas. Eu fui a primeira pessoa a montar uma c\u00e9lula solar org\u00e2nica no Imperial College. Nosso trabalho \u00e9 super bem citado. Eu vim com uma experi\u00eancia muito grande de l\u00e1, e quando eu cheguei aqui, as pessoas, as ag\u00eancias de fomento, os colegas n\u00e3o sabiam o que era essa pesquisa das c\u00e9lulas solares org\u00e2nicas. Na \u00e9poca, era disruptivo. E surgia a d\u00favida: ser\u00e1 que ela \u00e9 capaz de fazer? Ent\u00e3o, eu me lembro que meu primeiro projeto que eu pedi \u00e0 FAPESP n\u00e3o foi aprovado. Para fazer a pesquisa, eu precisava de uma glovebox para fazer a c\u00e9lula l\u00e1 dentro, e o financiamento foi negado. Infelizmente os revisores n\u00e3o conseguiram enxergar o quanto aquela pesquisa era in\u00e9dita no Brasil. A minha dificuldade maior foi realmente no in\u00edcio, com as ag\u00eancias de fomento, que, na verdade, s\u00e3o feitas pelos nossos colegas, porque s\u00e3o eles que julgam os nossos projetos. E eles n\u00e3o tiveram essa percep\u00e7\u00e3o de falar \u201cpoxa, \u00e9 uma pesquisa disruptiva, ela est\u00e1 pedindo esse equipamento, vamos dar para ela esse equipamento\u201d. Com isso, eu n\u00e3o pude levar adiante essa pesquisa em c\u00e9lulas org\u00e2nicas, porque a gente n\u00e3o conseguia competir com a efici\u00eancia que tinha l\u00e1 fora, e a\u00ed surgiu a ideia de trabalhar com c\u00e9lulas h\u00edbridas. Em vez de usar o fulereno como aceitador de el\u00e9trons, decidi trabalhar com nanopart\u00edculas inorg\u00e2nicas. Eu adoro fazer nanopart\u00edculas inorg\u00e2nicas. Al\u00e9m disso, essas c\u00e9lulas j\u00e1 s\u00e3o de baixa efici\u00eancia, ent\u00e3o n\u00e3o iria ter muito problema se eu publicasse que consegui uma c\u00e9lula com 2% de efici\u00eancia, porque era isso que todo mundo conseguia na \u00e9poca. Ent\u00e3o, a pesquisa foi para outro rumo que n\u00e3o era o inicial. Se essas dificuldades aconteceram porque eu era jovem, porque era mulher, porque estava chegando do exterior com ideias novas, porque as pessoas n\u00e3o me conheciam&#8230; n\u00e3o sei dizer. Outro ponto foi entrar na comunidade da F\u00edsica. Eu trabalho muito com F\u00edsica e hoje tenho \u00f3timos colegas dessa \u00e1rea, mas no in\u00edcio foi dif\u00edcil. Acho que hoje os f\u00edsicos me respeitam muito mais do que antes. Por fim, hoje, que estou na dire\u00e7\u00e3o do CINE, posso dizer com certeza que a mulher \u00e9 sempre muito mais questionada que o homem quando ela toma uma decis\u00e3o, ent\u00e3o as coisas demoram muito mais para acontecer. Ainda mais no nosso meio acad\u00eamico, que \u00e9 majoritariamente masculino.<\/p>\n<p><strong>E como voc\u00ea superou esses desafios para progredir na carreira?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que eu sempre fui tocando a minha carreira e n\u00e3o me deixei abalar. Esse talvez seja um ponto importante. Nunca me deixei abater pelos coment\u00e1rios, dificuldades ou negativas. Por exemplo, eu tive que matar uma pesquisa que poderia ter sido disruptiva no Brasil, mas eu fui arrumar outra coisa para colocar no lugar. Acho que se eu ficasse gastando energia em brigar, n\u00e3o teria os mesmos resultados. Eu tento por aqui, se n\u00e3o d\u00e1, vou por ali logo, porque n\u00e3o tenho tempo para perder. N\u00e3o fico muito parada. Acho que isso foi me motivando sempre.<\/p>\n<p><strong>Conte-nos como voc\u00ea conseguiu publicar artigos em peri\u00f3dicos de alt\u00edssimo impacto.<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que para isso \u00e9 importante sempre olhar as oportunidades e pensar um pouco fora da caixa. Tem que ver algo que as outras pessoas n\u00e3o est\u00e3o fazendo, pensar diferente, olhar para um lado que ningu\u00e9m est\u00e1 olhando. No in\u00edcio, pode at\u00e9 parecer imposs\u00edvel, mas temos que testar as hip\u00f3teses. Por exemplo, no estudo das perovskitas que fizemos com radia\u00e7\u00e3o s\u00edncrotron, eu pensei na oportunidade de utilizar o S\u00edrius, um laborat\u00f3rio maravilhoso que fica a dez minutos da minha sala. Eu acho que temos que estar sempre muito atentos \u00e0s novas tend\u00eancias, ao que est\u00e1 come\u00e7ando a surgir, e pensar se encontramos oportunidades para a nossa pesquisa. Sempre procurei fazer algo novo e n\u00e3o ficar s\u00f3 na pesquisa incremental, que \u00e9 um tipo de pesquisa que nunca me atraiu.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea costuma valorizar e defender a pesquisa feita na Am\u00e9rica Latina em diversas situa\u00e7\u00f5es, por exemplo, no seu posicionamento em debates ou na organiza\u00e7\u00e3o de eventos e edi\u00e7\u00f5es especiais para a Am\u00e9rica Latina. O que a motiva escolher essa abordagem?