{"id":10858,"date":"2024-09-12T09:51:34","date_gmt":"2024-09-12T12:51:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/?p=10858"},"modified":"2024-11-06T18:27:20","modified_gmt":"2024-11-06T21:27:20","slug":"cientista-em-destaque-entrevista-com-marilia-junqueira-caldas-distinguida-pela-sbpmat-com-a-palestra-memorial-joaquim-da-costa-ribeiro-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/pt\/cientista-em-destaque-entrevista-com-marilia-junqueira-caldas-distinguida-pela-sbpmat-com-a-palestra-memorial-joaquim-da-costa-ribeiro-2024\/","title":{"rendered":"Cientista em destaque: entrevista com Mar\u00edlia Junqueira Caldas, distinguida pela SBPMat com a Palestra Memorial Joaquim da Costa Ribeiro 2024"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-10855\" src=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323-277x300.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323-277x300.jpg 277w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323-946x1024.jpg 946w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323-768x831.jpg 768w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323-1419x1536.jpg 1419w, https:\/\/www.sbpmat.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/fotoMJC-4-scaled-e1726144757323.jpg 1442w\" sizes=\"(max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><\/a>Quando, em 1970, Mar\u00edlia Junqueira Caldas come\u00e7ou a trabalhar com inform\u00e1tica, o uso de computadores era incipiente no Brasil, inclusive nas universidades. Contudo, a partir de ent\u00e3o, as ferramentas computacionais acompanharam constantemente a pesquisadora na sua trajet\u00f3ria de descobertas cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Naquele momento, Mar\u00edlia era aluna do curso de gradua\u00e7\u00e3o em F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde ingressara em 1968. Ela se formou em 1974 e, no ano seguinte, come\u00e7ou o mestrado em F\u00edsica na mesma institui\u00e7\u00e3o. Obteve o diploma de mestre em 1978 com uma disserta\u00e7\u00e3o que envolveu modelagem matem\u00e1tica aplicada \u00e0 Oceanografia. No mesmo ano, ingressou no doutorado em F\u00edsica, tamb\u00e9m na USP. Em 1981, defendeu a sua tese em F\u00edsica de Materiais, \u00e1rea na qual atua at\u00e9 hoje, tendo feito uma s\u00e9rie de contribui\u00e7\u00f5es de impacto em materiais como sil\u00edcio, pol\u00edmeros condutores, grafeno e estruturas h\u00edbridas.<\/p>\n<p>Entre 1983 e 1984, ela fez p\u00f3s-doutorado no <em>Solar Energy Research Institute<\/em> (SERI), nos Estados Unidos. De volta no Brasil, ela se tornou professora do Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp. Em 1986, voltou \u00e0 alma mater, enquanto professora do Instituto de F\u00edsica da USP (IFUSP) no Departamento de Mec\u00e2nica e F\u00edsica de Materiais.<\/p>\n<p>Ao longo da d\u00e9cada de 1990, a cientista atuou na dire\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o do Centro de Computa\u00e7\u00e3o Eletr\u00f4nica do IFUSP. Em 2000 tornou-se professora titular da USP. De 2010 a 2014, desempenhou-se como chefe de departamento.<\/p>\n<p>Hoje com 74 anos, Mar\u00edlia continua lecionando na USP. A partir da sua iminente aposentadoria, ela se dedicar\u00e1 totalmente a continuar as pesquisas que vem realizando em materiais semicondutores org\u00e2nicos e inorg\u00e2nicos com aplica\u00e7\u00e3o em dispositivos que interagem com a luz.<\/p>\n<p>Com mais de 100 artigos cient\u00edficos publicados em peri\u00f3dicos internacionais e 23 orienta\u00e7\u00f5es de trabalhos de mestrado e doutorado realizadas, Mar\u00edlia Caldas \u00e9 bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq no n\u00edvel Pesquisador S\u00eanior.<\/p>\n<p>Na abertura do <a href=\"https:\/\/www.sbpmat.org.br\/22encontro\/\"><strong>XXII B-MRS Meeting<\/strong><\/a>, no dia 29 de setembro deste ano, ela vai proferir a Palestra Memorial Joaquim da Costa Ribeiro, honraria outorgada anualmente pela SBPMat a pesquisadores e pesquisadoras seniores com destacada trajet\u00f3ria dentro da comunidade de pesquisa em Materiais.