{"id":11131,"date":"2025-09-17T16:10:45","date_gmt":"2025-09-17T19:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/?p=11131"},"modified":"2025-09-17T17:38:59","modified_gmt":"2025-09-17T20:38:59","slug":"cientista-em-destaque-entrevista-com-dulce-maria-de-araujo-melo-vencedora-do-premio-jose-arana-varela-da-sbpmat","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/cientista-em-destaque-entrevista-com-dulce-maria-de-araujo-melo-vencedora-do-premio-jose-arana-varela-da-sbpmat\/","title":{"rendered":"Cientista em destaque: entrevista com Dulce Maria de Ara\u00fajo Melo, vencedora do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Arana Varela da SBPMat"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/foto-dulce-e1758136422228.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-11132\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/foto-dulce-e1758136422228.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"490\" \/><\/a>Dulce Maria de Ara\u00fajo Melo era apenas uma crian\u00e7a quando inventou um m\u00e9todo eficiente para extrair \u00f3leo da semente da mamona, combust\u00edvel que era produzido artesanalmente pela fam\u00edlia para us\u00e1-lo em candeeiros.<\/p>\n<p>Hoje com 71 anos, esta destacada cientista brasileira, que continua ativa no seu laborat\u00f3rio, conta com uma vasta produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica: 300 artigos publicados em peri\u00f3dicos internacionais, 20 patentes depositadas ou concedidas e quase 200 orienta\u00e7\u00f5es conclu\u00eddas.<\/p>\n<p>Dulce Maria se apaixonou pelos laborat\u00f3rios de Qu\u00edmica durante a gradua\u00e7\u00e3o em Farm\u00e1cia na Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). Em 1979, ela se formou e se tornou funcion\u00e1ria p\u00fablica, mas a paix\u00e3o falou mais forte e a jovem foi buscar forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em 1982, concluiu o mestrado em Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica na USP e foi contratada como docente da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). Em 1985, iniciou a sua carreira de professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ao mesmo tempo, come\u00e7ou seu doutorado na USP, tamb\u00e9m na \u00e1rea de Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica, obtendo o diploma em 1989.<\/p>\n<p>Na UFRN, Dulce Maria teve papel fundamental na cria\u00e7\u00e3o do curso de doutorado em Ci\u00eancia e Engenharia de Materiais, do Laborat\u00f3rio de Cimentos e do Laborat\u00f3rio de Tecnologia Ambiental. Al\u00e9m disso, foi coordenadora dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica e em Ci\u00eancia e Engenharia de Materiais.<\/p>\n<p>Na SBPMat, ela foi diretora cient\u00edfica por duas gest\u00f5es (de 2004 a 2025 e de 2010 a 2011) e tamb\u00e9m coordenadora do VI Encontro da SBPMat, realizado em Natal em 2007.<\/p>\n<p>Neste ano de 2025, ela foi distinguida pela nossa sociedade com o Pr\u00eamio Jos\u00e9 Arana Varela, que \u00e9 concedido anualmente a um pesquisador ou pesquisadora de destaque na \u00e1rea de Materiais no Brasil. Como parte da distin\u00e7\u00e3o, ela vai proferir uma palestra plen\u00e1ria no dia 1\u00ba de outubro, dentro do XXIII B-MRS Meeting, sobre catalisadores de perovskita para a produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel de hidrog\u00eanio.<\/p>\n<p>Saiba mais sobre Dulce Maria nesta entrevista que ela concedeu ao Boletim da SBPMat.<\/p>\n<p><strong>Conte-nos o que a levou a se tornar uma cientista.<\/strong><\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a fui muito curiosa e muito observadora. Uma vez, vi minha av\u00f3 extraindo \u00f3leo de semente de mamona, de forma bem artesanal, e ao ver aquela metodologia pensei logo em escolher outro m\u00e9todo que produzisse um maior teor daquele \u00f3leo, pois o mesmo era usado para ilumina\u00e7\u00e3o de candeeiros das casas dos empregados de meu pai. N\u00e3o foi muito f\u00e1cil, mas conseguimos fazer algumas modifica\u00e7\u00f5es nas extra\u00e7\u00f5es. Com isso houve um aumento significativo na produ\u00e7\u00e3o desse \u00f3leo.<\/p>\n<p>Passou um tempo, fui estudar em Fortaleza para fazer o curso colegial, hoje ensino m\u00e9dio. Ao terminar o ensino m\u00e9dio fiz vestibular e fui aprovada e comecei as disciplinas de Qu\u00edmica, F\u00edsica, C\u00e1lculo, Estat\u00edstica, dentre outras. Logo me apaixonei pela Qu\u00edmica. Passava meus dias no laborat\u00f3rio ajudando minha professora de Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica (Ester Weyne) a preparar as aulas experimentais. E a partir da\u00ed cada dia eu me descobria querendo saber mais e mais daquele mundo t\u00e3o complexo e encantador.