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu sempre trago essa abordagem porque eu acho que temos excelentes grupos de pesquisa na Am\u00e9rica Latina, mas n\u00e3o somos vistos l\u00e1 fora. Eu me preocupo muito, por exemplo, com os editores-chefes de revistas que n\u00e3o conhecem a pesquisa que \u00e9 feita na Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o estou falando de quando comecei a minha carreira h\u00e1 30 anos atr\u00e1s, mas hoje. Atualmente, a Am\u00e9rica Latina, o Brasil, t\u00eam grupos que fazem pesquisa t\u00e3o competitiva quanto a que \u00e9 feita na Europa, Estados Unidos ou \u00c1sia. Aqui no pa\u00eds temos o S\u00edrius e, nessa m\u00e1quina fant\u00e1stica, conseguimos fazer experimentos que s\u00f3 a gente pode fazer. Veja que oportunidade! Ent\u00e3o, a gente faz uma pesquisa de alt\u00edssima qualidade, mas a gente n\u00e3o tem visibilidade. Por isso, a gente tem que trazer as pessoas de fora, como os editores-chefes das revistas, para conhecerem a nossa realidade. Eu acho que, realmente, agora eu estou numa fase mais Am\u00e9rica Latina. Inclusive, eu tive a ideia de fazer uma edi\u00e7\u00e3o LATAM da MATSUS, que \u00e9 uma confer\u00eancia que j\u00e1 acontece na Europa duas vezes por ano. O MATSUS \u00e9 um evento de materiais e sustentabilidade, e aqui na regi\u00e3o, a gente tem muitos grupos de materiais que est\u00e3o fazendo coisas incr\u00edveis. Ent\u00e3o a gente vai ter a primeira edi\u00e7\u00e3o do MATSUS-LATAM agora em Cartagena das \u00cdndias, na Col\u00f4mbia, no in\u00edcio de fevereiro. Al\u00e9m disso, estou com uma parceria com grupos do Chile e da Col\u00f4mbia, recebendo alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para aprender a fazer c\u00e9lulas de perovskita, porque meu grupo, hoje, \u00e9 refer\u00eancia na Am\u00e9rica Latina em fotovoltaico emergente. E, para meus colegas da Am\u00e9rica Latina, \u00e9 muito mais f\u00e1cil e menos custoso deslocar um aluno para fazer um dispositivo aqui, do que, por exemplo, ele ir para a Europa, para os Estados Unidos. O LNES est\u00e1 l\u00e1 para todo mundo usar, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para os meus alunos.<\/p>\n<p><strong>A gente tem visto voc\u00ea trabalhado na integra\u00e7\u00e3o entre o meio acad\u00eamico e a ind\u00fastria, participando como palestrante, painelista e organizadora de eventos para p\u00fablico empresarial, incentivando parcerias universidade &#8211; empresa. O que a levou a seguir essa dire\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que essa dire\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga na minha carreira, at\u00e9 porque a minha pesquisa sempre foi uma pesquisa aplicada. Um dos primeiros projetos que eu tive quando entrei na Unicamp foi com uma empresa de distribui\u00e7\u00e3o de energia. Depois, em 2008, a gente fundou a startup Tezca, que era de c\u00e9lulas solares flex\u00edveis de TiO2 corante. Mais tarde veio o projeto Portadores Densos de Energia, que viria a ser um dos programas constitutivos do CINE, em parceria com a Shell. Mais tarde fizemos no CINE uma parceria com o Ita\u00fa. Ent\u00e3o, a parceria p\u00fablico-privada foi muito importante na minha carreira, porque permitiu ter uma verba a mais para comprar equipamentos de ponta e contratar pesquisadores, al\u00e9m de abrir novas portas. Eu acho que tem que ter cada vez mais parcerias p\u00fablico-privadas na ci\u00eancia, cada um respeitando os seus limites, claro. Eu acho que d\u00e1 para ter essa conversa, d\u00e1 para sentar \u00e0 mesa e chegar num denominador comum.<\/p>\n<p><strong>Para encerrar, pedimos que deixe uma mensagem para nossos leitores mais jovens que est\u00e3o iniciando uma carreira de cientistas no Brasil ou est\u00e3o cogitando essa possibilidade.<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu sempre falo que a carreira de pesquisador no Brasil nunca vai ser f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil em lugar nenhum. Porque no exterior, por exemplo, a competi\u00e7\u00e3o pelos grants \u00e9 alt\u00edssima. Eu acho que o pesquisador tem que gostar muito daquilo que ele faz porque tem momentos em que, realmente, a gente quer desistir. E tem que pensar diferente, mesmo que talvez surja alguma ideia que pare\u00e7a absurda, temos que investiga-la. Para os que est\u00e3o chegando agora, eu diria que a gente precisa ter pesquisas mais disruptivas, pesquisas que pensem um pouquinho fora da caixa. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o do Brasil na pesquisa \u00e9 muito diferente do que era quando eu entrei na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. As condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as melhores e s\u00e3o muito diferentes entre os estados. Mas, ainda assim, as condi\u00e7\u00f5es de pesquisa no pa\u00eds hoje s\u00e3o muito melhores do que foram h\u00e1 30 anos. E, por \u00faltimo, eu diria que tem que saber fazer do lim\u00e3o uma limonada. Se algo der errado, n\u00e3o gaste muito tempo naquilo, transforme o problema em uma oportunidade, tire algo positivo das dificuldades e tome um novo rumo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando estava na gradua\u00e7\u00e3o, Ana Fl\u00e1via Nogueira teve a chance de ver um dispositivo gerando eletricidade a partir da luz do Sol. Ela se encantou com o fen\u00f4meno e pouco depois, no mestrado, j\u00e1 estava trabalhando em uma pesquisa disruptiva com c\u00e9lulas solares. 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