<\/p>\n<p>Saiba mais sobre esta destacada cientista nesta entrevista que ela concedeu ao Boletim da SBPMat.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat:<\/strong> <strong>Conte-nos como se tornou uma cientista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Junqueira Caldas:<\/strong> Matem\u00e1tica foi sempre um grande atrativo para mim, iniciando como brincadeira quando crian\u00e7a, e continuando sempre na adolesc\u00eancia &#8211; inicialmente tocando a geometria e a beleza das formas, suas apari\u00e7\u00f5es na natureza, seus movimentos, e assim por diante. Meu pai era arquiteto e no in\u00edcio eu pensava em ser tamb\u00e9m. Durante o colegial \u2013 que escolhi, como se chamava na \u00e9poca, o \u201ccient\u00edfico\u201d &#8211; tive aulas de F\u00edsica com a Profa. \u201cDona\u201d C\u00e9lia, brilhante e motivadora como poucos! Minhas colegas tamb\u00e9m se lembram da Dona C\u00e9lia, e foi mesmo ela, em suas aulas, quem me impulsionou a prestar o vestibular de F\u00edsica (ao mesmo tempo que o de Arquitetura!). S\u00f3 para completar, no cient\u00edfico com nossa professora, o livro texto adotado era o do Halliday, que depois eu encontrei nos primeiros anos do IFUSP!<\/p>\n<p>Durante a gradua\u00e7\u00e3o, logo depois daqueles \u201canos de chumbo\u201d 1968-69, em 1970 iniciei minha vida no ambiente computacional. Isso se deu pela exist\u00eancia no IF do acelerador de part\u00edculas (Pelletron) de F\u00edsica Nuclear que precisava e implantou o Setor de Matem\u00e1tica Aplicada (SEMA), ou seja, um setor de an\u00e1lise de dados adquiridos pelo acelerador e que deveriam ser \u201ctraduzidos\u201d. Sob a orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Claudio Mammana iniciei minha vida na inform\u00e1tica, inicialmente para o atendimento de usu\u00e1rios o que, mais tarde, me levou a ser uma usu\u00e1ria. Fui introduzida \u00e0 an\u00e1lise de dados, ao sistema FORTRAN de programa\u00e7\u00e3o, e assim por diante, de forma que no prosseguir da vida acad\u00eamica continuei a utilizar os recursos computacionais para obter resultados para os problemas que despertam minha curiosidade. Outro fator muito importante foi poder frequentar a biblioteca do IFUSP, uma vez que \u00e0 \u00e9poca era o local de chegada de novidades cient\u00edficas pelas revistas internacionais.<\/p>\n<p>Quanto aos t\u00f3picos de interesse, eram muitos, em diferentes dire\u00e7\u00f5es da F\u00edsica. Ingressei em laborat\u00f3rios experimentais, e finalmente, no in\u00edcio do Mestrado, passei ao mar, \u00e0s correntes mar\u00edtimas, como se desenvolvem e como prosseguem \u2013 \u00e1rea da Din\u00e2mica dos Fluidos que nos encanta e nos amedronta, principalmente se, como eu, estava muitas vezes perto do mar desde a inf\u00e2ncia. Assim, durante o Mestrado pude ir ao oceano (Navio Oceanogr\u00e1fico Prof. Wladimir Besnard) para coletar amostras de \u201c\u00e1gua do mar\u201d, experi\u00eancia inigual\u00e1vel. Quanto \u00e0 disserta\u00e7\u00e3o especificamente, sob orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Luiz Brunner de Miranda, trabalhei em an\u00e1lise de dados de corrente coletados para entender o fluxo de corrente no nosso litoral. Nessa pesquisa j\u00e1 veio meu interesse pela vida marinha, e suas depend\u00eancias da qu\u00edmica e da fotoqu\u00edmica do mar, do oceano, e me dirigiu ao estudo de mol\u00e9culas etc.