<\/p>\n<p>Terminando meu curso de gradua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 era funcion\u00e1ria p\u00fablica federal, mas estava fora do local que me dava alegria e prazer. Pedi licen\u00e7a sem remunera\u00e7\u00e3o e fui fazer sele\u00e7\u00e3o para o mestrado em Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica na Universidade de S\u00e3o Paulo. Na \u00e9poca, s\u00f3 havia cinco bolsas para doze candidatos, mas, como fui aprovada em primeiro lugar, ganhei uma bolsa do CNPq. Fiz o mestrado sob a orienta\u00e7\u00e3o da Professora L\u00e9a Barbieri Zinner e do Professor Geraldo Vicentini.<\/p>\n<p>Uma das circunst\u00e2ncias externas que colaboraram para eu ser a cientista que sou, foi a aten\u00e7\u00e3o que tive do meu marido (j\u00e1 professor da UFRN) e dos meus orientadores que me permitiram crescer cientificamente, me permitiram participar dos congressos internacionais onde eu pude tra\u00e7ar todos os caminhos que queria trilhar. Isso me permitiu ter resili\u00eancia e buscar sempre conhecimentos al\u00e9m dos que eu j\u00e1 dispunha.<\/p>\n<p>Quando terminei o mestrado, passei em tr\u00eas concursos para diferentes universidades e meu primeiro contrato foi em agosto de 1982 na UFPB, onde passei dois anos e seis meses. Em 1985, fui transferida para a UFRN e, nesse mesmo ano, retornei \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo para cursar o doutorado.<br \/>\nAo terminar o doutorado, ganhei meu primeiro projeto de pesquisa no CNPq e come\u00e7amos a desenvolver materiais especiais para cat\u00e1lise, para sensores e materiais para adsor\u00e7\u00e3o de metais provenientes de \u00e1gua produzida na ind\u00fastria do petr\u00f3leo e g\u00e1s. A dedica\u00e7\u00e3o foi mais forte na \u00e1rea de upstream e nesse \u00ednterim criamos dois laborat\u00f3rios importantes para a UFRN; o Laborat\u00f3rio de Cimentos (Labcim) e o Laborat\u00f3rio de Tecnologia Ambiental (Labtam).<\/p>\n<p>Atualmente, coordeno o Labtam cuja expertise envolve a \u00e1rea de energia, focado em biomassa, processos de chemical looping, materiais catal\u00edticos e transportadores de oxig\u00eanio; al\u00e9m de uma \u00e1rea estrat\u00e9gica como aprendizado de m\u00e1quina (machine learning).<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as realiza\u00e7\u00f5es que lhe proporcionaram maior satisfa\u00e7\u00e3o na carreira de pesquisadora, al\u00e9m da pr\u00f3pria pesquisa cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, eu me considero uma gestora de projetos e pessoas e uma administradora bem sucedida, levando em conta que temos no Labtam 30 pesquisadores, 7 professores e 10 alunos de IC, al\u00e9m de alunos de mestrado e doutorado, todos com bolsas de projeto e de \u00f3rg\u00e3o de fomento.<\/p>\n<p>Criei o curso de doutorado em Ci\u00eancia e Engenharia de Materiais em 1998 e fui coordenadora do mesmo por 4 anos, atualmente com nota 7,0 CAPES. Fui coordenadora do PPGQ de 2020 a 2023, o qual fazia 18 anos que tinha nota 4,0 e nesse per\u00edodo atingimos a nota 6,0.<\/p>\n<p>Uma outra atividade que me deu muito prazer em executar foi participar do comit\u00ea assessor da \u00e1rea de Metalurgia e Materiais do CNPq. Enfim, s\u00e3o essas pequenas coisas que nos d\u00e3o satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A partir da sua experi\u00eancia, o que pode nos dizer sobre as possibilidades de se formar como cientista na \u00e1rea de Materiais na regi\u00e3o Nordeste hoje e 40 anos atr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, tornar-se um cientista na \u00e1rea de Materiais no Nordeste deixou de ser um grande desafio, principalmente, no que concerne \u00e0 infraestrutura dispon\u00edvel para os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Um programa de n\u00edvel 7 (CAPES) \u00e9 um programa que tem mais recursos, det\u00e9m muitos projetos e, consequentemente, disponibilidade de bolsas. Hoje, as oportunidades s\u00e3o muitas e a globaliza\u00e7\u00e3o nos permite discutir resultados com outros cientistas do mundo inteiro, em tempo real. Al\u00e9m disso, os \u00f3rg\u00e3os de fomento subsidiam muitos programas de capacita\u00e7\u00e3o. Hoje temos programas de financiamento j\u00e1 bem estabelecidos. Enfim, h\u00e1 40 anos atr\u00e1s s\u00f3 havia p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia e Engenharia de Materiais em S\u00e3o Carlos, pois foi a primeira institui\u00e7\u00e3o a criar esse curso. Eu, particularmente, me considero uma cientista na \u00e1rea de materiais estrat\u00e9gicos, n\u00e3o por ter feito esse curso, mas pelas \u00e1reas que domino com muita propriedade.