<\/p>\n<p>Assim, j\u00e1 em outro grupo agora no IF, passei incialmente ao estudo experimental de microamostras de v\u00e1rias origens atrav\u00e9s de cromatografia de g\u00e1s, e no continuar retomei minha caracter\u00edstica matem\u00e1tica-computacional e me dirigi \u00e0 mec\u00e2nica qu\u00e2ntica de s\u00f3lidos de meu interesse e de interesse global \u00e0 \u00e9poca, especificamente, semicondutores como o sil\u00edcio (Si) e o efeito da presen\u00e7a infinit\u00e9sima de outros \u00e1tomos, elementos, no seu \u201ccorpo\u201d, o que \u00e9 chamado de defeitos em semicondutores. \u00c9 interessante notar que o nome \u201cdefeito\u201d \u00e9 estranho, pois s\u00e3o eles que dotam o semicondutor da propriedade que desejamos, como por exemplo fotoatividade. No meu caso dirigi-me ao Grupo de Estrutura Eletr\u00f4nica de Materiais, no Departamento de F\u00edsica dos Materiais e Mec\u00e2nica, onde fiz meu doutorado sob a orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Jos\u00e9 Roberto Leite, infelizmente j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p>Passo assim \u00e0 minha atividade no doutoramento, que focalizou estados de \u201cdefeitos\u201d em Si, mas que era feito em um grupo que investigava v\u00e1rias fam\u00edlias de semicondutores tetra\u00e9dricos, e principalmente me introduziu ao uso de c\u00e1lculos de estrutura eletr\u00f4nica, extremamente importantes para o desenvolvimento mundial de toda a ci\u00eancia de dispositivos eletr\u00f4nicos e optoeletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: Pense nas descobertas cient\u00edficas que fez ao longo da sua carreira e descreva brevemente aquelas que voc\u00ea considera mais relevantes ou interessantes.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Junqueira Caldas:<\/strong> Nossa primeira descoberta bastante impactante para toda a comunidade de semicondutores trata-se de uma impureza em Si, a substitui\u00e7\u00e3o de um \u00e1tomo do cristal por um \u00e1tomo de oxig\u00eanio (O). Sendo o n\u00famero de el\u00e9trons de val\u00eancia do O igual ao do Si com mais 2 el\u00e9trons extra, pensava-se que agiria como um doador duplo, tal como para as impurezas isovalentes enxofre (S) e sel\u00eanio (Se), com maior condutividade que o semicondutor puro, por\u00e9m nosso estudo mostrou que no caso do O ocorre uma reorganiza\u00e7\u00e3o estrutural na localiza\u00e7\u00e3o do defeito, acoplamento el\u00e9tron-f\u00f4non, o que na realidade introduz um estado aceitador (captura el\u00e9trons) no gap do Si. Assim, a cria\u00e7\u00e3o de um estado condutor foi descartada, e o resultado foi associado a um defeito etiquetado naquela \u00e9poca (final dos anos 70, in\u00edcio 80) como centro-A em Si, que extrai os el\u00e9trons condutores do sistema. Esse trabalho foi parte de meu doutorado, e foi realizado com o que havia na \u00e9poca para c\u00e1lculos de primeiros princ\u00edpios realistas. Como era comum, meu trabalho ficou amplamente conhecido por colegas pela apresenta\u00e7\u00e3o em confer\u00eancia internacional e, apesar de ser pouco citado (pelas medidas de hoje), o resultado agora est\u00e1 no conhecimento de base para dispositivos de Si [Caldas et al. 1980]. Continuo at\u00e9 hoje investigando defeitos em v\u00e1rios diferentes semicondutores [Atambo et al. 2019]. Em outra vertente, ap\u00f3s meu doutoramento passei a me interessar pelos semicondutores org\u00e2nicos, e ressalto aqui nosso trabalho no final dos anos 80 sobre a Polianilina (PANI), um pol\u00edmero que gerava controv\u00e9rsia na comunidade, pois era considerado isolante, ou semicondutor de gap alto, mesmo com dopagem, por\u00e9m experimentalmente se via o comportamento de semicondutor do tipo p com \u00f3tima condutividade. Mostramos que essa propriedade muito interessante vem diretamente da desordem inerente aos sistemas polim\u00e9ricos, o que causou bastante impacto na comunidade. Nesse caso utilizamos m\u00e9todos emp\u00edricos e semiemp\u00edricos que nos permitiram acessar sistemas muito extensos [Galv\u00e3o et al. 1989]. Continuei trabalhando em sistemas polim\u00e9ricos, passando aos condutores poliparafenileno (PPP) e poliparafenileno de vinila (PPV), agora j\u00e1 em colabora\u00e7\u00e3o com a Universidade de Modena, visando propriedades eletr\u00f4nicas e passando a propriedades \u00f3ticas, aplicando majoritariamente funcionais de primeiros princ\u00edpios [Ferretti et al. 2003]. Penso que nossa contribui\u00e7\u00e3o ao entendimento do comportamento desses sistemas foi impactante na comunidade. Em outra vertente muito comum agora, me interessei e trabalhamos em sistemas bidimensionais como o grafeno e variantes, com defeitos ou outros componentes at\u00f4micos, \u00e1rea em que tamb\u00e9m continuo trabalhando [Val\u00eancia e Caldas 2017, Bonacci et al. 2022]. Em outra vis\u00e3o, me dirigi aos sistemas de intera\u00e7\u00e3o org\u00e2nico\/inorg\u00e2nico, como por exemplo politiofeno (PT) ou oligotiofenos e superf\u00edcies \u00f3xidas, e assim por diante, onde ainda prossigo dada a import\u00e2ncia para a montagem de dispositivos. Nestes \u00faltimos dez anos (ou mais) tenho me concentrado principalmente em dispositivos para convers\u00e3o de energia solar, ou seja, dispositivos fotovoltaicos, pela necessidade mundial de energia limpa, que ser\u00e1 cada vez maior. Como \u00faltimo coment\u00e1rio, devo dizer que muito importante foi a cria\u00e7\u00e3o dos Institutos Nacionais de Ci\u00eancia e Tecnologia INCTs, dos quais fa\u00e7o parte desde o in\u00edcio atrav\u00e9s do IMMP (Instituto Multidisciplinar de Materiais Polim\u00e9ricos) que \u00e9 agora INEO (Instituto Nacional de Eletr\u00f4nica Org\u00e2nica). A colabora\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o entre pesquisadores do Brasil foi ampliada e motivada atrav\u00e9s dessa grande iniciativa dos INCTs, que no meu caso foi important\u00edssima pela intera\u00e7\u00e3o com o lado experimental.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: Do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores, cria\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios, divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e demais aspectos da carreira de pesquisador, quais s\u00e3o as suas realiza\u00e7\u00f5es que tiveram mais impacto ou lhe deram mais satisfa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Junqueira Caldas:<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil a escolha, mas provavelmente o que me trouxe mais satisfa\u00e7\u00e3o foi, durante meu trabalho como Coordenadora do Centro de Computa\u00e7\u00e3o Eletr\u00f4nica da USP (CCE), a cria\u00e7\u00e3o e coloca\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do Programa Pr\u00f3-Aluno, que trouxe aos estudantes da nossa universidade a possiblidade de trabalhar diretamente com microcomputadores o que, \u00e0 \u00e9poca, era muito dif\u00edcil e somente poss\u00edvel para jovens de fam\u00edlia de alta renda. Essa realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o entra nas \u201ccategorias\u201d acima mencionadas, por\u00e9m a administra\u00e7\u00e3o de uma universidade \u00e9 important\u00edssima para a efetividade e continuidade dos progressos da humanidade. No CCE me dediquei \u00e0 montagem da rede USPnet, \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o de qualidade dos computadores de alto desempenho dispon\u00edveis para atividades de pesquisa, e como j\u00e1 frisei, \u00e0 disponibilidade para estudantes de acesso \u00e0 computa\u00e7\u00e3o. Quanto ao meu trabalho de pesquisa, a intera\u00e7\u00e3o com pesquisadores brasileiros fora do meu instituto, seja no estado de S\u00e3o Paulo, em outros estados do Brasil, ou no exterior, sempre foi um est\u00edmulo important\u00edssimo para a continuidade da minha atividade de pesquisa. Finalmente, saber que ajudei a formar, pela atividade de orienta\u00e7\u00e3o, pesquisadores de alta qualidade, \u00e9 o meu retorno mais alto.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: Na sua profiss\u00e3o de docente e pesquisadora, voc\u00ea encontrou muitas dificuldades relacionadas ao fato de ser mulher?