<\/p>\n<p><strong>Comente brevemente quais foram os principais temas de pesquisa que voc\u00ea abordou ao longo da sua trajet\u00f3ria cient\u00edfica dentro da \u00e1rea de Materiais.<\/strong><\/p>\n<p>Considerando minha trajet\u00f3ria de pesquisadora, as terras raras (lantan\u00eddeos) nunca sa\u00edram do escopo da minha pesquisa, pois elas foram abordadas na minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e na minha tese de doutorado em diferentes contextos da s\u00edntese e da caracteriza\u00e7\u00e3o, principalmente, no doutorado pois envolveu a prepara\u00e7\u00e3o de monocristal para determina\u00e7\u00e3o de estruturas cristalinas. Isso me rendeu muito conhecimento acerca do assunto. As terras raras s\u00e3o elementos t\u00e3o importantes que podem ser usados para produ\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s de neod\u00edmio (usados nos carros da BYD), lasers, placas fotovoltaicas, catalisadores com estrutura perovskita, sensores etc. Atualmente, usamos perovskitas \u00e0 base de lant\u00e2nio e n\u00edquel para produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s de s\u00edntese e perovskitas inorg\u00e2nicas \u00e0 base de lant\u00e2nio e bismuto para produ\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas solares. Temos trabalhos publicados a respeito do assunto e patentes com solicita\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio. \u00c9 um assunto empolgante e ao mesmo tempo desafiador.<\/p>\n<p>Sobre o Laborat\u00f3rio de Cimentos, montamos o laborat\u00f3rio em 1989 (eu, Prof. Eduardo Martinelli e Prof. Marcus Melo) e coordenamos o mesmo at\u00e9 2010. Nessa \u00e1rea formamos muitos alunos de mestrado e doutorado, muitos deles est\u00e3o nas empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Produzimos muitos trabalhos nessa \u00e1rea e 11 patentes; deixamos o laborat\u00f3rio bem equipado com mais de 10 milh\u00f5es em equipamentos (\u00e9 claro que o esfor\u00e7o foi de toda equipe) e hoje \u00e9 administrado pelo Prof. J\u00falio C\u00e9zar Freitas e Prof. Martinelli.<\/p>\n<p>Considerando toda a minha trajet\u00f3ria, acredito que o que mais me empolga \u00e9 criar novos materiais para aplicar no que se chama de desafio global: materiais inteligentes como catalisadores nanom\u00e9tricos, baterias, nanotubos de carbono e super \u00edm\u00e3s.<\/p>\n<p><strong>Pense nas descobertas cient\u00edficas ou tecnol\u00f3gicas das quais voc\u00ea participou ao longo da sua carreira e descreva brevemente algumas que voc\u00ea considera mais relevantes ou interessantes.<\/strong><\/p>\n<p>Uma das descobertas mais recentes diz respeito a mudan\u00e7as de comportamento dos materiais, a partir da sua modula\u00e7\u00e3o feita por intelig\u00eancia artificial, onde modulamos os materiais para determinadas finalidades a partir de uma plataforma desenvolvida no nosso laborat\u00f3rio, usando algoritmos chaves para a obten\u00e7\u00e3o do melhor material para essa ou aquela finalidade.<\/p>\n<p><strong>Na sua profiss\u00e3o de docente e pesquisadora, voc\u00ea encontrou dificuldades relacionadas ao fato de ser mulher?<\/strong><\/p>\n<p>Eu, particularmente, nunca encontrei dificuldade em fun\u00e7\u00e3o de ser mulher. Tamb\u00e9m, sempre tomei as maiores responsabilidades para mim; talvez esse comportamento tenha me resguardado.<\/p>\n<p><strong>Depois de 45 anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, quais s\u00e3o seus pr\u00f3ximos planos?<\/strong><\/p>\n<p>Meus planos s\u00e3o basicamente dois: continuar como colaboradora no Labtam, principalmente na \u00e1rea de projetos, e ministrar confer\u00eancias nas escolas p\u00fablicas com a finalidade de incentivar os jovens a abra\u00e7ar carreiras que fa\u00e7am com que o pa\u00eds cres\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Deixe uma mensagem para nossos leitores mais jovens que est\u00e3o iniciando uma carreira cient\u00edfica no Brasil ou est\u00e3o cogitando essa possibilidade.<\/strong><\/p>\n<p>Mensagem aos jovens: Nunca desistam dos seus ideais, hoje pode ser dif\u00edcil, mas nunca foi f\u00e1cil para ningu\u00e9m!<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dulce Maria de Ara\u00fajo Melo era apenas uma crian\u00e7a quando inventou um m\u00e9todo eficiente para extrair \u00f3leo da semente da mamona, combust\u00edvel que era produzido artesanalmente pela fam\u00edlia para us\u00e1-lo em candeeiros. 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