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Junqueira Caldas:<\/strong> Como em qualquer profiss\u00e3o essas dificuldades existem, talvez \u2013 assim espero \u2013 agora menos do que na minha \u00e9poca. Devo dizer que devido \u00e0 minha fam\u00edlia tive menos problemas que o usual, j\u00e1 que minha av\u00f3 materna era uma ativista antirracismo e antimachismo, sempre aplaudida pelo meu av\u00f4; meus pais eram extremamente fortes nessas dire\u00e7\u00f5es e me incentivaram sempre. J\u00e1 no trabalho na comunidade cient\u00edfica enfrentei problemas, como era comum, por\u00e9m meu orientador Prof. Jos\u00e9 Roberto Leite sempre teve um posicionamento positivo e antimachista quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de alunas e refor\u00e7ou nossas atividades, inclusive de p\u00f3s-doutoramento em outras institui\u00e7\u00f5es, de forma exemplar. Quanto ao problema que ainda me recordo como mais emblem\u00e1tico, foi quando pedi recursos a uma ag\u00eancia de fomento do Brasil para fazer minha fase de p\u00f3s-doutoramento no exterior, e um esfor\u00e7o maior que o normal foi necess\u00e1rio \u2013 mas me foi concedida a bolsa. Devo ainda ressaltar que, conforme orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Leite, n\u00e3o colocava meu nome completo ao submeter um trabalho, apenas as iniciais e o sobrenome para evitar o efeito machista, e me lembro at\u00e9 hoje quando pela primeira vez fui a uma confer\u00eancia no exterior e apresentei um trabalho. Naquela \u00e9poca, levavamos o trabalho completo, a ser publicado no anal ou em uma revista que seria divulgadora, em papel e entregavamos ao comit\u00ea da confer\u00eancia antes da apresenta\u00e7\u00e3o oral. Ao entregar meu trabalho me recordo da rea\u00e7\u00e3o do colega: \u201cAh! So Caldas is a woman?\u201d. Respondi: \u201cYes, it is me!\u201d.<\/p>\n<p><strong>Boletim da SBPMat: Deixe uma mensagem para nossos leitores mais jovens que est\u00e3o iniciando uma carreira de cientistas no Brasil ou est\u00e3o cogitando essa possibilidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mar\u00edlia Junqueira Caldas:<\/strong> A ci\u00eancia \u00e9 sempre uma estrada linda, intrigante e, sempre que voc\u00ea v\u00ea uma coisa que n\u00e3o entende, \u00e9 instigante. Essa estrada linda tem um atalho, uma bifurca\u00e7\u00e3o em cada mil\u00edmetro, que voc\u00ea pode estudar, investigar, conhecer. Aparte essa vis\u00e3o quase po\u00e9tica, o desenvolvimento da ci\u00eancia no mundo atual traz v\u00e1rias oportunidades de trabalho \u00e0 juventude, em dire\u00e7\u00f5es diferentes, e no trajeto se pode ainda aprender e ensinar mais.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Refer\u00eancias citadas<\/strong><\/p>\n<p>Atambo, M.; Varsano, D.; Ferretti, A.; Ataei, S.S.; Caldas, M.J.; Molinari, E.;\u00a0 \u201cElectronic and optical properties of doped\u00a0TiO<sub>2<\/sub>\u00a0by many-body perturbation theory\u201d &#8211; <em>Physical Review Materials 3<\/em>, p. 04501, 2019.<\/p>\n<p>Bonacci, M.; Zanfrognini, M.; Molinari, E.; Ruini, A.; Caldas, M.J.; Ferretti, A.;\u201d Excitonic effects in graphene-like C<sub>3<\/sub>N\u201d &#8211; <em>Physical Review Materials 6<\/em>, p. 034009 2022.<\/p>\n<p>Caldas, M.J.; Leite, J.R.;Fazzio, A.; \u201cTheoretical-Study of the Si-A Center\u201d &#8211; <em>Physica Status Solidi B 98<\/em>, p. K109, 1980.<\/p>\n<p>Ferretti, A.; Ruini, A.; Molinari, E.; Caldas M.J.; \u201cElectronic Properties of Polymer Crystals: The Effect of Interchain Interactions\u201d &#8211; <em>Physical Review Letters 90<\/em>, p. 086401, 2003.<\/p>\n<p>Galv\u00e3o, D.S. ; Santos, D.A. ; Laks, B. ; Melo, C.P. ; Caldas, M.J.; \u00a0\u201cRole of Disorder in the Conduction Mechanism of Polyanilines\u201d &#8211; <em>Physical Review Letters 63<\/em>, p. 786-789, 1989.<\/p>\n<p>Valencia-Garc\u00eda A.M.; Caldas, M.J.; \u201cSingle vacancy defect in graphene: Insights into its magnetic properties from theoretical modeling\u201d &#8211; <em>Physical Review B 96<\/em>, p. 125431, 2017<strong>.<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, em 1970, Mar\u00edlia Junqueira Caldas come\u00e7ou a trabalhar com inform\u00e1tica, o uso de computadores era incipiente no Brasil, inclusive nas universidades. 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